Pinóquio: a grande migração humana, o aprendizado da psicanálise e as defesas contra a construção do conhecimento

Emir Tomazelli

 

O texto em obras.

Diálogo entre mim e um cliente, mantido no início de uma sessão:

Então quer dizer que estou sendo testado? Eu digo.

“Sim!” Diz ele. “Testá-lo em viva noite e arriscar um palpite? Será que eu tenho fama pessoal? Quer dizer, fama fora de família? Coisas pessoais e coisas não muito familiares! E se um pai se puser no lugar de uma mãe? Um pingo de saudades, um pingo de remorso... Será que poderei ter um microfone e cantar profissional?”

Como aluno gostaria de cumprir o meu destino de Pinóquio, repetindo a minha desobediência até queimar, mais uma vez, meus pés no fogo onde pensei que pudesse aquecê-los.

É necessário pensarmos como nos ensinam psicanálise e que isto, às vezes, só quer dizer paralisia.

Em Pinóquio trata-se menos de mentir que de ser incapaz de aprender, ou seja, trata-se de ser incapaz; e, mais que isto, ser incapaz de aprender a conhecer a realidade e o mundo que fica do outro lado do nosso mundo interno, trata-se de ser incapaz para estabelecer uma via de comunicação entre si mesmo e a realidade. Trata-se de não estar preparado para trabalhar com a realidade, trata-se de evitar essa realidade por não poder compreendê-la e por não aceitar sabê-la do modo como ela é, uma vez que o que ela é não é do modo como gostaríamos que fosse. Trata-se de atravessar uma espessura, uma distância, uma fenda, um vazio infinito e sem forma, um vazio denso e não ultrapassável.

Trata-se de um postar-se diante do outro mantendo-se alheio a ele e ao que, de lá do lado do objeto, já anuncia a chegada e a demanda. Recluso num mundo a parte, numa semi-realidade, onde prevalecem as soluções sem ética, sem medida, sem relação nenhuma com a alteridade e o real, o ser Pinóquio triunfa em seu caminho de teimosia e impossibilidade.

“Pino” e “occhio”, pinho e olho, o olho do pinho. Pinóquio: madeira boa de queimar. O aluno perfeito, o aprendiz que não aprende! Lenha e anúncio de incêndio!

Quando Klein nos ensina sobre o mundo esquizo-paranóide ensina também sobre as doenças cognitivas e nunca se esquece que os mecanismos de defesa, particulares a esta posição, promovem um tipo de limitação intelectual que acompanha a limitação emocional. Esses mecanismos de deterioração do aparelho psíquico e cognitivo impõem à mente um erro para que o sujeito não lide com a noção completa da experiência. A estupidez e a não aprendizagem muitas vezes podem ser usadas para dar conta dessa mesma experiência de contato com o desconhecido. Em Klein conhecimento é pulsão, é uma força para fora que torna atraente o objeto que pode vir a ser o eu.

É a curiosidade que move o aparelho psíquico kleiniano, não é o desejo. Navegamos rumo ao conhecimento e, em estado normal de temperatura e pressão, queremos expandir a noosfera, a esfera gnosiológica, o círculo que enfeixa todo nosso conhecimento sobre nós mesmos. As coisas amorfas, as coisas que ainda não têm forma migram para o não amorfo ao passarem pela inteligência.

Enormes bloqueios da inteligência, da criatividade e da percepção estão ativos quando se evita entrar em contato com dor psíquica provocada pelo impulso de expansão. De nossa observação clínica parece que esse sistema de bloqueio encontra-se nos movimentos e nas operações do narcisismo. Estudando Klein há possibilidade de se concluir que o narcisismo é uma defesa contra a subjetividade. É um caminho que leva o sujeito a uma entrega total do comando sobre si mesmo: o sujeito autônomo se põe nas mãos da heteronomia. Partimos de um eu que ‘co-manda e pensa’ para irmos dar em um super-eu que ‘ordena, legisla e submete’. Narcisismo é um fascismo do outro. Daí podemos talvez afirmar que quanto maior o número de defesas narcísicas, maior é o super-eu e maior é a inibição da inteligência e da capacidade para pensar e aprender com a experiência.

A obra de Klein nos oferece duas possibilidades, duas vias estão abertas: 1) narcisismo e 2) subjetividade.

1) Nesta primeira via, a via do narcisismo vou defini-la como sendo a via da estupidez e do investimento auto-erótico. É nessa ilusão que vem do espelho que o movimento de espatifamento esquizofrênico brota. Isto é: aquilo que deveria ser uma “multi-frenia”, uma fragmentação criativa, dá lugar a um estraçalhamento que se transforma em isolamento afetivo. O múltiplo e o multifacetado transformam-se, na esquizofrenia, em cacos, pedaços, farpas, estilhaços. Daí a decorrente retirada do sujeito do mundo e a busca, a qualquer preço, da evitação da dor mental por um processo de encapsulamento narcísico. A defesa contra o desamparo é manejada através de um ardil: a busca desesperada do reflexo de si no olhar do outro. Aquilo que em Freud funda o narcisismo e estrutura o ego, aqui em minha observação redunda em um processo no qual o outro significativo se torna o mandante do eu. No narcisismo somos reféns do objeto e obedecemos ao seu poder e a sua voz.

2) Na segunda via, a da subjetividade e da tristeza, onde o significado de liberdade funde-se ao significado de responsabilidade (liberdade = máximo de responsabilidade), constitui a saída mais complexa e de maior envergadura simbólica. A via da subjetividade, a mais difícil e mais trabalhosa, é uma segunda via que deve levar-nos a um mundo onde o reflexo que nos ensina não vem do olhar sexualizado dos pais sobre o que ele poderia ter sido se fosse a criança amada pelos pais. É um reflexo que não vem de ninguém, vem apenas da imagem devolvida pelo espelho d’água feito por nossas lágrimas em meio a nossas pernas, quando estamos com os cotovelos apoiados nos joelhos, sustentando nossa cabeça e olhando para o chão. É nesse espelho de lágrimas onde nos miramos e podemos saber de nós. É chorando no chão que está logo abaixo de nós que compreendemos a jornada de solidão que nos espera.
Minha fala estanca aqui. Daqui para frente faço uma série de recortes e de citações de autores. Não tentem compreendê-las, são citações para serem ouvidas sem querer que elas formem nexo. Não discutam com elas, não armem diálogo com elas. São associações livres, são restos de imagens que sobreviveram em minha mente ao desgaste do tempo. São pedacinhos de memória que talvez possam me localizar em caso de eu extraviar. Trançando linhas retas partindo de cada autor lido por mim - aí abaixo citado - vocês deverão dar à porta de minha oficina-clínica onde conserto Pinóquios.

Bem, lá vai:
Giorgio Manganelli:“Pinóquio, um livro paralelo”

O infantil: 1 - “O grilo sabe que Pinóquio tem em mente o grande sonho infantil: a rebelião e a fuga.” (p. 31, Manganelli, 2002 ed. brasileira)

A paternidade: 2 -... “somente um pai pode perdoar um inocente. Somente um pai pode usar doenças e desenvolturas com um fim pedagógico.” (p.43)

A forma de conhecer: 3 -... “Pinóquio só pode conhecer a dor na forma de tortura.” (p. 48)

A paternidade: 4 - “Sacode-o ‘um impetuoso vento norte’, balança-o, a garganta tem espasmos, a marionete invoca uma última vez aquele que não existe, o pai.”(p.83)

A forma de ser (e forma de aprendizes aprenderem psicanálise): 5 - “Decorre que Pinóquio é um ‘pedaço de madeira de queimar’ precisamente pela sua total vocação ao sofrimento; é uma ‘marionete’, algo que ignora a si mesmo, um obediente e um brinquedo; rebelião e devoção. No início se rendeu, mas sua rendição é um desafio.” (p. 48))

A forma de conhecer: 6 - “Ele sabe tudo - sabe até que ‘cuspiu uma patinha de gato’, mas não pode saber do ponto de vista do mundo mortal dos adultos, porque o Gato e a Raposa são um ‘erro’ seu, e ele é cúmplice dos ‘erros’.”(p. 92

Diferentes autores:

Há uma ampla possibilidade de mantermos defesas contra o nascimento de idéias novas e surpreendentes:
Bion: 7 -...há “formulações (que podem ser) mantidas como barreira contra afirmações que conduzem a um cataclisma psicológico.” (p. 107, Bion, W. Atenção e interpretação. 1973, ed. Brasileira)

Para que serve a inteligência:
Meltzer: 8 - ... “o homem carrega um fardo, que é o de ter inteligência para ver o problema, mas não para resolvê-lo.” (Meltzer, 1997, p.24)

Princípio de realidade:
Baudrillard: 9 -: “No trompe-l’oeil, não se trata de se confundir com o real; trata-se de produzir um simulacro em plena consciência do jogo e do artifício - imitando uma terceira dimensão, instaurar a dúvida sobre a realidade dessa terceira dimensão, imitando e ultrapassando o efeito do real, instaurar uma dúvida radical sobre o princípio de realidade”. (p. 64, Da Sedução, Baudrillard 1991) [grifo meu]

O olhar, a visão e a inveja ou como aprender psicanálise e não saber o que fazer com isso!

Emir: 10 - “Parece ser algo ligado ao insuportável de ser visto e ao impossível de ser conhecido. Parece ser algo que acontece quando alguém, de alguma forma, tenta sentir emocionalmente o que é a visão e a acaba compreendendo como inveja - uma vez que as duas parecem ter uma relação com o olho. É algo que parece ser da ordem do trágico, do altamente temido e, contraditoriamente, esperado como uma punição que alivia. Na Divina comédia , Dante Alighieri nos coloca diante da imagem da pena a que os invejosos eram submetidos: seus olhos eram costurados com fio de arame.

Seguindo essa vereda de Dante penso que posso sugerir que o ato de ver parece, assim, ser algo que surge como uma experiência da ordem do intolerável, uma espécie de terror que se acopla ao nascimento do ato cognitivo - ‘uma matriz de ódio’ (Cintra, 2004 ) - e posteriormente transforma-se em vício, em desejo, em compulsão, em masoquismo cognitivo... Disto resulta uma lógica e uma conclusão inusitada: a graça do homem é destruída pela lógica do ódio e o ensino é uma das ferramentas que pode servir para isto.”

Aquele “que não sofre dor, falha ao ‘sofrer’ prazer”, e falha também ao aprender supondo que alucinações são fatos:
Bion: 11 - “Há pacientes cujo contato com a realidade se apresenta mais difícil quando a mesma é o seu próprio estado mental. Por exemplo: um bebê descobre a sua mão; ele poderia muito bem ter descoberto sua dor de estômago, ou a sua sensação de terror ou ansiedade, ou a dor mental. Nas personalidades mais comuns isto é verdadeiro, mas existem pessoas que não toleram a dor e a frustração (ou nas quais a dor e a frustração são intoleráveis); eles sentem a dor mas não sofrem e nem podem ser levados a descobri-la. O que elas não sofrerão ou descobrirão, teremos de conjeturar daquilo que aprendemos de pacientes que se permitem sofrer. O paciente que não sofre dor, falha ao ‘sofrer’ prazer e isso nega-lhe o encorajamento que ele, de outra maneira, poderia receber de uma ajuda acidental ou intrínseca. Onde um paciente compreenderia uma palavra para marcar uma conjunção constante, este paciente a experimenta como uma coisa que não está presente, e esta, assim como a coisa que está presente, é indistinguível de uma alucinação.(Bion, 1973, p. 10 e 11)”

Inibição dos talentos:
Klein: 12 - “Na psicanálise, temos a oportunidade de constatar diversas vezes que a inibição neurótica do talento é determinada pelo fato de a repressão prender as idéias libidinais associadas a essas atividades em particular e, conseqüentemente, as atividades em si. Na análise de crianças bem pequenas, e também de crianças mais velhas, deparei-me com um material que me fez investigar certas inibições que só foram reconhecidas como tais durante a análise. Em vários casos, as características a seguir revelaram-se como inibições, assumindo caráter típico: falta de jeito nos jogos e no esporte, além da repulsa a essas atividades; pouco ou nenhum prazer no estudo; falta de interesse num assunto em particular ou, de modo geral, a presença em diversos graus daquilo que se costuma chamar preguiça (...)” (Klein, 1996, p 101).

O ato artístico:
Perthenope Bion: 13 - “No entanto, tolerar essa estadia na posição esquizo-paranóide não é o fim das dificuldades para o ser humano que tem uma imperiosa necessidade de emitir um pensamento; a teoria de Bion fala da depressão como conseqüência da criatividade, assim como da ansiedade esquizo-paranóide como um precursor. Elas são, realmente, componentes inescapáveis do ato artístico, inclusive do mais bem sucedido. ‘Sucesso’ não elimina por completo a depressão pós-parto, real e metafórica, ainda que possa aliviá-la consideravelmente.” (Tálamo, 1996)

Capacidade de contemplar o estado esquizo-paranóide:
Perthenope Bion: 14 - “Minha rápida discussão a respeito de escritores e poetas tinha a intenção de assinalar como a capacidade de contemplar o estado esquizo-paranóide de mente (perscrutando os abismos e sendo capaz de passar uma temporada lá, ainda que rápida, sem muito dano, mesmo que possamos ficar temerosos e cheios de ansiedade a respeito de nossa própria sanidade mental – na realidade, Bion refere-se a este como sendo um negócio arriscado) e como seguir as oscilações PS*D, tanto a contemplação do estado esquizo-paranóide como o acompanhamento das oscilações PS*D, depende de podermos manter um estado de rèverie.” (Parthenope Bion Talam, 1996)

Catástrofe cognitiva:
Bion: 15 -
“Fevereiro de 1971

A personalidade psicótica necessita que a consciência da experiência sensorial venha a ser demonstrada. Talvez o problema seja a natureza desagradável da experiência não-verbal; quer dizer, o zumbido de uma mosca. É necessário se dar conta disso junto com a consciência pós-verbal da experiência do zumbido da mosca; por exemplo, “você sente que eu estou incomodado pelo barulho que você pode ouvir”. Se eu dissesse “... pelo zumbido de uma mosca” não seria propriamente acurado porque o paciente não sabe o que está me incomodando. ‘Inconsciente’ e ‘consciente’ não dão conta do problema. ‘Inconsciente’ poderia alguma vezes ser substituído por aquilo que é ‘obvio, mas não observado’.

Medo e ódio = sentimentos poderosamente desagradáveis; eles são, portanto passíveis de atrair a atenção para o ‘self desconhecido’  ‘solução’ prematura e precoce que exibe sentimentos de ódio e medo do ódio e do medo. Abolição de sentimentos  ódio ao senso de irrealidade.

A idéia messiânica é uma idéia desconhecida; é odiada e temida. É tratada por projeção, materialização. Isto dá, como resultado, não uma idéia, mas algo menos assustador, uma pessoa ou uma coisa. Pessoas, fisicamente, podem ser enquadradas, tanto por idealização (quando podemos provar não serem reais) como por realização (quando podemos provar não serem ideais).

Assim uma série de eventos começam a adquirir coerência. Por exemplo, Aristarco concebe a possibilidade de que a terra gire em torno do sol. Não há instrumentos pelos quais a idéia possa ser mais elaborada. No passar dos séculos a idéia forma-se mais uma vez, e agora novos instrumentos podem ser modelados – por exemplo, por Galileu.

A ordem estabelecida é perturbada, incluindo a rede estabelecida de pensamentos – a rede racial de pensamentos, incluindo as ‘crenças religiosas’ profundas como as que estão associadas com a adoração ao sol. A crença no sol como Deus é muito racional; mas se você necessita de um deus, este não é um mau deus para alguém ter. Por essa razão, Galileu tende a ameaçar a rede de pensamentos existentes, tanto científica quanto religiosa – na medida em que o pensamento científico possa ser visto como relativamente consciente, superficial, racional; e o pensamento religioso como relativamente inconsciente, profundo, irracional, mas ainda operativo. Quanto mais esse pensar o é de fato não extinto, tanto mais o é capaz de instigar reações emocionais na noosfera*. A curiosidade, que deveria estimular a descoberta do desconhecido, na verdade apenas estimula a necessidade de uma destruição defensiva da idéia messiânica, ou da pessoa, ou do movimento messiânicos. Ela pode vir a ser enfraquecida, e se for, nenhum problema. Ou pode destruir o status quo (the establichment), inclusive o trabalho da noosfera já cristalizado – o qual eu prefiro olhar mais como o ‘não-amorfo’. Mas num certo sentido é conveniente olhar a curiosidade como possuindo limites e, portanto semelhante a uma esfera - a noosfera. Os dois nomes não devem, pois, ser olhados como duas teorias conflitantes às quais correspondem duas realidades conflitantes, mas como duas representações conflitantes da mesma realidade. No reino da física um conflito similar aparece entre as teorias ondulatória e quântica da luz.

Na maior parte das vezes, as descobertas não têm uma grande força de ressonância.

É razoável supor que nossa especialidade, um pouco insignificante, a psicanálise, já exauriu seu ímpeto e está pronta para desaparecer no limbo, mesmo porque é um peso muito grande para nós carregarmos, sendo como somos, ou porque é mais uma exploração destinada a revelar um beco sem saída, ou porque desperta ou deverá despertar medo do desconhecido a um ponto onde os mecanismos protetores da noosfera compelem a destruir as idéias invasivas por medo de que elas causem uma catástrofe na qual a noosfera desintegra-se dentro do ‘não-amorfo’. Essa mudança catastrófica pode ser causada pelos avanços na astronomia, física, religião, ou na verdade por qualquer domínio para o qual ainda não se tem nome. Os princípios do crescimento psíquico não são conhecidos. É significativo que mesmo Newton, Leibnitz, Descartes não foram capazes de formular tais princípios na esfera da matemática, embora o cálculo diferencial tenha sido uma tentativa.” [Bion, p. 318 - 320]

A criatividade eleva o nível de ansiedade de uma pessoa qualquer:
Parthenope: 16 - “Milton indica a idéia do mergulho no interior da mente de cada pessoa como um aspecto importante da experiência pessoal de criação. Eu diria que essa é realmente uma experiência central, um dos principais aspectos que aumentam a ansiedade em todo e qualquer ato criativo: não só nos que vingam, mas também naqueles de que tentamos nos evadir ou negar. A própria criatividade do indivíduo eleva os níveis de ansiedade, seja a pessoa um artista, um psicanalista, pai, mãe, dona-de-casa, o que você quiser.” (Tálamo, 1996,- apostila - p. 3)

Tato, paladar e olfato:
Parthenope: 17 - “O que estou tentando sugerir, em todo caso, é que, levando em conta que usamos pouquíssimo o sentido do tato e menos ainda o do paladar em nosso trabalho analítico, temos que tolerar sermos receptores pouco sensíveis para discriminar informações fornecidas pelos três outros sentidos, de modo que não podemos ouvir quando não há um som, ver quando o analisando não modificou sua posição, inalar quando percebemos que poderia haver algo no ar mesmo que não possamos sentir conscientemente o seu cheiro. Na realidade, a prática da revèrie conduz a uma condição na qual ficamos intensamente interessados em nada específico. Afinal de contas, como pensamos que identificações projetivas, ou talvez alguns aspectos da projeção, são expressos de uma pessoa para outra, já que eles não são de modo algum, verbalizados de modo conveniente?

Parece-me haver boas razões para explorar as hipóteses que existiriam micro-comunicações baseadas em pequeninas mudanças do semblante, posição, nível da voz, seja em volume como em tom, modificações nos odores emitidos, tudo é utilizado como modo de expressar identificações projetivas, todas inconscientes e todas captadas inconscientemente pelas antenas das outras pessoas, e talvez faríamos bem em estudar esta idéia.” (Tálamo, 1996,- apostila - p.10)

É isso aí!
Emir Tomazelli
São Paulo, 23 de setembro de 2006.