ARTIGOS

Tristes corpos – A medicina entre a melancolia e a hipocondria


Body blues – The medicine between melancholy and hypochondria
Rubens M. Volich
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae

RESUMO
Este trabalho convida à reflexão sobre os significados e repercussões das primeiras experiências do estudante de Medicina no contato com o corpo humano (geralmente nas aulas de anatomia), e seus efeitos sobre a construção das atitudes do futuro médico, na relação com as queixas e os sintomas do paciente e sobre a relação terapêutica. Apesar do grande desenvolvimento dos conhecimentos e recursos clínicos, terapêuticos e da tecnologia médica, são frequentes o sofrimento, a angústia e a insatisfação do médico no exercício de seu ofício. Muitas dessas dificuldades do médico podem ser compreendidas à luz daquelas primeiras experiências não elaboradas em sua formação. A clínica revela a importância do reconhecimento e da elaboração das dimensões melancólicas e hipocondríacas do clínico, do paciente e da relação terapêutica para lidar e superar muitas dessas dificuldades.

Palavras-chave: Hipocondria, Melancolia, Psicossomática, Psicanálise, Clínica Médica.

ABSTRACT
This paper invites the reflection on the meanings and the impact of the first experiences of medical students in contact with the human body (generally in anatomy classes), their effects on the construction the future physician’s attitudes, on his relationship to the patient’s complaints and symptoms and over the therapeutic relationship. Despite the great development of clinical, therapeutic and medical knowledge and technical resources, in his work, the physician seldom suffers, feeling anguish, down and dissatisfied. Many of these physician’s difficulties can be understood in the light of those early experiences, not worked through during his training. The clinical practice reveals the importance of recognizing and elaborating the melancholic and hypochondriac dimensions of the clinician’s and patient’s experiences and on the therapeutic relationship to deal with and to overcome many of these difficulties.

Keywords: Hypochondria, Melancholy, Psychosomatics, Psychoanalysis, Clinical practice, Therapeutic relationship, Transfer.


O primeiro corte. O coração acelera, a respiração ofega, a mão treme. Impregnado pelo odor de formol da sala, ele observa aquele pedaço de carne, de cor desvirtuada, passiva, inerte. Uma peça de carne - de bicho? de homem? - sem corpo, sem vida, sem nome. Lentamente, a mão se aproxima da peça, trêmula, temerosa, repugnada. Excitada.

O instrumento se achega, e talha.

Submisso, cede o tecido à lâmina, tão afiada. Revelam-se suas entranhas. Quase sem fluido. Sem dor. Penetrar cada camada, separar os conjuntos, reconhecer aquelas formas já antecipadas, de maneira tão mais viva e atraente, nos livros. Buscar na memória os nomes, as funções, as ligações...

Os encontros com as primeiras peças anatômicas. O cérebro, um pedaço de músculo, o coração, o fígado, os intestinos desfilam ordenados, um de cada vez, espaçados no tempo diante do aprendiz de anatomia. Ordem unida, cedendo ao comando, sem desvios, eles se apresentam como partes de um quebra-cabeça que de tão complexas e fascinantes fazem esquecer a necessidade de juntá-las, para completar o todo.

Assim se revela pela primeira vez ao futuro médico o corpo humano. Fragmentado, inerte, indolor, impassível a qualquer ação do aluno. A peça não se contrairá com a manipulação, não se aliviará quando um tumor for extraído, não se regenerará nem cicatrizará ao final do exame anatômico.

Classicamente, para aprender a promover a vida, o médico percorre, antes de tudo, os meandros da morte. Um caminho sombrio, solitário, silencioso, anônimo. Encontros com corpos despedaçados, sem nome, sem sexo, sem história. Na peça anatômica, no cadáver que espera paciente as explicações do professor, nenhum sinal de prazer ou de dor, nenhum pensamento, nenhuma emoção. Nenhum olhar, tampouco, nenhum som, nenhum movimento, nenhum calor. Um corpo sem família, sem amigos, sem nacionalidade, sem status.

Um corpo sem alma, que não mais pode ser curado, nem adoecer.

Os primeiros amores são sempre inesquecíveis. Esses encontros deixam sem dúvida marcas profundas e permanentes no espírito do médico em formação. Em que momento de seus estudos, de seu trabalho, lhe é oferecida a possibilidade de juntar aquelas peças em um só corpo? Quando se torna ele capaz de animar, dar vida àquele cadáver que se ofereceu como palco para suas primeiras descobertas e manipulações cirúrgicas?

Apesar do burburinho que o rodeia, da intensidade da vida acadêmica, segue muitas vezes o médico solitário em seu percurso, em suas descobertas. Quase sempre, ninguém o alerta para o momento em que está prestes a deixar o território do inanimado para atravessar a fronteira do reino dos seres que falam, que pensam, que desejam. Dos homens que gozam e que sofrem. Poucos têm a possibilidade de elaborar essa passagem.

Em sua existência, o médico se verá frequentemente remetido a essa passagem, entre a vida e a morte, ao desafio daqueles que, por aventura ou desamparo, se aproximam perigosamente dessa fronteira e que ele tenta recuperar antes que a atravessem. Com que recursos conta o médico para essa movimentação?

As dificuldades do médico no exercício de sua profissão remetem-se às consequências desses primeiros encontros não elaborados. Diante de seus pacientes, vivos, muitos persistem em manter a mesma visão fragmentada do corpo e de suas funções. Os órgãos, o corpo, os tecidos, as células têm vida, se transformam, mas não se comunicam. O quebra-cabeça continua incompleto, tanto mais que, em vida, as peças se apresentam ainda mais misteriosas e fascinantes, desafiadoras, enquanto a tecnologia médica oferece recursos cada vez mais sedutores para decifrá-las.

 

Tristes Encontros                                                                                              

Há muitos anos nos encontramos. Nos consultórios e enfermarias, compartilhando as discussões de caso, acompanhando juntos alguns pacientes, aprendemos a nos conhecer, conversar. Ao longo do tempo, por detrás de sua competência, da memória impressionante, do pensamento rápido, lógico, preciso, da postura empreendedora, perfilavam-se aos poucos, nos médicos, uma profunda tristeza e, muitas vezes, um vazio inominável.

Assistentes, internos, residentes, estudantes, chefes de cadeira... Perguntados sobre os motivos que os levaram à escolha da profissão médica muitos evocam a vontade de cuidar, de ajudar seu semelhante. No momento em que concretizaram suas escolhas, poucos tiveram a possibilidade de refletir sobre o significado dessa vontade. Mais tarde, na corrida entre os diferentes empregos, nas consultas sumárias, na espera ansiosa pelo último paciente do dia, pela happy hour, muitos não lembram mais o que os levou à prática terapêutica.

Mesmo após um dia pleno de sucessos, mesmo quando, depois de alguns anos, a profissão lhe traz o sustento e o bem-estar necessários, o médico deixa angustiado o ambulatório, a enfermaria, seu consultório. Independentemente de sua origem, idade, nacionalidade, ele sofre.

Uma tristeza de outra ordem, não apenas ligada à conhecida decepção com o não reconhecimento que recebe por seu trabalho, com as dificuldades de nele encontrar o seu sustento. Ele se amargura, como se os estudos e a prática médica, exigentes, envolventes, não respondessem exatamente àquilo que veio buscar nessa profissão. Ele pode envolver-se com o mistério instigante de cada caso, reconhecer os benefícios gratificantes dos tratamentos, eufórico, arrancar à morte os pacientes. Mas, ainda assim, se entristece.

Com o tempo, o indizível torna-se palpável. O álcool, o fumo, as drogas, a automedicação, o culto excessivo do corpo, os comportamentos de risco, a depressão, o suicídio. Situações que acompanham a formação e a prática médicas, geralmente apenas perceptíveis no colega ao lado. O susto. Como é possível? Um médico?! Poucos reconhecem nesse colega o que, em maior ou menor grau, experimentam dentro de si mesmos.

Frequentemente, carrega o médico, ao longo de toda a vida, essa persistente tristeza. Sutil, sem nome, corrosiva. Tristeza de corpos e almas que penam buscando ainda um sentido para aqueles gestos que, muitas vezes, sem saber por que, continua a repetir diante de seu paciente.

 

A Experiência Melancólica

Para resgatar esse sentido, cabe interrogar alguns pressupostos que marcam o exercício da medicina em nossos tempos. A relação do médico com o sofrimento e com o corpo de seu paciente, sua representação do doente e da doença.

Pierre Fedida (1971) aponta para a perversão da qual foi vítima o corpo humano ao longo da história. Referindo-se ao ideal de uma representação do corpo como uma figura objetiva, "como uma configuração mecânica clara à visão e à inteligência" (p. 109).

Com o Renascimento, rompe-se a armadura da epiderme do cadáver que, apesar de sua aparente fragilidade, resistiu durante séculos à curiosidade do homem de conhecer suas entranhas. Até então, o único recurso, instrumento, do qual ele dispunha para satisfazer essa curiosidade eram seus sentidos - seu olhar, sua escuta, seu tato, seu olfato - mas também sua fantasia, sua imaginação, sua capacidade de compreender a saúde e a doença por meio dos mais ínfimos sinais clínicos. A anatomia fantástica daqueles tempos pode hoje nos fazer sorrir, condescendentes. No entanto, apesar de suas representações bizarras e primitivas, era essa representação do ser humano que, de certa forma, penetrava mais profundamente no âmago do combate que travavam, juntos, médico e paciente, entre o sofrimento e o desejo.

Fruto da clandestinidade, da transgressão, da coragem, da angústia insuportável diante do desconhecido, a primeira dissecação de cadáver imprimiu para sempre na relação com o corpo humano o selo da ambivalência. Fascínio e culpa; satisfação e medo de retaliação.

Paradoxalmente, ao aproximar-se como nunca da intimidade do corpo, iniciou o médico seu progressivo afastamento do humano. Segundo Fédida (1971), ao "dissipar os modelos fantásticos da Alquimia e da imaginação, a dissecação de cadáveres depositou sobre o corpo um olhar esvaziado de repugnância e de paixão" (p. 109) isento de ilusões, de afetos, de sonhos.

O mergulho nas profundezas do corpo, a descoberta progressiva dos órgãos internos, dos mais ínfimos detalhes de suas formas, de sua textura, excita e fascina o anatomista. Aqueles territórios virgens capturam seu olhar, o enfeitiçam, a ponto de ofuscá-lo, perturbando a utilização de seus outros sentidos, de sua intuição para escutar e compreender o ser em sofrimento.

O ideal de libertação renascentista induziu o Homem, em busca do Conhecimento, do Belo, do Prazer, a ser capturado na armadilha que o tornou escravo da Morte. Seduzido pelo corpo eventrado, há 500 anos é o homem prisioneiro da ilusão de que ali ele encontrará a resposta última para o mistério da Vida e do sofrimento humano. Entretanto, desde então, cada descoberta, cada revelação se termina inevitavelmente com uma decepção, que determina, como sugere Fédida (1971), o caráter melancólico do anatomista moderno. Segundo ele, a anatomia se configura "como uma experiência de desilusão: o corpo [supostamente] não esconderia nada que não possa ser visto pela dissecação de cadáveres, pelo inventário dos órgãos e sua nomeação. [...] [Esses elementos] constituirão o substrato ideológico de todo o conhecimento médico" (p. 110) e, por extensão, da captura crescente da mídia e da cultura por essa visão, como nos mostra o aumento significativo das matérias sobre medicina nos diferentes meios de comunicação.

O encontro com o paciente reatualiza essas experiências. O mistério da queixa e dos sintomas poucas vezes resiste à anamnese e à propedêutica. O diagnóstico cada vez menos surpreende o clínico, e mesmo a descoberta de novos quadros não parece sustentar a esperança de ali encontrar o sentido para sua prática. Acumulam-se os estágios, os títulos, as especialidades, os pacientes e os sucessos terapêuticos. Ainda assim algo parece escapar-lhe. Compreende ele realmente o sofrimento do paciente? A arte terapêutica aos poucos perde suas cores.

A história da medicina moderna é marcada por esse afastamento progressivo do médico das fontes de sofrimento do doente. Não da aflição da dor, do membro que sangra, do corpo que queima de febre ou se desintegra no tumor. Mas o sofrimento subjacente a todas essas manifestações, e que mesmo diante das mais inocentes feridas se fragiliza, regride, se angustia diante da fantasia da morte. Ao escutarmos nossos pacientes, constatamos que, apesar dos sucessos terapêuticos, uma dor de outra ordem teima em permanecer, resistente a todo o arsenal tecnológico da medicina.

Esse sofrimento se remete às experiências mais primitivas do humano. Experiências primordiais de perdas, do ambiente intrauterino, da satisfação permanente das necessidades, da angústia de não poder contar com a presença de um semelhante de quem, no início, dependemos completamente para sobreviver e desenvolver-nos. Ao nomear desamparo a experiência do recém-nascido, Freud pensava na equivalência entre o nascimento e a tragédia. Ambos são marcados pela desorganização, pela impotência, pela sideração, pela extrema dependência de um outro para (re)organizar-se.

A perda e o desamparo caracterizam a natureza humana. Em torno deles estrutura-se o sujeito, seu psiquismo, seu corpo. Essas experiências forjam também um núcleo melancólico, que, segundo a história do indivíduo, com maior ou menor intensidade, será reatualizado ao longo da vida.

É na experiência do desamparo que se irmanam o que cuida e o que sofre. No encontro terapêutico reatualizam-se para cada protagonista suas experiências mais remotas diante da perda, do sofrimento, do desconhecido, da qualidade da presença ou ausência daquele de quem o sujeito esperava o alívio para os mesmos. A experiência do desamparo situa-se na origem do desejo de cuidar, e na essência da fragilização vivida pelo sujeito durante a doença, fragilização com a qual inconscientemente se identifica o terapeuta.

O desconhecido e a doença revelam, ao mesmo tempo que alimentam, a fragilização do sujeito, reatualizando esse núcleo melancólico. Esse mesmo núcleo mobiliza também o médico e a equipe terapêutica. Esse sofrimento, sempre subjacente à queixa e aos sintomas manifestos do paciente, frequentemente escapa à abordagem médica clássica.

 

A Melancolia da Clínica

A melancolia é um estado psíquico constituído em torno de uma perda narcísica grave, uma perda específica que provoca um dano quase irreparável ao desejo. Esse estado perturbador, capaz de conduzir não apenas ao definhamento psíquico, mas, no limite, à própria morte do indivíduo, só pode ser compreendido com base nas íntimas relações existentes entre o Eu e o objeto, entre o amor e a morte (BALBURRE, 1993, p. 157), reveladas por Freud (1917) em "Luto e Melancolia".

Conhecemos a gravidade dos quadros melancólicos desenvolvidos por alguns pacientes após perdas significativas em suas vidas. Porém, mais do que uma entidade clínica, cabe considerar que nem sempre ela se manifesta em suas formas mais espetaculares. A experiência melancólica se constitui com base nas experiências de perda mais primitivas do sujeito, quando sua sobrevivência era tributária da existência do outro.

A melancolia é um luto sem fim, uma hemorragia que esvazia o Eu até esgotá-lo completamente. Freud assinala que, mesmo quando a perda que ocasionou a melancolia é conhecida do sujeito, ele pode saber quem perdeu, mas não o que perdeu nessa pessoa. Trata-se assim de uma perda de objeto que se subtrai à consciência, um objeto que, em última instância, confunde-se com o próprio eu (FREUD, 1917, p. 275).

Essa confusão entre o objeto perdido e o Eu representa uma verdadeira incorporação do objeto, no sentido canibalístico do termo, como aponta Abraham (1970). Por meio da identificação narcísica o sujeito melancólico tenta resolver as consequências da perda e da impossibilidade de saber o que perdeu. Ele busca no objeto uma imagem fria, congelada, cuja menor modificação pode provocar seu próprio desmoronamento.

A fragilidade dessa posição é imperceptivelmente vivida no encontro terapêutico. Remetidos às suas histórias de perdas, médico e paciente buscam encontrar na realidade material a causa última do sofrimento cristalizado no paciente. O suposto saber atribuído ao médico pelo paciente tanto quanto a semiologia da doença, os resultados dos exames e os diagnósticos obtidos pelo médico encontram-se assim a serviço da construção de uma frágil certeza sobre a compreensão da doença e os meios para debelá-la. Nesse conluio inconsciente, ambos evitam a aproximação daquela outra dimensão de seu sofrimento.

Paradoxalmente, reatualiza-se por meio desses gestos a própria experiência melancólica. Passada a tormenta da crise, do sintoma, da doença, sente novamente o paciente o grito ofuscado de sua dor essencial. Por sua vez, o médico pressente em seu íntimo a parcela de engodo recoberta pelo sucesso do tratamento. A cura do paciente não aplaca a dor e o vazio que brotam de seu íntimo.

 

A Hipocondria na Clínica

A doença convoca o médico à compreensão de seus sinais e de suas dinâmicas. É um convite à proximidade do corpo do paciente que é tocado, manipulado, frequentemente examinado em seus detalhes mais microscópicos. Sabemos que ao passo que a referência do clínico é o corpo anatômico e suas funções fisiológicas e biológicas, o paciente, ao relatar sua queixa, sua dor, seus sintomas tem, sobretudo, como referência a experiência de seu próprio funcionamento corporal. Essa experiência, forjada ao longo de sua história, na relação com o outro, é marcada pelo prazer e pelo desprazer, configurando a dimensão erógena do corpo. Como apreender esse corpo, e como considerar seus efeitos sobre o estado do paciente?

Já em 1922, Freud ressaltava que a crença no espírito científico caracterizava o século XX como "pouco psicológico", produzindo como consequência o disfarce hipocondríaco para a manifestação do sofrimento neurótico.

Desde seus primeiros escritos, suas referências à hipocondria são fugazes, mas constantes, descrevendo-a como uma manifestação sintomática inespecífica, sem vinculação patognomônica a um quadro psicopatológico particular. Nos artigos desse período, Freud aponta a presença de sintomas hipocondríacos em quadros por ele caracterizados como histéricos, neuróticos obsessivos, fóbicos, na neurastenia e na neurose de angústia, e também nas chamadas parafrenias.

A partir da análise do relato de Schreber, em 1911, e com o desenvolvimento do conceito de narcisismo, em 1914, Freud esboçou uma tentativa de compreensão da especificidade do fenômeno hipocondríaco por meio das dinâmicas narcísicas. Nesse momento, a hipocondria passou a fazer parte das neuroses narcísicas, sendo particularmente associada à paranoia. Mesmo depois desses desenvolvimentos, Freud continuou situando a hipocondria como uma das três grandes manifestações da neurose atual, ao lado da neurastenia e da neurose de angústia.

A hipocondria é normalmente caracterizada como uma preocupação exagerada do sujeito com seu estado de saúde. Essa preocupação se manifesta por meio de crenças, rituais e atitudes aparentemente irracionais com relação a seu corpo, como o medo constante de adoecer, de contaminar-se, de desenvolver uma doença grave.

Porém, ela não se constitui apenas como um quadro nosográfico psicopatológico. A relação particular com o corpo e seu funcionamento observada na hipocondria permite compreender a experiência da estruturação do humano, da estruturação da percepção e da representação do corpo próprio, do corpo erógeno. Mais do que isso, a hipocondria se presta à compreensão da estruturação e da manifestação contemporânea da subjetividade e do sofrimento.

Freud (1917b) associa a hipocondria à perspectiva do sonho, ressaltando também a relação dos fenômenos hipocondríacos com a sexualidade, com o deslocamento e com a projeção, com as defesas, com a regressão e com o narcisismo. A partir dessas perspectivas, Pierre Fédida (1972) e Maria Helena Fernandes (1999) apontam para o funcionamento hipocondríaco como modalidade de apreensão e de representação do funcionamento do corpo, e do corpo erógeno em particular. Fédida (1972) levanta a hipótese de que a hipocondria seria uma modalidade de reação à perda narcísica, equivalente ao luto, que se manifestaria pela representação corporal. Fernandes (1999) sugere que a hipocondria se presta como um verdadeiro operador para a compreensão dos mecanismos em jogo na percepção dos sinais somáticos.

Maria Helena Fernandes (1999) e Ivanise Fontes (1999) ressaltam a importância de considerar, com base na própria teoria freudiana, a constante referência à experiência corporal, à percepção e à sensorialidade como substratos do desenvolvimento psíquico. Elas insistem na importância das repercussões transferenciais e contratransferenciais dos "eventos somáticos". Segundo Fernandes (1999), "o contato com os pacientes somáticos rapidamente ensina que a expressão verbal e metafórica frequentemente utiliza o corpo como imagem, solicitando do analista um olhar e uma escuta capaz de figurar essa imagem e descrevê-la em palavra" (p. 51). Por sua vez, Fontes insiste na importância de resgatar a dimensão corporal da transferência para a compreensão e para a elaboração de tais manifestações.

Cabe ressaltar que essa solicitação ao corpo do outro não é exclusiva do contexto psicanalítico ou psicoterapêutico. O sofrimento do paciente inevitavelmente dirige um apelo ao próprio corpo do terapeuta, inclusive do médico.

Percebemos assim uma curiosa situação. Por um lado, o corpo prestando-se de forma cada vez mais impressionante em nossos tempos para a manifestação do sofrimento. Por outro lado, uma alienação significativa da experiência sensorial e do conhecimento do próprio corpo.

Sabemos que os consultórios médicos e os hospitais transbordam de pacientes para cujas queixas não é possível encontrar um diagnóstico ou um substrato orgânico. Esses pacientes, que representam, segundo os clínicos, cerca de 40% dos pacientes de alguns serviços de clínica médica, são muitas vezes fonte de uma profunda irritação para os médicos. Esses mesmos pacientes relatam em contrapartida uma imensa frustração e mesmo uma certa angústia e sentimentos depressivos após os encontros com aqueles médicos. Geralmente, muitos deles reiniciam seu périplo junto a outros serviços e a outros médicos, esperando uma solução para "seu caso".

Considerar a hipocondria sob o ângulo da representação pode permitir um outro olhar para a demanda dos pacientes, mesmo aqueles que apresentam efetivamente uma doença "bem configurada", como dizem alguns profissionais... Considerar que a dimensão hipocondríaca de toda queixa é, sobretudo, uma tentativa, mesmo que primitiva, de comunicação e de representação é uma possibilidade de resgate pela medicina da essência do sofrimento humano.

Apesar de sua dimensão narcísica, a dinâmica hipocondríaca é uma experiência que implica o outro. É sobre o paradigma da relação entre dois corpos, o da mãe e o do bebê, que se organizam o desenvolvimento da criança e seu funcionamento psicossomático. O hipocondríaco tem razão ao recorrer às imagens do corpo, que manifestaram seu apelo ao outro para garantir sua sobrevivência quando todos os recursos que tinha à sua disposição se mostraram ineficientes para protegê-lo de sua existência ameaçada, ou da dor que não encontrou outro meio de expressão.

As dinâmicas hipocondríacas participam da regulação do equilíbrio psicossomático. Elas são ainda uma tentativa de controle da desorganização da economia libidinal, uma tentativa de organizar um trabalho (ainda) psíquico de ligação de representações por meio do corpo, diante da precariedade dos recursos do sujeito para lidar com as ameaças a seu equilíbrio e a sua existência. A hipocondria se constitui assim como um recurso corporal de ligação antitraumática não conversivo.

A hipocondria se configura como uma modalidade de reação à perda narcísica, equivalente ao luto, que se manifesta por meio da representação corporal. Entre o luto e a melancolia, a hipocondria se apresenta como um dos recursos do sujeito para lidar com a perda e com a ameaça de desorganização que ela comporta. Ela também se constitui, portanto, como uma defesa contra o desinvestimento pelo objeto. O retraimento narcísico que nela observamos pode corresponder a uma reação diante da ameaça ou do abandono real do outro. Essa experiência poderia corresponder à experiência do bebê frente à ameaça de abandono pela mãe, quando só lhe restaria seu próprio corpo, que deve ser "vigiado" e investido de forma a impedir que ele também "o abandone". Nesse sentido, é interessante pensar que o órgão hipocondríaco corresponde, de certa forma, a uma falha ou a uma perversão de um recurso transicional, no sentido de Winnicott.

O funcionamento hipocondríaco, o contato do médico, do terapeuta com as próprias sensações corporais, bem como com a dimensão onírica da experiência terapêutica são formas privilegiadas de apreensão do corpo do outro e de compreensão da queixa latente do paciente.

O contato com o núcleo melancólico e a consideração da dimensão hipocondríaca do encontro terapêutico podem permitir ao terapeuta a compreensão de seu próprio sofrimento e, através dele, de uma dor de outra ordem, subjacente à queixa do paciente. Dessa forma, pode o médico aproximar-se e compreender as primeiras fontes de sua vocação, cuidar do outro e realizar-se no encontro com seu semelhante.O primeiro corte. O coração acelera, a respiração ofega, a mão treme. Impregnado pelo odor de formol da sala, ele observa aquele pedaço de carne, de cor desvirtuada, passiva, inerte. Uma peça de carne - de bicho? de homem? - sem corpo, sem vida, sem nome. Lentamente, a mão se aproxima da peça, trêmula, temerosa, repugnada. Excitada.

 

O instrumento se achega, e talha.

Submisso, cede o tecido à lâmina, tão afiada. Revelam-se suas entranhas. Quase sem fluido. Sem dor. Penetrar cada camada, separar os conjuntos, reconhecer aquelas formas já antecipadas, de maneira tão mais viva e atraente, nos livros. Buscar na memória os nomes, as funções, as ligações...

Os encontros com as primeiras peças anatômicas. O cérebro, um pedaço de músculo, o coração, o fígado, os intestinos desfilam ordenados, um de cada vez, espaçados no tempo diante do aprendiz de anatomia. Ordem unida, cedendo ao comando, sem desvios, eles se apresentam como partes de um quebra-cabeça que de tão complexas e fascinantes fazem esquecer a necessidade de juntá-las, para completar o todo.

Assim se revela pela primeira vez ao futuro médico o corpo humano. Fragmentado, inerte, indolor, impassível a qualquer ação do aluno. A peça não se contrairá com a manipulação, não se aliviará quando um tumor for extraído, não se regenerará nem cicatrizará ao final do exame anatômico.

Classicamente, para aprender a promover a vida, o médico percorre, antes de tudo, os meandros da morte. Um caminho sombrio, solitário, silencioso, anônimo. Encontros com corpos despedaçados, sem nome, sem sexo, sem história. Na peça anatômica, no cadáver que espera paciente as explicações do professor, nenhum sinal de prazer ou de dor, nenhum pensamento, nenhuma emoção. Nenhum olhar, tampouco, nenhum som, nenhum movimento, nenhum calor. Um corpo sem família, sem amigos, sem nacionalidade, sem status.

Um corpo sem alma, que não mais pode ser curado, nem adoecer.

Os primeiros amores são sempre inesquecíveis. Esses encontros deixam sem dúvida marcas profundas e permanentes no espírito do médico em formação. Em que momento de seus estudos, de seu trabalho, lhe é oferecida a possibilidade de juntar aquelas peças em um só corpo? Quando se torna ele capaz de animar, dar vida àquele cadáver que se ofereceu como palco para suas primeiras descobertas e manipulações cirúrgicas?

Apesar do burburinho que o rodeia, da intensidade da vida acadêmica, segue muitas vezes o médico solitário em seu percurso, em suas descobertas. Quase sempre, ninguém o alerta para o momento em que está prestes a deixar o território do inanimado para atravessar a fronteira do reino dos seres que falam, que pensam, que desejam. Dos homens que gozam e que sofrem. Poucos têm a possibilidade de elaborar essa passagem.

Em sua existência, o médico se verá frequentemente remetido a essa passagem, entre a vida e a morte, ao desafio daqueles que, por aventura ou desamparo, se aproximam perigosamente dessa fronteira e que ele tenta recuperar antes que a atravessem. Com que recursos conta o médico para essa movimentação?

As dificuldades do médico no exercício de sua profissão remetem-se às consequências desses primeiros encontros não elaborados. Diante de seus pacientes, vivos, muitos persistem em manter a mesma visão fragmentada do corpo e de suas funções. Os órgãos, o corpo, os tecidos, as células têm vida, se transformam, mas não se comunicam. O quebra-cabeça continua incompleto, tanto mais que, em vida, as peças se apresentam ainda mais misteriosas e fascinantes, desafiadoras, enquanto a tecnologia médica oferece recursos cada vez mais sedutores para decifrá-las.

 

Tristes Encontros                                                                                              

Há muitos anos nos encontramos. Nos consultórios e enfermarias, compartilhando as discussões de caso, acompanhando juntos alguns pacientes, aprendemos a nos conhecer, conversar. Ao longo do tempo, por detrás de sua competência, da memória impressionante, do pensamento rápido, lógico, preciso, da postura empreendedora, perfilavam-se aos poucos, nos médicos, uma profunda tristeza e, muitas vezes, um vazio inominável.

Assistentes, internos, residentes, estudantes, chefes de cadeira... Perguntados sobre os motivos que os levaram à escolha da profissão médica muitos evocam a vontade de cuidar, de ajudar seu semelhante. No momento em que concretizaram suas escolhas, poucos tiveram a possibilidade de refletir sobre o significado dessa vontade. Mais tarde, na corrida entre os diferentes empregos, nas consultas sumárias, na espera ansiosa pelo último paciente do dia, pela happy hour, muitos não lembram mais o que os levou à prática terapêutica.

Mesmo após um dia pleno de sucessos, mesmo quando, depois de alguns anos, a profissão lhe traz o sustento e o bem-estar necessários, o médico deixa angustiado o ambulatório, a enfermaria, seu consultório. Independentemente de sua origem, idade, nacionalidade, ele sofre.

Uma tristeza de outra ordem, não apenas ligada à conhecida decepção com o não reconhecimento que recebe por seu trabalho, com as dificuldades de nele encontrar o seu sustento. Ele se amargura, como se os estudos e a prática médica, exigentes, envolventes, não respondessem exatamente àquilo que veio buscar nessa profissão. Ele pode envolver-se com o mistério instigante de cada caso, reconhecer os benefícios gratificantes dos tratamentos, eufórico, arrancar à morte os pacientes. Mas, ainda assim, se entristece.

Com o tempo, o indizível torna-se palpável. O álcool, o fumo, as drogas, a automedicação, o culto excessivo do corpo, os comportamentos de risco, a depressão, o suicídio. Situações que acompanham a formação e a prática médicas, geralmente apenas perceptíveis no colega ao lado. O susto. Como é possível? Um médico?! Poucos reconhecem nesse colega o que, em maior ou menor grau, experimentam dentro de si mesmos.

Frequentemente, carrega o médico, ao longo de toda a vida, essa persistente tristeza. Sutil, sem nome, corrosiva. Tristeza de corpos e almas que penam buscando ainda um sentido para aqueles gestos que, muitas vezes, sem saber por que, continua a repetir diante de seu paciente.

 

A Experiência Melancólica

Para resgatar esse sentido, cabe interrogar alguns pressupostos que marcam o exercício da medicina em nossos tempos. A relação do médico com o sofrimento e com o corpo de seu paciente, sua representação do doente e da doença.

Pierre Fedida (1971) aponta para a perversão da qual foi vítima o corpo humano ao longo da história. Referindo-se ao ideal de uma representação do corpo como uma figura objetiva, "como uma configuração mecânica clara à visão e à inteligência" (p. 109).

Com o Renascimento, rompe-se a armadura da epiderme do cadáver que, apesar de sua aparente fragilidade, resistiu durante séculos à curiosidade do homem de conhecer suas entranhas. Até então, o único recurso, instrumento, do qual ele dispunha para satisfazer essa curiosidade eram seus sentidos - seu olhar, sua escuta, seu tato, seu olfato - mas também sua fantasia, sua imaginação, sua capacidade de compreender a saúde e a doença por meio dos mais ínfimos sinais clínicos. A anatomia fantástica daqueles tempos pode hoje nos fazer sorrir, condescendentes. No entanto, apesar de suas representações bizarras e primitivas, era essa representação do ser humano que, de certa forma, penetrava mais profundamente no âmago do combate que travavam, juntos, médico e paciente, entre o sofrimento e o desejo.

Fruto da clandestinidade, da transgressão, da coragem, da angústia insuportável diante do desconhecido, a primeira dissecação de cadáver imprimiu para sempre na relação com o corpo humano o selo da ambivalência. Fascínio e culpa; satisfação e medo de retaliação.

Paradoxalmente, ao aproximar-se como nunca da intimidade do corpo, iniciou o médico seu progressivo afastamento do humano. Segundo Fédida (1971), ao "dissipar os modelos fantásticos da Alquimia e da imaginação, a dissecação de cadáveres depositou sobre o corpo um olhar esvaziado de repugnância e de paixão" (p. 109) isento de ilusões, de afetos, de sonhos.

O mergulho nas profundezas do corpo, a descoberta progressiva dos órgãos internos, dos mais ínfimos detalhes de suas formas, de sua textura, excita e fascina o anatomista. Aqueles territórios virgens capturam seu olhar, o enfeitiçam, a ponto de ofuscá-lo, perturbando a utilização de seus outros sentidos, de sua intuição para escutar e compreender o ser em sofrimento.

O ideal de libertação renascentista induziu o Homem, em busca do Conhecimento, do Belo, do Prazer, a ser capturado na armadilha que o tornou escravo da Morte. Seduzido pelo corpo eventrado, há 500 anos é o homem prisioneiro da ilusão de que ali ele encontrará a resposta última para o mistério da Vida e do sofrimento humano. Entretanto, desde então, cada descoberta, cada revelação se termina inevitavelmente com uma decepção, que determina, como sugere Fédida (1971), o caráter melancólico do anatomista moderno. Segundo ele, a anatomia se configura "como uma experiência de desilusão: o corpo [supostamente] não esconderia nada que não possa ser visto pela dissecação de cadáveres, pelo inventário dos órgãos e sua nomeação. [...] [Esses elementos] constituirão o substrato ideológico de todo o conhecimento médico" (p. 110) e, por extensão, da captura crescente da mídia e da cultura por essa visão, como nos mostra o aumento significativo das matérias sobre medicina nos diferentes meios de comunicação.

O encontro com o paciente reatualiza essas experiências. O mistério da queixa e dos sintomas poucas vezes resiste à anamnese e à propedêutica. O diagnóstico cada vez menos surpreende o clínico, e mesmo a descoberta de novos quadros não parece sustentar a esperança de ali encontrar o sentido para sua prática. Acumulam-se os estágios, os títulos, as especialidades, os pacientes e os sucessos terapêuticos. Ainda assim algo parece escapar-lhe. Compreende ele realmente o sofrimento do paciente? A arte terapêutica aos poucos perde suas cores.

A história da medicina moderna é marcada por esse afastamento progressivo do médico das fontes de sofrimento do doente. Não da aflição da dor, do membro que sangra, do corpo que queima de febre ou se desintegra no tumor. Mas o sofrimento subjacente a todas essas manifestações, e que mesmo diante das mais inocentes feridas se fragiliza, regride, se angustia diante da fantasia da morte. Ao escutarmos nossos pacientes, constatamos que, apesar dos sucessos terapêuticos, uma dor de outra ordem teima em permanecer, resistente a todo o arsenal tecnológico da medicina.

Esse sofrimento se remete às experiências mais primitivas do humano. Experiências primordiais de perdas, do ambiente intrauterino, da satisfação permanente das necessidades, da angústia de não poder contar com a presença de um semelhante de quem, no início, dependemos completamente para sobreviver e desenvolver-nos. Ao nomear desamparo a experiência do recém-nascido, Freud pensava na equivalência entre o nascimento e a tragédia. Ambos são marcados pela desorganização, pela impotência, pela sideração, pela extrema dependência de um outro para (re)organizar-se.

A perda e o desamparo caracterizam a natureza humana. Em torno deles estrutura-se o sujeito, seu psiquismo, seu corpo. Essas experiências forjam também um núcleo melancólico, que, segundo a história do indivíduo, com maior ou menor intensidade, será reatualizado ao longo da vida.

É na experiência do desamparo que se irmanam o que cuida e o que sofre. No encontro terapêutico reatualizam-se para cada protagonista suas experiências mais remotas diante da perda, do sofrimento, do desconhecido, da qualidade da presença ou ausência daquele de quem o sujeito esperava o alívio para os mesmos. A experiência do desamparo situa-se na origem do desejo de cuidar, e na essência da fragilização vivida pelo sujeito durante a doença, fragilização com a qual inconscientemente se identifica o terapeuta.

O desconhecido e a doença revelam, ao mesmo tempo que alimentam, a fragilização do sujeito, reatualizando esse núcleo melancólico. Esse mesmo núcleo mobiliza também o médico e a equipe terapêutica. Esse sofrimento, sempre subjacente à queixa e aos sintomas manifestos do paciente, frequentemente escapa à abordagem médica clássica.

 

A Melancolia da Clínica

A melancolia é um estado psíquico constituído em torno de uma perda narcísica grave, uma perda específica que provoca um dano quase irreparável ao desejo. Esse estado perturbador, capaz de conduzir não apenas ao definhamento psíquico, mas, no limite, à própria morte do indivíduo, só pode ser compreendido com base nas íntimas relações existentes entre o Eu e o objeto, entre o amor e a morte (BALBURRE, 1993, p. 157), reveladas por Freud (1917) em "Luto e Melancolia".

Conhecemos a gravidade dos quadros melancólicos desenvolvidos por alguns pacientes após perdas significativas em suas vidas. Porém, mais do que uma entidade clínica, cabe considerar que nem sempre ela se manifesta em suas formas mais espetaculares. A experiência melancólica se constitui com base nas experiências de perda mais primitivas do sujeito, quando sua sobrevivência era tributária da existência do outro.

A melancolia é um luto sem fim, uma hemorragia que esvazia o Eu até esgotá-lo completamente. Freud assinala que, mesmo quando a perda que ocasionou a melancolia é conhecida do sujeito, ele pode saber quem perdeu, mas não o que perdeu nessa pessoa. Trata-se assim de uma perda de objeto que se subtrai à consciência, um objeto que, em última instância, confunde-se com o próprio eu (FREUD, 1917, p. 275).

Essa confusão entre o objeto perdido e o Eu representa uma verdadeira incorporação do objeto, no sentido canibalístico do termo, como aponta Abraham (1970). Por meio da identificação narcísica o sujeito melancólico tenta resolver as consequências da perda e da impossibilidade de saber o que perdeu. Ele busca no objeto uma imagem fria, congelada, cuja menor modificação pode provocar seu próprio desmoronamento.

A fragilidade dessa posição é imperceptivelmente vivida no encontro terapêutico. Remetidos às suas histórias de perdas, médico e paciente buscam encontrar na realidade material a causa última do sofrimento cristalizado no paciente. O suposto saber atribuído ao médico pelo paciente tanto quanto a semiologia da doença, os resultados dos exames e os diagnósticos obtidos pelo médico encontram-se assim a serviço da construção de uma frágil certeza sobre a compreensão da doença e os meios para debelá-la. Nesse conluio inconsciente, ambos evitam a aproximação daquela outra dimensão de seu sofrimento.

Paradoxalmente, reatualiza-se por meio desses gestos a própria experiência melancólica. Passada a tormenta da crise, do sintoma, da doença, sente novamente o paciente o grito ofuscado de sua dor essencial. Por sua vez, o médico pressente em seu íntimo a parcela de engodo recoberta pelo sucesso do tratamento. A cura do paciente não aplaca a dor e o vazio que brotam de seu íntimo.

 

A Hipocondria na Clínica

A doença convoca o médico à compreensão de seus sinais e de suas dinâmicas. É um convite à proximidade do corpo do paciente que é tocado, manipulado, frequentemente examinado em seus detalhes mais microscópicos. Sabemos que ao passo que a referência do clínico é o corpo anatômico e suas funções fisiológicas e biológicas, o paciente, ao relatar sua queixa, sua dor, seus sintomas tem, sobretudo, como referência a experiência de seu próprio funcionamento corporal. Essa experiência, forjada ao longo de sua história, na relação com o outro, é marcada pelo prazer e pelo desprazer, configurando a dimensão erógena do corpo. Como apreender esse corpo, e como considerar seus efeitos sobre o estado do paciente?

Já em 1922, Freud ressaltava que a crença no espírito científico caracterizava o século XX como "pouco psicológico", produzindo como consequência o disfarce hipocondríaco para a manifestação do sofrimento neurótico.

Desde seus primeiros escritos, suas referências à hipocondria são fugazes, mas constantes, descrevendo-a como uma manifestação sintomática inespecífica, sem vinculação patognomônica a um quadro psicopatológico particular. Nos artigos desse período, Freud aponta a presença de sintomas hipocondríacos em quadros por ele caracterizados como histéricos, neuróticos obsessivos, fóbicos, na neurastenia e na neurose de angústia, e também nas chamadas parafrenias.

A partir da análise do relato de Schreber, em 1911, e com o desenvolvimento do conceito de narcisismo, em 1914, Freud esboçou uma tentativa de compreensão da especificidade do fenômeno hipocondríaco por meio das dinâmicas narcísicas. Nesse momento, a hipocondria passou a fazer parte das neuroses narcísicas, sendo particularmente associada à paranoia. Mesmo depois desses desenvolvimentos, Freud continuou situando a hipocondria como uma das três grandes manifestações da neurose atual, ao lado da neurastenia e da neurose de angústia.

A hipocondria é normalmente caracterizada como uma preocupação exagerada do sujeito com seu estado de saúde. Essa preocupação se manifesta por meio de crenças, rituais e atitudes aparentemente irracionais com relação a seu corpo, como o medo constante de adoecer, de contaminar-se, de desenvolver uma doença grave.

Porém, ela não se constitui apenas como um quadro nosográfico psicopatológico. A relação particular com o corpo e seu funcionamento observada na hipocondria permite compreender a experiência da estruturação do humano, da estruturação da percepção e da representação do corpo próprio, do corpo erógeno. Mais do que isso, a hipocondria se presta à compreensão da estruturação e da manifestação contemporânea da subjetividade e do sofrimento.

Freud (1917b) associa a hipocondria à perspectiva do sonho, ressaltando também a relação dos fenômenos hipocondríacos com a sexualidade, com o deslocamento e com a projeção, com as defesas, com a regressão e com o narcisismo. A partir dessas perspectivas, Pierre Fédida (1972) e Maria Helena Fernandes (1999) apontam para o funcionamento hipocondríaco como modalidade de apreensão e de representação do funcionamento do corpo, e do corpo erógeno em particular. Fédida (1972) levanta a hipótese de que a hipocondria seria uma modalidade de reação à perda narcísica, equivalente ao luto, que se manifestaria pela representação corporal. Fernandes (1999) sugere que a hipocondria se presta como um verdadeiro operador para a compreensão dos mecanismos em jogo na percepção dos sinais somáticos.

Maria Helena Fernandes (1999) e Ivanise Fontes (1999) ressaltam a importância de considerar, com base na própria teoria freudiana, a constante referência à experiência corporal, à percepção e à sensorialidade como substratos do desenvolvimento psíquico. Elas insistem na importância das repercussões transferenciais e contratransferenciais dos "eventos somáticos". Segundo Fernandes (1999), "o contato com os pacientes somáticos rapidamente ensina que a expressão verbal e metafórica frequentemente utiliza o corpo como imagem, solicitando do analista um olhar e uma escuta capaz de figurar essa imagem e descrevê-la em palavra" (p. 51). Por sua vez, Fontes insiste na importância de resgatar a dimensão corporal da transferência para a compreensão e para a elaboração de tais manifestações.

Cabe ressaltar que essa solicitação ao corpo do outro não é exclusiva do contexto psicanalítico ou psicoterapêutico. O sofrimento do paciente inevitavelmente dirige um apelo ao próprio corpo do terapeuta, inclusive do médico.

Percebemos assim uma curiosa situação. Por um lado, o corpo prestando-se de forma cada vez mais impressionante em nossos tempos para a manifestação do sofrimento. Por outro lado, uma alienação significativa da experiência sensorial e do conhecimento do próprio corpo.

Sabemos que os consultórios médicos e os hospitais transbordam de pacientes para cujas queixas não é possível encontrar um diagnóstico ou um substrato orgânico. Esses pacientes, que representam, segundo os clínicos, cerca de 40% dos pacientes de alguns serviços de clínica médica, são muitas vezes fonte de uma profunda irritação para os médicos. Esses mesmos pacientes relatam em contrapartida uma imensa frustração e mesmo uma certa angústia e sentimentos depressivos após os encontros com aqueles médicos. Geralmente, muitos deles reiniciam seu périplo junto a outros serviços e a outros médicos, esperando uma solução para "seu caso".

Considerar a hipocondria sob o ângulo da representação pode permitir um outro olhar para a demanda dos pacientes, mesmo aqueles que apresentam efetivamente uma doença "bem configurada", como dizem alguns profissionais... Considerar que a dimensão hipocondríaca de toda queixa é, sobretudo, uma tentativa, mesmo que primitiva, de comunicação e de representação é uma possibilidade de resgate pela medicina da essência do sofrimento humano.

Apesar de sua dimensão narcísica, a dinâmica hipocondríaca é uma experiência que implica o outro. É sobre o paradigma da relação entre dois corpos, o da mãe e o do bebê, que se organizam o desenvolvimento da criança e seu funcionamento psicossomático. O hipocondríaco tem razão ao recorrer às imagens do corpo, que manifestaram seu apelo ao outro para garantir sua sobrevivência quando todos os recursos que tinha à sua disposição se mostraram ineficientes para protegê-lo de sua existência ameaçada, ou da dor que não encontrou outro meio de expressão.

As dinâmicas hipocondríacas participam da regulação do equilíbrio psicossomático. Elas são ainda uma tentativa de controle da desorganização da economia libidinal, uma tentativa de organizar um trabalho (ainda) psíquico de ligação de representações por meio do corpo, diante da precariedade dos recursos do sujeito para lidar com as ameaças a seu equilíbrio e a sua existência. A hipocondria se constitui assim como um recurso corporal de ligação antitraumática não conversivo.

A hipocondria se configura como uma modalidade de reação à perda narcísica, equivalente ao luto, que se manifesta por meio da representação corporal. Entre o luto e a melancolia, a hipocondria se apresenta como um dos recursos do sujeito para lidar com a perda e com a ameaça de desorganização que ela comporta. Ela também se constitui, portanto, como uma defesa contra o desinvestimento pelo objeto. O retraimento narcísico que nela observamos pode corresponder a uma reação diante da ameaça ou do abandono real do outro. Essa experiência poderia corresponder à experiência do bebê frente à ameaça de abandono pela mãe, quando só lhe restaria seu próprio corpo, que deve ser "vigiado" e investido de forma a impedir que ele também "o abandone". Nesse sentido, é interessante pensar que o órgão hipocondríaco corresponde, de certa forma, a uma falha ou a uma perversão de um recurso transicional, no sentido de Winnicott.

O funcionamento hipocondríaco, o contato do médico, do terapeuta com as próprias sensações corporais, bem como com a dimensão onírica da experiência terapêutica são formas privilegiadas de apreensão do corpo do outro e de compreensão da queixa latente do paciente.

 

O contato com o núcleo melancólico e a consideração da dimensão hipocondríaca do encontro terapêutico podem permitir ao terapeuta a compreensão de seu próprio sofrimento e, através dele, de uma dor de outra ordem, subjacente à queixa do paciente. Dessa forma, pode o médico aproximar-se e compreender as primeiras fontes de sua vocação, cuidar do outro e realizar-se no encontro com seu semelhante. 


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ano - Nº 1 - 2019
publicação: 15-10-2019
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Autor(es)
• Rubens M. Volich
Psicanalista. Doutor pela Universidade de Paris VII - Denis Diderot. Membro do Departamento de Psicossomática Psicanalítica e professor da Especialização em Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae. Autor de Psicossomática: de Hipócrates à Psicanálise (São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000); Hipocondria: impasses da alma, desafios do corpo (São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002); Segredos de mulher: diálogos entre um ginecologista e um psicanalista (em coautoria com Alexandre Faisal), (São Paulo: Atheneu, 2010); coorganizador e autor nos 5 volumes da série Psicossoma (São Paulo: Casa do Psicólogo).
E-mail: rubensvolich@gmail.com

Notas

[1] Agradeço aos colegas de diferentes contextos hospitalares, em particular do Hôpital Saint Louis, em Paris, e do Serviço de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, cuja interlocução e clínica compartilhada inspiraram essas ideias. Elas foram inicialmente apresentadas em 2002, no III Encontro Latinoamericano dos Estados Gerais da Psicanálise, em Buenos Aires, e posteriormente ampliadas em diferentes publicações, em especial em Hipocondria: impasses da alma, desafios do corpo (São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002).

 

Referências bibliográficas

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Rubens M. Volich

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