CONGRESSO INTERNACIONAL SOBRE O AUTISMO – CURITIBA, 24 A 27 DE AGOSTO DE 2011
 
ROBERTA ALENCAR (1)
 

A Associação Psicanalítica de Curitiba realizou no mês de agosto o Congresso Internacional sobre o Autismo – Prevenção, Intervenção e Pesquisa, que contou com a presença de referências nacionais e internacionais no que diz respeito aos estudos, pesquisas e clínica do autismo, tais como os conferencistas Alfredo Jerusalinsky, Maria Cristina Kupfer, Marie-Christine Laznik, Filippo Muratori, David Cohen e Kenneth Aitken.

Participaram ainda do congresso profissionais da saúde e educação de diversos estados brasileiros, configurando-se um interessante espaço de interlocução que, diante da variedade de trabalhos e experiências apresentados, trouxe à tona ricas discussões em torno do tema. Estive lá acompanhada por queridas colegas do grupo de pesquisa Detecção Precoce de Psicopatologias Graves - PUC/SP, e tivemos ainda o prazer de encontrar com tantos outros amigos e colegas que trabalham e se interessam pelo tema. Vou aqui destacar apenas alguns pontos que me chamaram atenção no congresso e que certamente não contemplarão a totalidade e riqueza dos trabalhos apresentados.

A diversidade de profissionais presentes no congresso apontou para a importância dos trabalhos inter e transdisciplinares quando se trata do autismo. Na conferência de abertura, Alfredo Jerusalinsky alertou para o risco de se tomar posições reducionistas que colocam toda a verdade num único modo de ver a questão, ou seja, o risco de se posicionar num extremo totalmente organicista e colocar a causa do autismo apenas na genética ou, noutro extremo, numa espécie de psicologismo. Muitas pesquisas vêm sendo realizadas na busca de uma maior compreensão do autismo e embora sua etiologia tenha pontos ainda um tanto quanto “misteriosos”, deve-se destacar os avanços nas pesquisas que propõem considerar as variações epigenéticas como aquelas que predominam, e que decorrem da interação das condições ambientais com os genes.

No entanto, ainda que os estudos realizados até agora deixem pontos ainda desconhecidos, sabe-se que muito se pode fazer em termos de intervenção e de detecção de sinais precoces de risco e esse foi um ponto bastante explorado no congresso. Muitos psicanalistas puderam apresentar seus achados clínicos, seus sucessos terapêuticos e também seus limites.

A metodologia IRDI – Indicadores de Risco para o Desenvolvimento Infantil – teve destaque no congresso como um instrumento que pode auxiliar os mais diversos profissionais da saúde e educação em sua prática cotidiana, visando a promoção de saúde mental. O IRDI foi desenvolvido pelo GNP (Grupo Nacional de Pesquisa), grupo esse coordenado nacionalmente por Maria Cristina Kupfer, e contou com a participação de especialistas de nove estados brasileiros para construir um protocolo com 31 indicadores do desenvolvimento infantil. Foram muitos os trabalhos que focaram nesse instrumento, a começar pela conferência da própria Maria Cristina Kupfer, que vem trabalhando a utilização do IRDI na educação infantil, assinalando o uso dos indicadores como pauta de leitura do que está acontecendo com a criança em seus encontros e desencontros com o professor e não como diagnóstico. Outros tantos trabalhos apresentaram a utilização do IRDI em diversos contextos, que não apenas na consulta pediátrica.

Sobre o diagnóstico e a detecção precoce de sinais de risco de autismo, discussões muito importantes vieram à tona, como por exemplo, a questão levantada por Silvana Rabello em seu trabalho intitulado A serviço de que pode estar a detecção precoce do autismo?. A autora trouxe uma reflexão que foi enriquecida com a intensa participação do público no debate, deixando clara a relevância do tema. Não se tratou de fazer uma crítica ao diagnóstico, mas uma reflexão sobre como utilizar a detecção precoce de sinais de risco sem fechar um destino definitivo para a criança. E, ainda, podendo garantir a especificidade da infância e dos momentos iniciais de constituição, tempo esse regido por uma certa imprevisibilidade, por uma plasticidade, sendo este o grande trunfo da criança.

O tempo cronológico certamente conta e não se pode deixar passar, daí a importância da interdisciplinaridade, do trabalho em rede e de que os diversos profissionais que trabalham com a primeira infância possam estar atentos a sinais de sofrimento numa criança. Mas é também fundamental que a detecção precoce de sinais de risco seja vista com um ponto de partida para a intervenção e não como fatalidade diagnóstica, traçando um destino definitivo para a criança e produzindo efeitos no investimento dos pais.

Julieta Jerusalinsky salientou, tanto durante o debate nessa mesa quanto em seu trabalho apresentado na mesa redonda Psicanálise e Autismo - intitulado Jogos de litoral na clínica com crianças em estado autístico -, a diferença entre SER e ESTAR. Segundo a autora, SER deixa algo fechado, definido, enquanto ESTAR aponta para um devir. Poder utilizar a detecção de sinais de risco de autismo sob essa perspectiva que aposta num devir e, portanto, na importância da intervenção precoce, pode promover deslocamentos na posição dos pais em relação à criança e mudanças importantes de posicionamento da própria criança.

Esse é o fio da navalha que devemos habitar, ou seja, detectar sinais de risco o mais cedo possível, uma vez que já se sabe que o tempo cronológico é importante e faz diferença o momento em que uma intervenção começa, mas não fechar o destino da criança. Detectar sinais de sofrimento parece ser fundamental, mas prever o destino de uma criança seria um crime. Essa é uma posição ética e política, que também aposta na importância da rede e do trabalho interdisciplinar.

No seminário A transdisciplina e a clínica dos transtornos no desenvolvimento infantil em crianças de zero a doze anos, apresentado por parte da equipe do Espaço Escuta, uma OSCIP que conta com 20 profissionais de diversas áreas e atende por volta de 120 crianças em Londrina - PR, muitas questões foram levantadas e, dentre elas, a importância de se considerar o saber dos pais e não deixar que ele se apague a partir de tantos saberes científicos, algo bastante comum quando o que está em jogo é o autismo. A equipe do Espaço Escuta salientou a parceria que faz com os pais na porta de entrada do serviço, como algo que daria uma “saída” para esses pais.

A mesa redonda Redes de atenção psicossocial, que teve a participação de uma colega do grupo de pesquisa Detecção Precoce de Psicopatologias Graves, Paola Visani e mais dois interessantes trabalhos de Campina Grande, na Paraíba, também apontou a importância de se considerar o saber dos pais - tanto na detecção precoce de sinais de sofrimento na criança quanto após o início do tratamento.

E devo destacar a presença marcante de muitos pais no congresso!

Não poderia encerrar sem parabenizar Leda Mariza Fischer Bernardino e Rosa Maria Marini Mariotto pela organização do congresso e dar o merecido destaque à preciosa sessão de abertura, que infelizmente não cheguei a tempo de assistir, mas vou mencionar pois surpreendeu e emocionou a todos com uma performance extremamente intensa realizada por Denise Stoklos, que interpretou trechos do livro Metafísica dos Tubos, de Amélie Nothomb e teve reverberações nos 4 dias do congresso.

 

1 Roberta Alencar, aluna do Curso de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, psicóloga formada pela PUC-SP,especialista em Psicologia da Infância pela UNIFESP, membro do grupo de pesquisa Detecção Precoce de Psicopatologias Graves - PUC/SP, técnica do Programa Palavra de Bebê – Instituto fazendo História.