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“QUARTO PÉ” DA FORMAÇÃO ANALÍTICA.

 

 

Nada mais adequado que o contexto de “Acto Falho” para conversar um pouco sobre o tema da formação do analista. Talvez vocês imaginem que é pertinente porque muitos de vocês ainda estão “em formação”. Porém, não é nisso que estou pensando. Gostaria de falar de um certo ideal de analista: aquele para o qual a formação é permanente. Desde esse ponto de vista, estamos juntos no mesmo barco, o pessoal do primeiro ano e os mais antigos membros. Por isso, gostaria de ir além da referência à “formação clássica” e atualizar a interrogação por essa formação permanente.

Poderíamos comparar a formação clássica, na sua versão mais extrema, com o trabalho de aprendizado no interior de uma oficina artesanal da Idade Média. Os mistérios do ofício passam, em forma pessoal, de experientes para novatos, e o uso das ferramentas e dos materiais deixa traços na própria carne. Existe um saber já consagrado, pronto e acabado e a tarefa do aprendiz é dominá-lo. Esse é um modelo patriarcal que estimula a submissão e a paciência... tanto quanto o parricídio.

A “formação clássica” é definida em relação a um tripé famoso: análise didática, supervisão individual e estudo da teoria psicanalítica, no interior de um marco de controle institucional.

Muitas são as críticas que podemos dirigir a um tal modelo: autoritário, esterilizante, obsessivo, produtor de “igrejinhas” que são ilhas de intolerância. Não me parece necessário entrar no detalhe dessas criticas porque existe um excesso de bibliografia a esse respeito. Mas é importante salientar que é em boa parte por causa delas que a proposta de formação pode ser outra.

Assim, a análise continua a ser indispensável para o analista: é sua marca distintiva. Como poderia ser de outro modo para quem lida com o Inconsciente? E isso não só na época de sua “formação” dentro de uma instituição mas também, no mínimo, tantas vezes na vida quanto seu sofrimento e sua ética o indiquem. Já falar de uma análise “didática” é distorcer a função pessoal dessa análise. A escolha a respeito do próprio analista – suas características subjetivas, sua trajetória profissional, sua instituição de origem, sua orientação teórica- deve ser absolutamente livre e pessoal. Praticamente a mesma coisa pode se dizer em relação à supervisão individual.

Quanto à transmissão da teoria, é bom contar com um amplo leque: freudianos, kleinianos, lacanianos, bionianos, winnicotianos, etc. que assumam com transparência sua opção. Se Freud, Klein e talvez Lacan são as chaves mestras que abrem essas portas, os caminhos possíveis ficam abertos para quem quiser percorrê-los.

Porém, o mais importante é que a formação não poderia ficar restrita ao tripé clássico, mesmo que fosse democrático e aberto. Se o esforço se reduzisse a isso, estaríamos, sem perceber, aceitando o suposto de um saber já estabelecido e consagrado, que uma vez apreendido, nos deixa “prontos”.Onde ficaria , a atualização com novos pontos de vista e problemáticas, a informação do que muda ou é questionado em nosso campo, a crítica do que já existe? Onde esse espaço para refletir e questionar junto dos colegas, tanto aqueles que acabam de ingressar quanto aqueles que estão na cúpula ou são membros de outra instituição? E para o diálogo com outras disciplinas? Para isso temos necessidade de eventos, jornadas, mesas redondas,publicações, grupos de trabalho, de pesquisa, congressos, etc. É necessário que a instituição os propicie. Mas também é importante se manter informado e participar do que outros grupos organizam, do que se publica em nossa área, do que se discute na atualidade.

Toda essa atividade, definida como o espaço de intercâmbio com os colegas, do interior ou do exterior da instituição é o que podemos denominar o “quarto pé” da formação psicanalítica. E não vale “deixar para depois” da “formação”, já que desse “quarto pé” depende a riqueza e a amplitude de perspectiva com a qual se CONSTRUIRÁ a formação, que é um assunto de cada um e não da instituição a que se está mais ou menos filiado e que terá – todas tem- seus valores positivos e suas limitações.

O problema que coloco não está somente ligado ao desejo de propiciar um modelo de formação que se proponha não ser autoritário, paternalista, intolerante ou fechado para ser democrático ou politicamente correto. O verdadeiramente importante é que nós lidamos com o Inconsciente e o Inconsciente e suas formações mudam com as diferentes épocas históricas, mudam junto com a cultura. Mudam também, portanto, as patologias. É queixa corrente entre os psicanalistas que já não existem neuróticos como os de antigamente, pelo menos na sua sintomatologia. Nosso tempo tem desgastado a figura do pai e ela já não é a única a preencher a função paterna e a organizar os destinos e as neuroses dos sujeitos, como outrora o fazia. Não me refiro somente ao valor ascendente da figura feminina. Falo também da “cultura do espetáculo”, da influência da TV a reger modelos de vida e ideais, da difusão dos modelos da tecno-ciência, da mídia publicitária, do estímulo ao individualismo, ao consumo ou ao culto do corpo em nossa cultura globalizada.

Nesse contexto, uma instituição de formação que fosse imaginada como “dona do saber” resultaria anacrônica e nos deixaria despreparados, cindidos, até deformados, incapazes de ter acesso às mudanças contínuas que a cultura imprime no Inconsciente dos sujeitos que nela se constituem. Que existe de inédito na angústia da mãe de um “bebê de proveta”? E nos anseios do casal homossexual que quer o “papel passado” e a adoção? Na viúva recente que não quer saber de “trabalho de luto” e reivindica antidepressivos para sua dor? E a anoréxica ou o “panicado”? E o adolescente que vive seu dia dentro do computador?

Não serve fugir para uma formação iludida por um pretenso saber do já estabelecido: é sem dúvida necessário conhecer a fundo as tradições de nosso ofício. Mas ficar passivos nessa única perspectiva, só pode fazer obstáculo a nosso trânsito. Um modo de trabalhar essa relativa orfandade é pensar na possibilidade de que seja a fraternidade e não somente a filiação aquilo que nos permita ser analistas (sempre em formação) de nossos contemporâneos. É essa fraternidade, que não significa necessariamente harmonia e concordância, concretizada no diálogo com os colegas, velhos ou novos, de “dentro” ou de “fora”, aquilo que podemos chamar de “quarto pé”. E se realmente pensamos que esse “quarto pé” existe, não é possível deixá-lo para “depois”, para quando já se saiba “tudo”...