Trabalho 1: A Manifestação do Inconsciente na obra cinematográfica de Samuel Fuller “Paixões que Alucinam”

 

Aluna: Juliana Teixeira Fiquer
Seminário: O Inconsciente
Professor Responsável: Durval M. Nogueira Filho

 

São Paulo 2006


APRESENTAÇÃO

Os alunos do primeiro ano do curso de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae foram convidados a realizar um estudo sobre a manifestação do inconsciente apresentada no filme de Samuel Fuller “Paixões que Alucinam” , buscando relacionar a produção assistida com algumas das idéias freudianas de funcionamento psíquico discutidas em aula. Para melhor compreensão do leitor, o presente trabalho apresentará: 1) uma sinopse do filme, 2) algumas comparações entre as concepções de Samuel Fuller e de Freud sobre a manifestação do inconsciente, e, por fim, 3) referências dos textos freudianos utilizados como base deste estudo.

1) Paixões que Alucinam – Sinopse

O presente filme de Samuel Fuller, é uma produção norte-americana de 1963. Trata-se da história de um ambicioso jornalista chamado John Barrett, que para ganhar um importante prêmio, busca descobrir o assassino de um crime cometido dentro de um hospício. As únicas três testemunhas do crime estão internadas no hospício, o que faz com que o jornalista simule ter problemas mentais para ser também internado na casa de repouso. Esta simulação de John é feita com auxilio de sua namorada – Cathy, uma dançarina de cabaré. Ambos mentem para a polícia que são irmãos e fazem uma encenação que evidencia que John é fetichista / um perverso perigoso. Diante dessa encenação, o jornalista é internado no hospício.

Como era de se esperar, dentro do hospício o jornalista intencionalmente se aproxima das testemunhas do crime. A primeira das testemunhas encontrada é Stuart, que alucinava ser um general. Considerando a fantasia de Stuart, John aproximar-se dele dizendo que é um comandante, desta forma, o paciente fica entusiasmado com John e se põe a falar de diversas coisas, como por exemplo, que esteve no Japão, que viu o Buda, etc, até um determinado momento que, através de indagações do jornalista, Stuart revela que o assassino vestia calças brancas. Logo em seguida, porém, Stuart volta a repetir suas falas desconexas, encerrando a conversa.

A segunda testemunha encontrada pelo jornalista é Trent, um estudante negro proveniente de uma universidade do sul dos EUA. Tinha sido internado porque imaginava ser um grande perseguidor de negros. Colecionava fronhas para fazer delas capuzes que encobrissem seu rosto nos momentos que imaginava estar em perseguição. Assim como fizera com a primeira testemunha, o jornalista se aproveitou do conteúdo da alucinação de Trent para se aproximar dele: John fingiu ser um árduo perseguidor de negros e iniciou uma conversa com o paciente. Após alguns instantes, assim como ocorrera com Stuart (a primeira testemunha) Trent apresenta um momento de lucidez em que relata se lembrar da noite do crime e da face do assassino, porém, segundos depois, volta a repetir suas falas persecutórias e desconexas, encerrando também a conversa.

A terceira e última testemunha encontrada pelo jornalista, chamada Boden, fora um físico nuclear. Tinha sido internado por começar a ter comportamentos infantis bizarros e debilitantes: só desenhava e brincava de esconde-esconde. Quando o jornalista se aproxima dele, repentinamente o paciente começa a ouvir algumas vozes e em seqüência se põe a falar da cena do crime, revelando, finalmente, o nome do assassino, que era um dos enfermeiros do hospício.

Contudo, ainda que John tenha obtido a informação que tanto almejara durante todo o filme (o nome do assassino) o final do filme não é “feliz”. Considerando uma série de indícios desde o momento da internação do jornalista que indicavam que as situações que vivenciava no hospício estavam sendo prejudiciais para sua sanidade mental, John no final da história também fica louco. Os indícios de perturbação começam com pesadelos passageiros nas primeiras cenas dele no hospício, e vão se intensificando com cenas que revelam um comportamento perturbado diante das visitas da namorada (Cathy) que passa a ser tratada com certo distanciamento, como se de fato fosse irmã dele. Submetido, ainda, a sessões de eletroconvulsoterapia, o jornalista chega ao final do filme num estado de confusão mental (que faz com que não consiga mais se lembrar do nome do assassino), que precede o quadro de esquizofrenia catatônica que o torna um verdadeiro interno do hospício no final da história.

2) Comparações entre as concepções de Samuel Fuller e de Freud sobre a manifestação do inconsciente

a) A Manifestação do Inconsciente descrita por Freud (baseada em “Psicoterapia da Histeria” de 1895):


As idéias iniciais de Freud a respeito das manifestações do inconsciente surgiram a partir dos seus primeiros estudos sobre os casos de histeria, com os quais se deparava freqüentemente na prática clínica.
A investigação sobre a sintomatologia histérica fez com que Freud percebesse que o relato dos pacientes de determinadas experiências traumáticas em conjunto com o afeto correspondente despertado, ocasionava alívio dos sintomas. Concluiu, então, que provavelmente “o problema” da histeria estava no fato de que diante de experiências traumáticas, a representação da cena (uma idéia com um sentido que por algum motivo o sujeito preferia não ter experimentado e da qual sentira necessidade de se defender por ser de natureza aflitiva e/ou vergonhosa) era separada de seu afeto (intensidade) através de um mecanismo denominado de recalque. A representação recalcada (também chamada de representação patogênica) – desinvestida de seu afeto – tornaria-se um traço mnêmico fraco (uma marca psíquica que por estar desinvestida do afeto seria passível de ser esquecida e/ou não reconhecida), enquanto o afeto deslocado da representação no recalque seria direcionado para a parte somática, levando ao surgimento dos diversos sintomas físicos vistos na histeria (Vide Esquema 1).

Esquema 1 – Processo de defesa do ego descrito por Freud em 1895: separação afeto - representação que ocorre diante de uma cena que adquire valor traumático e leva à formação de sintomas histéricos.

Conforme pode ser visto no Esquema 1, Freud destaca o papel de uma defesa psíquica na formação de sintomas - a defesa que faz, diante de uma situação traumática, afeto e representação se separar. Para essa defesa ocorrer, o ego lançaria mão de uma força de repulsão que ao separar a representação do afeto tiraria a representação para fora da consciência do indivíduo (ficando fora da rede de associações), não tendo acesso/retorno via memória. A força psíquica que se oporia que tais representações (patogênicas) se tornassem conscientes (que fossem inseridas na rede associativa consciente) foi denominada por Freud de resistência. A resistência, portanto, seria uma força que teria de ser superada para as representações patogênicas serem lembradas, pensadas e elaboradas.

Por conseguinte, a melhora dos sintomas histéricos dependeria da junção entre afeto e representação de uma determinada cena traumática, via fala. Assim, a idéia recalcada seria (ao menos em partes) trazida à tona/à consciência do indivíduo, podendo ser assimilada, refletida. Verbalizando as cenas com a expressão de afeto própria delas, a representação e o afeto uniriam-se novamente, pondo-se fim ao fomento dos sintomas, já que o afeto seria escoado com sua própria representação, por meio das imagens postas em palavras e “recolocadas” no seu sentido original .

A introdução feita acima da teorização de Freud sobre o processo de formação de sintomas na histeria, ajuda a compreender melhor como que ele definiu nessa época as manifestações do inconsciente. A representação recalcada ficaria fora do circuito associativo/consciente do indivíduo, estabelecendo-se como uma representação inconsciente patológica. Essa representação inconsciente seria o núcleo patógeno – algo responsável pela formação de sintomas, do qual o indivíduo teria que se livrar. A principal característica dada por Freud a esse núcleo patógeno foi o dele atuar como um INFILTRADO.

Dizer que o núcleo patógeno (ou a representação patológica inconsciente), que precisaria ser decifrada pelo médico, funciona como um infiltrado implica que ele permeia a rede associativa consciente do indivíduo, assim como suas formações sintomáticas, ainda que as representações desse núcleo não estejam à disposição do ego e não desempenhem papel na memória. Diferentemente de um encapsulado, de uma segunda personalidade que fica fora da consciência de uma pessoa e que aflora repentinamente, o infiltrado remete à possibilidade de se ter uma via de acesso ao núcleo patógeno através do sentido que está no sintoma (o sintoma recupera algo do sentido da representação inconsciente e patológica porque traz consigo a intensidade/o afeto dessa mesma representação que fora negada pelo indivíduo no processo de recalque). Em outras palavras, o sentido que o indivíduo “recusa” acaba por estar inscrito no sintoma, visto que existem diversos laços/ramificações entre o material psíquico patógeno e o restante do psiquismo do indivíduo.

Todavia, Freud deixa claro que a ligação entre núcleo patógeno inconsciente e um sintoma não é absolutamente clara. Existe toda uma complexidade do material psíquico que deve ser reconhecida. Ele destaca que o material psíquico apresenta várias dimensões: um núcleo que contém as lembranças ou idéias patógenas inconscientes, circundado por um material mnêmico onde estão lembranças, que podem ser recordadas com mais facilidade e que podem ser até mesmo conscientes, além das camadas mais externas que são reconhecidas sem dificuldades pelo paciente, (que sempre permaneceram em poder do ego). Freud indica que existem elos intermediários na cadeia de associações do paciente entre as representações das quais se parte (sintomas) e as representações patogênicas que são procuradas (o sentido que teve que ser negado), e que a constituição de uma situação traumática deve compreender a ocorrência de traumas parciais sucessivos, o que implica em sucessivas concatenações de cadeias patogênicas de idéias. Ou seja, aquilo que se torna traumático não é algo simples, por exemplo, um evento único. É algo da ordem de uma produção psíquica do indivíduo. Há uma concatenação de eventos (de cenas) que acaba por ir se encadeando e adquirindo um valor traumático/ impactante para esse indivíduo (dificilmente ocorre de um núcleo patógeno portar uma única idéia patógena relacionada a uma única lembrança traumática), o que salienta - além da complexidade do material psíquico inconsciente - todo o dinamismo do psiquismo humano .

b) A Manifestação do Inconsciente descrita por Samuel Fuller
A descrição feita por Samuel Fuller do inconsciente nos três personagens que apresentou como loucos (as três testemunhas) é claramente a descrição de um inconsciente concebido como um encapsulado, um corpo estranho ao psiquismo do indivíduo, que não estabelece nenhum tipo de contato com a rede de associações desse sujeito, uma idéia oposta a apresentada por Freud na “Psicoterapia da Histeria”.

O inconsciente apresentado como um encapsulado, que repentinamente aflora nas pessoas, pode ser percebido também como uma espécie de segunda personalidade: repentinamente os personagens entram em contato com a cena traumática (que no filme está colocado como sendo o assassinato) da mesma forma que abruptamente retornam ao estado anterior (“à primeira personalidade”), como se nada tivesse se passado (o material relembrado parece não ter impacto para o psiquismo dos sujeitos. Nenhuma redução de sintomas é assistida).

Adicionalmente, o afloramento da cena traumática como que “do nada” implica ao mesmo tempo que nenhum trabalho psíquico precisa ser feito para que o material inconsciente seja recuperado: os personagens apenas precisavam ficar falando durante um breve tempo para que, sem nenhum tipo de auxílio, retomassem a lembrança da cena do crime. Não existe resistência psíquica a ser superada para que o material traumático seja retomado.

Em relação aos sintomas apresentados pelos personagens, nota-se que Fuller buscou relacionar tais sintomas a situações traumáticas vivenciadas no passado pelos três internos (Ex. a segunda testemunha alucinava que tinha que perseguir negros que queriam casar com sua filha, sendo que no passado ele havia sofrido discriminação e perseguição por ser negro), todavia, esses mesmos sintomas não apresentavam nenhum tipo de relação com a cena traumática do assassinato, que foi a cena colocada como de grande caráter traumático na trama. Ou seja, os sintomas dos personagens (como por exemplo, o discurso desconexo, as alucinações, os tiques) não apresentavam nenhum sentido relacionado à representação traumática que fora recalcada, o que enfatiza o caráter da descrição de um inconsciente absolutamente isolado, que contém um material que não apresenta laços com os demais materiais psíquicos/com o resto da personalidade.

Em suma, a manifestação do inconsciente de Fuller é um afloramento repentino de um material patogênico (uma representação traumática) que se comporta como um corpo estranho, que não entra em qualquer relação com as camadas de tecido psíquico que o circundam, o que implica que o material que está no núcleo patógeno não está no discurso e nem nos sintomas dos indivíduos. Trata-se de uma descrição de inconsciente como sendo algo muito simples, deslocado dos demais conflitos dos personagens, que permanece inalterável, que não é re-significado mesmo diante de outras experiências afetivamente impactantes vivenciadas pelos indivíduos.

c) Conclusão:
As concepções de Fuller e Freud de inconsciente e de sua manifestação são divergentes. O que seria de se esperar – a partir da definição de Freud exposta acima sobre a manifestação do inconsciente – era que os três personagens do filme (as três testemunhas) acabassem recalcando a cena do crime – concebida como traumática – e começassem a apresentar sintomas que de alguma maneira mantivessem relação/portassem um sentido em relação ao material que fora recalcado (a cena do assassinato). Esperar-se-ia, ainda, que o “alcance”/acesso a esse material recalcado (a representação do assassinato que virou um núcleo patógeno) necessitasse de todo um trabalho psíquico sobre a defesa psíquica que ocorreu (no sentido de ser superada a resistência psíquica para a retomada consciente das idéias incompatíveis, dolorosas psiquicamente), o que não ocorreu na apresentação feita por Fuller em seu filme.

As divergências vistas implicam que o inconsciente como cápsula (descrito por Fuller) é o oposto do material inconsciente que atua como um infiltrado (descrito por Freud). Enquanto o inconsciente de Fuller é estático, imutável, desconectado do restante do psiquismo do indivíduo, que “dá o ar da graça” e em seguida se esgota/termina, o inconsciente freudiano é dinâmico, está conectado aos sintomas e ao próprio discurso do indivíduo, já que permeia a rede associativa consciente. Enquanto o inconsciente de Fuller é absolutamente simples, determinado por uma única experiência traumática, uma espécie de massa de lembrança que num determinado momento surge, o inconsciente e sua manifestação tratam-se de algo bastante complexo para Freud. É algo protegido de retornar à consciência por forças psíquicas que atuam no processo de defesa egóico (resistência) e que é constituido por diversos tecidos psíquicos (alguns mais inconscientes, impactantes e difíceis de serem reconhecidos, outros mais próximos da consciência, mais fáceis de serem retomados na cadeia associativa), além de poder portar diversos traumas parciais sucessivos e, por conseguinte, apresentar sintomas sobredeterminados.

3) Bibliografia Consultada

Freud, S. (1893-95). A Psicoterapia da Histeria. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund