Andromedário

Por Emir Tomazelli

(Dedico este textoema para o Dr. José Carlos Garcia)

 

 

I -

Uma galáxia peluda e quadrúpede!? Ela vaga pelas trilhas do tempo-espaço sem dizer para onde vai, sem dizer uma só palavra, mascando o dia. É a mãe ausente

É a mãe em sua ausência.

Origem da vida e dos cobertores forrados que nos aquecem nas noites frias.

Viagem ao cosmo-cocorva, ao cosmo-carverna de onde se vê o que está ocorrendo no veloz impulso de ir ficando parado: a vida é curta e lenta, desafortunadamente!

(essa vastidão sem começo!)

Ali está o lugar onde deus – homem sem origem - pousou a primeira vez que viu uma fêmea nua que lavava seus cabelos na água da fonte (ou na torneira do tanque do quintal coberto de zinco pra proteger minha avó quando ela lavava a louça e dava conta de embelezar-se antes de meu vô chegar; ela era linda, tinha um cheiro bom de arroz, azeite e louro.)

Deus é terra?

Não. Deus é nada. É alguém que se retirou de nós por amar-nos. Nos protegeu com sua ausência, nos protegeu de sua presença destru(cria)tiva!

Ensinou que o amor pode – certamente - matar.

ELE É apenas um desejo nosso de que exista alguma explicação possível...

As estrelas dos poetas já apagaram todas depois que a razão decidiu dar lugar aos burros e estúpidos apenas porque falam e sabem fazer troco.

(Somos ridículos. Estamos num beco sem saída! Os loucos nos governam.)

Desejo É fracasso. Ilusões são equívocos... E o que pode restar de nós depois que tudo foi explicado e se tornou fato.

Os pelos andromedários podem ser raízes,

Os cabelos nossos podem ser a continuação do interior de nosso cérebro; uma expressão fina e lisa ou ondulada ou encaracolada do que vai em nossas cabeças, que mastigam a fuligem deixada pela existência do oxigênio em decorrência da existência das cianobactérias.

Restos de rinencéfalo ainda geram o medo hipotalâmico que jamais poderá ser simbolizado em processos psíquicos.

II –

Vaga nau insana. Vaga corpo sem dono!

Vaga sexo sem gênero. Depois que somos todos agora não somos mais ninguém! Ufa.

Vaga lume eterno que perseguimos sem nunca encontrar origem e destino. Luz de vela que vaga para onde a vela que está ao vento vaga.

Fantasmas produzem fantasmas em nós. São nossos mortos que não dormem.

Abraços de amor geram fome, e as nuvens vagam ao sabor do vento que as empurra para o além dos possíveis iluminados.

Agora cães sem dono comem os restos do morto de ontem embrulhado nas notícias do jornal.

Que fazer quando somos pequenos e não sabemos nos explicar e menos ainda nos compreender?

Lagartixas no muro amam os insetos que dão moleza e viram almoço (e possível jantar) e comidinha para os filhotes que também serão devorados por bocas vorazes e auto-conservadoras de outros ‘eus' que também têm fome, desejo e sede.

O ego é um vigia, só cuida de manter a unidade viva e ativamente ligada em si mesma.

- Mãe, onde estão as coisas boas que você me ofereceu, mas não disse onde eu poderia encontrá-las sozinho? Socorra-me. Não sei pra onde ir. Onde você está que nunca chega. Estou só, desesperado por ti que é para mim o que eu sou para mim. Onde estás? Não me deixe no desespero que é te amar e saber que posso não ter mais você porque minha mente não sabe que você vai viver muito e bastante bem, apesar de muito tristonha!!

Socorra-me, socorra-me de mim mesmo. Sempre serei só, e o escuro sempre estará a me espreitar, devorando-me pela mão que escapa da beirada da cama. O escuro fez de mim um ser imaginativo e o dia virou também mais escuridão, noite repleta de monstruosidad e; e eu nunca mais acordei porque você fugiu do meu sonho escondida, como sempre fez, quando ia embora de minha casa e não queria que meu filho chorasse a tua ida. Que dor que você me proporcionou e cujo remédio era somente você, tua presença.

Ah, meu deus!  O cheiro de arroz, azeite e louro de minha avó talvez fosse o sinal de que você já não estava mais por perto.

III –

Assim tudo se foi e assim seguirá indo em seu ir lambuzado de aflições sem sentido. O mar logo ali.

A tristeza próxima da cabeceira, sempre a mão.

Sem ela não sabemos pensar nem ser.

A gigante constelação peluda agora cobre as mãos pequenas das crianças abandonadas pelos pais na mais tenra infância, e tudo fica aquecido e com cheiro de oriente, camelo, álcool e açúcar: é Andrômeda, é o andro-medo. Andrômeda: um enxame de estrelas; andro-medo: um enxame de medo! Andrômeda: ou a justa medida do homem! Andro-medo: é a justa medida do medo.

Os bichos, o deserto, e ali o escorpião deseja ferroar àqueles que não sabem sonhar e mentir, improvisando um arbusto onde possamos nos esconder em dias de vento e chuva. Do calor e da neve!

Viver sempre foi um adeus.

Querer bem o bem-querer também é um adeus.

Adeus é um bem-querer que se faz de querer bem...

Assim era então a andromedária viagem, assim são os gigantes que teremos que derrubar nas manhãs, antes do cheiro bom do café e do pão macio e ainda quente:

- “AHAH!”

IV -

Não posso evitar amar ao meu amor...

Não posso evitar...

17 de julho de 2007

e-mail: emirtomazelli@globo.com

 

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