ARTIGOS

Precisamos falar sobre o Guri de Nívea

Fala e transferência na psicanálise contemporânea

We need to talk about Nivea`s kid
Speech and transference in contemporary psychoanalysis
Raul França Filho

RESUMO
O presente artigo discute a ocorrência de casos-limite na adolescência, tendo como base sua incidência na clínica, por intermédio de dois casos, segundo a perspectiva de André Green e outros autores. O primeiro dos casos trata das passagens ao ato de um adolescente, a partir da análise de sua mãe, conduzida pelo autor deste trabalho. De acordo com seus relatos, na vida de cada um deles, as histórias de mãe e filho se misturam e se entrelaçam, manifestando os sintomas que se repetem de uma geração para a outra, na ocorrência de situações-limite. O segundo traz os relatos de uma adolescente sobre seus sintomas psicossomáticos, do ponto de vista do seu relacionamento com pai e mãe intrusivos.

Palavras-chave: Adolescência, Passagem ao ato, Casos-limite, Transferência, Fala.

ABSTRACT
This article discusses the occurrence of borderline cases in adolescence, based on their incidence in the clinic, through two cases, according to the perspective of André Green and other authors. The first case deals with the acting outs of a teenager, from the analysis of his mother, conducted by the author of this work. According to her reports, in the life of each of them, the stories of mother and son mix and intertwine manifesting the symptoms that are repeated from one generation to the next, in the occurrence of limit situations. The second brings the reports of a teenage girl about her psychosomatic symptoms, from the point of view of his relationship with intrusive father and mother.

Keywords: Adolescence, Acting out, Borderline, Transference, Speech.


Quando, seu moço, nasceu meu rebento

Não era o momento de ele rebentar

Já foi nascendo com cara de fome

E eu não tinha nem nome pra lhe dar

Como fui levando, não sei lhe explicar

Fui assim, levando, ele a me levar

E na sua meninice

Ele um dia me disse que chegava lá

 

Olha aí!

Ai, o meu guri, olha aí!

Olha aí!

É o meu guri e ele chega

 

Chico Buarque, "O meu guri"

 

Introdução

Junto com os primeiros anos do bebê, na constituição subjetiva, a adolescência configura-se como um importante período na vida de homens e mulheres na cultura ocidental, principalmente a partir da segunda metade do século XX, depois das duas guerras mundiais. Antes, meninos e meninas chegavam mais rapidamente à maturidade - iniciavam uma carreira, casavam-se e tinham filhos ainda jovens. Momentos de vida que aguçavam a percepção da velocidade do passar dos anos. Dora, o primeiro caso da psicanálise, por exemplo, que usualmente consideramos uma mulher madura, completou 18 anos enquanto era tratada por Freud. Morria-se mais cedo também - muitas vezes de sífilis, posto ainda não haver penicilina à época, e não de overdose, como os heróis do Cazuza, em sua canção de 1988, "Ideologia". Com o tempo, essa travessia foi ficando mais elástica, mas ainda pontuada por marcadores que iam configurando a conversão de jovens à condição de adultos.

Segundo Wagner Ranña (2019), a contemporaneidade carece de marcos (rituais) que pontuem a passagem dos adolescentes à vida adulta. Assim, o presente artigo pretende, sob a perspectiva de André Green e outros autores, discutir a pertinência de seus sintomas nessa tediosa e indiferenciada experiência de travessia, por intermédio de dois recortes clínicos, além do recurso metafórico de dois filmes e da canção de Chico Buarque em epígrafe.

O primeiro é o filme Precisamos falar sobre o Kevin, de 2011, dirigido por Lynne Ramsay, que relata a difícil vida de Eva, indissociável das questões psíquicas do filho Kevin, que, inadaptado ao convívio social, vive prensado entre sua relação imbricada com a mãe, uma mulher independente que nunca quis ser mãe, e sua indiferença ao pai - um homem frágil no exercício da paternidade. Ao longo da narrativa, Eva se evanesce e termina por manter-se viva apenas para, consumida pela culpa, seguir cuidando do filho, que sofre as consequências da tragédia que ele próprio perpetrou. Na canção de Chico Buarque, a mãe pobre relata com orgulho as façanhas do Guri que lhe traz muitos presentes, sem reconhecer que são frutos dos assaltos que o filho bandido pratica.

Faço esta introdução para falar de minha analisanda Nívea e seu filho Ivo - nomes fictícios que lhes atribuo, mas poderia também ter-lhes dado, como no filme, os nomes de Eva e Kevin.

Três mulheres com seus guris marginalizados. Três mães coladas ao destino que seus filhos lhes traçam, dos quais não conseguem se distanciar para viver suas próprias vidas. Como Eva, Nívea é discriminada pelos atos do filho. A mãe do Guri não vê o filho que tem, enquanto Nívea não gosta do que vê no filho, e Eva simplesmente não vê filho nenhum.

A mãe do Guri ama seu filho, como Nívea ama o seu. O Guri não tem pai, e o pai de Kevin é fraco como o de Ivo. O Guri é morto no fim da música, e Kevin acaba pondo fim à vida de muita gente, inclusive a do pai. Ivo, ao fim e ao cabo, faz de tudo para ter a atenção do seu.

 

I - Ivo e Nívea

Guri e Kevin nasceram homens; Ivo é transexual e nasceu Dora - mas se entende como homem, e a mãe parece não se abalar muito com isso. A questão é que, mesmo como homem, ela gostaria que seu único filho correspondesse a um ideal de pessoa diferente do que ele é.

Ivo, por quem Nívea nutre um intenso e protetor amor de mãe, tem 20 anos. Ele não quis estudar além do Ensino Fundamental, que concluiu a muito custo, e vive no limite da marginalidade; furta da família o que estiver ao seu alcance, para, supostamente, comprar a maconha que vende aos amigos e consome em escala de dependência há alguns anos.

Quando Ivo era bebê, e ainda com o nome Dora, sua mãe assumiu como verdadeira a possibilidade de seu filho padecer na vida como ela padeceu e passou a defender sua cria do mundo. Como nos versos de Chico Buarque, talvez Nívea tenha pensado que, quando seu rebento nasceu, não era o momento de ele rebentar. A trama poderia ter sido mesmo bem igual à da canção, e a história de Ivo semelhante a tantas outras de meninos pobres da periferia. Mas ele vive com sua família num bairro de classe média da cidade de São Paulo muito bem equipado de serviços e infraestrutura.

O pai de Ivo, um bem-sucedido operador do mercado financeiro, pouco participa da vida do filho - a quem deu pouca atenção tanto como Dora, quanto como Ivo. Ele sempre colocou seu trabalho em primeiro lugar e não se dava muito ao comum da vida paterna: brincar, cuidar, passear com a criança - apesar de instruído, ele não teve repertório para tanto e acreditava ter tarefas mais importantes a fazer. Quando Ivo começou a ter problemas na escola (desinteresse pelo estudo, consumo de maconha, pequenos furtos) e dar os sinais do desajuste que hoje é evidente, o pai fez como se não fosse com ele - tinha outros interesses e achava que Ivo tinha deixado de ser problema seu. Hoje, Ivo está com 20 anos, e o pai declara abertamente a Nívea não se sentir mais responsável pelo filho. Apesar disso, houve alguma proximidade entre ambos no passado e alguns espasmos recentes, mas o pai logo deixou de ser uma referência para o menino, embora Ivo ainda anseie por isso.

Nívea traz um histórico de consumo de drogas na adolescência. Seu pai, a certa altura de sua vida, também deixou de ser uma referência para ela.

Por amar tanto o filho, Nívea mistura sua história com a dele - ele um dia me disse que chegava lá, olha aí![1] Ela teme que o filho se sinta desamparado como ela - e o aninha e protege ainda mais.

Nívea vem de uma família convencional e, até por volta de seus quatro anos, tudo ia muito bem: a admiração pelo pai e a proximidade com a mãe compunham o cenário para uma boa infância.

Mas as coisas começaram a não dar certo quando a mãe descobriu que o marido tinha um filho fora do casamento, cuja idade regulava com a de Nívea. Decepcionada e deprimida, a mãe isolou-se, enquanto o pai tornou-se pequeno e distante da filha. Restou a Nívea uma infância solitária e, mais tarde, refugiar-se nas transgressões adolescentes de sua época. Quando a mãe passou a lhe faltar, o que era anteriormente uma relação de proximidade transformou-se em rivalidade.

Com os sintomas que apresenta, Nívea parece ser uma neurótica,[2] do ponto de vista da psicanálise: a maneira como ela se relaciona com homens que a tratam mal, sempre na expectativa de ser amada por um príncipe, além da identificação com o pai caído e sua rivalidade com a mãe. Todavia, minha hipótese é de que seu quadro se encaixa entre as patologias contemporâneas, no que André Green (1988) chamou de Complexo da Mãe Morta. Conforme descreve o autor, a mãe morta é uma mãe "que permanece viva, mas que está, por assim dizer, morta psiquicamente aos olhos da pequena criança de quem ela cuida" (GREEN, 1988, p. 240).

Quando sua mãe sumiu sem sair de onde estava (morreu sem ter morrido), Nívea mudou de posição; de centro das atenções, passou a filha desamparada e só - como se sua mãe estivesse de fato morta.

A eclosão do conflito deu origem a uma triangulação nefasta; o choque da mãe com o pai deixou a filha excluída e só. Como atesta Green, "Eis o sujeito preso entre uma mãe morta e um pai inacessível, seja porque este está, sobretudo, preocupado pelo estado da mãe sem socorrer o filho, seja porque deixa o par mãe-criança sair sozinho dessa situação" (GREEN, 1988, p. 248).

Nívea e Ivo estão associados pelo que lhes privam; ao tentar protegê-lo do desamparo, ela impede o filho de crescer. Colado à mãe, ele furta daqueles que levaram desta, a infância que perdeu.

A loucura a dois que Nívea e Ivo protagonizam se presta a ilustrar as questões que Hugo Mayer aborda no artigo "Passagem ao ato, clínica psicanalítica e contemporaneidade", a partir da seguinte pergunta sobre a clínica psicanalítica e as novas patologias: "Muito se tem discutido acerca da clínica com que nos defrontamos hoje em dia. É a mesma de cem anos atrás ou tem mudado?" (MAYER, 2001, p. 81).

Diante dessa discussão, o autor se coloca entre aqueles que enxergam, nos dias de hoje, as grandes estruturas clínicas (neuroses, psicoses e perversões) em convivência com quadros cuja incidência tem crescido muito nos últimos tempos, embora não sejam novidades. Entre esses estão incluídas patologias muito comuns na clínica contemporânea, como transtornos alimentares, adições e doenças psicossomáticas.

As circunstâncias da vida de Nívea a fizeram a mãe que seu filho tem. O vínculo entre ambos e suas relações familiares produziram em Ivo os sintomas que fazem dele, com sua dependência da maconha, um típico portador (como Nívea e sua mãe morta) do que Hugo Mayer denomina em seu artigo patologias atuais. Ele também nos aponta que, nesses quadros mais frequentes na atualidade, se constata, em destaque, "uma forma de atuação na qual parece funcionar uma espécie de curto-circuito entre o impulso e a ação, pulando-se o processo psíquico", além da "participação do meio familiar e social em sua gênese e em sua manutenção" (MAYER, 2001, p. 82).

 

II - Vamos então falar sobre o Ivo

Citando André Green (1999), Mayer (2001) contrapõe as psiconeuroses de transferência, cada vez mais raras, segundo ele, às estruturas não neuróticas, nome que Green dá ao conjunto de patologias-limite. Esses quadros são assim considerados por demarcarem as linhas divisórias que levam às possibilidades de representação dos conflitos psíquicos ao excesso - ocorrendo um transbordamento de tais representações em ato:

 

Trata-se de quadros que podem ser considerados limites não apenas por sua proximidade com as psicoses, mas também porque apontam as fronteiras da representabilidade de um conflito no espaço psíquico. Além desses limites aparecerá o transbordamento. (MAYER, 2001, p. 83)

 

E Ivo transborda, ao arriscar-se em seus furtos ou vender maconha aos amigos de classe média.

Levando-se em conta uma escala que vai da atuação (acting out[3]) do neurótico, que age para escapar ao recalcado, à passagem ao ato da psicose, quando a realidade psíquica se impõe com sucesso à realidade material, a maneira de agir de Ivo está muito próxima da fronteira da primeira com a segunda: "a passagem ao ato propriamente dita costuma manifestar-se quando os actings reiteradamente fracassam em sua dimensão de convocação" (MAYER, 2001, p. 92). E as convocações de Ivo têm sido claras e infrutíferas, tanto em relação ao pai, que não abre espaço para o filho em sua vida, como à mãe intrusiva, que se confunde com ele e o protege. 

Hugo Mayer (2001) caracteriza as mães intrusivas[4] como aquelas que se antecipam às necessidades dos filhos para supri-las. Elas subtraem de seus pequenos guris e gurias a possibilidade da falta, da exploração de possibilidades, da criatividade e da simbolização. Reduzem, assim, as condições necessárias para que os filhos se desenvolvam e dificultam seu crescimento.

 

[Elas] bloqueiam a possibilidade de estruturação do desejo infantil, que é o motor do desenvolvimento humano e [...] é precisamente essa falta de desejo que, no curso da infância e da adolescência, ficará registrada como vivência de tédio [...] antes de se exteriorizar como atuações transgressivas ou como trágicas passagens ao ato. (MAYER, 2001, p. 87)

 

Quando a vida familiar ruiu, Nívea, por volta dos quatro anos, não teve a quem recorrer. Na adolescência, depois de diversos actings, como uso habitual de substâncias e dificuldades na escola, tornou-se o "bode expiatório" da família e lá ficou. Na tentativa de proteger Ivo dessas marcas e dar a ele o que não teve dos pais, ela impede o filho de crescer.

No início, Nívea teve com o pai de Ivo um encontro bom e parceiro, mas, como pai, ele não exerceu plenamente a função que lhe era devida. Com o tempo, a relação ficou desgastada, e o casal afastou-se ao ponto de manter um casamento que só existe no papel e nas aparências.

Garcia-Roza descreve, em Freud e o inconsciente (2009), a concepção lacaniana do Édipo em três tempos: o primeiro corresponde à relação dual entre mãe e criança; o segundo diz respeito à entrada do pai em cena; e o terceiro é caracterizado pela identificação com o pai e o início do declínio do Édipo (GARCIA-ROZA, 2009, p. 219).

Segundo Bleichmar (1980, apud GARCIA-ROZA, 2009), é nesse terceiro momento que há a substituição da identificação da criança do eu ideal narcísico para o ideal do eu. "Usando a terminologia da segunda tópica freudiana, podemos dizer que a criança se identifica com o superego do pai, sendo o superego da criança o efeito dessa identificação com o ideal do eu" (GARCIA-ROZA, 2009, p. 223).

Assim, a passagem de Ivo pelo narcisismo (ego ideal) até a saída do Édipo e a constituição do superego (ideal do ego) foi marcada pela fraqueza do pai ao desempenhar seu papel, o que faz com que ele possua um modo de organização narcísico - e, de acordo com Hugo Mayer, "quanto mais o ideal do ego for narcísico, maior será o distanciamento da realidade e tanto mais primitivas as defesas mobilizadas pelo ego para escapar da angústia" (MAYER, 2001, p. 84). 

Além disso, Ivo vive em um tempo em que não há lugar para frustrações e se tem o consumo como valor. Tempo permeado por uma "cultura que privilegia os objetos às palavras, as ações aos pensamentos e a satisfação imediata à espera. Uma cultura que consagra o prazer e busca suprimir a dor" (MAYER, 2001, p. 96).

Nesse contexto, passa a ser missão dos pais suprir as carências de seus filhos, o que não deixa espaço para a simbolização da falta por meio da entrada de um terceiro na relação das mães com seus bebês - o pai do segundo tempo do Édipo, diferente do pai cuidador do primeiro tempo, conforme nos explica Garcia-Roza: "O segundo momento do Édipo é marcado pelo advento do simbólico e pela intervenção do pai como privador tanto da criança como da mãe" (GARCIA-ROZA, 2009, p .221).

Pensando nessa cultura em que vivem o Guri, Kevin e Ivo, Lacan (1998) foi profético em texto de 1953, "Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise", quando escreveu sobre os efeitos alienantes da civilização científica no sujeito.

 

[O eu do homem moderno] povoará seu lazer com todos os encantos de uma cultura profusa, que, do romance policial às memórias históricas, das conferências educativas à ortopedia das relações de grupo, dar-lhes-á meios de esquecer sua vida e sua morte, ao mesmo tempo em que de desconhecer numa falsa comunicação o sentido particular de sua vida. (LACAN, 1998, p. 283)

 

Imaginemos o que diria Lacan a respeito do que os bailes funk, as séries televisivas, que tanto capturam a atenção dos espectadores, e as redes sociais podem operar sobre o esquecimento da vida e da morte nos dias atuais. Por hipótese, o homem moderno é avô dos nossos adolescentes que passam ao ato - e Ivo se farta de povoar sua vida com os encantos de nossa profusa cultura contemporânea.

Todavia, se a cultura age no sentido de transformar nossos adolescentes em seres apartados de si, eles precisam encontrar e reconstituir sua história. 

Neste ponto, recorro ao segundo dos filmes mencionados na introdução: Blade Runner,[5] de 1982, que nos traz, logo na primeira cena, esta informação: "Los Angeles, novembro de 2019". Trata-se de uma ficção científica em que réplicas perfeitas de humanos, mas com vida útil muito curta, são escravizadas em colônias para terráqueos em outros planetas; essas criaturas são chamadas de replicantes. Para construir um passado para si, esses replicantes colecionam fotos e memórias de outros para dar sentido à própria vida. Interessante metáfora reversa para o que Lacan teoriza em relação ao eu do homem moderno; enquanto a cultura age no sentido de afastá-lo de si, os replicantes se esforçam na direção contrária.

Lanço mão de mais essa referência para representar o que ocorre com os adolescentes dos quais trata este artigo - eles vivem em estado de suspensão entre um passado que não acessam e um futuro ameaçado. Como replicantes. Mas podem ser resgatados dessa posição pela reconstituição de suas histórias e de suas vidas. A cidade não é Los Angeles, mas ultrapassamos novembro de 2019.

Como propõe Lacan, "somente a fala testemunha a parcela dos poderes do passado que foi afastada a cada encruzilhada em que o acontecimento fez uma escolha" (LACAN, 1998, p. 257).

Trata-se, portanto, de uma verdade revelada na fala presente. Lacan aposta na eficácia da história reconstituída pela palavra, como fator capaz de povoar a vida do sujeito com as profusões da memória, e não da cultura. Ele também não acredita ser possível reviver o que ficou para trás e refazer seu percurso.

Lacan, portanto, é radical na defesa da fala e na reconstituição da história do sujeito pela palavra versus a hipótese de que é possível reviver o passado - como propõe a concepção psicanalítica de regressão da escola inglesa, que o autor implicitamente contesta no texto de 1953 ("Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise").

Tal ponto de vista, no entanto, é contestado por Manoel Berlinck, em artigo de 2000, baseado no texto de Freud descoberto pela psicanalista Ilse Grubrich-Simitis em 1987, ao examinar os documentos deixados por Ferenczi a Balint. Nesse manuscrito de 1915, há um mito filogenético que coloca o surgimento da neurose fora do âmbito da palavra, o que contradiz as posições de Lacan a esse respeito.

 

Finalmente, é necessário observar que como a histeria de angústia e a histeria de conversão ficam onto e filogeneticamente fora do âmbito da palavra, ainda que todo tratamento psicanalítico seja uma talking cure, é absolutamente necessário que a escuta do psicanalista ultrapasse de muito a audição do relato para que a psicanálise ocorra. (BERLINCK, 2008, p. 247)

 

Assim, para além da audição do relato, entra em cena a transferência.

Com base no texto de Freud de 1914, "Sobre o narcisismo: uma introdução", Berlinck (2008) entende que, quando o eu deixa de investir o objeto e a libido retorna para o próprio eu, há uma identificação deste com o objeto desinvestido. Para que essa identificação ocorra, o eu se afasta ou se esvazia de significado por uma alucinação negativa - no sentido de não estar. Ora, para Manoel Berlinck e Pierre Fédida (1988, apud BERLINCK, 2008), a transferência se dá porque ocorre essa mesma alucinação negativa que presentifica estados psíquicos vividos anteriormente.

 

Como observa Fédida, além de serem "estados passados" revividos "como relação atual com a pessoa do médico", também são compreensíveis como tais se admitirmos que a pessoa do médico possa tanto engendrar a alucinação negativa quanto tornar-se o suporte das transferências como ação alucinatória de presentificação de estados psíquicos anteriores. (BERLINCK, 2008, p. 246)

 

Com efeito, o Dicionário comentado do alemão de Freud (HANNS, 1996) traz como uma das acepções para Transferência, Übertragung, o processo de ida e volta no tempo:

 

Conotativamente, pode-se dizer que, em geral, no termo übertragen há um "arco" que mantém aceso o processo de ida e vinda, seja temporalmente, entre o passado e a atualidade, seja geograficamente, entre o longe e o perto, ou de uma pessoa a outra. [grifo nosso] (HANNS, 1996, p. 412)

 

Ivanise Fontes, no artigo "A inquietante estranheza da transferência" (2002), parte da hipótese de que a transferência desencadeia uma "memória corporal", a qual, como a fala e os sonhos, é capaz de desdobrar associações (aspecto ainda não suficientemente explorado pela psicanálise), chegando a propor "incluir também, no processo analítico, as associações de sensações", apoiadas na "percepção presente que é o analista" (2002, p. 67).

 

  

III - Caso Sônia: Um contraponto na transferência

A propósito de ida e volta entre passado e atualidade, presentificação de estados anteriores, superfície de projeções e memória corporal, quero introduzir mais um recorte clínico - este outro, a respeito do processo de uma garota adolescente; um contraponto aos acting outs de Ivo pela via da somatização.

Em artigo de 1974, André Green (2017) estabelece um contraste entre acting out e somatização, apontando que se verifica, em ambos os casos, uma "cegueira psíquica" que se desdobra em ato (acting out), ou em manifestação psicossomática, ("acting in psicossomático"):

 

Esses dois elementos têm um notável efeito de cegueira psíquica. O sujeito cega-se a respeito de sua realidade psíquica seja nas fontes somáticas da pulsão, seja em seu ponto de chegada na realidade exterior. (GREEN, 2017, p. 79-80)

 

Sônia tem 19 anos e mora com a mãe desde que seus pais se divorciaram, no início de sua adolescência - queixa-se muito de que ela quer participar de sua vida a todo custo e interfere demais em tudo o que faz. Com o pai, Sônia sustenta uma boa e regular convivência, mas ele também não dá à filha o espaço adequado para que se desenvolva.

Vale observar que Hugo Mayer, em nota de rodapé na página 89 de seu artigo, faz a ressalva de que o conceito de mães intrusivas corresponde a "um posicionamento parental que não é exclusivo das mulheres, já que sobram exemplos de homens que se comportam de maneira intrusiva diante dos filhos" (MAYER, 2001, p. 89).

E o pai de Sônia é mais um exemplo.

Sônia sofre muito com crises frequentes de enxaqueca, que ocorrem quando tem de enfrentar alguma questão incômoda, como as disputas que acontecem entre adolescentes - seja por namorado, por notoriedade ou pela atenção do grupo. Nessas ocasiões, por conta de fortes dores de cabeça, ela se fecha no quarto escuro por horas - e sem poder ouvir qualquer ruído.

Houve uma sessão em que Sônia acabara de sair de uma dessas crises. Ao falar sobre como elas ocorriam, ela constatou que as dores surgiam quando se sentia pressionada - em situações agressivas que demandavam uma reação sua, com as quais não conseguia lidar direito. Por associação, ela lembrou-se das brigas entre os pais antes da separação - Sônia as vivia como se ela fosse o objeto da disputa entre eles.

Enquanto descrevia como eram essas brigas e como se sentia, ela foi se recostando mais, chegando a ficar deitada na poltrona, meio de costas para mim. Eu então a coloquei para dormir; diminuí a luz e a cobri com um xale que deixo no divã em dias frios. Sônia dormiu por uns 15 minutos.

Faço este relato porque acredito que Sônia tenha presentificado, na transferência, os sentimentos que vivenciava durante as brigas do casal e a exaustão que sentia depois - ela pôde reviver a criança acuada de então e projetou no analista seu desejo de ser acolhida em seu desamparo.

Esta sessão, a meu ver, representou um ponto de inflexão na análise de Sônia, pelo que foi trabalhando daí em diante, em relação às suas dificuldades para lidar com as tensões da vida. Suas dores de cabeça diminuíram e ela não teve mais nenhuma daquelas fortes crises nos últimos dois anos, embora tenha passado por várias situações em que se sentiu pressionada.

 

A transferência, o amor de transferência, mas também a neurose de transferência, é, antes de qualquer coisa, corporal, afetando os corpos que nela se engajam - tanto o do sujeito quanto o do psicanalista - e lançando-os a representações de imagem que pertencem a mundos há muito desaparecidos, mas sempre presentes na representação humana. (BERLINCK, 2008, p. 255)

 

Ivo não teve a mesma condição.

Segundo autores relacionados à psicossomática psicanalítica, como Volich (2016), Gurfinkel (1997) ou Marty (1993), a regressão se desenvolve na direção dos pontos de fixação da história do indivíduo em sua constituição psíquica. Assim, a desorganização da economia psicossomática enseja uma regressão a um ponto de fixação, o que produz os sintomas necessários à sua reorganização. "Como ressalta Freud, o movimento regressivo orienta-se segundo as referências constituídas pelos pontos de fixação, buscando encontrar ali uma possibilidade de reorganização e equilíbrio" (VOLICH, 2016, p. 214).

E esses sintomas, a depender da história e da constituição subjetiva de cada um, podem ocorrer em menor ou maior grau: no plano mental (como a angústia do neurótico), no somático (como as dores de cabeça de Sônia) ou no caracterial (como o comportamento transgressor de Ivo).

 

A regressão pode inicialmente buscar uma reorganização [...]por meio de uma sintomatologia mental [...]. Observa-se, então, o surgimento [...] de sintomas de regressão psíquica e libidinal, angústias objetais e outros sintomas da esfera mental. Eventualmente, pode-se também observar sintomas caracteriais e de comportamento. As desorganizações somáticas são pouco visíveis, podendo, porém, ocorrer algumas afecções somáticas manifestas. (VOLICH, 2016, p. 215)

 

O que Volich descreve nesta citação são os possíveis sintomas de um neurótico que passou por todas as fases da constituição subjetiva, com as fixações que propiciam os movimentos regressivos que lhe possibilitam reorganizar-se, como ocorreu com Sônia.

Mas seria este o caso de Ivo?

Conforme descrito anteriormente, Ivo possui um modo de organização narcísico. Assim, as defesas mobilizadas pelo ego para escapar da angústia são mais primitivas nele, como consequência da fraqueza do seu pai ao desempenhar seu papel na passagem de Ivo pelo narcisismo até a saída do Édipo e a constituição do superego. Dessa forma, por hipótese, tal circunstância configura mais uma falha do que propriamente uma fixação, o que propicia as condições para que haja, em Ivo, uma desorganização progressiva da economia psicossomática, de acordo com o que expõe Rubens M. Volich (2016): 

 

Diante da impossibilidade de reorganização dos níveis mais evoluídos do desenvolvimento, observa-se a continuação do movimento contraevolutivo, o desaparecimento da hierarquia funcional, a desorganização gradual, inicialmente, do funcionamento psíquico, em seguida das possibilidades de descarga pelo comportamento e, no extremo, do próprio funcionamento orgânico. (VOLICH, 2016, p. 215)

 

Essa desorganização gradual, referida pelo autor, distingue Ivo de Sônia, que encontrou por onde reconstituir regressivamente sua história.

 

Para concluir

A teoria lacaniana sobre a constituição da metáfora paterna vai ao encontro do ponto de vista de Hugo Mayer sobre a falta de reconhecimento de limites que há nas crianças de hoje. Para Mayer (2001), as crianças da atualidade não são treinadas para desenvolver seus desejos através do jogo (simbólico) e assim assumir seu protagonismo na vida e adaptar-se à realidade. São, portanto, crianças com superego e metáfora paterna frágeis, que crescem entediadas, passivas ou hiperativas, carentes de ilusões. Adolescentes não conseguem desgarrar-se da família para ocupar seu lugar.

Diante de mães intrusivas, aliadas a figuras paternas inoperantes, os filhos tendem a "comportar-se como se os outros fossem eternos provedores, considerando-os partes de si mesmos que devem submeter-se à sua vontade" (MAYER, 2001, p. 98).

Em artigo de 2019 - "Adolescência e Cultura: implicações no psicossoma" -, Wagner Ranña faz a seguinte colocação, citando um trabalho seu de 2004: "A constituição do sujeito pode ser estudada no tempo e no espaço. No espaço detectamos os seus três eixos: Pulsional, Simbólico e Intersubjetivo" (RANÑA, 2004). Segundo ele, no tempo há dois momentos: o do bebê e o do adolescente. Neste último, a travessia para a vida adulta é problemática, dada a ausência na contemporaneidade de rituais culturais que a sustente, como a sustentava no passado. Com base em texto de Rodolpho Ruffino, de 1993, afirma Ranña: "Se tiver algo que defina o adolescer na contemporaneidade é a ausência de rituais de passagem, levando cada jovem a descobrir, inventar, sintomatizar seu adolescimento" (RANÑA, 2019).

Os sintomas, portanto, ritualizam a difícil travessia de Ivo à vida adulta. Ele e seus pares geracionais são os filhos desgarrados de uma incestuosa horda primitiva sem pai, sem totem e sem tabu. Para vencer seu tédio, reclamam um choque de adrenalina que a passagem ao ato propicia.

Assim sendo, restituir nossos adolescentes à própria vida é tarefa da psicanálise, que a reconstituição de sua história é capaz de ritualizar.

Tarefa árdua, mas não impossível - ela nos provoca a articular os recursos técnicos e teóricos que nos façam sentido, mas sem os preconceitos e disputas que conflagram a psicanálise.

 

Agradecimento: ao Professor Wagner Ranña, pela interlocução, as sugestões e o apoio na elaboração deste artigo.

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ano - Nº 2 - 2020
publicação: 28-11-2020
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Autor(es)
• Raul França Filho
Departamento de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae

Psicanalista formado pelo Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP). Especialização em Psicossomática Psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae. Licenciado em Educação Artística pela Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). E-mail: raulfrancafilho@gmail.com.


Notas

[1] Chico Buarque, "O meu guri".

[2] Afecção psicogênica em que os sintomas são a expressão simbólica de um conflito psíquico que tem raízes na história infantil do sujeito e constitui compromissos entre o desejo e a defesa. (LAPLANCHE e PONTALIS, 2016, p. 296)

 [3] a) "Do ponto de vista descritivo, a gama dos atos que agrupamos geralmente sob a rubrica do acting out é muito extensa, incluindo aquilo a que a clínica psiquiátrica chama ‘passagem ao ato’ [...], mas também formas muito mais discretas, desde que nelas se encontre aquela característica impulsiva, mal motivada aos olhos do próprio sujeito, que rompe com seu comportamento habitual, mesmo que a ação em causa seja secundariamente racionalizada; [...] podem-se também considerar como acting out certos acidentes acontecidos ao sujeito embora ele se sinta estranho à produção desses acontecimentos." (LAPLANCHE e PONTALIS, 2016, p. 7)

b) Para Lacan, trata-se "de um ‘agir inconsciente’, de um ato não simbolizável pelo qual o sujeito descamba para uma situação de ruptura integral de alienação radical." (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 6)

[4] "[...] podem ser consideradas como tais aquelas que exibem uma tendência para estabelecer uma modalidade de relação materno-filial na qual se destaca um abuso de poder, uma usurpação desse espaço potencial que o filho precisa para crescer e desenvolver-se como personalidade." (MAYER, 2001, p. 89)

[5] Filme de 1982 dirigido por Ridley Scott, com Harrison Ford no papel principal.

Referências bibliográficas

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