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ARMAS SEM LEI

 

O Conselho de Direção do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae repudia veementemente as recentes atrocidades cometidas contra Moïse Kabagambe, Durval Teófilo Filho e todos os outros negros que neste momento estão sendo assassinados.

 

Moïse, refugiado congolês, foi morto quando cobrava seu direito de receber pelo trabalho no quiosque "Tropicália" - que daquele movimento cultural não tem nada e na atitude o avilta. A subtração de direitos foi ordenadamente progredindo: situação de guerra no Congo; exílio à margem de cidadania; racismo; desproteção trabalhista. Fugindo da morte e da violência, ao invés de acolhimento e de proteção, Moïse perdeu a vida golpeado a tábuas sem lei.

 

A meia hora das barracas onde Moïse tentava trabalhar, Durval Teófilo Filho vivia num condomínio residencial em busca de segurança - mas não há proteção possível enquanto há racismo. O vizinho, sargento da Marinha, Aurélio Alves Bezerra, disparou contra ele três tiros.

 

Semana após semana, tais situações escancaram e revelam xenofobia e racismo presentes em nossa sociedade. Até quando conviveremos com a repetição de assassinatos como esses - que não são exceções, mas algo cotidiano? Do que fala essa repetição? Quanto nos falta falar da história de nosso país, erguida através da brutalidade, da desumanização e da máscara da democracia racial?

 

É notável tanto a intensificação de conflitos territoriais quanto a passagem aos assassinatos como modalidade para lidar com eles. A compulsão nubla: patente cegueira ("não estava enxergando direito", disse o vizinho atirador); barras do ódio ("resolvi extravasar a raiva que estava sentindo", afirmou um linchador); amarras perversas ("estou com a consciência tranquila", comentou outro).

 

A política vigente em nosso país tem acirrado a violência com a retirada dos direitos trabalhistas, a crescente precarização da vida, a proliferação do uso de armas, o fomento do ódio, a destruição e fragilização dos bens comuns. O assassinato racista, tornado público, não apenas faz denúncia e desperta; filmado, vendido, torna-se produto de uma voragem mortífera; alimenta a cisão em nós e em nosso mundo social. Cisão que produz indiferença, apatia, paralisia, melancolia. Somos cúmplices, vergonhosamente, ao consumirmos violência mais do que nos mobilizamos através de ações na direção de uma vida digna para todos.   

 

É nosso compromisso como psicanalistas participar do debate social acerca de tais questões e agir de forma antirracista. Não podemos esquecer que sem democracia, respeito às pessoas e aos direitos humanos, a psicanálise fundamentada na liberdade de circulação da palavra também está ameaçada; mas principalmente e tristemente é a vida digna que é constantemente ameaçada e ceifada. Não há palavras que possam dar conta de tais situações graves e inadmissíveis. Sofremos hoje de um apagamento cotidiano e trágico de nossa história, da usurpação da vida em prol de muito poucos. Ficaremos no trauma e na infernal repetição do horror se não houver coragem, criatividade coletiva, conversa, debate e ações no sentido de enfrentar o terror. Viver é preciso; matar é inadmissível.

 

Fevereiro 2022

 

Conselho de Direção - gestão 2021/2023


 

   
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