ARTIGOS

Particularidades do enquadre e da técnica na clínica psicossomática


Specificities of the setting and technique in the psychosomatic
Diana Tabacof

RESUMO
Os remanejamentos do enquadre e da técnica psicanalítica próprios ao trabalho com pacientes somáticos são aqui abordados e articulados a um caso clínico. A noção de organização psicossomática é introduzida, e os movimentos de desorganização e de reorganização do paciente são contemplados. Em uma perspectiva teórico-clínica, é descrito o processo através do qual as excitações de origem somática se transformam em energia psíquica pulsional, sendo o papel do objeto central neste processo. O trabalho do psicanalista-psicossomaticista é concebido no seu duplo registro, o de para-excitação e o de libidinização.

Palavras-chave: Enquadre, Técnica, Organização psicossomática, Para-excitação, Libidinização.

ABSTRACT
The adjustments of the psychoanalytic technique and the setting in the treatment of somatic patients are discussed and related to a clinical case. The notion of psychosomatic organization is introduced and the patient’s disorganization-reorganization movements are contemplated. From a theoretical and clinical perspective, the process through which the somatic excitations are transformed into psychic pulsional energy is described. The object plays a main role throughout this process. The work of the psychoanalyst-psychosomaticist is conceived in its double level, that of “protective shield” and that of “libidinization”.

Keywords: Setting, Technique, Psychosomatic organization, Protective shield, Libidinization.


Considerações teóricas

Pacientes que sofrem de patologias orgânicas raramente procuram um psicanalista de modo espontâneo. Frequentemente, chegam aos consultórios devido a um sofrimento que se manifesta na esfera psicoafetiva. Ainda que as expressões somáticas façam parte da psicopatologia de modo geral, infiltrando-se na clínica por meio de sintomas de origens diversas (conversivos, hipocondríacos, psicóticos, acidentais etc.), foi necessário um contexto específico para que a abordagem psicanalítica dos pacientes portadores de patologias orgânicas se desenvolvesse.

A psicossomática psicanalítica da Escola de Paris nasceu do encontro entre um grupo de psicanalistas reunidos em torno de Pierre Marty, nos anos 1960, e pacientes somáticos encaminhados por médicos de diversos serviços hospitalares. Uma nova clínica se apresentava aos psicanalistas, dando origem a novas problemáticas teórico-clínicas, as quais interrogavam a abordagem clássica. A realidade clínica impõe suas regras. Sabemos que foi Emmy von N. que sugeriu a Freud a técnica psicanalítica, interpelando-o ao dizer: "Cale-se, doutor. Escute-me!".

O questionamento do método analítico diante dos impasses clínicos faz parte da história da psicanálise. Ao final da Primeira Guerra Mundial, o problema do traumatismo e das neuroses graves impôs a necessidade de ajustes técnicos, os psicanalistas tendo sido solicitados, inclusive, à cabeceira dos doentes nos hospitais. O artigo de Freud "Caminhos da terapia psicanalítica", publicado em 1919, tornou-se referência, e o cito aqui: "Muito provavelmente também seremos obrigados, ao utilizarmos a nossa terapia com as massas, a fundir o ouro puro da análise em grande medida com o cobre do sugestionamento direto [...]" (FREUD, 2013 [1919], p. 202). O texto encerra-se afirmando que "seja de que forma essa psicoterapia [...] se configure [...] as suas partes mais eficazes e mais importantes certamente serão aquelas emprestadas da Psicanálise propriamente dita, livre desta ou daquela tendência" (FREUD, 2013 [1919], p. 202).

Em 1922, Sándor Ferenczi e Otto Rank elaboraram um balanço de suas práticas clínicas em uma obra chamada Perspectivas da psicanálise, na qual denunciavam a rigidez das regras do enquadre diante de pacientes que não as toleravam: "quando a análise não funciona", ressaltaram, "nos consolamos dizendo que o paciente é ‘muito narcísico’, o que dissimula, na verdade, uma insuficiência técnica" (FERENCZI e RANK, 1994 [1922], p. 47).

Ferenczi, cuja produção no domínio técnico é extensa, colocou em perspectiva a ideia de uma "economia do sofrimento", afirmando em obra de 1927 que aquilo que poderia ser proposto aos pacientes neuróticos não poderia ser imposto aos pacientes com carências narcísicas graves, sob o risco de colocá-los em perigo. Seria, então, necessário "oscilar entre o princípio da frustração e o princípio do laisser faire" (FERENCZI, 1982 [1927], p. 91).

O título do texto de Freud de 1919 foi retomado por André Green e Françoise Coblence em 2006, em um volume coletivo chamado Novos caminhos da terapia psicanalítica: o dentro e o fora (GREEN e COBLENCE, 2006). Voltado às questões colocadas pelas organizações ditas não neuróticas, foram contempladas nos diversos artigos as práticas clínicas dos estados limites, dos distúrbios alimentares, das adições, das passagens ao ato, da criminologia e da somatização.

No prefácio da nova tradução francesa do volume A técnica psicanalítica (FREUD, 2013 [1904/1919]), Christophe Dejours ressaltou, a respeito dos ajustes técnicos e da evolução da clínica, que "a fronteira entre a infração inteligente e a deriva inaceitável não é fácil de ser estabelecida". O autor indica que as infrações podem ser ultrapassadas sob a condição de que, anteriormente, a regra tenha sido conhecida, compreendida e aceita: "A capacidade de explicitar e de justificar o distanciamento da regra não a destrói, mas permite, pelo contrário, manter a referência comum (ou seja, fazê-la evoluir coletivamente)" (DEJOURS, 2013, p. 12-13).

Retomando a história da Escola de Paris de psicossomática, notamos que o contato dos analistas com pacientes somáticos levou ao desenvolvimento de uma técnica de entrevista original, chamada investigação psicossomática (MARTY, M’UZAN e DAVID, 1963), e a uma concepção singular do enquadre, da técnica e dos processos terapêuticos. A investigação psicossomática partiu da "anamnese associativa" de Hélène Deutsch, mas modificações foram agregadas pouco a pouco, visto que justamente a espontaneidade associativa não parecia garantida para esses pacientes. O "analista investigador" deveria, então, fazer o papel de catalisador dos processos psíquicos do paciente, com o objetivo de favorecer o desdobramento de sua história e, a fortiori, de um processo terapêutico.

Descobria-se, assim, no âmago da experiência clínica, a predominância de um discurso factual e descritivo, assim como o forte impacto da atualidade e da realidade objetiva na vida desses pacientes. Os mecanismos de defesa neuróticos habituais (a projeção, o evitamento, a denegação, a sublimação etc.) pareciam mais ou menos ausentes ou ineficazes, deixando esses pacientes desmunidos diante dos conflitos pulsionais não elaborados e não formulados, associados às zonas psíquicas "congeladas", visivelmente vinculadas a experiências traumáticas passadas.

A ação de mecanismos de defesa mais drásticos, como a repressão e a clivagem, revelava-se mais operante nessa configuração. Uma modalidade de defesa antitraumática original foi então descoberta e descrita como funcionamento operatório.

A partir dessas novas "chaves de leitura", o psicanalista se situava face ao que foi concebido como a organização psicossomática do paciente, constituída, simultaneamente, de mecanismos psíquicos, de atividades sensório-motoras e de expressões funcionais fisiológicas. Dessa forma, não apenas as "associações livres" do paciente interessavam ao analista, mas toda a gama de sua "expressão associativa". Para além das associações verbais, o campo da relação analítica se abria às expressões mímicas, gestuais, prosódicas etc., e também às suas expressões somáticas: álgicas, respiratórias, musculares, entre outras. Nessa esteira, César Botella (2014) propôs a noção de "atenção flutuante perceptiva", na qual a escuta e a visão se tornam modalidades complementares de trabalho do analista.

A existência de uma energia comum (MARTY, 1980) às funções psíquicas e às funções somáticas foi então destacada, e um princípio de equivalência energética entre esses diferentes registros expressivos foi formulado. Segundo Claude Smadja (2008), esse fundamento comum seria o da energia pulsional, substrato da economia psicossomática individual. As transformações qualitativas da energia pulsional conduziriam a toda uma gama de expressões clínicas, desde as mais psíquicas, ditas mentalizadas, às mais somáticas, ditas desmentalizadas.

A organização psicossomática individual seria, portanto, tributária das capacidades de cada um em transformar as massas de excitações provenientes das fontes somáticas (as reações instintuais-fisiológicas, hormonais, metabólicas etc.) em formações psíquicas (os afetos e as representações, que sustentam o pensamento, a simbolização, as fantasias, os sonhos etc.).

Nessa perspectiva, o primeiro agente de transformação é o objeto exterior; podemos concebê-lo então como o revelador da pulsão (GREEN, 1995 [1984]). É assim que, por intermédio do objeto e dos processos transformacionais, a partir do corpo biológico, o corpo erótico ou pulsional advirá. Para a Escola de Paris, é no âmbito da função materna que o objeto exerce seu papel. No exercício da sua função materna, o analista-psicossomaticista contribuirá, tal como os objetos dos primórdios da vida, para os processos de transformação dos movimentos pulsionais de seu paciente.

Sequências clínicas

Luc consultou o Instituto de Psicossomática (IPSO), seguindo a prescrição de um médico, devido às consequências de um acidente vascular cerebral sofrido dois anos antes. Tratava-se de um engenheiro sexagenário, que havia sido muito esportivo e extremamente engajado em seu trabalho. Luc havia recuperado sua autonomia, mas sentia importantes dores musculares e perturbações do sono. Seu AVC ocorreu pouco tempo após uma traição de seu amigo e sócio, que havia secretamente desviado uma soma importante do caixa da empresa para investir em negócios pessoais. Segue o desenrolar de uma de suas sessões, após cerca de um ano de psicoterapia:

Luc: "Finalmente fui ver Albert (antigo sócio). Assinamos os documentos e fui embora imediatamente. Eu estava calmo. Levei os documentos diretamente ao advogado. Voilà. Resolvido."

Luc falava de forma fragmentada, rápida, como se quisesse se livrar do assunto e, sobretudo, dos afetos que poderiam estar ligados ao que dizia. Eu intervim quanto ao esforço de controle evocado por ele ("Eu estava calmo"), mecanismo de defesa de melhor qualidade se comparado à repressão massiva dos afetos observada no início de seu tratamento. 

"Você teve medo de perder sua calma?", perguntei, na intenção de clarificação desse processo já trabalhado longamente com ele.

Luc: "Ah, sim, mas... voilà, está resolvido, um arquivo a menos na pilha. Isso me ocupou a cabeça, mas no dia seguinte já não pensava mais a respeito."

Temos aqui uma clara demonstração do funcionamento de Luc: ele indicava o aumento considerável do seu nível de angústia ("isso me ocupou a cabeça"), o que foi, em seguida, barrado sem qualquer elaboração ("já não pensava mais a respeito"), situação que se prolongou durante a sessão. Luc prosseguiu de modo operatório, contando-me eventos de sua semana. Eu percebi, no entanto, que ele não encontrava uma posição confortável na poltrona, se mexia, fazia caretas. Assim que ele fez uma pausa, intervim:

"Como você está se sentindo agora?"

Ele franziu as sobrancelhas e me disse: "Não estou nada bem, dormi muito mal hoje à noite, neste fim de semana eu tentei serrar os galhos de uma árvore, não foi fácil... agora eu estou pagando por isto".

Luc, que nunca suportou a posição passiva, havia reencontrado, desde o término de sua longa convalescença e de seu período de repouso forçado, sua modalidade preferencial para o tratamento das excitações "inelaboráveis": a descarga por meio da atividade física e do comportamento. No dia seguinte do episódio evocado, pegou suas ferramentas e decidiu trabalhar no seu jardim, desempenhando esforços físicos enormes.

Essa solução comportamental parecia ocupar o lugar de uma solução psíquica de tipo regressivo ou depressivo, por exemplo, a qual poderia favorecer o trabalho de luto que o encerramento definitivo de sua empresa demandava. Foi descartada, ainda, uma possível reação emocional (de irritação, nervosismo ou raiva), a qual implicaria, eventualmente, em representações mentais e afetos dirigidos a seu ex-sócio. "Agora eu estou pagando", ele me disse, o que talvez indicasse a presença de um masoquismo moral ou de um sentimento de culpabilidade inconsciente que encontrava alívio por meio de suas dores, ligadas a sofrimentos psíquicos que eu não tinha nenhuma possibilidade de explorar naquele momento do trabalho.

"Talvez você pudesse tentar se apoiar um pouco melhor na poltrona" disse a ele, apoiando-me, ao mesmo tempo, na minha própria poltrona. Luc tentou se colocar em uma posição mais relaxada. Sua respiração se aprofundou. Eu mantive meu olhar sobre ele. Seguiram-se alguns momentos de silêncio. A serra, os galhos das árvores caindo atravessaram meu pensamento: uma imagem de mutilação de membros do corpo se formou. Eu optei por não dizer nada. A regressão formal do meu pensamento e a imagem que se produziu em mim indicavam o teor aterrorizante da angústia de castração de Luc. O convite à ancoragem em seu eu corporal visava mais ao reforço de seu envelope psíquico que ao acesso de seus conteúdos propriamente ditos.

Nessa sequência clínica, são claros os desdobramentos da função materna do psicanalista. Entre seus componentes principais estariam, segundo Marty:

[...] a apreciação afetiva das necessidades e dos desejos [do paciente] a partir de todos os sinais percebidos graças a uma identificação profunda com ele; [e] o exercício de uma regulação dos tempos e dos modos de intervenção (ou não intervenção), ao nível das múltiplas modalidades de comunicação [verbais, não verbais ou infraverbais]. (MARTY, 1980, p. 37)

 

Essa "identificação profunda" finca suas raízes em uma identificação sensório-motora primária, que constitui "a base da interiorização sobre a qual se edifica uma parte importante da atividade psíquica" (MARTY e FAIN, 1955).

Ao me oferecer como espelho e realizar o movimento simétrico daquele que propunha a Luc, um movimento de identificação mimética era solicitado. Essa abordagem se apoia na minha experiência com a psicoterapia psicanalítica corporal, dispositivo geralmente praticado com o paciente deitado, sob o olhar do analista sentado ao seu lado, mantendo em aberto o campo visual (DECHAUD-FERBUS e ROUX, 1993). Nesse enquadre, os apoios do corpo do paciente sobre a superfície do divã (no caso da psicoterapia face a face, a superfície da poltrona) são utilizados como uma metáfora da relação de apoio ao terapeuta, fazendo da superfície de contato um objeto transicional. O olhar é um operador essencial desse enquadre, pois, ao ver-se "através do olhar do analista" (DECHAUD-FERBUS e ROUX, 1993), o paciente poderá, pouco a pouco, dirigir seu olhar a si mesmo, em um movimento de reflexividade que consolida seu narcisismo. A partir das trocas perceptivas, dos diálogos tônico-emocionais e de sua ligação ao sistema representacional (tanto no nível dos representantes-representações quanto dos representantes-afeto), novas condições de integração se oferecem ao paciente no âmago de sua organização psicossomática. Nesse setting, uma diminuição gradual das trocas visuais recíprocas vai ocorrer, até que o paciente possa abandonar a necessidade de "controle" do objeto (o analista), em um movimento de interiorização progressiva. Isso poderá favorecer, ulteriormente, a instalação do enquadre analítico clássico.

A noção de relação ou transferência de base introduzida por Catherine Parat (1982) está presente na modalidade de investimento transfero-contratransferencial que aqui descrevemos. Visando ao apoio narcísico do paciente, necessário para sustentar seu trabalho psíquico, o analista se oferece como um suporte "real". Pode-se dizer que "seu corpo faz parte do enquadre" (DEJOURS, 1993) e que, frequentemente, é a pessoa do analista que é investida. A ausência de imagos bem construídas e de capacidades projetivas nesses pacientes limitaria o movimento transferencial clássico. Derivada das primeiras vinculações, a transferência de base descrita por Parat (1982) teria sua fundação na corrente tenra e nas pulsões de autoconservação. A dimensão terapêutica que ela supõe seria anterior à analisabilidade (e uma condição para esta última), pois uma relação confiável com o objeto é necessária para que as transferências eróticas e agressivas não sejam fontes de efração e possam ser ligadas pulsionalmente e integradas no funcionamento psíquico do paciente. Os movimentos de sexualização/dessexualização se inscrevem no desenrolar desse processo, com seu potencial sublimatório.

Não há função materna inocente, declara Michel Fain em seus trabalhos com Denise Braunschweig (1975). Em seus desenvolvimentos sobre a censura da amante, a sexualidade da mãe (do objeto primário adulto, de modo geral) é ressaltada e um outro estrato identificatório entra em cena: o da identificação inconsciente aos conteúdos eróticos maternos, também chamada de identificação histérica primária. Nos casos estruturantes, trata-se de uma identificação aos dois parceiros de uma cena da qual a criança é excluída, formada pelo objeto e pelo seu objeto de desejo (o objeto do objeto, o amante, pai da criança ou outro vetor do erotismo adulto). Uma estrutura triangular permitiria, então, que os investimentos eróticos se tornassem toleráveis, tanto no plano econômico quanto psicodinâmico, pois eles passariam pelo filtro de uma censura. Isso seria veiculado por uma ameaça, a da castração, que está na origem da construção do supereu, organizador psíquico essencial.

Voltemos ao ponto da sessão de Luc no qual paramos. Ainda sobre suas dores, perguntei:

"O que você poderia fazer para se sentir melhor?"

"Precisaria voltar a frequentar minha querida osteopata... para dizer a verdade, eu morro de medo: tenho a impressão de ter apenas um fiozinho na minha coluna vertebral", diz Luc, referindo-se a sua medula óssea. "Mas sei que ela toma muito cuidado, que ela vai bem devagar."

"Então! Um pouco de doçura neste mundo de brutos!", exclamei.

"Ah, sim, já que não tenho mais minha mamãezinha", disse ele, simulando um tom infantil e encenando sua condição de "menino órfão". Ele, que havia sido filho único de uma mãe depressiva e de um pai alcóolico.

Minha pergunta "O que você poderia fazer para se sentir melhor?" comportava uma dupla valência. De um lado, a de uma preocupação materna primária, visando as pulsões de autoconservação, a atenuação das tensões musculares e uma diminuição das dores do meu paciente; mas também aquela da ordem do investimento libidinal, podendo conter um alto potencial erógeno, mobilizando as pulsões parciais e os autoerotismos (a ideia de "fazer bem a si próprio" pode se associar diretamente aos prazeres sexuais).

Luc me respondeu evocando sua "querida osteopata", dirigindo, assim, o movimento regressivo que se estabelecia entre nós a uma figura exterior, operando uma transferência lateral muito bem-vinda nesse tipo de tratamento. Isso favorece um fracionamento e uma redução das cargas eróticas presentes, permitindo que as representações ligadas ao "deixar-se levar nos braços do objeto" se inscrevam num movimento de sexualização-dessexualização.

Minha utilização de uma frase conhecida "Um pouco de doçura neste mundo de brutos!"[2]permitia afirmar a importância do movimento presente de pulsionalização das excitações em suspenso, ligando-as a representantes de afeto ao mesmo tempo que introduzia uma instância terceira, cultural, garantindo uma distância entre nós e evitando o risco de uma sobrecarga da fantasia de sedução.

A força dramática contida na minha intervenção comportava um alto grau de condensação fantasmática, criando uma tensão entre "doçura e brutalidade", o que mobilizou a memória infantil de Luc. Ele reagiu fazendo uma ligação direta com sua história: "sim, já que não tenho mais minha mamãezinha". Escutamos aqui "sim, um pouco de doçura, vivida na relação transferencial". 

O duplo sentido parecia presente na teatralização de Luc, como se o menino existente no homem adulto diante de mim desejasse, efetivamente, obter gratificações. Um chocolate, um carinho, talvez mais? Deve-se acrescentar que o AVC havia instalado problemas de ereção em Luc, como efeito dos tratamentos e de uma série de dificuldades vividas pelo casal. Durante o período de sua convalescença, sua esposa havia reencontrado um antigo amante, potencializando o drama da traição, já muito doloroso para Luc. Nessa sequência clínica, minha intervenção de tipo psicodramática havia tido uma função disparadora. Uma "zona de sensibilidade do inconsciente" (FAIN, 1992) havia sido tocada em Luc, permitindo a convergência de temporalidades diversas e de materiais clínicos variados na direção de um ponto doloroso específico: a morte de sua mãe quando ele tinha 12 anos. Na sua dramatização, o "menininho" que se expressava era aquele que, desde a mais tenra idade, via-se dividido entre a "brutalidade" de seu pai e a "doçura" de sua mãe. Agreguemos à ideia da "doçura" materna elementos de fragilidade, masoquismo e depressão: o filho podia por vezes se refugiar em uma relação de grande proximidade com sua mãe, mas devia também, frequentemente, protegê-la da violência paterna.

No contexto traumático de sua primeira infância, Luc desenvolveu uma prematuridade do eu e uma notável hipervigilância, apoiadas principalmente em competências regidas pelo sistema percepção-consciência. Isso teria ocorrido em detrimento das produções que circulam entre os sistemas inconsciente e pré-consciente, ou seja, a vida fantasmática, a criatividade, a produção de sonhos e as diversas operações que chamamos de mentalização. Devido à fragilidade da construção do seu eu e de um supereu edípico protetor, seu desenvolvimento pulsional se encontraria "inacabado" (segundo a expressão de Fain), levando-o à constituição de uma neurose de comportamento (conforme descrita na nosografia psicossomática) e a uma busca de adaptação constante às normas coletivas, externas.

As técnicas inspiradas pelo psicodrama são frequentemente utilizadas pelos psicossomaticistas e servem como um recurso para despertar ou criar capacidades fantasmáticas nos pacientes, apoiando-se em cenários criados pelos próprios analistas, muitas vezes a partir de fenômenos contratransferenciais. Oferecendo seus próprios sistemas de sensibilidade, o analista utiliza seu funcionamento psíquico, a partir de certos elementos que capta, vê ou ouve do seu paciente, para tentar elucidar certas lacunas do funcionamento psíquico do mesmo, podendo assim mobilizar transformações econômicas notáveis.

Diante da ausência de afeto durante o relato de um evento visivelmente chocante, por exemplo, o analista pode vir a sentir o impacto daquilo que o paciente poderia ter sentido, mas neutralizou. A noção de transferência por retorno (ROUSSILLON, 2002) contempla essas situações. Pode ser útil, por vezes, perguntar ao paciente: "O que você acha que isso que você está me contando provoca em mim?". Ou, ainda: "Na sua opinião, o que uma pessoa que assiste a essa cena poderia pensar?".

Em suma, a grande dificuldade desses tratamentos encontra-se no manejo das representações e afetos que tocam as zonas traumáticas do paciente (por vezes, também, aquelas do analista, incidindo na contratransferência). O risco de vida que, por vezes, correm os pacientes somáticos impõe uma atitude muito mais cautelosa do que aquela demandada no tratamento da neurose, sobretudo no que diz respeito à proteção das defesas psíquicas, as quais, muitas vezes, devem ser preservadas. Marty formulou uma famosa recomendação, segundo a qual o tratamento dos pacientes somáticos requer a "prudência do desminador". Proceder com cautela é, portanto, necessário, utilizando aquilo que ficou conhecido como a arte da conversação.

Mesmo que o exercício da função materna implique na implementação da para-excitação para garantir uma homeostasia melhor no interior do aparelho psíquico e a redinamização das ligações entre afetos e representações, pouco a pouco o trabalho com os núcleos traumáticos também deve ser enfrentado. O confronto com o "caldeirão pulsional", tanto na vertente das pulsões agressivas quanto das pulsões sexuais, não deve ser abandonado. Em um ritmo e um nível de profundidade variáveis conforme o caso, a reconquista do corpo pulsional e a busca do sentido quanto às suas somatizações estão no horizonte desses tratamentos.

A questão do sentido da doença e o problema da confrontação com os núcleos "quentes" escondidos por trás das defesas antitraumáticas "esfriantes" (de tipo operatório, por exemplo) foram objeto de grandes discussões na evolução das ideias da Escola de Paris.

Desde os anos 1980, Dejours apontou que, para além da técnica de para-excitação, muitas vezes colocada em primeiro plano nesta clínica, uma técnica de afrontamento da violência pulsional e de sua força destrutiva seria indispensável. Isso permitiria a integração daquilo que teria permanecido por trás da barreira da clivagem, restabelecendo assim as cadeias de sentido e abrindo a via "ao desmantelamento do campo econômico em sequências dinâmicas" (DEJOURS, 1989, p. 54).

Efetivamente, as questões relativas à destrutividade e à clivagem entraram em evidência nos trabalhos da Escola de Paris, principalmente nas duas últimas décadas, sob a influência de Green e de Rosenberg. Isso trouxe consequências significativas, tanto no campo da metapsicologia quanto da abordagem clínica em psicossomática.

Voltemos à sessão de Luc.

"Sempre os mesmos horrores", disse-me ele, evocando seus pesadelos. "Eu acordo diversas vezes, me levanto, me deito novamente, aí começa tudo de novo. Mas agora penso em você, tento relaxar, digo a mim mesmo que está tudo bem, que não estou ficando louco... Esta noite eu me vi jogando Albert no chão e... (ele fez o gesto de um soco, com uma expressão facial que revelava a intensidade da violência pulsional, contra a qual ele luta)".

Eis então a brutalidade que estava em latência durante essa sessão, aquela que nós perseveramos em elaborar ao longo de todo este processo analítico. Vergonha e medo impediam Luc de confrontar o teor dessas sequências encenadas durante a noite, portadoras de uma violência sem nome, enquanto, durante o dia, apoiado em uma eficaz clivagem, ele mostrava sua face de homem civilizado. Por exemplo: na ocasião do casamento de Albert, Luc, que me dizia não se interessar por esse assunto, sonhou que entrava na igreja com uma metralhadora e dizimava Albert, sua noiva e todos aqueles que estavam no altar, inclusive o padre.

A função econômica desses pesadelos era evidente; eles descarregavam uma parte importante das massas de afetos que claramente não podiam ser descarregadas pelo ato. Essas imagens muito próximas da realidade, figuradas sem nenhuma censura, não resultavam em um trabalho do sonho eficaz. Em seu paroxismo, a intensidade dos pesadelos era por vezes vivida fisicamente, mobilizando seu sistema muscular e acordando-o no meio da noite em um sobressalto.

Pouco a pouco, no desenrolar do tratamento de Luc, a primazia do registro econômico cedeu, e a força de seus afetos alcançou uma regulação melhor e uma nova possibilidade de vetorização. No âmbito psicodinâmico, o trabalho relativo às suas relações objetais pôde avançar. Pudemos co-construir, então, "a doença anterior à sua doença", segundo a expressão de Marty.

O primeiro e mais recente estrato dessa construção dizia respeito ao episódio da traição de Albert. Ele reconheceu o mecanismo de recusa que havia permitido que "não enxergasse" as ações fraudulentas de seu sócio, "o irmão que nunca teve". A descrição de Luc do estado de sideração no qual o traumatismo o havia mergulhado, seguido de uma sensação de cansaço intenso, de perda de interesse pelas coisas, de anestesia do pensamento e, principalmente, de repressão de afetos violentos que a situação havia desencadeado, atestavam a instalação de uma depressão essencial. O fortalecimento de sua clivagem e de seus mecanismos antitraumáticos de tipo operatório, já instalados, permitiu que ele sobrevivesse psiquicamente até o momento em que este equilíbrio precário vacilasse. Um novo episódio de forte teor conflitivo (a mudança de seu ex-sócio para um país estrangeiro, conhecido como paraíso fiscal) antecedeu por pouco o acidente vascular cerebral.

O segundo estrato do trabalho com Luc dizia respeito à reconstrução das condições infantis na base de sua organização psicossomática. Nessa construção, a figura paterna ocupava claramente um lugar central. Luc assistiu e foi vítima da violência de seu pai, que voltava para casa alcoolizado, violência à qual sua mãe também era submetida. A cólera do pai se alternava com momentos de apatia, e sua presença em casa "deixava o ar irrespirável", segundo Luc.

Em tal contexto de efração traumática, podemos supor as dificuldades de organização de uma neurose infantil estruturante e de sua base edipiana. Podemos inferir que, nessa configuração, a instalação das fantasias originárias, fundamentos do psiquismo e matéria-prima das operações de simbolização, teria sido infiltrada pela destrutividade. A mensagem de censura da mãe-amante, distorcida e inoperante, traria consequências na estruturação das tópicas psíquicas e no trabalho do recalque.

A fragilidade da organização do supereu enquanto instância de ligação da destrutividade teria perturbado a evolução pulsional de Luc. Sua hostilidade contra o pai, a qual não pôde ser transformada em afetos edipianos ligados à vida (como a rivalidade, a inveja e o ciúme), permaneceu impregnada de um ódio mortífero irrepresentável, tendo como destino a recusa e a clivagem. As moções pulsionais de amor dirigidas à mãe permaneceram impregnadas de idealização e infiltradas por um clima incestuoso. Luc havia sido a esponja das angústias de uma mãe que se refugiava na cama do filho em busca de ternura, tornando impossível o trabalho de dessexualização e o recalcamento. Os lutos, tanto o de sua mãe quanto o de seu pai, permaneceram não elaborados. Sua mãe morreu de um câncer no início de sua adolescência, e seu pai, de uma infecção pulmonar quando Luc tinha cerca de 20 anos. Sem olhar para trás, Luc fez estudos brilhantes, casou-se, e o restante da história vocês conhecem.

Conclusão

As desorganizações ou regressões somáticas, passageiras ou crônicas, leves ou graves, intervêm em um contexto de superação das capacidades psíquicas de um indivíduo, diante de conflitos ou de perdas que podem acontecer na vida de todos e a qualquer momento. Quando condições favoráveis estão presentes, um movimento de reorganização e de retomada do movimento pulsional evolutivo torna-se possível. O encontro com um psicanalista psicossomaticista é uma ocasião particularmente privilegiada nesse sentido. O sofrimento somático pode então se transformar em sofrimento psíquico, instaurando um novo regime de funcionamento da organização psicossomática do paciente, acompanhado de tudo aquilo que pode haver de fecundo nisso.

Smadja introduziu a noção de trabalho de somatização (2013), segundo a qual a desorganização somática pode vir a tornar-se um "objeto psíquico", instalando um processo de reorganização e favorecendo a retomada do funcionamento mental do paciente. Nos desenvolvimentos recentes da Escola de Paris, deparamo-nos com as preocupações já introduzidas nos anos 1980 por Dejours, por meio da noção de "somatizações simbolizantes". Jacques Press, por sua vez, no livro A construção do sentido (2010), aprofundou a questão do "informe", do "resto não representado" que poderá ser representado por meio "da presença sensível do analista", construindo, assim, o sentido presente na somatização de forma embrionária.

Permanece sendo fonte de inspiração a proposição de Marty, que dizia que o trabalho do psicanalista psicossomaticista percorre um caminho que vai "da função materna à psicanálise". Não nos esqueçamos, sobretudo, que o verdadeiro operador desse trabalho será sempre o enquadre interno do analista, edificado ao longo de sua própria análise pessoal e da sua formação, que servirá como bússola nos momentos de turbulência dos movimentos transfero-contratransferenciais com seu paciente.


 


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ano - Nº 2 - 2020
publicação: 28-11-2020
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Autor(es)
• Diana Tabacof
[1]Diana Tabacof é psicóloga clínica formada pela PUC-SP; psicanalista, membro da Sociedade Psicanalítica de Paris – SPP (IPA) e didata do Instituto de Psicossomática Pierre Marty – IPSO. e-mail: ditabacof@free.fr

Notas

 

*Tradução: Pedro Marky-Sobral

[2] Trata-se de um slogan publicitário de uma marca de chocolate suíço, que obteve muito sucesso e passou a integrar a linguagem francesa corrente.    

 

Referências bibliográficas

BOTELLA, C. De l’«attention flottante» de Freud à l’«expression associative» de Marty. Revue française de psychosomatique, n. 45. Paris: PUF, 2014. p. 83-102.

BRAUNSCHWEIG, D.; FAIN, M. La nuit, le jour. Essai psychanalytique sur le fonctionnement mental. Paris: PUF, 1975.

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