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Seminário com Marilia Aisenstein



Nosso encontro com Marilia Aisenstein no IPSO, em Paris, ocorreu em um clima bastante afetivo e amistoso, lembrando sua última vinda ao Brasil, quando esteve no Instituto Sedes Sapientiae a convite do Curso de Especialização do Departamento de Psicossomática Psicanalítica. Nesse novo encontro, nossa anfitriã propôs que tivéssemos uma interlocução sobre o tema "Transferência e contratransferência com pacientes somáticos".

 

Aisenstein resgatou a ideia da transmissão de pensamento, apontada por Freud e considerada por ela como caminho para se pensar a contratransferência. E apontou que, em alemão, gegen quer dizer "contra", um embate, mas, também, significa um conter, um lado a lado, possuindo, assim esse duplo sentido. Dessa forma, ela vê transferência e contratransferência como um todo, que não se pode ver separadamente. Uma esfera das trocas conscientes e inconscientes entre analista e paciente no setting da sessão, o que Green chamou de "objeto analítico", ou tudo o que se passa entre duas pessoas no contexto da sessão.

 

Aisenstein acredita que para o paciente é importante ver o corpo do analista para se identificar com ele. Citou o artigo de Pierre Marty, "As dificuldades narcísicas do observador em psicossomática", de 1952, publicado no International Journal of Psychoanalysis, para se referir à forma de identificação que suprime a alteridade, em que o paciente se cola completamente no objeto analista. Essa adesividade trata o objeto como indiferente e se confunde com ele, como foi descrito em "Relação de objeto alérgica", por Pierre Marty, em 1957. Aisenstein  considera que há um forte investimento do paciente na transferência. O paciente estabelece com o analista uma forma adesiva de transferência, que visa suprimir a distância entre o par analítico. A posição do analista de estabelecer uma diferenciação entre ele e o analisando, é o que vai possibilitar uma movimentação neste modo de transferência.

 

Aisenstein afirma que, nos casos de pacientes muito difíceis, o discurso não se destina a estabelecer trocas com o analista, uma vez que a mobilização de lembranças é impossível nesse primeiro momento. Isto porque para o paciente é preciso apagar as ligações entre o verbo e o objeto, entre a palavra e o corpo. Considera que, nesses tratamentos, é importante, num primeiro momento, a transferência do somático ao psíquico, através das nomeações que vão sendo feitas pelo analista, do que se manifesta no corpo.

 

Retomando o pensamento de Freud para pensar na construção do entendimento da transferência, Aisenstein assinala que, até 1920, de acordo com o Princípio do prazer, o paciente tenta reproduzir experiências de prazer com o analista. Depois de 1920, com "Além do princípio do prazer", Freud abordou novas dificuldades clínicas, descreveu a reação terapêutica negativa, o masoquismo e a destrutividade próprios da psique humana. Reviu sua teoria das pulsões, introduzindo a pulsão de morte, e formulou a segunda tópica, diferindo o Isso do inconsciente da primeira tópica e sobrepondo prazer e destrutividade. Freud conceituou, então, a transferência negativa.  O objeto pode trazer satisfação, mas é também um objeto a abater.

 

Aisenstein assinala que no psiquismo existe "uma verdadeira compulsão à transferência", presente desde os primórdios da vida humana. Ela não é criada pelo dispositivo analítico e não se dá apenas no setting terapêutico, entre o analista e o paciente. A situação analítica e o setting apenas a organizam, tornando-a interpretável. Porém, esse tipo de transferência pode se transformar em um verdadeiro investimento, com movimentos diferenciados entre paciente e analista. Alinhada ao pensamento de Green, Aisenstein afirma haver, nos tratamentos com pacientes somáticos, um trabalho na contratransferência, estendida ao funcionamento mental do analista em sessão, configurando uma dimensão da transferência com características diferentes da transferência clássica.

 

A partir da prática clínica com pacientes não neuróticos, ela considera que houve uma expansão da teoria vigente sobre a transferência em face da necessidade de construir, inventar, escutar o "inaudível" e ampliar assim o uso do funcionamento mental do analista. Nas palavras de Aisenstein : "A respeito dessa mudança dentro da psicanálise, eu diria que ela não se limita a uma ampliação do campo clínico, mas a uma modificação do próprio objeto psicanalítico, que se torna o resultado de dois discursos entrecruzados e, também, de dois corpos, no espaço de uma sessão delimitada pelo setting".

 

Para Aisenstein, a posição frente a frente propicia a ambos, observar e falar. Falar é uma forma de estabelecer uma distância simbólica, um jeito de instaurar uma distância entre dois corpos. Caso contrário, poderá ser desorganizador para um, ou outro. É poder suportar a presença física do outro, suportar o estranhamento diante do outro. Esse movimento do analista de suportar o corpo do outro é a primeira camada para a instauração da transferência. Aisenstein se pergunta se não seria necessário examinar a transferência levando em consideração vários níveis: transferência do somático ao psíquico, pela linguagem e na linguagem, para que finalmente possa surgir uma transferência com deslocamento de um objeto ao outro, que atualizará o histórico de vida do paciente e permitirá a regressão.

 

Aisenstein apresentou-nos então suas ideias sobre percepção inconsciente, um recurso que considera importante, na medida em que instrumentaliza o analista nos embates com o paciente. Inicialmente apoiando-se em Freud, ela pondera que o conceito de pensamento latente da teoria dos sonhos não existiria se não houvesse uma noção que desse conta do que ela nomeia como percepções inconscientes, o que é importante para o entendimento acerca da transferência e da contratransferência. Ela explicita: "Na transferência, o paciente tem ideias sobre o estado psíquico do analista. Ele sabe muito sobre a gente, ainda mais no face a face. Pacientes operatórios, sem relação com sua vida fantasmática, afetiva, chegam e falam: ‘você não tá legal hoje!’. Um rudimento de afeto inconsciente que não cai na repressão que os pacientes têm do próprio mundo, mas torna-se fio condutor da angústia e do afeto. Essa forma de relação adesiva, que se cola no aparelho psíquico do analista e identifica nele estados afetivos que não estavam na cadeia associativa do paciente ganham, então, novo espaço para representação".

 

A fecundidade do pensamento e a sensibilidade da escuta clínica de Marilia Aisenstein nos convocam a férteis questões no tratamento de pacientes difíceis e somatizadores. Seu olhar revitalizador sobre o adoecimento e a consideração da doença como possibilidade de reorganização psíquica revelam a potência de um trabalho de contratransferência "ao vivo" (e vivo), trabalho este em que o afeto é parte essencial.

 

 

 


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ano - Nº 2 - 2020
publicação: 28-11-2020
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Autor(es)
• Ana Maria Soares
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae
Psicóloga Clínica, Especialista em Análise Corporal, Especialista em Psicossomática Psicanalítica;
Rua Conselheiro Pena, 171 – Cotia, São Paulo. Brasil
ananasoares@yahoo.com.br


• Maria Luiza de Assis Moura Ghirardi
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae
Psicóloga e Psicanalista, Docente do Curso de Psicossomática Psicanalítica;
Rua Demóstenes, 627, Cj. 122, São Paulo, Brasil.
malughirardi@gmail.com

• Mila Bitelman
Departamento de Psiquiatria PAES – Programa de Atendimento e Estudos de Somatização, Unifesp
Psicóloga, Psicanalista, Aperfeiçoamento em Psicossomática Psicanalítica;
Rua Juquis, 273, cj 44, São Paulo, SP, Brasil.
milabitelman@uol.com.br

• Susan Masijah Sendyk
Psicóloga e Psicanalista, Especialista em Psicossomática Psicanalítica
Alameda Joaquim Eugenio de Lima, 881, Cj. 504, São Paulo, Brasil.
susanms@terra.com.br



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