Na edição número 18, publicamos o texto “O engodo feminino do masoquismo ordinário”, de Claude Le Guen. Neste número, alem da entrevista com o autor, convidamos dois colegas do departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae para refletir sobre a seguinte questão: “O masoquismo na mulher se apresenta de maneira tão implacável e estruturante quanto o descreve Le Guen em sua clinica?”.
Silvia Leonor Alonso: É sobre uma série de comportamentos masoquistas que insistem nos relatos de suas analisandas mulheres, que Claude Le Guen se interroga no texto: “O engodo feminino do masoquismo ordinário” . Sobre esse algo que, como escreve na última frase, “na teoria, não está verdadeiramente nomeado”. Mas como Freud ouviu de Charcot, “a teoria não impede de existir”.
Tais comportamentos não seriam diretamente sexualizados e se apresentam de formas diversas, apontando para repetidas escolhas de lugares de sofrimento e revelando modos de situar-se diante da vida que expressam uma hipermoral inconsciente. Sua natureza peculiar se classificaria muito mais do lado das inibições que da passividade.
Masoquismo feminino? Não é disto que se trata. Freud ocupou-se do conceito de masoquismo feminino no texto “O problema econômico do masoquismo” , onde trabalha a questão partindo de fantasias eróticas de homens, caracterizadas pela procura de alvos passivos, e que podem ser definidas como organizações fantasmáticas tardias girando em torno da angústia da castração.
Temática que vai continuar no trabalho do texto “Batem numa criança”, no qual estuda a fantasia de ser batido, que tem sua origem tanto em meninos quanto em meninas, no vínculo incestuoso com o pai.
Masoquismo moral? Le Guen considera que tal classificação talvez seja mais próxima, mas alerta o leitor que sua utilização não deixa de ser embaraçosa, pois nos faria perder de vista sua especificidade no caso das mulheres. De fato, no masoquismo moral o ego, que deseja ser submetido pelo superego, aparentemente sacrifica-se às exigências deste último, mas na verdade coloca-se como objeto para si mesmo, implicando assim o próprio narcisismo. Sem deixar de reconhecer a irredutível afirmação freudiana sobre a bissexualidade constitutiva fundamental do ser humano, o autor pergunta-se pelas raízes primeiras do masoquismo, e sobre as eventuais especificidades que nele seriam introduzidas pelas diferenças anatômicas. No texto, “A sexualidade feminina”, Freud – informado pelas analistas mulheres sobre os testemunhos transferenciais nos atendimentos a pacientes mulheres – reconhece a força da ligação da menina com a mãe, mas ao mesmo tempo sua hostilidade. Mostrando que a rivalidade com a mãe no complexo de Édipo vem apenas reforçar uma hostilidade já presente na fase anterior, Freud ressalta a importância da atividade sexual da menina em sua relação com a mãe, com seus fortes componentes orais, sádicos e fálicos.
É justamente nesta ligação e em sua incontornável ambivalência, que Claude Le Guen busca as razões da especificidade do masoquismo feminino, focalizando não a diferença entre os sexos, mas sim a identidade ou não identidade com o corpo da mãe.
É nesse ponto que o texto introduz a questão do engodo feminino: “o que a menina oferece para a mãe na sua identificação narcísica, é uma mistura de plenitude gratificante e incerteza frustrante”, “uma paixão mais forte, de onde a violência mais próxima na ambivalência, para amar ou para odiar”. Violência denegada pelos homens, a quem inquieta, e descartada pelas mulheres, a quem atemoriza.
Segundo o autor, é contra essa violência materna que o masoquismo se estrutura como defesa, defesa “em relação de sujeito”, ou seja, protegendo seu próprio narcisismo, afirmando sua identidade de sujeito.
Assim o texto, que visa a esclarecer o masoquismo, desemboca na questão do narcisismo, o que não deve nos causar estranheza. Lembremos que Moustapha Safouan em seu trabalho sobre a sexualidade feminina , ao criticar as considerações clinicas de Karen Horney sobre o relato de uma paciente, já aponta o equívoco da seguinte afirmação desta autora: “as fantasias de violação são o indício de uma relação objetal com o pai e através dele com os homens”. Na verdade, elas assinalariam o caráter narcísico da referida relação, o narcisismo constituindo o campo por excelência da agressão erótica.
Como atesta a clinica, o masoquismo, em suas formas moral ou feminina, encontra-se presente tanto em homens quanto em mulheres, e o tema da agressividade precoce e sua ligação com o narcisismo é objeto de uma extensa literatura. A titulo de ilustração, vejamos o relato de Annie Anzieu, em seu livro A mulher sem qualidade : “Josette é a mais velha de oito irmãos e irmãs. Desde sua mais tenra infância toma conta dos menores. Despreza sua mãe, mas ao mesmo tempo sente em relação a ela impulsos de submissão e de admiração, que levam-na a sacrificar-lhe seu tempo livre. Sai com ela sem prazer, para aplacar sua culpabilidade. Há pouco encontrou um namorado, que lhe impôs violências sexuais”. A partir desta situação clínica, a autora afirma: “seu masoquismo triste aparece muito rapidamente no tratamento vinculado com uma imagem materna temida, porque foi atacada pelos sentimentos de inveja da primeira infância”.
Mas não é disto que Le Guen nos fala: ele trata de uma violência primeira, que não se confunde com agressividade: violência da intensidade de excitação, violência da ambivalência, “quer para amar, ou para odiar”. Sua inclusão na relação intersubjetiva deve-se à ambivalência da mãe, e não às projeções das invejas da filha.
A abertura de um campo de problematização pela introdução e implicações da idéia de um “corpo igual” parece-me interessante. É claro que em todo processo de filiação coloca-se a questão de tornar o outro um filho (alteridade), ao mesmo tempo em que se faz dele um semelhante. Mas é preciso perguntar quanto essa questão se aguça ao se tratar de um corpo de menina. Qual seu impacto no narcisismo materno e seus efeitos na constituição do narcisismo da filha? Quais as vicissitudes na constituição das defesas precoces? Sem dúvida, tais questões inauguram um fértil terreno de pesquisa, mas não podemos esquecer que o corpo é o palco sobre o qual o simbólico e o imaginário tecem sua trama.
Se o que desejamos colocar em debate é o masoquismo moral das mulheres, acreditamos ser útil a referência ao pensamento de Emilce Bleichmar e a instigante questão que ela coloca em seu livro Sobre a sexualidade feminina – da menina à mulher : “Por que será que toda vez que nos defrontamos com o óbvio da freqüência da experiência da violência no cenário da história vivencial ou das categorias do simbólico, em vez de aplicar a tese do ominoso, do sinistro – tese clássica freudiana -: a duplicação pelo real do fantasma, como fator de importância na manutenção da angústia persecutória da mulher nas experiências sexuais, apela-se rapidamente ao enigmático?”
C. Le Guen, “O engodo feminino do masoquismo ordinário” in Percurso, n.18, São Paulo, 1997.
S. Freud, “El problema econômico del masoquismo” in Obras completas, Buenos Aires, Amorrortu,v.XIX.
M. Safouan, A sexualidade feminina na doutrina freudiana, Rio de Janeiro, Zahar, 1977.
N. Anzieu, La mujer sin cualidad, Buenos Aires, Paidós.
E. Bleichmar, La sexualidad feminina – de la niña a mujer, Buenos Aires, Paidos, 1997.