
AGENDA CULTURAL
EXPOSIÇÃO A HORA DA ESTRELA
Foi prorrogada só até dia 14 de outubro a exposição de Clarice Lispector no Museu da Língua Portuguesa. Apressem-se! É imperdível! A Hora da Estrela – o nome da exposição – marca os trinta anos do lançamento do livro e também a morte da escritora que conseguia dizer o indizível. A produção de A hora da estrela demorou cerca de três meses e meio para ficar pronta, entre pesquisa e montagem da exposição, onde a curadora buscou apresentar uma síntese compreensível da obra da escritora. Em um dos ambientes duas mil gavetas guardam documentos originais e inéditos de Clarice e o público pode acessar detalhes da vida da escritora, cartas enviadas a Getúlio Vargas pedindo sua naturalização, correspondência entre ela e seu filho. Assim como diz Clarice que “a explicação do enigma é a repetição do enigma”, a exposição esclarece muitos detalhes e provoca novos mistérios.
LIVRO
OS MELHORES CONTOS DE LOUCURA
Sob a organização de Flávio Moreira da Costa, aí está um livro de contos que apresenta a literatura como tema e a loucura como fio condutor e nos remete a reflexões psicanalíticas, ideológicas, históricas e políticas podendo nos levar para muito além... Vale a pena conferir e aguardar a resenha na revista Boletim!
Por Mônica Salgado
MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS
Com direção de Alain Resnais as carências, as fantasias e a solidão secreta dos personagens vão sendo reveladas lentamente. Será possível sentir-se sozinho em Paris, cidade-luz que transpira romance e induz ao amor? Essa premissa parece passar longe de todos os protagonistas desse filme que ao expor a solidão e a busca de um sentimento de conforto que vem com o amor, mostra também o fracasso de seus relacionamentos sociais. Vidas duplas, comportamentos falsos e uma preocupação com o que o outro pode pensar de seus medos mais íntimos fazem os personagens perambular em busca de algo que nem eles mesmos sabem o que em meio a encontros e desencontros que os fazem mais escapar de si mesmos.
por Mônica Salgado
A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS
La Vida Secreta de las Palabras. Espanha, 2005. 115 min Direção: Isabel Coixet.
Com Sarah Pulley, Tim Robbins, Javier Cámara.
por Telênia M. Senna Hill
CONTRA A PAREDE
Gegen die Wand . Alemanha/Turquia 2004.
Direção: Fatih Akin.
Muitas vezes, é preciso perder-se para poder re-encontrar-se. Aliás, perdemos para sempre o que mais desejamos, qualquer encontro é sempre um re-encontro. Não foi Lacan quem disse: "Eu não procuro, eu acho."? Cahit nega buscar a morte jogando seu carro contra a parede. Pensava não procurar, mas acabou achando: não a morte, mas um longo percurso no qual o amor por uma mulher o leva de volta à terra natal, à língua materna. Abre-se-lhe uma nova possibilidade de vida.
por Telênia M. Senna Hill
TARTARUGAS PODEM VOAR
Dir. Bahman Ghobadi (Iraque)
Este belíssimo e trágico filme, que deveria ter um outro título: “a crônica de uma infância assassinada”, trata dos refugiados de guerra que vivem na fronteira entre o Iraque e a Turquia. Foi o que, praticamente, sobrou da limpeza étnica (curdos) perpetrada pelo Sr. Saddam Hussein, cuja maioria é de crianças. O filme é interpretado por elas (refugiados na vida real) e se situa nas vésperas da invasão americana. São os mutilados da guerra (física e mentalmente). A tragédia é visível nas mutilações mentais e corporais delas. São infâncias sem esperança e sem destino. Seria masoquismo assistirmos este filme (documentário)? Acho que não. Não podemos fechar os nossos olhos e achar que isto não esteja acontecendo. A guerra é sempre injusta, principalmente para as crianças que não vêem sentido. Por que estas crianças não estão brincando? E as nossas crianças? Estas perguntas eu deixo no ar. Este filme foi três vezes premiado (festival de San Sebastian, mostra internacional de São Paulo e festival de Berlin).
por Ede de Oliveira Silva
A VINGANÇA DE ALEXANDRA
Diretor: Rolf de Heer ( australiano).
Filme de grande impacto emocional. Mostra a luta de Alexandra para sair da condição de eterno objeto do seu marido. Uma família aparentemente perfeita. Ele bem sucedido profissionalmente, ela pacata desenvolvendo suas atividades caseiras e cuidando de dois filhos maravilhosos e muito amados por ele. A aparência de felicidade paira no ar, mas não no rosto da Alexandra ou nos bastidores da vida do casal. A lá “Conde de Monte Cristo”, a esposa objeto põe em andamento uma vingança, arquitetada durante os anos de submissão, em seus mínimos detalhes. Com grande força dramática e com belas interpretações, nos deixando sem fôlego e de olhos bem abertos, vemos descortinar a vingança com toda a sua violência. Esta foi a condição possível para Alexandra ascender da condição de objeto para sujeito. Este filme foi premiado no festival de Berlim.
por Ede de Oliveira Silva
O HOMEM URSO
Diretor: Werner Herzog
O diretor, nosso conhecido de longa data que já nos tinha brindado com obras primas tais como: “O enigma de Kasper Hause, A cólera dos deuses e Fritzcarraldo”, acerta mais uma vez ao fazer um documentário de um documentário. Trata-se da vida de Sr. Timothy Treadwell que se rotulou defensor dos ursos que viviam numa reserva florestal no Alasca, sob a proteção de uma espécie de Ibama. Ele acampava anualmente, por todo verão, numa barraca rudimentar e de uma maneira ilegal, pois a reserva tinha a função de preservar a espécie de predadores maiores (humanos). Perdido no mundo, sem ter uma identidade própria, se identificou com os ursos através de uma intimidade nunca vista. Nomeava, falava e tocava os ursos como ele assim o fosse. No seu delírio não via como era um ser estranho àquele ambiente e com isto não via as alterações no ecossistema em relação à falta de alimentos e que já estava sendo sinalizada pelos seus “irmãos”. Bem, o final é trágico, mas as cenas filmadas pelo Sr. Timothy são de uma beleza rara. O autor destas imagens acreditou em uma volta do homem à natureza e não via os perigos que lhe circundavam e a impossibilidade deste retorno. Desde que o homo habilis e o homo erectus desceram das arvores e se aventuraram pelas savanas (há dois milhões de ano), enveredaram por um caminho sem volta. O Sr. Werner retrata esta loucura ao fazer a montagem de 100 horas de filmagem nos anos em que o Sr. Timothy acreditou em ter se tornado um urso.
por Ede de Oliveira Silva