ARTIGOS

Ritmos entre mãe e bebê: da sensorialidade à linguagem/representação


Rhythms between mother and baby: from sensoriality to language
Eloisa Tavares de Lacerda

RESUMO
Este artigo tem por objetivo articular, a partir de um fragmento de caso, a dinâmica de uma forma de construção em análise. Entre os caminhos do método e o que se encena nas práticas, a clínica com bebês problematiza questões de linguagem corporal, sensível, perceptiva, rítmica, mobilizada pela repetição, e a urgência de sua tradução em linguagem verbal, capaz de narrar e recriar outros afetos. No andamento de cada cena, no ritmo que escande as narrativas, podemos encontrar um trajeto que atenda ao chamado do caso e dê lugar ao nascimento de um sujeito.

Palavras-chave: Corpo-sensorialidade, Mãe-bebê, Simbolização, Narrativa, Ritmo.

ABSTRACT
This article aims to articulate, from a fragment of a case, the dynamics of a form of construction under analysis. Between the paths of the method and what is staged in the practices, the clinic with babies problematizes issues of body language, sensitive, perceptive, mobilized by repetition, and the urgency of its translation into verbal language, capable of narrating and recreating other affections. In the course of each scene, in the rhythm that

Keywords: Body-sensory, Mother-baby, Symbolization, Narrative, Rhythm.


 

O adulto alivia seu coração do medo e goza duplamente sua felicidade quando narra sua experiência. A criança recria, começa sempre tudo de novo, desde o início. [...] A essência da representação, como da brincadeira, não é "fazer como se", mas "fazer sempre de novo" é a transformação em hábito de uma experiência devastadora.

 

Walter Benjamin (1993, p. 252-253)

 

 

Introdução

 

Como falar sobre a relação entre teoria e prática resistindo à sedução de uma teoria que se oferecesse como um conjunto de conhecimentos aplicáveis e transferíveis e, ao mesmo tempo, à crença em uma prática que prescindisse de fundamentações teóricas?

A escrita deste artigo busca articular teoria e prática a partir de uma escuta advertida e de vivências de outras cenas tangíveis em uma clínica com pais e bebês, ou com pacientes adultos e adolescentes que rememoram os bebês que internalizaram. Trata-se de apontar alguns caminhos, menos como a busca de um método, no sentido de uma técnica de pesquisa, e mais como uma reflexão crítica apoiada em autores com os quais busco dialogar nessa clínica com a primeiríssima infância: André Green, Thomas Ogden, Myriam Boubli, René Roussillon, Victor Guerra, Nelson Coelho Júnior, Eliana Rache, Regina O. de Aragão, Isabel Kahn Marin, Alberto Konicheckis e mais alguns. Nessa conversa sempre renovada com esses estudiosos, a relação com os pacientes foi pouco a pouco me forçando a transformar os saberes dessa prática clínica e suas teorizações em um dispositivo analítico possível e, portanto, sempre passível de mudanças.

No momento em que começo a escrever é que me dou conta de que sou movida pela questão da linguagem corporal, sensível, perceptiva, rítmica, enfim, pelas linguagens que "pretendem" externar traumatismos de tempos tão iniciais da vida registrados no corpo. Em outras palavras, trata-se do bebê/criança que se vale da sensorialidade, das chamadas linguagens não verbais[1] - visão-audição-gustação-olfação-tônus-gestualidade-ritmo - para (se) falar/ser escutada... Penso, então, que essa linguagem necessita da escuta, do gesto, do olhar, do toque de um psicanalista atento ao quantum de angústia que lhe chega em uma contratransferência quase sempre acentuada, porque ainda corporal-sensorial.

Como lidar com a exigência de dispor-se a essa linguagem capaz de fazer ressoar algo das vivências/representações primeiras? Como transformar esse quantum de intensidade, muitas vezes mortífero, em algo que possa ser compartilhado com os pais e o bebê-criança, e em trânsito com outros clínicos de campos de atuação que atravessam e constituem essa cena clínica? Como recriar isso que ressoa em uma forma narrativa[2] que escapa ao mecanismo do "fazer de novo" para um "fazer como se"? Como traduzir em palavras essas linguagens que partem de núcleos traumáticos para o bebê-criança e, muitas vezes, para seus pais? Como arranjar, dentro desse circuito transferência-contratransferência tão intenso, leituras clínicas do psicanalista com sua "escuta auditiva, gestual, rítmica e visual", que possam disparar "recursos antitraumáticos" que poderiam compor e decompor essas experiências tão primeiras em palavras que organizam e geram pensamentos?

Parafraseando a psicanalista francesa Myriam Boubli (2020), penso que essas identificações sensório-motoras se organizam em um "envelope rítmico", entre a harmonia e a dissonância da presença/ausência, da continuidade/descontinuidade dos movimentos maternos, de suas falas ainda com aquela curva melódica da comunicação com seu bebê, que põem em cena simultaneamente gestos, entonações, corpos e mais uma gama de trocas sensoriais que podem informar tanto à mãe quanto ao bebê sobre o estado emocional de cada um deles. Informações essas que podem amplificar ou reduzir as possibilidades relacionais de um ou de outro em resposta ao que é captado.

A clínica com bebês e crianças até seus 3 anos de idade "exige" do psicanalista tanto uma escuta quanto uma troca rítmica que passa pelos canais auditivo, visual e corporal, já que considera toda a sensorialidade do bebê e toda a potência que o Complexo do Arcaico (GUERRA, 2013)  mostra, de forma tão viva, quando o psicanalista se dispõe a escutá-lo e olhá-lo nessas cenas clínicas. 

De fato, pode se tornar impossível colocar em palavras aquilo que é da ordem do mais mortífero, mas que precisa ganhar a narratividade possível, para que esses pacientes - bebês, crianças ou adultos - "se desgrudem" dessas vivências traumáticas dos seus primórdios. Concordo com a psicanalista Myriam Boubli (2020), quando chama a atenção para o fato de que essas vivências desses tempos tão primeiros podem, pelo excesso de excitação quando esse quantum traumático não pode passar pelo "anteparo materno", ser extremamente desorganizadoras tanto para a mãe quanto para o bebê.

Caminhando ainda com Myriam Boubli (2020), penso que, quando a mãe não consegue identificar - nomear - descrever aquilo que o bebê/criança muito pequena capta sem ser pelas palavras, mas que precisam de tradução, pode mobilizar defesas no bebê com movimentos que podem se mostrar num fechamento relacional que, muitas vezes, impede a construção de um laço seguro com sua mãe, na recusa de determinados alimentos, na dificuldade de passar para o sono, de conseguir se acalmar ou ainda alguns movimentos que podem acarretar outras desorganizações psicossomáticas, pois nesses tempos tão iniciais o desenvolvimento do organismo e a constituição do psiquismo ainda nascente do bebê estão se fazendo intimamente tanto no próprio bebê quanto no contato com sua mãe, ou quem a represente.

Inicialmente, quando me deparava com alguma impossibilidade de simbolização, imaginava que a narratividade dependia somente da sensibilidade da analista, e não de uma leitura clínica acurada dessas cenas clínicas. Com o tempo de vivência, fui percebendo que aquilo que essa linguagem sensório-perceptiva-motora contava era passível de tradução em palavras, gestos, ritmos e entonações melódicas que podiam interromper as repetições e com-vocar o nascimento do sujeito e da linguagem nos pequenos, linguajando esses traumas para o bebê e para sua mãe. E acrescento: a "ausência" total de ritmos e de expressões da mãe nos encontros com seu bebê, que também não tem defesa a essa "mãe morta". Ver André Green (1988), quando fala que essa mãe está viva, mas está "morta psiquicamente aos olhos da pequena criança de quem cuida".

 

A clínica com pais/bebê também inclui as desordens psicossomáticas - o bebê faz sintomas com e/ou no seu corpo - e corpo, psiquismo e linguagem nascem juntos. Nessa articulação, torna-se necessário um outro/adulto - mãe ou quem a substitua - para percorrer esse trajeto de múltiplas sensorialidades - ritmo, presença e ausência, continuidade e descontinuidade... Trago, então, um caso clínico que exigiu uma aproximação importante para construir um espaço mais simbólico para a mãe, de modo a sustentar uma tradução/narratividade para ela e/ou para a criança.

É importante sinalizar com esse caso um contraste importante na forma como essa sustentação se dá ao longo do trabalho de analista, porque possibilita constatar que, nos casos em que já aparecem relatos da experiência traumática, a forma de usar as palavras nos remete ao tempo dessa experiência. Trata-se do tempo em que tais vivências eram como que captadas em seus corpos, muitas vezes "fazendo" sintomas e/ou doenças psicossomáticas importantes, mas que só podiam ser nomeados segundo sensorialidades diversas. No caso aqui trazido, já se apresentavam as palavras "certas" para contar algo vivido na troca mãe-bebê; no relato da depressão materna pós-parto pela ótica da criança; uma criança que, ao nascer, percebe com sua sensorialidade a intensidade mortífera do corpo desabado da mãe. Essa percepção tão difícil de ser organizada no seu psiquismo nascente de bebê engendra um importante quadro psicossomático (KREISLER, 1999): ao longo do aleitamento materno, a criança não ganha peso e precisa ser internada em UTI pediátrica - uma desnutrição importante aos 3 meses de idade. Agora, aos 3 anos, recorre à linguagem para falar de algo que registrou/traduziu em palavras no plano ainda marcado pela sensorialidade do bebê.[3]

 

Fragmento clínico

 

Chegamos ao ponto de tentarmos retraçar a história da organização da subjetividade, de descrever os estados subjetivos sucessivos e a maneira como as coisas são vividas, apreendidas subjetivamente nos diferentes tempos do processo de maturação: como as coisas são significadas e teorizadas pelo sujeito em função de seu estado de desenvolvimento.

 

Eliana Rache (2014, p. 151)

 

Há exatamente quinze anos, a mãe de Jasmin, Hortência, uma psicanalista brasileira radicada em Paris, interpelou-me durante a hora do cafezinho numa jornada científica dentro da Academia. Estava então em férias prolongadas em São Paulo, com seu marido e sua filhinha de 3 anos. Hortência se apresentou e já me disse, rindo e brincando, que sua filha queria que lhe contassem histórias o tempo todo, quase que ininterruptamente. Disse também, com ar preocupado, que a cada vez que uma história terminava de ser contada, Jasmin, frustrada, já queria que lhe contasse outra, e mais outra e mais outra... E acrescentou: "coisa que nos cansa bastante, porque, se a gente não consegue interromper, fica um círculo vicioso terrível, porque percebemos a angústia dela, mas nos cansamos de contar histórias e de tentar acalmá-la sem sucesso!" A mãe disse que sabia que trabalho com bebês e seus pais e por isso veio falar comigo.

Pensei em ajudá-la naquela hora, dando-lhe elementos para colocar em palavras uma história de algo mais voltado para ela e sua filha - percebia a ansiedade dessa mulher frente à angústia de sua pequena, pedindo a história de novo e de novo. Imediatamente, resolvi perguntar se havia acontecido alguma coisa mais marcante por ocasião do nascimento de Jasmin ou em seus primeiros meses de vida. Hortência me respondeu de imediato que Jasmin, aos 3 meses, precisou ser internada, porque estava muito desnutrida. Interrompi momentaneamente a conversa, pensando em como dizer - se seria o caso de dizer - à mãe que essa história precisaria ser contada a sua filha.

O silêncio se prolongou até que Hortência, agora angustiada com minha demora em responder, começou a me contar, atropeladamente, que tivera uma depressão pós-parto tão terrível que não conseguiu perceber que sua filha não se alimentava o suficiente e nem que estava desnutrida e não ganhava peso. Disse ainda que sua filha mamava em intervalos regulares, e que esse ritmo de mamadas a tranquilizava, e muito. Hortência parecia se dar conta de que se escutava enquanto eu silenciava. Nesse intervalo "do cafezinho", me propus a pensar, junto com ela, em uma possibilidade de ajudá-la e à sua filha.

Disse-lhe, então, falando também à colega psicanalista, que, se quisesse, podia ir ao meu consultório para conversarmos, para que me contasse como aconteceu tudo isso e para que eu pudesse contar essa história para Jasmin na presença das duas. Hortência sinalizou estar num percurso de análise desde que fora para Paris. Considerada a urgência dessa demanda, ofereci então um dispositivo clínico que possibilitasse, em algumas sessões/consultas mãe-bebê (a mãe sozinha e a mãe com sua filha), alguma organização para essa intensidade de suas vivências iniciais com sua filhinha.

A opção pelo consultório deveu-se à necessidade de podermos construir, no ritmo em que tudo se apresentava, uma forma de narrar aceitável para ambas, mãe e filha, e que fosse capaz de "acalmar" sua filha. Além disso, importava também que, depois dessas sessões, ambas pudessem dispor de palavras suficientemente boas para conversar, com os recursos simbólicos que Hortência já teria para levar como material de sua análise pessoal, com arranjos e variações de enquadre a que estavam acostumadas, ela e sua psicanalista.

Por que contar para Jasmin? Dada minha experiência clínica com os muito pequenos e suas mães, podia presumir que essa filha precisava "legitimar" - com a psicanalista traduzindo em palavras-relatos capazes de simbolizar - seu sofrimento inaugural de vida no encontro com sua mãe. Falo de fazer reconhecer essas vivências iniciais que precediam a aparição e a vigência da linguagem verbal e que mantinham Jasmin, já com seus 3 anos de idade, presa a um modo de simbolização apoiado basicamente em suas experiências traumáticas de recém-nascida.

Nesse tempo de uma linguagem ainda não verbal, os registros podem fundar a simbolização da experiência subjetiva, mas, sem palavras para a dupla mãe-bebê, podem terminar por manter as inscrições das experiências perceptivo-sensório-motoras impossíveis de serem apropriadas subjetivamente não só por Jasmin, como também por sua mãe. Nas palavras do psicanalista René Roussillon,

 

[...] Existem formas de apropriação subjetiva que continuam presas em formas de ligações não simbólicas. Elas representam bem o esforço do sujeito para se apropriar de uma parte de sua história subjetiva, mas ao preço exorbitante que sobrecarrega sua vida [...] É por isso que parece necessário acrescentar que o tipo de apropriação subjetiva que essa prática psicanalítica procura desenvolver é também fundada na simbolização da experiência subjetiva. (apud RACHE, 2014, p. 11-12)

 

As conversas com Hortência, antes de me trazer Jasmin, se deram em cinco encontros, tempo que achei suficiente para que ela pudesse "sustentar" comigo o compartilhar simbólico com sua filha: uma narrativa que contasse a Jasmin algo que ela, insistentemente, procurava saber. Ela não queria que a mãe parasse de contar o que... não contava. Quem sabe, o que faltava contar.

Desses encontros com a mãe, pude saber de situações muito difíceis de sua vida de filha pequena com umamãe que não podia cuidar nem dela nem de seus irmãos, que ficaram todos aos cuidados de sua irmã mais velha, que se apresentava como uma suplência parca à maternagem que sua mãe não lhes podia oferecer. E não foi poupada nem mesmo em um nefasto momento de sua adolescência: aos 15 anos foi ela, e não sua mãe, que ficou ao lado dessa irmã numa internação hospitalar, quando ela adoeceu gravemente e veio a falecer em menos de um mês. Sofrendo muito com essas lembranças traumáticas, ela se pôs a contar que esse momento de sua vida tinha ficado "apagado, anestesiado dentro de mim e somente agora com o pensamento voltado para ajudar minha filha é que me lembrei disso tudo!" e que, com esse apagamento involuntário, porque inconsciente, não havia ainda levado essa questão para sua análise. Tranquilizou-se, então, por saber que teria tempo de sobra para trabalhar essas vivências com sua analista.

Agora, junto comigo, compreendeu que era hora de me trazer Jasmin, para que lhes contasse a história que ela, angustiada, queria tanto saber. Mas, para surpresa da psicanalista e de sua mãe, quem nos contou foi ela, com sua linguagem já verbal, ainda que colada em marcas perceptivo-sensoriais traumáticas. Em mais duas sessões com as duas, a psicanalista conseguiu ajudá-la a se "organizar", psiquicamente falando, e a construir com ambas uma narratividade capaz de interromper aquele "conta de novo", fazendo dele algo "de novo", um novo fora da repetição.

A seguir, descrevo a primeira cena com as duas.

Hortência chegou com Jasmin, que se escondeu atrás das pernas da mãe, assim que me viu. Porque estava agarrada às pernas da mãe, pude ver que havia trazido para a sessão duas bonequinhas pequeninas. Resolvi arriscar:

- Jasmin, cadê você?

Ela permaneceu atrás da mãe e não se mexeu, mas mexeu suas mãozinhas com as pequenas bonecas. Então, eu disse:

Eu já vi suas bonequinhas. São lindas... Você quer me contar como é o nome delas?

Falei com Jasmin, referindo-me às bonequinhas que tinha em mãos, numa entonação vocal semelhante ao manhês - com aquela curva melódica que as mães costumam usar para falar com seus bebês, tão responsivos à melodia da voz materna... Imediatamente à minha fala sobre suas bonecas, Jasmin saiu de trás de sua mãe e me surpreendeu com seu comentário inicial:

- Bonequinhashsh? lindashsh? delashsh? E a surpresa se deveu à forma como ela se dirigiu a mim, procurando imitar meu sotaque carioca (coisa que nenhuma outra criança havia feito em 40 anos de clínica com os muito pequenos!). Esse instante em que fui surpreendida, e que registro agora, me remeteu de imediato ao psicanalista Charles Melman (1992), que discute com agudeza as incidências subjetivas da língua materna no corpo desses que vamos chamar depois de "falantes". O sotaque é uma dessas marcas. Percebi, então, que já ali, na sala de espera do meu consultório, fomos arremessadas ao seu tempo inicial de vida, quando a mãe faz marcas no corpo.

Convidei-as a entrar na sala. Assim que sua mãe e eu nos sentamos em duas bergères que ficam dispostas a certa distância, uma de frente para a outra, Jasmin correu, largou suas bonecas num banquinho, chegou bem perto de mim e me perguntou, "na lata":

- Você é maluca?

E lhe respondi:

Por que você acha que eu sou maluca? - E lhe sorri.

Ela chegou ainda mais perto de mim e me disse:

- Sei lá, porque você fala fazendo esseshsh barulhoshsh esquisitoshsh.

Nós três rimos muito dessa graça que ela estranhou em meu jeito de falar... E ri também porque constatei o quanto ela, em tão pouco tempo, novamente se voltou para meu sotaque. Além dos chiados que ela imitou, notei também o quanto estava ligada no ritmo de minha fala, que era um tanto diferente da fala de seus pais. Chamou-me atenção também o fato de ela se ligar ao ritmo e à cadência dos turnos de nossos diálogos. Pensei nesse momento na possibilidade de sua mãe, muito deprimida, imprimir muito pouco ritmo às suas falas e gestos no cuidado com sua filha recém-nascida. Mais uma vez, sublinhando a psicossomática no tratamento psicanalítico pais-bebê, apelo a Myriam Boubli (2020), quando se refere às dinâmicas rítmicas mãe(pai)bebê, que respondem pelos traços que marcam nossa história de vida em vários planos da nossa organização quando do nascimento físico e psíquico de cada ser humano.

Assim que sua mãe e eu ficamos sérias, Jasmin foi para o meio da sala, mantendo uma proximidade muito simétrica de nós duas. E parou. Parada, ela olhou muito séria para sua mãe e depois para mim. Daí, abaixou a cabeça e novamente olhou muito séria, agora para mim, e disse:

¾ Você sabia que quando eu nasci minha mãe caiu?

Nem tive tempo de responder... e ela imediatamente se deitou no chão, mimetizando a posição de uma pessoa morta, com suas mãos cruzadas em seu peito. E de lá, dessa posição, ela falou, levantando a cabeça e olhando para sua mãe e depois para mim:

- Mas ela não caiu assim, não!

E se levantou sem nos perder de vista e ficou parada me olhando. Então falei:

- Ué, e como foi que sua mãe caiu?

Jasmim chegou mais perto de nós duas e falou com uma cadência que chegou a impressionar, sempre olhando para mim, mas mantendo sua mãe sob seu olhar de soslaio, esticando o dedinho indicador de sua mão direita e batendo forte com a ponta dele em sua cabeça, num ritmo bem marcado nas sílabas que declamava:

- E-la-ca-iu-den-tro-da-ca-be-ça-de-la, tá?

Sustentei o olhar de Jasmin, mas, de soslaio, percebi que sua mãe chorava silenciosamente. Ao olhar para sua mãe, agora chorando mais fortemente, Jasmin voltou a me olhar demoradamente, e correu para debaixo de minha escrivaninha, atrás da bergère de sua mãe. Silêncio total. Parecia até que nós três nem respirávamos... Até que consegui minimamente escutar essa cena falada numa linguagem já verbal, mas com Jasmin usando essa linguagem figurada de forma corporal e sonora.

Essa "queda dentro da cabeça" contava daquilo que foi captado no corpo de sua mãe, percepção ainda sem palavras, mas que já podia ter levado Jasmin a trilhar um "caminho psicossomático", precisando ser internada com uma grave desnutrição, penso que não por falta de mamar, mas por uma impossibilidade de seu organismo/corpo assimilar os nutrientes advindos do leite materno nas mamadas ao longo dos seus três primeiros meses de vida. Sua mãe chorava muito, mas silenciosamente, e resolvi me dirigir a Jasmin. Falei com ela, dizendo que já sabia disso que ela contava, e lhe perguntei se ela queria saber mais dessa história delas, sugerindo que podia contar. Imediatamente ela colocou sua cabeça para fora da mesa, ficando com seu rosto visível somente para mim. Com o olhar fixado em mim, ela disse:

- Não!

Saiu debaixo da minha escrivaninha, se levantou, olhou para sua mãe bem séria e lhe disse:

Acabou!

Pegou suas bonecas, puxou sua mãe pela mão e falou:

- Vamos embora?

Hortência se levantou, meio atordoada, e, enquanto era puxada pela filha, me olhava suplicante. Disse às duas que estava esperando que viessem de novo para que eu pudesse contar essa história numa próxima vez. A mãe me olhava, entre assustada e encantada. Penso que seja porque mantive a cena, convidando-as para um novo encontro, e lhe sorri ao perceber que sua filha ria feliz para mim quando me despedi delas...

Precisamos de mais alguns poucos encontros, nós três. Foram todos mais leves que esse primeiro, até que pudemos fechar "esse circuito tão mortífero e tão sem palavras", e nos despedir, com Jasmin pedindo para deixá-la levar uma folha de papel em que ela e eu havíamos desenhado juntas.

Neste momento do texto, posso pensar no conceito de "objeto tutor", cunhado pelo psicanalista Victor Guerra (2017), que nos mostrava a diferença entre "objeto tutor" e "objeto transicional", para que nós, psicanalistas, pudéssemos ter um parâmetro e decidir deixar uma criança levar algo que construímos juntas numa sessão como algo que nos é pedido para levar para casa como sustentação da continuidade presente em nossas trocas durante a sessão, mas não deixar levar quando nesse pedido se estampa uma forte defesa frente à angústia de separação,[4] o que não era o caso em nossa alegre despedida.

 

Algumas considerações (finais?)

 

Caminhando para o final deste artigo, retomo o que me levou a escrevê-lo: falar da relação entre teoria e prática, refletir sobre uma possível articulação desses saberes e, finalmente, tornar possível, pela via desta "narrativa", uma transmissão - a transmissão que, para Walter Benjamin (1993), transforma a vivência em experiência.

A retomada do fragmento clínico permitiu-me experienciar, como narradora, o "terceiro analítico" teorizado por Thomas Ogden (1990) e trabalhado por Coelho Júnior (2015) como um "terceiro intersubjetivo", uma forma de alteridade que se faz ouvir, por exemplo, no sotaque, que revela o corpo que fala e obriga a escutar com o corpo. Por isso falei de linguagens não verbais, de corpos que se deslocam, que caem, que se movimentam e interagem num ritmo estabelecido segundo cada dupla mãe-bebê; linguagens que trazem marcas de uma memória escrita nessa língua corporal, anterior ao que vai se articular depois como fala.

Penso que no trabalho do psicanalista nessa clínica dos primórdios a construção em análise se impõe mais, muito mais que a interpretação dentro da técnica "formal" de uma análise. E o mesmo vale para outros atendimentos de pacientes que apresentam suas vivências traumáticas de situações nas quais o psiquismo nascente da criança, ainda no plano perceptivo-sensorial-corporal, não foi capaz de absorver afetos em cargas tão mortíferas, impossibilitando que essas experiências fossem inscritas, ligadas e integradas à representação. Talvez por isso se imponha a premente necessidade de o psicanalista poder "suportar" a intensidade dessa transferência - numa contratransferência muitas vezes corporal, rítmica e ainda pré-verbal. Na maioria das vezes, o psicanalista convoca as palavras que possibilitam que essas vivências se tornem representações nomeadas numa narratividade "precisa". Precisa porque necessária, porque apurada, porque certeira para desmanchar o traumático, para simbolizá-lo para os pais e para a criança.  

Faz-se, portanto, premente que, para tais atendimentos psicanalíticos conjuntos pais-bebê, o dispositivo/enquadre seja o mais flexível possível, de forma a dar conta de garantir o trabalho do analista frente às transferências de histórias múltiplas (mãe-pai-bebê) de sujeitos nas cenas clínicas. Faço-me acompanhar, nestas últimas palavras, de Roussillon (2014), quando nos diz ser muito importante pensarmos algumas questões fundamentais para a psicanálise contemporânea, entre elas, as formas de construção em análise.

No fragmento clínico relatado, a decisão inicial de trabalhar somente com a mãe abriu um espaço de "emergência" para que ela pudesse - ao contar vivências tão difíceis e sofridas - recuperar(-se) (d)aqueles tempos em que não podia tomar contato, nomear e contar para sua filha essa história que Jasmin queria tanto...

- Vamos embora?

 

Agradecimento

A Myriam Boubli, por ter cedido gentilmente o texto que apresentou na Jornada "Ritmos e Intersubjetividade" [Journée "Rythmes et intersubjectivité"], em Aix en Provence, França, em 10/01/2020: Entre soma et corps, les dynamiques organisatrices et désorganisatrices du rythme.

 


 


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ano - Nº 2 - 2020
publicação: 28-11-2020
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Autor(es)
• Eloisa Tavares de Lacerda
Psicanalista. Membro dos Deptos d Psicossomática Psicanalítica e d Psicanálise do Sedes. Fonoaudióloga Mestre em Distúrbios da Comunicação pela Puc-Sp. Professora aposentada da Puc-Sp. Implantou e coordenou o curso \"Clínica Interdisciplinar com o bebê: a saúde física e psíquica na 1a infância\" da Cogeae/Puc-Sp (2003-2010). Implantou e coordenou o Serviço de Assistência Relação Pais/Bebê da Derdic/Puc-Sp (2004-2011). Autora d diversos artigos e capítulos. Org do livro Clibica da Constituição do Laço: corpo-linguagem-psicanálise. Atende em consultório particular. E-mail: elolacerda@uol.com.br

Notas

 


[1] Evidentemente, essas linguagens primeiras não se apresentam aqui tal como nos esquemas das teorias da comunicação. Mesmo o esquema da comunicação verbal proposto por Roman Jakobson (1969, p. 20) trouxe as funções da linguagem: emissor, receptor, referente, mensagem, canal e código, para entre elas incluir a função poética, a possibilidade de criação que constitui cada língua.

[2] Para o psicanalista Bernard Golse (2003, p. 103), essa narratividade permite que se forme uma rede de sentidos na qual o bebê nos conta e se conta sua história: "Cada um ‘conta’ ao outro algo de sua história precoce, relato bem dissimétrico, mais ou menos remanejado, ou mais ou menos reconstruído".

[3] Sobre esses relatos "sem palavras", cito um caso trabalhado no dispositivo "atendimento conjunto pais-bebê com uma equipe interdisciplinar simultaneamente presente nas mesmas cenas clínicas com a família". O relato de uma das primeiras experiências de vida de um recém-nascido com a fisioterapeuta dentro da UTI-Neonatal, recorrendo à linguagem no plano ainda marcado pela sensorialidade do bebê para "falar" de algo registrado/vivenciado em sensações-invasões logo ao nascimento. O relato pode ser lido em "Os silêncios e outros possíveis manejos clínicos do psicanalista na clínica dos primórdios", da autora deste trabalho. Ver Referências.

[4] Remeto o leitor ao texto desta autora para o blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, "Homenagem a Victor Guerra", que nos deixou em 2017. Em suas palavras, "objeto tutor" seria - como se construye y se sostiene desde la intersubjetividad y el papel de los objetos tutores (que es una idea personal) como sosten de la continuidad y no como defensa de la angustia de separacion - dentre alguns outros, e com eles nos possibilitou algumas "leituras da clínica", quando podemos nos deixar tomar por uma atenção flutuante perceptiva (como dizem Cesar e Sara Botella, 2002) para adentrarmos os primórdios da vida psíquica em tempo real dos pais com seu bebê.

 

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BOUBLI, M. Entre soma et corps, les dynamiques organisatrices et désorganisatrices du rythme [Em português: Entre soma e corpo, as dinâmicas organizadoras e desorganizadoras do ritmo. Tradução de Viviane Veras]. Texto apresentado na Jornada "Ritmos e Intersubjetividade" [Journée "Rythmes et intersubjectivité"], no dia 10/01/2020, em Aix en Provence, França.

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