ano I - Nº 1 - 2019
capa: JR Korpa
publicação: 15-10-2019
ISSN:2674-9874


ARTIGOS
Este artigo tem como objetivo descrever a história da fundação do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, que ocorreu em 17 de maio de 2017, na cidade de São Paulo. O método de coleta de dados foi baseado em dois instrumentos: um questionário estruturado para levantamento de dados sociodemográficos e formação, enviado para os 50 membros inscritos à época da pesquisa, e cinco entrevistas semiestruturadas junto aos representantes dos núcleos de trabalho. Além disso, foram utilizados o material de entrevistas realizadas antes da definição desta pesquisa, pelo grupod e saúde coletiva, e os dados históricos de um dos professores mais antigos do Curso de Especialização em Psicossomática Psicanalítica. Observou-se que a maioria dos 29 respondentes do questionário tem mais de 50 anos, é de cor branca, do sexo feminino, estudou e atua em instituições privadas de ensino e de saúde. Desse total de respondentes, 26 realizaram a formação em Psicossomática Psicanalítica no Instituto Sedes Sapientiae. É relevante comentar que o primeiro curso de Psicossomática foi oferecido em 1993, passou por transformações e, em 2002, o adjetivo Psicanalítico integrou o nome do curso, assumindo o nome do pai. Ao longo desses26 anos, foram publicados cinco livros e realizados encontros teórico-clínicos, jornadas, simpósios e integração com diversos serviços públicos e privados de saúde. Embora a produção científica e a articulação interinstitucional e intrainstitucional sejam profícuas, analisamos que o departamento demorou para se estruturar, por ser atravessado pelas características que constituem o seu objeto de estudo e intervenção, qual seja, pessoas ue peregrinam há muito tempo pelas instituições de saúde, com um histórico de grande desamparo e violência, que se manifesta sob a forma de pobreza nas representações, dificuldade de simbolização, tendendo a apresentar grandes desorganizações, doenças orgânicas graves e dificuldade de vinculação, condição marcada pela pulsão de morte. Destacamos três grandes desafios na construção do departamento, com base nas entrevistas e vivências no núcleo de trabalho da revista: articular as ações entre os núcleos formados após a fundação; organizar as demandas de recepção e seguimento de pacientes no projeto; e organizar o ingresso de novos membros no departamento.
ABSTRACT
This article aims to describe the history of the foundation of the Department of Psychoanalytic Psychosomatic of the Institute Sedes Sapientiae, which took place on May 17, 2017, in the city of São Paulo. The data collection method was based on two instruments: a structured questionnaire for collecting socio-demographic and training data, sent to the 50 members enrolled at the time of the research and five semi-structured interviews with the representatives of the work cores. In addition, we used material from interviews realized before the definition of this research, by the collective health group, and historical data from one of the oldest teachers of the Specialization Course in Psychoanalytic Psychosomatic. It was noticed that most of the 29 questionnaire respondents were over 50 years old, white, female, studied and working in private educational and health institutions. From these total of respondents, 26 completed their training in Psychoanalytic Psychosomatic at the Institute Sedes Sapientiae. It is relevant to comment that the first Psychosomatic course was offered in 1993, underwent transformations, and in 2002, the adjective Psychoanalytic came to integrate the name of the course, assuming the name of the father. Over these 26 years, 5 books were published and theoretical-clinical meetings, conferences, symposiums and integration with various public and private health services were held. Although the scientific production and the inter-institutional and intra-institutional articulation are fruitful, we analyze that the department took a long time to structure itself, because it is crossed by the characteristics that constitute its object of study and intervention, that is, people who pilgrimage through the health institutions for a long time, with a history of great helplessness and violence, manifested in the form of poverty in the representations, difficulty of symbolization, tending to present great disorganization, severe organic diseases and difficulty of attachment, a condition marked by the death drive. We highlight three major challenges in the construction of the department, based on the interviews and experiences in the journal’s work core: articulate the actions between the cores formed after the foundation; organize the reception and follow-up demands of patients in the project; and arrange for new members to join the department.
 
Este trabalho convida à reflexão sobre os significados e repercussões das primeiras experiências do estudante de Medicina no contato com o corpo humano (geralmente nas aulas de anatomia), e seus efeitos sobre a construção das atitudes do futuro médico, na relação com as queixas e os sintomas do paciente e sobre a relação terapêutica. Apesar do grande desenvolvimento dos conhecimentos e recursos clínicos, terapêuticos e da tecnologia médica, são frequentes o sofrimento, a angústia e a insatisfação do médico no exercício de seu ofício. Muitas dessas dificuldades do médico podem ser compreendidas à luz daquelas primeiras experiências não elaboradas em sua formação. A clínica revela a importância do reconhecimento e da elaboração das dimensões melancólicas e hipocondríacas do clínico, do paciente e da relação terapêutica para lidar e superar muitas dessas dificuldades.
ABSTRACT
This paper invites the reflection on the meanings and the impact of the first experiences of medical students in contact with the human body (generally in anatomy classes), their effects on the construction the future physician’s attitudes, on his relationship to the patient’s complaints and symptoms and over the therapeutic relationship. Despite the great development of clinical, therapeutic and medical knowledge and technical resources, in his work, the physician seldom suffers, feeling anguish, down and dissatisfied. Many of these physician’s difficulties can be understood in the light of those early experiences, not worked through during his training. The clinical practice reveals the importance of recognizing and elaborating the melancholic and hypochondriac dimensions of the clinician’s and patient’s experiences and on the therapeutic relationship to deal with and to overcome many of these difficulties.
 
O presente artigo visa propiciar uma discussão teórico-clínica com base no referencial da psicossomática psicanalítica na clínica com adolescentes. O relato do caso de um adolescente de 15 anos de idade nos conduziu a algumas reflexões sobre os movimentos de organização e desorganização psicossomática responsáveis pela integração ou dissociação do psique-soma. As hipóteses clínicas levantadas apontaram para uma falha de mentalização característica de uma neurose de comportamento, em que o corpo e as atuações se constituíam em vias de expressão para o que não era passível de ser representado psiquicamente. As questões relativas à desorganização psicossomática foram articuladas aos aspectos específicos da técnica que operaram na relação psicanalítica, como o manejo, o enquadre, a interdisciplinaridade, as modalidades da transferência. Especial destaque foi dado à importância do trabalho na transferência, no qual o analista, acompanhando e adaptando-se às demandas e ao ritmo do adolescente, proporcionou condições para uma maior integração psicossomática.
ABSTRACT
The present article aims to provide a theoretical-clinical discussion based on the Psychosomatic Psychoanalitic reference in the clinic with adolescents. The case report of a fifteen-year-old adolescent led us to some reflections on the organizational movements and the psychosomatic disorganization responsible for the integration or dissociation of the psyche-soma. The clinical hypotheses raised pointed to a lack of mentalization characteristic of a behavioral neurosis, where the body and the actions constituted in ways of expression for which it could not be represented psychically. Issues related to psychosomatic disorganization were articulated to specific aspects of the technique that operated in the psychoanalytic relationship such as handling, framing, interdisciplinarity, the modalities of transference. Special emphasis was given to the importance of the work in the transference, in which the analyst accompanying and adapting to the demands and to the adolescent rhythm provided the conditions for a greater psychosomatic integration
 
O presente artigo abordará alguns aspectos históricos das ciências médicas, passando pelo início da psicanálise e seus autores mais contemporâneos que contribuíram com a psicossomática, até os dias atuais, que contemplam os avanços científicos e tecnológicos das neurociências. Questiona-se como o arsenal de conhecimento no campo biológico, quando concebido de forma dinâmica e individualizado, pode contribuir como recurso técnico e auxiliar na relação e na ação terapêuticas.
ABSTRACT
First, this paper focuses on some historical aspects of medical science, starting from the beginning of psychoanalysis and its more contemporary authors who contributed to the psychosomatic area, until the current day, contemplating scientific and technological advances in neuroscience. Additionally, this paper questions how the set of knowledge in the biological field, when conceived in a dynamics and individualized way, can contribute as a technical resource to helping the patient-therapist relationship and therapeutic treatments.
 
As autoacusações dirigidas ao corpo por pacientes com distúrbios alimentares nos levaram a questionar um fracasso no trabalho da melancolia. Proposto por Freud em 1915, esse processo teria por objetivo reparar uma perda sentida como insuportável pelo ego e que dispara uma batalha violenta pela ambivalência de sentimentos dirigida ao objeto perdido. O ódio derivado é dirigido à sombra do objeto que recai sobre o ego. Especialmente na anorexia nervosa, nos parece que há um movimento regressivo que vai além.
ABSTRACT
The self-reproach against their own bodies seen in patients with eating disorders has led us to posit existence of failures in the work of melancholia. Defined by Freud in 1915, this processo f melancholia is ameid at repairing a loss felt as unbearable by the ego and triggers off a violent struggle with ambivalent feelings toward the lost object. This resulting hatred is aimed at the shadow of the object that falls on the ego. Especially in anorexia nervosa, there seems to be a regressive movement that goes beyond this.
 
Com base nas abordagens de diferentes autores, procura-se mostrar várias formas de se conceituar um trauma, destacando o papel central que ocupa na psicossomática psicanalítica. O ponto comum entre essas compreensões diz respeito à intensidade do que foi vivido, podendo ser desencadeado tanto por situações externas (incêndios, explosões, acidentes) como internas (sentimentos intensos de ódio, por exemplo). Por outro lado, há autores, como Khan e Winnicott, que destacam a importância de traumas cumulativos, em que a ênfase não está na intensidade da experiência, mas na repetição dessas vivências traumáticas. Situações traumáticas são sempre subjetivas e dependem tanto de fatores constitucionais como das experiências passadas de cada um. Em Freud, observa-se que a noção de trauma é apresentada inicialmente como uma vivência sexual intensa, não significada e reprimida; é reativada, em um segundo momento, quando então se converte em trauma. Mas, a partir de 1920, com a introdução do conceito de pulsão de morte, o traumático liga-se, então, à intensidade do vivido e não representado psiquicamente. A psiquiatria atual, no CID X e DSM IV, reúne vários diagnósticos sob a denominação de transtorno de estresse pós-traumático. Já outros enfoques, referentes ao trauma, veem a permanência dos sintomas físicos e psíquicos como resultantes de sua não descarga corporal.
ABSTRACT
Approaches of different authors make us try to show different ways to conceptualize a trauma by highlighting the central role it plays in Psychoanalytic Psychosomatics. The common point between these understandings concerns the intensity of what has been experienced and what can be triggered by both external situations (fires, explosions, accidents) and internal situations (intense feelings of hatred, for example). On the other hand, there are authors, such as Khan and Winnicott, who emphasize the importance of cumulative trauma where the emphasis is not on the intensity of the experience but on the repetition of these traumatic experiences. What is traumatic for a person is always subjective and depends as much on constitutional factors as on one’s past experiences. In Freud, the notion of trauma is initially presented as an intense, meaningless and repressed sexual experience; it is reactivated in a second moment, when it then becomes a trauma. But from 1920, with the introduction of the concept of death drive, the traumatic is then linked to the intensity of the lived and not represented psychically. Current psychiatry in CID X and DSM IV brings together several diagnoses under the name of post-traumatic stress disorder. Meanwhile other approaches related to trauma see the permanence of physical and psychic symptoms arising from the trauma as a result from their body´s non-discharging.
 
Apresento artigo sobre dois pacientes sobreviventes do Holocausto que apresentaram quadro clínico dermatológico de prurido psicogênico. Seus sintomas pioravam com a memória do trauma, e a melhora foi observada pela escuta com base no referencial da psicossomática psicanalítica.
ABSTRACT
I present an article about two holocaust survivors, who had a dermatological clinical picture of psychogenic pruritus. Their symptoms worsened with the memory of the trauma, the improvement was noted by listening according to the psychoanalytic psychosomatic referential.
 
MONOGRAFIA
A frágil conexão que o paciente doloroso faz entre a manifestação de dor e a sua subjetividade, assim como a dificuldade que ele apresenta em abrir mão dessa dor, uma vez que ela exerce uma função asseguradora, são as questões que propulsionam este trabalho. Poderia a dor ser a manifestação de um sofrimento inominável, cuja essência é o desamparo? A psicossomática psicanalítica refere que a insuficiência das funções psíquicas impede que este paciente se aproprie da dor para incorporá-la em suas próprias vivências. O paciente que funciona dentro desta economia não consegue alçar voo para a esfera psíquica e fica aprisionado na corporeidade. É possível pensarmos na dor como tendo duas funções: uma desorganizadora, resultante do despreparo e da fragilidade do ego na forma de lidar com os traumas na medida em que se ocupar da dor poderia ser uma forma de não se ocupar de outro sofrimento; e outra, organizadora do aparelho mental, na medida em que funcionaria como um anteparo frente à desorganização progressiva, como um alerta para o sujeito. No paciente doloroso a articulação mental-somática está bloqueada, dificultada, mas não é totalmente inexistente, pois acontece também uma forma de apropriação, ou utilização, desse fenômeno somático, uma vez que é por meio de suas dores que eles são olhados e cuidados. Ou seja, se a dor ocupa um lugar na relação com o outro, ela tem, portanto, uma função simbólica. Neste sentido, podemos levantar a hipótese de que o fenômeno da dor poderia ser de natureza mista, somática e neurótica, um fenômeno que sugere uma irregularidade do funcionamento psíquico.
ABSTRACT
The fragile link that the aching patient makes between the manifestation of pain and his subjectivity, as well as the difficulty that he introduces in giving up this pain, since it exercises a secure function that cannot be underestimated, are the questions that drive this work. Could the pain be the manifestation of an unnamed suffers which essence is vulnerability? Psychosomatic psychoanalytic believes that an insufficient psychic function avoids this patient to appropriate the pain in order to incorporate it in his own living. The patient who function into this way doesn’t succeed to approach to the psychic sphere and remain physically captured. It is possible to think of the pain as having two functions: one disorganizer, resulting of the unprepared and the fragility in the way that the ego struggles with the traumas, although get involve with pain, means not get involve with psychic suffering, and one that improves, and in this way, could be a factor of mental organization while functioning like a shield in front of a progressive disorganization. For the aching patient the mental-somatic articulation is blocked, troubled, but it is not totally non-existent. It happens to be also an appropriation or use of this somatic phenomenon, once it is through its pain that he is looked on and are cared. If the pain holds a place in the relationship with the other, it has then a symbolic function. In this sense we could suggest a hypothesis that the phenomenon of pain could be of mixed, somatic and neurotic nature, a phenomenon where there is a misdeed of the psychic functioning.
 
ÁGORA
RESENHAS
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