ARTIGOS

Transmissão e devir: tecendo a Memória do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae


Transmission and becoming: weaving Psychoanalytic Psychosomatic´s memory in Sedes Sapientiae Institut
Cristiane Curi Abud
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae
Denise Arisa dos Santos Dias
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae
Fabio Amadelli
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae
Lais Sousa Pires
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae
Lédice Lino de Oliveira
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae
Maria Elisa Pessoa Labaki
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae
Silene de Lima Oliveira
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae
Vanessa Ramos Lazzaratto
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae

RESUMO
Este artigo tem como objetivo descrever a história da fundação do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, que ocorreu em 17 de maio de 2017, na cidade de São Paulo. O método de coleta de dados foi baseado em dois instrumentos: um questionário estruturado para levantamento de dados sociodemográficos e formação, enviado para os 50 membros inscritos à época da pesquisa, e cinco entrevistas semiestruturadas junto aos representantes dos núcleos de trabalho. Além disso, foram utilizados o material de entrevistas realizadas antes da definição desta pesquisa, pelo grupod e saúde coletiva, e os dados históricos de um dos professores mais antigos do Curso de Especialização em Psicossomática Psicanalítica. Observou-se que a maioria dos 29 respondentes do questionário tem mais de 50 anos, é de cor branca, do sexo feminino, estudou e atua em instituições privadas de ensino e de saúde. Desse total de respondentes, 26 realizaram a formação em Psicossomática Psicanalítica no Instituto Sedes Sapientiae. É relevante comentar que o primeiro curso de Psicossomática foi oferecido em 1993, passou por transformações e, em 2002, o adjetivo Psicanalítico integrou o nome do curso, assumindo o nome do pai. Ao longo desses26 anos, foram publicados cinco livros e realizados encontros teórico-clínicos, jornadas, simpósios e integração com diversos serviços públicos e privados de saúde. Embora a produção científica e a articulação interinstitucional e intrainstitucional sejam profícuas, analisamos que o departamento demorou para se estruturar, por ser atravessado pelas características que constituem o seu objeto de estudo e intervenção, qual seja, pessoas ue peregrinam há muito tempo pelas instituições de saúde, com um histórico de grande desamparo e violência, que se manifesta sob a forma de pobreza nas representações, dificuldade de simbolização, tendendo a apresentar grandes desorganizações, doenças orgânicas graves e dificuldade de vinculação, condição marcada pela pulsão de morte. Destacamos três grandes desafios na construção do departamento, com base nas entrevistas e vivências no núcleo de trabalho da revista: articular as ações entre os núcleos formados após a fundação; organizar as demandas de recepção e seguimento de pacientes no projeto; e organizar o ingresso de novos membros no departamento.

Palavras-chave: Psicossomática Psicanalítica, Saúde, Pulsão de Morte, Memória

ABSTRACT
This article aims to describe the history of the foundation of the Department of Psychoanalytic Psychosomatic of the Institute Sedes Sapientiae, which took place on May 17, 2017, in the city of São Paulo. The data collection method was based on two instruments: a structured questionnaire for collecting socio-demographic and training data, sent to the 50 members enrolled at the time of the research and five semi-structured interviews with the representatives of the work cores. In addition, we used material from interviews realized before the definition of this research, by the collective health group, and historical data from one of the oldest teachers of the Specialization Course in Psychoanalytic Psychosomatic. It was noticed that most of the 29 questionnaire respondents were over 50 years old, white, female, studied and working in private educational and health institutions. From these total of respondents, 26 completed their training in Psychoanalytic Psychosomatic at the Institute Sedes Sapientiae. It is relevant to comment that the first Psychosomatic course was offered in 1993, underwent transformations, and in 2002, the adjective Psychoanalytic came to integrate the name of the course, assuming the name of the father. Over these 26 years, 5 books were published and theoretical-clinical meetings, conferences, symposiums and integration with various public and private health services were held. Although the scientific production and the inter-institutional and intra-institutional articulation are fruitful, we analyze that the department took a long time to structure itself, because it is crossed by the characteristics that constitute its object of study and intervention, that is, people who pilgrimage through the health institutions for a long time, with a history of great helplessness and violence, manifested in the form of poverty in the representations, difficulty of symbolization, tending to present great disorganization, severe organic diseases and difficulty of attachment, a condition marked by the death drive. We highlight three major challenges in the construction of the department, based on the interviews and experiences in the journal’s work core: articulate the actions between the cores formed after the foundation; organize the reception and follow-up demands of patients in the project; and arrange for new members to join the department.

Keywords: Health, Death Drive, Psychoanalytic Psychosomatic, Memory


No dia 17 de maio de 2017, nasceu o Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, uma instituição psicanalítica que se propõe aos trabalhos de transmissão da psicanálise, da pesquisa e de atendimentos clínicos. Sua fundação foi muito aguardada pelos ex-alunos e colegas com quem mantivemos forte interlocução ao longo dos anos, por meio dos encontros teórico-clínicos, simpósios e jornadas clínicas.

As tarefas de transmissão da psicanálise, da pesquisa e de atendimentos clínicos encontram como matéria-prima na clínica da psicossomática psicanalítica, basicamente, a pulsão de morte e trabalham no sentido de construir fios de ligação desta pulsão com afetos e representações. Uma vez construídos, esses fios poderão se entrelaçar, criando uma trama que constituirá o tecido de uma pele psíquica.

Estamos diante de um trabalho muito desafiador e sofrido, uma vez que a pulsão de morte imprime no fazer clínico, teórico e de transmissão, a problemática de uma violência sem nome e do excesso sem canalização psíquica. Para lidar com tais fenômenos, o Departamento de Psicossomática Psicanalítica foi construindo dispositivos grupais e institucionais, teares nos quais os fios pudessem se entrelaçar e ganhar um corpo de tecido. Retomaremos neste artigo a trama da construção desses dispositivos e da nossa história.

Antes da fundação propriamente dita do departamento, as tarefas de transmissão e de pesquisa já vinham sendo cumpridas desde a criação do curso de Especialização em Psicossomática Psicanalítica - Corpo e Clínica Contemporânea, formação oferecida pelo Instituto Sedes Sapientiae desde 1993. Os professores do curso construíram uma ampla produção científica sob a forma de simpósios, livros e participação em congressos, e já realizava, ao longo desses anos, diversos intercâmbios no instituto com outros cursos, departamentos e com a sua Clínica Psicológica.

Em 2000, um grupo de colegas fundou o Projeto de Atendimento e Pesquisa em Psicossomática Psicanalítica da Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae, voltado ao atendimento de casos de grande complexidade psicossomática. Além de realizar o trabalho clínico, o projeto realiza também pesquisas e produção científica, apresentadas em jornadas e publicações. Em 2002, foi criado o curso de Expansão Cultural Introdução à Psicossomática Psicanalítica: Uma Visão Teórico-clínica,para apresentar um panorama geral da psicossomática psicanalítica.

Esses grupos mantinham entre si uma convivência muito próxima em termos de base teórica, valores, afetos e ideais. Mas, para a fundação do Departamento de Psicossomática Psicanalítica, seria preciso uma "nova ação psíquica" que os integrasse, que oferecesse um tecido, um envelope, uma pele que traçaria uma trincheira, um limite, instauradores do narcisismo grupal (ANZIEU, 1993). O gesto de fundação do departamento marcaria "uma separação irreversível entre o dentro e o fora, entre o antes e o após" (KAËS, 2011, p.91).

Eis que surge um grupo de alunos e ex-alunos do curso de especialização, solicitando mais do que uma simples transmissão da psicossomática psicanalítica, mas, para além, um espaço de pertencimento e troca que gerasse referenciais identificatórios, tendo em vista o caráter permanente de toda formação situada em contexto psicanalítico. 

Pudemos constatar que o vínculo afetivo com o curso de Especialização em Psicossomática Psicanalítica - Corpo e Clínica Contemporânea propiciou o desejo de continuidade e pertencimento, sendo um dos principais motivadores para a criação do departamento. Esse vínculo é um dos elementos que justifica a participação ativa de muitos membros mesmo antes da existência do departamento, e o que os mantém atuando com compromisso e responsabilidade.

Disposto a realizar o gesto de fundação do departamento, este grupo de alunos passou a se reunir e a gestar seu projeto. Nesse processo, escutamos diversas vezes falas como "já tentamos fundar o departamento outras vezes, e o projeto não saiu do papel, será que desta vez vai?". Ou seja, o sonho da criação deste departamento vinha sendo artesanalmente construído ao longo desses anos, e há muito se aguardava a constituição de um grupo forte e atuante de alunos e ex-alunos que enfrentasse a empreitada da criação do mesmo.

Esses grupos de trabalho já haviam construído os fios de ligação; faltava entrelaçá-los para que formassem um tecido-pele que o envolvesse e o constituísse.

Talvez a demora nessa construção se deva justamente ao fato de ser esse o desafio imposto por esta clínica, e, como afirma Bleger,

toda organização tende a ter a mesma estrutura que o problema que deve enfrentar e para o qual foi criada. Assim, um hospital acaba tendo, enquanto organização, as mesmas características que os próprios doentes (isolamento, privação sensorial, déficit de comunicação, etc.). (BLEGER, 1980, p. 95)

Entretanto, dessa vez, algo de diferente se processou, possibilitando que a fundação se consumasse. Na cerimônia de fundação do departamento, referendamos o regimento interno do mesmo, elaborado por seu grupo fundador.

 

Tecendo nossa História[i]

 

Apresentaremos a seguir a história que nos foi contada por meio dessas entrevistas. Comecemos pelos grupos que já existiam antes da fundação do departamento, respeitando assim a cronologia dos fatos. São eles:aEspecialização em Psicossomática Psicanalítica - Corpo e Clínica Contemporânea; o curso de Introdução à Psicossomática Psicanalítica: Uma Visão Teórico-clínica;o Projeto de Atendimento e Pesquisa em Psicossomática Psicanalítica da Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae;e o grupo de trabalho de discussão teórico-clínica Psicossomática e Saúde Coletiva.

 

Cursos

 

Começamos pelos cursos do departamento, quais sejam: Especialização em Psicossomática Psicanalítica - Corpo e Clínica Contemporânea e o curso de Introdução à Psicossomática Psicanalítica: Uma Visão Teórico-clínica. A função de transmissão da psicossomática psicanalítica é muito importante, uma vez que organiza uma delicada experiência clínica com sujeitos que apresentam falhas narcísicas precoces ou traumáticas que impedem o trabalho de ligação psíquica.

Nos anos 1990, quando surgiu a ideia do curso, em vários lugares do mundo e também aqui no Brasil, a psicossomática era vista com muita desconfiança pelas instituições psicanalíticas em geral. Até mesmo na França, naquela época, o grupo que se reuniu em torno de Marty, como Michel Fain, Leon Kreisler e outros, não fazia parte das principais correntes da psicanálise francesa, apesar de serem em sua maioria membros da Sociedade Psicanalítica de Paris.

Em São Paulo, a corrente mais conhecida da psicossomática era a Medicina Psicossomática referida à Escola de Chicago. Entre aqueles que trabalhavam com essa vertente mais americana, destacavam-se Eládio Capisano, Luiz Miller de Paiva e José Pontes, um gastroenterologista da USP, que também teve um papel formador na Associação Brasileira de Medicina Psicossomática. Essa corrente predominante da psicossomática foi desenvolvida por Franz Alexander, Dunbar e outros, que descreveram os perfis de personalidade clássicos, relacionados a certos tipos de doenças (gástricas, cardíacas, dermatológicas, etc.). No Rio de Janeiro, colegas como Danilo Perestrello, Abrão Ekstermann, Júlio de Mello Filho também trouxeram contribuições originais nessa linha da Medicina Psicossomática.

A grande contribuição de Marty, Fain, Christian David e outros psicanalistas da escola francesa foi justamente articular e aprofundar a leitura do fenômeno psicossomático com o pensamento freudiano, em particular com a metapsicologia e outros aspectos da teoria psicanalítica. Em São Paulo, esses autores eram praticamente desconhecidos.

Antes da criação do curso, em 1993, havia uma disciplina de Psicossomática no curso de Psicanálise: Teoria e Clínica do Instituto Sedes Sapientiae, ministrado por Wilson de Campos Vieira, cujo eixo teórico se dava pela obra de Pierre Marty e de outros autores do Instituto de Psicossomática de Paris (IPSO).

Em um certo momento, ele teve a ideia de criar um curso específico, independente do curso de Psicanálise, dedicando mais tempo à psicossomática e ampliando a articulação que já realizava com a psicanálise, para a medicina e o trabalho em instituições de saúde. No curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, que tinha uma afinidade com o pensamento psicanalítico francês, Wilson de Campos Vieira foi um dos primeiros a introduzir as teorias de Marty em São Paulo.

No início, o novo curso foi apenas denominado Curso de Psicossomática e tinha duração de dois anos. Ele convidou alguns de seus ex-alunos do curso de Psicanálise para serem professores, e o currículo foi construído em torno dos principais temas dos autores da Escola de Paris: uma disciplina que abordava a "Psicossomática do Adulto", título do livro do Marty, e outra que abordava a "Psicossomática da Criança", construída em torno do livro de Leon Kreisler, Michel Fain e Michel Soulé. Essas disciplinas eram complementadas por seminários de psicanálise que lhes ofereciam os subsídios teórico-clínicos da teoria freudiana, articulados com os conceitos da psicossomática. A proposta era reunir no curso tanto psicanalistas quanto médicos e pessoas da área da saúde.

Na época, praticamente não se utilizava o termo "Psicossomática Psicanalítica"; o curso denominava-se apenas Curso de Psicossomática. O delineamento desse campo, acrescentando o adjetivo "psicanalítica" à sua denominação, foi gradualmente se construindo com basena experiência de ensino, de simpósios e de publicações nas quais naturalmente a perspectiva psicanalítica foi se explicitando. Em 1998, nossa coletânea Psicossoma II recebeu também em seu título o termo Psicossomática Psicanalítica. Esse mesmo termo foi incorporado a nossos simpósios e, finalmente, ao nome do curso, em 2012. Consideramos importante explicitara filiação psicanalítica do curso, tanto do ponto de vista político quanto pelas implicações clínicas, teóricas e institucionais dessa perspectiva que desenvolvemos. A afinidade intelectual e as relações de amizade foram articulando a construção do corpo docente.

A Especialização em Psicossomática Psicanalítica sempre trabalhou com base em Freud, mas também com autores que não eram trabalhados em cursos de psicanálise, como Pierre Marty, Rosine Debray, Christophe Dejours. Havia uma proposta diferenciada entre Pierre Marty e Freud, em termos de manejo clínico. No entanto, não precisamos fazer essa divisão, pois somos analistas, e a nossa forma de conduzir um caso se modifica ao longo do processo. A diferenciação do manejo clínico se dá muito mais em função da didática. Marty trabalhou com muitos casos que apresentavam dificuldade de associar, de historicizar suas vidas. Então ele foi, de fato, criando propostas em termos de método clínico.

Em termos de estrutura, o curso se expandiu de dois para três anos, ganhando maior amplitude em termos dos autores estudados e profundidade na abordagem dos temas. Embora não tenham sofrido modificações significativas, algumas disciplinas tiveram temas suprimidos de seus programas, assim como outros acrescidos, e seus nomes foram adaptados para uma nova nomenclatura que melhor as traduzisse. A obra freudiana e os autores da escola de Paris mantiveram-se como referências centrais.

O perfil dos alunos parece ter mudado ao longo desses 26 anos, passando a ser mais procurado por profissionais com mais idade e experiência. Em relação às categorias de profissionais, observamos que, além da Psicologia, profissionais de outras áreas da saúde têm procurado se instrumentalizar com a Psicossomática Psicanalítica. Médicos, fisioterapeutas, acupunturistas e enfermeiros são alguns deles.

O principal desafio do curso tem sido descobrir formas de instalar uma fluidez cada vez maior entre os núcleos do departamento, em termos de comunicação e trocas. Considerando que o curso, agora, é apenas uma molécula dentro de uma organização celular maior que é o departamento, é preciso conhecer a relação que será estabelecida entre aluno/curso e curso/departamento. Para quem já trabalha dando aula no curso, não será fácil conciliar as demandas do departamento com as outras que já existiam. Portanto, será preciso muito trabalho para amadurecer as relações entre os núcleos do mesmo.

Com a criação do departamento, podemos, cada vez mais, apresentar novas propostas em relação a grupos de estudo e de trabalho, pesquisas e outras atividades de qualidade. É necessário ter consistência para fazer tudo dentro do seu tempo, e o desafio é descobrir qual o momento certo de propor alguma coisa nova. O departamento torna-se, então, um espaço importante para a propagação do campo da Psicossomática Psicanalítica e de seus autores, com temas específicos. O curso passa a ser, dessa forma, uma das atividades de formação diante desse projeto maior.

Em 2002, emergiu do curso de especialização uma necessidade de criar o curso de Expansão Cultural Introdução à Psicossomática Psicanalítica: Uma Visão Teórico-clínica. Seu objetivo é apresentar uma visão panorâmica dos principais conceitos da psicossomática psicanalítica a interessados por essa área, mas que não tinham certeza ou não queriam enfrentar uma empreitada de três anos em um curso de especialização.

Após a fundação do departamento, o núcleo de cursos criou dois grupos de trabalho de discussão teórico-clínica: um grupo de estudos sobre o autor Christophe Dejours e outro sobre Joyce MacDougall, autores bastante renomados da psicossomática psicanalítica.

 

O Projeto

 

O Projeto de Atendimento e Pesquisa em Psicossomática Psicanalítica da Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae começou a ser planejado em 1999, por quatro ex-alunos do curso de especialização, e iniciou sua prática clínica no ano 2000. Para tanto, eles inspiraram-se, por um lado, no ambulatório do Instituto de Psicossomática de Paris- IPSO e, por outro, em suas experiências no serviço público de saúde. Perceberam, assim, uma escassez no atendimento público que incluísse pessoas com patologias orgânicas que fossem atendidas em psicoterapia ou em um acompanhamento de acolhimento. Os atendimentos ocorriam apenas durante a internação.

Inicialmente, dedicaram-se ao atendimento do maior número possível de pacientes e no investimento para constituir o projeto. Além disso, mantinham uma exímia organização, documentando todo o processo para estabelecer como seria o funcionamento do grupo e as triagens. Focavam em suas formações, como grupos de estudos.

Tiveram apoio dos professores, por meio de supervisões clínicas, que cuidavam de seus primeiros passos nessa clínica específica. Esse acompanhamento foi essencial para a constituição do projeto, ajudando a revelar recursos para a apropriação da identidade e do pensamento clínico.

O foco do projeto sempre foi e continua sendo o atendimento de pacientes com sintomatologia e doenças orgânicas, que são encaminhados através de um pedido médico com uma carta de apresentação.

Ao longo dos anos, com o aumento constante da demanda de pacientes, o projeto, aos poucos, se expandiu, recebendo novos membros. Entre eles, dois médicos que davam apoio na compreensão das doenças orgânicas dos pacientes que eram encaminhados para os psicólogos.

O projeto precisou modificar seu funcionamento, em função da manutenção de atendimentos de longa duração e da necessidade de adequar os fluxos internos na Clínica do Instituto Sedes Sapientiae. Atualmente, a parceria e o trabalho entre a equipe do projeto e a clínica são mais orgânicos.

O ingresso de novos colegas respeitava - e ainda respeita - os seguintes critérios: a conclusão do curso de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae e experiência clínica. Assim, é feita uma reunião com os interessados para conversar sobre o trabalho a ser desenvolvido, e aqueles que ingressam no projeto ficam por um período de tempo na triagem.

Cada paciente que chega passa por um processo de triagem. O objetivo dessa função é, com os dados da história, do funcionamento mental e da patologia orgânica, avaliar a adequação do caso ao tratamento oferecido pelo projeto. Caso não seja indicado, é feito um encaminhamento interno para a Clínica do Instituto Sedes Sapientiae, para que a pessoa não tenha de passar novamente pelo procedimento de espera e triagem.

Os frutos do trabalho do projeto, no decorrer dos anos, expressaram-se na realização de três jornadas clínicas. A primeira, em 2005, cujos temas norteadores foram" Alternâncias entre o somático e o psíquico, Atendimento interdisciplinar em dermatologia, O estagiário na clínica do Sedes", realizado com o apoio do curso de especialização. A segunda, em 2009, "Estratégias Clínicas em Psicossomática", sendo destacado o tema do lugar do médico e o quanto a escuta psicossomática psicanalítica poderia contribuir para a sua atuação clínica. A terceira, em 2015,"Graves e agudos: modulações do sofrimento, Reflexões clínicas sobre a dor crônica, a doença de Crohn e outras desorganizações psicossomáticas", que também promoveu o lançamento de um livro, composto principalmente de casos clínicos, gestado a partir da segunda jornada.

O maior desafio dos membros do projeto sempre foi lidar com casos de alta complexidade pela gravidade das doenças físicas, bem como pela precariedade do funcionamento mental que esses pacientes apresentam. A presença da violência, desde a infância, na vida dessas pessoas é um elemento que parece estar relacionado à desorganização psicossomática. Esse cenário também afeta a equipe, sendo percebidos movimentos internos de desorganização no funcionamento do grupo, em alguns momentos. Por isso, há muitos movimentos de cuidado interno, continência e supervisão. A confiança é destacada como fundamental para enfrentar situações delicadas e superar conflitos nos processos de desorganização, organização e integração. Ocorre, então, a determinação de transformar, traduzir, inventar recursos, e é isso que vem sustentando os desdobramentos desta clínica de casos difíceis.

Nesse sentido, o desejo - ou a inspiração - da terceira jornada surgiu desse impacto nos profissionais, que puderam abordar tanto questões da contratransferência quanto questões da importância da escuta no enquadre interno e da sustentação grupal.

Como desdobramento dessas discussões grupais, pensou-se na criação do projeto de aspirantes. Na época, com doze integrantes, a equipe percebeu que sempre que algum novo membro entrava, ele ficava meio perdido, desamparado, e acabava podendo desorganizar o grupo por inteiro. Nesse sentido, o novo integrante é acompanhado, durante um semestre, por um dos membros do grupo, com conversas de alinhamento ao pensamento clínico.

Atualmente, os desafios que o projeto precisa enfrentar dizem respeito ao aumento de vagas necessárias em sua estrutura para que um número maior de pacientes seja atendido. Dentre as possibilidades, vem sendo gestada, há anos, a criação de acompanhamento em grupo, oque permitiria que um número maior de pessoas se beneficiasse, utilizando estratégias como o trabalho corporal, verbal e grupo baseado na Fotolinguagem. As novas práticas serão parte de um projeto maior de pesquisa sobre o impacto dessas modalidades de tratamento.

As triagens em grupo deverão iniciar ainda este ano para compor dois grupos terapêuticos: um grupo de Fotolinguagem e um grupo verbal, indicado para pacientes com mais recursos simbólicos.

 

 

Psicossomática e Saúde Coletiva

 

O Grupo de Saúde Coletiva foi criado em 2014, a partir da parceria entre professores, membros do Projeto de Atendimento e Pesquisa em Psicossomática Psicanalítica, alunos e ex-alunos do curso que demonstraram interesse em discutir questões ligadas à clínica no contexto institucional e da saúde coletiva.

O objetivo do grupo é promover discussões transversais sobre a clínica e a teoria da psicossomática psicanalítica no âmbito da saúde coletiva com vistas a respaldar o trabalho de profissionais que desenvolvem ações de saúde em instituições públicas e privadas.

Nos encontros discute-se a clínica interdisciplinar e institucional dos membros do grupo ou de profissionais convidados, que, ao compartilharem suas experiências clínicas, favorecem a reflexão de questões pertencentes ao campo da psicossomática psicanalítica em sua interface com a saúde coletiva. Atualmente o grupo integra o Núcleo Interfaces e tem como proposta estender o espaço de discussão para outros grupos do Instituto Sedes Sapientiae ou da comunidade, o que contribuirá para a ampliação do trabalho, integrando a clínica com práticas sociais.

 

A Fundação do Departamento

 

Os grupos até aqui descritos eram os grupos de trabalho existentes até o dia 17 de maio de 2017, data de fundação do departamento, na qual referendamos o contrato regimentar. Durante a entrevista realizada com um membro da Comissão da Fundação do Departamento, perceberam-se a angústia que esta clínica, com pacientes que apresentam características diferentes dos quadros neuróticos clássicos, desperta nos profissionais e o caráter indispensável de um lugar de conhecimento e troca para compreendê-la e dar-lhe suporte. Dessa forma, o departamento ocupa esse lugar, ou seja, é um elo que permite que a troca continue existindo, sendo amparado por importantes parcerias que já eram e continuam sendo formadas, mostrando a força do grupo. Sua atuação é fundamental como suporte e sustentação, seja para enfrentar o trabalho clínico, seja na perpetuação e ampliação do departamento. 

Com os membros fundadores, Cassiana Gomes Clemente, Denise Arisa dos Santos Dias, Helen Christina D. Spanopoulos, Lédice Lino de Oliveira, Lucinéia Nicola Marques, Heloísa Antiori, Miriam Simione Menezes, Noemi Evelina W. Wahrhaftig, Rafael Piccolo Feliciano, Rosa Junqueira, Vanessa Ramos Lazzaratto, e a comunidade de alunos, ex-alunos, professores e colaboradores, fez-se mais do que firmar um contrato regimentar. Naquele momento histórico da psicossomática psicanalítica brasileira, consolidou-se o contrato narcísico que vinha sendo instituído ao longo da história do departamento (KAËS, 2000).

Segundo este contrato, a concepção psíquica da criança acontece antes mesmo da sua concepção biológica. O mesmo ocorreu com a concepção do departamento, conforme mostramos no presente texto memorial. Assim, o contrato narcísico não surgiu com a fundação do departamento, mas foi sendo desenvolvido durante a sua história. O contrato regimentar apoiou-se no contrato narcísico que já vinha sendo pactuado entre os fundadores.

Cabe aqui diferenciar o contrato narcísico do pacto narcísico na obra de Kaës. Para ele, o pacto narcísico implica numa coincidência narcísica perfeita, alienante, em que os membros não suportam as diferenças no grupo e tampouco o espaço reflexivo e crítico. O contrato narcísico é, em oposição, constitutivo e permite a continuidade entre gerações, respeitando as diferenças e promovendo a mudança e as transformações.

Ainda segundo o contrato narcísico, na concepção de Käes, todo sujeito chega ao mundo da sociedade e da sucessão das gerações com a missão de garantir a continuidade do conjunto ao qual pertence. Em troca, o conjunto investe narcisicamente o sujeito, atribuindo-lhe um lugar específico no grupo, indicado por um discurso carregado de ideais e valores que transmite a cultura e deve ser assumido pelo sujeito. Esse discurso e esse investimento narcísico o enlaçam aos ancestrais fundadores, no caso das associações psicanalíticas, apoiados em Sigmund Freud.

Essa remuneração narcísica de pertença acontece nas associações de psicanalistas, e as diferencia de instituições públicas ou privadas, onde a remuneração é salarial. Esta distinção é importante, porque especifica as associações de psicanalistas e constitui fator determinante das cisões institucionais tão comuns em nosso meio.

Ao se assumirem signatários desse contrato, o grupo de professores dos cursos existentes e o grupo do Projeto de Atendimento e Pesquisa em Psicossomática Psicanalítica se mostraram disponíveis a se engajar de uma forma mais contínua na formação de novas gerações, não apenas de alunos que frequentam e concluem os cursos e atendimentos propostos, mas de colegas que possam ampliar e diversificar as tarefas dentro do departamento. Isso exige um trabalho psíquico de reinscrição na genealogia, que passa pela identificação com os ancestrais fundadores. Analogamente falando, equivale ao processo de identificação com os pais, necessário para que alguém se torne mãe ou pai. Essa demanda de trabalho psíquico nos impôs um tempo de gestação e de maturação necessário para a fundação do departamento e a respectiva formação das alianças inconscientes que darão sustentação aos vínculos intersubjetivos.

 

Nossa Fraternidade

 

A fundação do departamento contou com a adesão inicial de 50 membros. Discorreremos, de forma sucinta, sobre os aspectos sócio-demográfico-educativos mais relevantes dessa experiência coletiva.

Os dados sociodemográficos foram baseados nas respostas de 29 formulários. Em relação ao gênero, 25 (86%) declararam-se feminino e 4 (14%) declararam-se masculino; ressaltamos que havia alternativa para outras identidades. Em relação à raça-etnia, 25 (86%) declararam-se brancos, 2 pardos (7%), 1 amarelo (3%), 1 indígena (3%).Em relação à faixa etária, 11 (38%) estão entre 61-70 anos, 7 (24%) entre 51-60 anos, 5 (17%) entre 41-50 anos, 4 (14%) entre 31-40 anos, 1(3%) entre 21-30 anos; uma pessoa não declarou.

No quesito formação, dos 29 respondentes, 24 declararam ser formados em Psicologia e 5 declararam ser (1) enfermeira, (1) fisioterapeuta, (2) médico, (1) educadora física; 6 pessoas declararam ter duas graduações, além de Psicologia: (1) Administração de Empresas, (1) Letras e (3) Pedagogia. Dessas 34 graduações, 5 foram realizadas em instituições públicas e 29 em instituições privadas, sendo 33 no estado de São Paulo e 1 fora do país.

Em nível de pós-graduação lato sensu, 18 declararam ter formação, sendo que destas,9 (50%) realizaram uma segunda especialização; já em nível stricto sensu, 9 realizaram mestrado e 6 doutorado. Em nível de pós-graduação lato sensu,7 foram realizadas em instituições públicas brasileiras e uma nos Estados Unidos. No stricto sensu, 7 foram públicas e uma fora do país (França).

Dos 29 respondentes, 26 fizeram a formação em Psicossomática Psicanalítica no Instituto Sedes Sapientiae, sendo que 14 (48%) finalizaram entre 2014-2018, 1 (3%) entre 2009-2013, 4 (14%) entre 2004-2008, 6 (21%) entre 1999-2003, uma pessoa antes de 1999.

Em relação à localização geográfica, 24 (83%) moram na cidade de São Paulo, 100% mora e trabalha no estado de São Paulo.

A atuação profissional se dividiu em terapeuta (área clínica), educador e gestor, podendo haver sobreposição de ações, bem como a discriminação entre público e privado. Dos respondentes, 27 (93%) atuam na clínica, sendo 4 (14%) em instituição pública; 13 declararam ser educadores, sendo 2 (7%) em instituição pública, e na área de gestão apenas 2 (6%) declararam atuar, ambos em instituição privada.

Sobre a historicização do percurso da psicossomática e seus pioneiros no Brasil, articulados à estruturação do departamento, observamos uma trajetória relacionada à pesquisa, ensino e clínica, ampliando o fazer psicanalítico.

 

Sobre a Organização do Departamento

 

À medida que a construção de uma nova identidade se iniciou, a organização das ações assumiu a configuração de Núcleos de Trabalho, seguindo um caráter horizontal, a saber: Núcleo de Coordenação Geral, que medeia e articula os núcleos que compõem o departamento; além do Núcleo de Cursos, do Núcleo de Projeto de Atendimento e Pesquisa em Psicossomática Psicanalítica da Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae e do grupo Psicossomática e Saúde Coletiva, já existentes enquanto grupos de trabalho, foram criados o Núcleo de Publicações e Pesquisa, o Núcleo de Comunicação e Eventos, o Núcleo de Administração e Finanças, o Núcleo de Interfaces e a Comissão de Admissão.

 

Núcleo de Publicações e Pesquisa

 

O Núcleo de Publicações e Pesquisa assumiu, como tarefa primeira, a organização de uma Revista de Psicossomática Psicanalítica, com vistas a divulgar os trabalhos de diferentes atores do cenário de cuidado e atenção à saúde, cujo eixo orientador se faz em torno dos conceitos da psicanálise e suas interfacescom o campo da Medicina, dentre outros. Excelente modo de documentar sua produção, propiciando interlocução com os colegas de outros grupos e instituições que trabalham direta ou indiretamente com essa clínica, que vem sendo amplamente discutida: a dos sintomas que se apresentam no corpo, seja pela somatização, seja na relação do sujeito com o corpo, pela via da ação. Intercâmbios que já acontecem nos simpósios e nos livros produzidos poderão se dar de um outro modo através da revista. Com o apoio de um departamento, a tarefa torna-se mais plural e sustentada por uma equipe de trabalho.

A revista será mais um dispositivo, um tear criado para entrelaçar os fios e criar tecidos que sustentem nosso delicado fazer clínico.

 

Núcleo de Comunicação e Eventos

 

A função deste núcleo é organizar eventos internos e externos e criar estratégias de divulgação dos eventos relacionados ao Departamento de Psicossomática Psicanalítica. Anteriormente à sua formação, já existiam alguns eventos relacionados ao curso, e estes se mantêm, mas também foram criados novos tipos de eventos, com o objetivo de compartilhar o saber, estabelecer trocas e disseminar o conhecimento adquirido sobre esta clínica. 

Destacam-se um grande investimento no departamento e dedicação por parte dos membros para que ocorra um bom trabalho, e o quão importante é a parceria entre os núcleos. Mantém-se muita proximidade principalmente com o núcleo financeiro para a realização dos eventos, e também com pessoas de diversos núcleos que surgem como apoio, possibilitando um trabalho de equipe, que dá sustentação ao núcleo.

 

Núcleo de Administração e Finanças

 

O Núcleo de Administração e Finanças é uma instância que se responsabiliza pelo funcionamento administrativo e financeiro, pela gestão dos recursos, pela elaboração de controles e relatórios do departamento, solicitados pela Direção do Instituto Sedes Sapientiae.

Na prática, é um núcleo mais operacional, que organiza a filiação dos membros e a conferência de gastos dos demais núcleos. É responsávell por fazer algumas comunicações mais administrativas, como também por fazer a interface entre a secretaria e a tesouraria do instituto.

 

Núcleo de Interfaces

 

O Núcleo de Interfaces é parte integrante do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae. É uma instância que promove grupos de estudos e grupos de discussões relacionados à Psicossomática Psicanalítica, à Psicossomática Psicanalítica e Saúde Coletiva, à Psicossomática Psicanalítica e Clínica Contemporânea e outros afins.

 

Comissão de Admissão

 

A Comissão de Admissão é uma comissão ad hoc, formada para validar a admissão de novos membros interessados em participar das atividades do departamento. Essa comissão é formada sempre que houver demanda e deve ser composta por cinco membros. Uma das tarefas da comissão é avaliar se o candidato tem perfil para compor o departamento, quer dizer, que "tenha um percurso profissional relacionado à área", segundo o regimento do departamento. Ainda segundo o regimento, esses candidatos devem apresentar seu curriculum vitae e uma carta de intenção que descreva suas motivações para pertencer ao departamento. Se aprovado, o candidato deve passar por uma entrevista com a Comissão de Admissão.

Nesse sentido, o departamento tem recebido pedidos de adesão de alunos e colegas da área com diferentes tipos de formação, e a questão de como contemplar essas diferenças, seguindo o mesmo regimento para todos, consiste num dos desafios que a comissão enfrenta. Um dos modos de enfrentamento desse desafio é o estabelecimento de critérios de inclusão de novos membros, incluindo um roteiro para pensar qual contribuição os candidatos podem oferecer aos trabalhos que já são realizados no departamento ou que novos projetos podem propor.

Assim, outra função de que a Comissão de Admissão se viu incumbida em um primeiro momento, após a aprovação do membro, é como ajudá-lo a integrar alguma das atividades do departamento. Nesse sentido, retomamos o conceito de contrato narcísico definido por Käes. Para além da questão burocrática de que o novo membro constará do corpo de membros pagantes do departamento, a instituição deve acolher sua chegada, seus desejos e facilitar a construção de um projeto de trabalho no mesmo. Assim como a família faz com o bebê que passa a integrar o grupo familiar, o departamento empresta seu nome, oferece espaços de diálogo e reflexão do fazer psicanalítico em troca de projetos realizados pelo novo membro que perpetuem e, quem sabe, transformem os valores e saberes do departamento. A princípio, a comissão definiu, junto à Coordenação Geral, que o novo membro do departamento seria então, após o processo seletivo, encaminhado para o Núcleo de Interfaces, onde poderia encontrar um espaço de acolhimento para seus projetos.

 

O Devir

 Nesse movimento, a fundação indica e, a seguir, impõe um ideal, ancoragem necessária para sustentar a realização de um projeto. Portanto, para instaurar na temporalidade um futuro. (KAËS, 2011, p. 91)

 

O tempo agora é o de germinar. Ideias e novas tarefas surgirão transformadas no encontro com a realidade e com o devir, na medida em que novas gerações, apoiadas nas anteriores, desfrutarão da liberdade de criação.

E assim seguimos, dando suporte às dúvidas e às incertezas e construindo um ambiente rico de sentidos para a criatividade, a fantasia e as simbolizações próprias aos processos de transmissão e transformação subjetiva da herança. Um projeto de devir.


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ano - Nº 1 - 2019
publicação: 15-10-2019
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Autor(es)
• Cristiane Curi Abud
Psicanalista,professora e membro do Departamento de Psicossomática e do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Doutora em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). Escreveu o livro Dores e odores, distúrbios e destinos do olfato, São Paulo, Via Lettera, 2009. É coautora do livro Psicologia médica – Abordagem integral do processo saúde-doença, Porto Alegre, Artmed, 2012, e organizadora dos livros A subjetividade nos grupos e instituições, Lisboa, Chiado, 2015, e O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise, São Paulo, Perspectiva, 2017.
E-mail: criscabud@uol.com.br

• Denise Arisa dos Santos Dias
Psicóloga, psicanalista, membro fundadora do Departamento de Psicossomática Psicanalítica, membro do Departamento de Psicanálise com Crianças, ambos do Instituto Sedes Sapientiae. Especialista em Psicologia Clínica pelo Conselho Regional de Psicologia. Especialista em Psicossomática Psicanalíticae em Psicanálise com Crianças, ambos pelo Instituto Sedes Sapientiae. Atua na intervenção precoce na relação pais/bebês.
E-mail: denisearisa@uol.com.br

• Fabio Amadelli
Psicólogo, membro do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae. Especialista em Psicologia Clínica pelo Conselho Regional de Psicologia;especialista em Psicossomática pelo Instituto Sedes Sapientiae.
E-mail: amadellipsi@yahoo.com.br

• Lais Sousa Pires
Psicóloga, membro do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae. Especialista em Psicologia Clínica pelo Conselho Regional de Psicologia;especialista em Psicossomática pelo Instituto Sedes Sapientiae. Psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae.
E-mail: la.sousapsi@gmail.com

• Lédice Lino de Oliveira
Psicóloga clínica, membro do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae. Mestre em Ciências da Saúde pela Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo. Docente do curso de Graduação em Psicologia da Universidade Paulista – UNIP. Aprimorada em Psicologia Hospitalar no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Especialista em Psicossomática Psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae.
E-mail: lediceoliveira@yahoo.com.br

• Maria Elisa Pessoa Labaki
Psicóloga, psicanalista e membro do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, onde é professora-supervisora. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Autora do livro Morte, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2001 (col. Clínica Psicanalítica); organizadora de Psicossoma V: integração, desintegração e limites, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2013; Psicanálise e Psicossomática, casos clínicos, construções, São Paulo, Escuta, 2014; autora de artigos publicados em revistas especializadas. Membro do Corpo Editorial de Percurso – Revista de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, de 2004 a 2012.
E-mail: mpessoa@uol.com.br

• Silene de Lima Oliveira
Enfermeira,psicanalista e membro do Departamentode Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae. Mestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP). Especialista em Psicossomática Psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae. Pesquisadora colaboradora do Laboratório de Práticas Alternativas, Complementares e Integrativas em Saúde, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.
E-mail: silenelima1971@gmail.com

• Vanessa Ramos Lazzaratto
Psicóloga, psicanalista e membro do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae. Especialista em Psicossomática Psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae.
E-mail: vlmraz@uol.com.br

Notas
Metodologia: Para reconstruir a história do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, a equipe da revista optou por realizar uma pesquisa-ação junto aos membros; a coleta de dados foi baseada em dois instrumentos: um questionário estruturado para levantamento de dados sociodemográficos e de formação, enviado para os 50 membros inscritos, à época da pesquisa, e cinco entrevistas semiestruturadas junto aos representantes dos núcleos, bem como a utilização do material de entrevista realizado anteriormente à definição desta pesquisa, do grupo de saúde coletiva, e dados históricos de um dos professores mais antigos do curso de Especialização em Psicossomática Psicanalítica. Os participantes assinaram o TCLE. A amostra foi realizada por conveniência. As entrevistas seguiram o roteiro: Quem foram os idealizadores do curso/projeto/núcleo?; A partir de qual demanda se estruturou o curso/projeto/núcleo?; Como se deu o processo de composição do curso/projeto/núcleo?; Houve mudança na composição?; Como é a estrutura hoje?; Desafios do curso/projeto/núcleo hoje. Estas questões foram norteadoras da entrevista, que deveria ser aberta o suficiente para que o entrevistado realizasse uma narrativa subjetiva sobre o tema, e não apenas factual ou histórica. As entrevistas foram transcritas para posterior análise qualitativa. O questionário foi baseado no formulário Google, enviado aos 50 membros, por e-mail, em três chamadas, sendo ainda oferecida cópia impressa, disponível para acesso na secretaria de cursos, caso alguém tivesse qualquer dificuldade de lidar com esta ferramenta. As perguntas eram relativas ao gênero, raça, faixa etária, formação escolar e acadêmica, localização geográfica e atuação profissional. O formulário continha duas perguntas por extenso, a primeira "Narre a sua trajetória na Psicossomática Psicanalítica até a participação como membro no Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae"; a última "Escreva uma palavra que defina sua experiência atual no departamento".
Referências bibliográficas

ANZIEU, Didier. O grupo e o inconsciente: o imaginário grupal.São Paulo: Casa do Psicólogo, 1993.

 

BLEGER, José. Temas de psicologia, entrevistas e grupos.São Paulo: Martins Fontes, 1980.

 

KAËS, René. O luto dos fundadores nas instituições: trabalho do originário e passagem de geração. In: NICOLLE, O.;KAËS, R.A instituição como herança: mitos de fundação, transmissões, transformações. São Paulo: Ideias &Letras, 2011.

 

KAËS, René. Las teorías psicoanaliticasdel grupo. Buenos Aires: Amorrortu, 2000.

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