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Seminário com Claude Smadja em 24/1/2020



O seminário de encerramento do programa de visita ao IPSO, com Claude Smadja, ocorreu num contexto diferente, porque nesse dia havia uma greve geral de transportes na cidade. Assim, nosso encontro foi transferido do IPSO para sua casa, onde fomos gentilmente recebidos por Smadja e sua mulher com um café repleto de quitutes parisienses, marcando uma recepção muito cordial e aconchegante, em que também estavam presentes o casal Myriam Boubli e Jean-Claude Elbez (membros do IPSO Mediterrâneo, de que ele é o atual presidente).

Smadja iniciou seu relato com a história do IPSO, do nascimento e do desenvolvimento da Psicossomática e suas teorias, ou seja, o histórico do Movimento de Psicossomática de Paris como então psiquiatra Pierre Marty e seus colegas mais próximos. Em sua narrativa, ele nos transportou ao seguinte cenário: anos 1950, Marty, que gostava muito de biologia, e era o chefe da Clínica no Hospital de Saint-Anne. Lá, um colega ortopedista percebia motivações psíquicas quase óbvias nas manifestações físicas de seus pacientes e, por isso, solicitou um psiquiatra para investigar esse fenômeno. Assim, Marty passou a fazer consultas na ortopedia em casos de algias e problemas motores. Para ele, as categorias psiquiátricas mostravam-se, no entanto, insuficientes para abordar tais casos, o que o levou a aproximar-se da psicanálise e a tornar-se psicanalista.

Uma descoberta importante sobre as raquialgias (e outros problemas ortopédicos) era de que, enquanto os sintomas se desenvolviam, apareciam nos sonhos desses pacientes cenas sadomasoquistas. Constataram que na ausência dos sonhos, os sintomas retornavam. Posteriormente, Marty passou a se dedicar a tratar  pacientes com cefaleia, já que essa patologia está associada a uma inibição do trabalho onírico. As primeiras observações psicossomáticas foram de que as transformações nos sonhos acompanhavam transformações no eixo psicomotor. Alterações no trabalho mental eram acompanhadas por mudanças de sintoma para um outro nível funcional.

Mais tarde, Fain, De M’Uzan e David passaram a atender em conjunto pacientes portadores de todos os tipos de doenças, e isso deu origem ao primeiro livro publicado por Marty e Fain, em 1963, A investigação psicossomática. Nele, os autores abordavam a insuficiência do trabalho psíquico como a característica mais importante do funcionamento psicossomático. Essa publicação os colocou como precursores da Psicossomática na França. Nesse período, passaram a descrever a dinâmica desses pacientes, com os quais não se tinha o que interpretar, tornando inviável o trabalho analítico. No entanto, constatavam que a teoria frente a esses casos se mostrava-se insuficiente, e corajosamente, passaram a questionar os limites da teoria e da técnica.

A partir de então, desenvolveram o Método de Investigação Psicossomática, centrado na relação transferencial e contratransferencial com o analista. Esse método, que evidencia o estado de indiferenciação primitiva desses pacientes, em relação aos objetos primários, destaca também a reduplicação projetiva, conceito que caracteriza a falha da alteridade e consequente indiferenciação do objeto. Isso se dá na forma de um desconhecimento da singularidade própria e do outro, o outro seria sentido, por esses pacientes, como uma réplica de si mesmos (como um "gêmeo" deles mesmos).

Acompanhamos sua narrativa da história de uma evolução teórica intimamente relacionada aos questionamentos e avanços técnicos propostos em suas práticas clínicas. Smadja esclareceu que o desenvolvimento do conceito de pensamento operatório aconteceu simultaneamente ao de estados-limites, termo mais genérico que engloba uma série de quadros, como personalidades narcisistas, neurose de caráter, "falso selfis ou chamados casos difíceis", que apresentam neuroses graves ou uma pré-psicose. O que caracterizava os estados-limites era a organização psíquica precária, mal estruturada, sendo que, junto ao analista, o paciente não constituía uma neurose de transferência, o que trazia dificuldades técnicas. Nesses casos, a neurose infantil era fluida, e, entre os sintomas, também apareciam sintomas somáticos. Os autores da psicossomática psicanalítica centraram-se nos casos em que a somatização era o coração ou o centro das manifestações dos pacientes, como uma solução somática. O fator que marcava uma diferença entre os casos-limites e os de somatização estava associado ao conceito de mentalização, ou seja, organização qualitativa e quantitativa das representações na sua totalidade.

A função fundamental da representação é a de absorver as pulsões que vêm do corpo, integrando-as e transformando-as. Os critérios que permitem avaliar a qualidade da mentalização são: profundidade histórica das representações, fluidez da mobilidade das associações e permanência/disponibilidade das representações a qualquer momento que se precise delas. O pré-consciente é habitado por camadas de memórias, portanto, quanto mais camadas mnêmicas e de representações, mais apto e maior a sua espessura.

Em meio a esses desenvolvimentos teóricos na época, Marty focava nos casos em que a somatização estava no centro da problemática, isto é, haveria nesses casos todo um tipo de organização psíquica que tendia a uma doença somática. Passaram a investigar a estrutura psicossomática ou a somatose, neologismo criado para descrevê-la. A somatização passou a ser vista como desorganização psíquica. Os conflitos e as relações de objeto, não ganharam, nesses casos, estatuto psíquico, sendo processados através dos comportamentos ou das solução somática.

Transportando-nos de volta aos dias de hoje, Smadja afirmou que as pesquisas atuais já não se conduzem segundo o modelo que concebe uma estrutura psicossomática, mas entendendo que toda e qualquer organização psíquica pode se desorganizar somaticamente. O que se mantém é o foco da investigação no tema da mentalização.

Alguns marcos do desenrolar dessa história que Smadja nos apresentou foram o da criação do IPSO, em 1972, e do Hospital de Psicossomática Poterne de Peupliers (hoje Pierre Marty), em 1978, do qual participou Kreisler, instituindo o atendimento infantil.

E, ao final do seminário, respondendo às nossas questões, Smadja abordou o tema controverso da pulsão de morte e do dualismo pulsional no seio do pensamento atual do IPSO, o que permitiu notar que a instituição acolhe uma diversidade de pensamentos entre os seus membros.

Então, já sem os atropelos da paralisação dos transportes, retornamos ao hotel. E assim foi concluída nossa jornada a Paris, de visita ao IPSO.


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ano - Nº 2 - 2020
publicação: 28-11-2020
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Autor(es)
• Eloisa Tavares de Lacerda
Psicanalista. Membro dos Deptos d Psicossomática Psicanalítica e d Psicanálise do Sedes. Fonoaudióloga Mestre em Distúrbios da Comunicação pela Puc-Sp. Professora aposentada da Puc-Sp. Implantou e coordenou o curso \"Clínica Interdisciplinar com o bebê: a saúde física e psíquica na 1a infância\" da Cogeae/Puc-Sp (2003-2010). Implantou e coordenou o Serviço de Assistência Relação Pais/Bebê da Derdic/Puc-Sp (2004-2011). Autora d diversos artigos e capítulos. Org do livro Clibica da Constituição do Laço: corpo-linguagem-psicanálise. Atende em consultório particular. E-mail: elolacerda@uol.com.br

• Aline Eugênia Camargo
Psicanalista, mestre em Psicologia Social pela USP, membro dos Departamentos de Psicanálise e de Psicossomática Psicanalítica, professora do curso de especialização: Psicossomática Psicanalítica, corpo e clínica contemporânea do Instituto Sedes Sapientiae. Autora do livro Fobia (São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001). E-mail: alineugenia@gmail.com


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