Trabalho semestral – Prof. Emir Tomazzelli Aluna: Mirella Martinelli Magnoli
julho 2006

 

O Desespero, a Tristeza e a Flor

 

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.


Desde o nascimento, o bebê está exposto à ansiedade de estar diante da polaridade inata das pulsões de vida e de morte. Klein sustenta que desde o nascimento, já há um ego – o ego arcaico – operando e maturando no pequeno ser. O medo de aniquilamento produzido pela pulsão de morte, a ansiedade de separação produzida pelo nascimento, e a frustração das necessidades corporais nunca atendidas tão prontamente ou tão completamente quanto os desejos pulsionais exigem, criam extrema ansiedade no bebê. Para lidar com esta ansiedade, que é o desamparo, o ego arcaico cria mecanismos de defesa: parte da pulsão de morte é defletida, sendo projetada para fora, e a porção que fica no organismo é convertida em relações objetais sado-masoquistas. Estes mecanismos de projeção e cisão são a base das defesas do ego imaturo dentro da posição esquizo-paranóide.

Intrínseco ao mecanismo de projeção, é a introjeção que virá re-instalar o perseguidor dentro, o estrangeiro, aquele que Drummond poeticamente cita no poema, com o verso branco “Sempre dentro de mim meu inimigo.” O(s) perseguidor(es) projetado e introjetado tem forma e especificidade. Parece ser mais suportável, convenhamos, do que a informe e imbatível pulsão de morte. Mas a ansiedade de ser aniquilado por esta força destrutiva que agora é sentida também como interna, faz com que o ego dê uma resposta específica – despedaçar-se. O ego já cindido fragmenta-se ainda mais.

Segundo Klein, a projeção da pulsão de morte para fora encontra no objeto externo original - o seio – seu abrigo. Assim, o seio, que também traz gratificação ao bebê, é sentido como dois: o seio bom e o seio mau. A intrusão da pulsão de morte no seio é sentida como dividindo-o em vários pedaços. Completa-se o cenário esquizo-paranóide: o sujeito/objeto espatifado em vários pedaços confrontado com uma multidão de perseguidores. A experiência de gratificação alucinada, a cisão entre bom e mau, e a paranóia estão presentes nos versos de Drummond: “É sempre no passado aquele orgasmo,/ é sempre no presente aquele duplo,/ é sempre no futuro aquele pânico./”

A gratificação que é aspirada como ilimitada, e a proteção que o ego necessita contra o medo do seio perseguidor, fazem com que os aspectos bons do seio gratificador sejam exagerados. Este passa a ser mais um mecanismo de defesa primária - a idealização. Assim, na gratificação alucinatória que o bebê vive toda vez que sente algum desconforto, o objeto bom é idealizado (seio ideal) e mantido separado, enquanto a existência em fantasia do seio mau é negada – temos aí outra defesa primária: a negação.

Neste cenário de polarização e fragmentação, os primeiros meses de vida do bebê constituem um período de ansiedades extremas. Caso seu aparelho psíquico fique detido nestes processos, é muito provável que advenham daí estados psicóticos graves como a paranóia e a esquizofrenia. Para desenvolver-se e passar à posição depressiva, é preciso que comece um processo de coesão do ego arcaico. Segundo Klein, a tendência à integração se alterna com a tendência à desintegração. Para Klein, uma maior ou menor coesão está em conexão com uma capacidade maior ou menor do ego em tolerar a ansiedade, e o seio bom introjetado é o ponto onde o bebê se foca como instrumento de coesão e construção do ego.

Para Winnicott, “a integração e adaptação do bebê à realidade dependem essencialmente da experiência que o bebê tem do amor e do carinho da mãe.” A meu ver, os conceitos kleinianos a partir do mergulho que Klein fez no mundo interno da criança podem conviver, se mesclar e se completar com esta visão winnicottiana que enfatiza a importância do ambiente. A visão kleiniana centra-se na capacidade inata de cada ser em tolerar a ansiedade. A perspectiva de um contato mais amplo com o ambiente (amor e carinho da mãe – ou outro adulto em função materna), nos serve aqui para pensar sobre o quanto a maior ou menor capacidade de tolerar ansiedade também é aprendida com os adultos cuidadores. Aqui me parece que já está em jogo a função paterna. O amparo alternado com o corte me parecem ser a combinação necessária para o aprendizado da tolerância às ansiedades.

“Gepeto pegou as ferramentas e começou a entalhar e fabricar sua marionete. (...) Feitos os olhos, imaginem a sua surpresa ao perceber que eles se mexiam e o encaravam. (...) Então, depois dos olhos, fez o nariz. Mas, nem bem havia sido feito, o nariz começou a crescer. (...) A boca ainda nem havia sido acabada e já começava a rir e a debochar dele.”

A construção de Pinóquio, por partes, nos relembra que a chegada do percepto ao corpo é, em si, fragmentada pelos órgãos dos sentidos. Terá que haver uma instância que possa integrar a experiência e lhe dar sentido. Mas, o bebê Pinóquio já nasce num ambiente desfavorável, representado na história pelo ambiente físico: “A casa de Gepeto era apenas um quartinho térreo, que recebia luz de um desvão debaixo de uma escada. A mobília não podia ser mais simples: uma cadeira bem ruinzinha, uma cama nada boa e uma mesa completamente estragada.” A capacidade de tolerância do adulto cuidador, Gepeto, já é apresentada como muito baixa desde seu encontro com Mestre Cereja, quando a “vozinha” que sai da madeira que virá a ser Pinóquio é sentida por Gepeto como se fosse de seu colega, e os dois discutem. “Esquentando-se cada vez mais, passaram das palavras aos atos e se agarraram, se unharam, se morderam, se amarrotaram.” As reações de Gepeto aos primeiros impulsos de Pinóquio são ficar “ressentido”, “ofendido”, gritar “com voz ameaçadora”, fingir “não ter percebido” e ficar “triste e melancólico como nunca havia estado na vida” . Na primeira “mamada” de Pinóquio, Gepeto já se dessubjetiva: “Gepeto, que de todo aquele discurso confuso só
havia entendido uma coisa, ou seja, que a marionete estava morrendo de tanta fome, tirou do bolso três peras e, oferecendo-as para ele, disse: Essas três peras eram meu café da manhã. Mas eu lhe dou com prazer. Pode comer, e bom apetite.”

[estamos falando da mãe não suficientemente boa; Pinóquio é destinado a um mundo de passagem ao ato]

O que vemos a seguir no romance de Carlo Collodi é uma história que chega a entediar de tanta insistência na detenção do personagem na posição esquizo-paranóide e na pobreza simbólica do mundo que o cerca. Pinóquio se organiza apenas nos momentos de pavor. O mundo, como visto por Pinóquio, é fantasisticamente polarizado entre bom e mau (“Oh! Meu paizinho, como o senhor é bom!... E dizer que eu, ao contrário...” ) . O autor leva praticamente o livro inteiro para fazer com que Pinóquio deixe de “nadar ao léu”. Quando faltam apenas sete páginas para terminar a história, é que Pinóquio consegue proferir a palavra “Paciência!”, diante de uma difícil situação, esboçando tolerância à ansiedade e frustração. Em seguida, dispõe de fato seu esforço para a reparação de tantos objetos que danificou. Quando consegue, finalmente, realizar a reparação, deixa de ser uma marionete e se torna um menino. A demasiada demora para que Pinóquio passe à posição depressiva e os sofrimentos por ele vividos para que isto ocorra, estão ligados a esta dupla criança-adulto: o primeiro com suas pulsões extremamente fortes, o segundo com sua incapacidade de lidar com as próprias ansiedades, e, portanto, pobre em recursos para oferecer exemplos de maturação ao ego arcaico da criança.

Uma vez que é da natureza humana que a primeira infância seja banhada primeiramente pela posição esquizo-paranóide, reflitamos um pouco sobre como pode o ambiente, isto é, os adultos cuidadores, contribuírem para que o ponto que Klein levanta como crucial para a integração do ego – uma boa tolerância à ansiedade – seja bem trabalhado, auxiliando a criança a passar para a posição depressiva.

Um dos principais pontos para a construção da tolerância à ansiedade é, a meu ver a oferta da ausência da mãe, combinada com o amparo que vem a seguir. Françoise Dolto aponta para a alternância entre presenças e ausências da mãe, que moldam o espaço e o tempo. “(...) Os eclipses da mãe, seguidos por seus retornos, trazem ao filho certeza e fé em si mesmo; pois, qualquer que seja a mãe nutridora, ela é esse outro que garante a segurança do espaço conhecido. Se uma assistência contínua da mãe, assim como sua superproteção ansiosa, tornam difícil a simbolização de sua presença pela criança, sua ausência excessivamente prolongada age igualmente de maneira nefasta, pois, sem sua mãe, o bebê já não se sente “ser”, passado um certo tempo, que é variável para cada criança.”

A ausência da mãe por determinados períodos é o que pode dar o contorno de uma pessoa que “aparece e desaparece”, separada do ambiente. Se a mãe estivesse presente todo o tempo, não haveria possibilidade de separá-la do ambiente e, assim, quiçá, nem do próprio bebê; ambiente-mãe-bebê poderiam representar para o infante uma coisa só, misturada, indissolúvel. A intermitência entre presença e ausência começam a compor para o bebê a noção de tempo, que, pouco a pouco, já não é mais contínuo, mas separável em momentos de “estar com” e “estar sem”. Porque a mãe oferta sua ausência, sua presença a difere como unidade separada.

Tomando a dosagem do tempo de presença e da duração da ausência da mãe para com o bebê como um elemento essencial no ensinamento da tolerância à ansiedade, podemos pensar no espaço permitido ao bebê à percepção do ambiente e à elaboração de fantasias e, logo em seguida, uma assistência que não permita que o investimento nos objetos internos domine. Além da dosagem de tempo, a qualidade do encontro tem que ser levada em conta. Cabe ao adulto cuidador também a construção da idéia de desejo amoroso – aquele desejo permeado pelo desejo do outro, idéia esta que se constitui apenas na medida em que o adulto cuidador não se destitui de seu próprio desejo ao amparar o infante, e, que, paralelamente leva em conta os desejos e necessidades do bebê. A esperteza de Pinóquio não envolve ética porque não leva em conta o outro. A inteligência envolve ética. É a construção da identificação primária que pode permitir que se ultrapasse a “burrice” da posição esquizo-paranóide, tão explícita em Pinóquio. Ele repete o erro mesmo tendo inteligência em sua mente porque não há um eu suficientemente íntegro para aprender com a experiência. A mentira que é provisória na medida em que não se consegue sair da fantasia para enfrentar a experiência nua e crua do mundo real, pode se tornar mentira definitiva se o sujeito se recusa repetidas vezes vida afora a se deixar penetrar pela crueza da realidade. Assim, a “burrice” e a mentira estão unidas no mundo esquizo-paranóide, como expressões do medo de contato com a realidade, com a incapacidade de atravessar a espessura quase intransponível da fantasia. Minha cliente se queixa de que parece que não consegue aprender com as experiências, e me parece que é porque tem medo de deixar-se atingir, marcar pela experiência.

Se o acolhimento se derrama desmedidamente, não é mais amparo, é também desespero que negativa a própria subjetividade e se exime de delinear o limite que servirá ao infante de modelo à contenção pulsional que seu psiquismo terá que construir por si mesmo para se tornar sujeito. Se o acolhimento é pouco, está o infante lançado no desamparo para o qual não está preparado, pois a poça é para ele ainda mar sem fim enquanto não lhe crescerem um pouco as pernas e os braços e a habilidade de caminhar e nadar. Para construir sua pequena canoa que vai navegar o mar de nossas vidas sem chão, precisa que o adulto lhe ensine a juntar as madeiras, arranjar pregos e martelar. Se o adulto lhe nega a construção, por não saber fazê-lo ou não querer que se independize, a burrice fica insuperada, e a mentira se instala para suportar o desamparo.

A proposta kleiniana de interpretar os núcleos psicóticos dos neuróticos, me parece bastante importante. Os traços psicóticos infantis que restam em cada um de nós, adultos, dificultam a harmonia do convívio em grupo e contribuem para a manutenção de uma sociedade esquizo-paranóide onde nações, etnias, instituições se aglutinam para ir contra o suposto inimigo, necessário a esta idéia de sociedade, pois sem ele se esfacela.

O caminho do meio, da dosagem de ofertas – presença / ausência, é a única via de construção de um navegar possível – fora das polaridades, no campo do possível, sacando o utópico com o canto de olho, como baliza, e mirando o realizável, o humanamente possível, o universo do trilhável. O budismo flerta com esse caminho, procura domar o desejo através da aceitação do incômodo. Este domar parece fazer sentido pois, na medida em que se dissipa, por exemplo, a dor nas costas do meditador, ou o formigamento nas pernas que sua posição em semi-lótus lhe traz, retirando o foco mental das sensações corpóreas, elimina-se o desejo de, por exemplo, mudar de posição. No entanto o budismo parece não crer no sofrimento como aprendizado e nega a contrição. Mas o que fazer com sofrimentos maiores do que uma perna que formiga? Negá-los? Estar alheio? Seremos serenos diante de um Tibet invadido e sua população vilipendiada? A contrição delineia os limites da contenção pulsional. O cristianismo se prega na contrição como aprendizado que precisa fermentar para se firmar. Mas a rigidez de sua pregação nos detém nas polaridades de uma sociedade depressiva, da culpa e da idolatria religiosa.

Mas a Era de Peixes terminou com sua tristeza e culpa melancólica. Jesus na cruz é imagem marcada mas ultrapassada. Depois da culpa e da reparação vem a Era de Aquário, da esperança, iniciada em março de 2006. Se é no luto que o sujeito se constitui, é na consciência de seu entrelaçamento a tudo (como conta o mito norte-americano de Anashinabe), que o sujeito desabrocha e desfruta do viver. É preciso compreender e navegar entre o eu separado do mundo e o eu unido ao mundo. O limite epitelial que delineia aquele ser, aquela pequena peça, tão importante para o funcionamento do todo, existe mas é tênue. Estar nesse unitário, ao mesmo tempo ciente da participação da si-peça na engrenagem, do qual não se é tão separado assim. O ar entra e sai incessantemente não permitindo o esquecimento de que mergulhados estamos nesse todo, de que dele fazemos parte, instrínseca e reciprocamente – que o mundo só é exatamente assim porque dele fazemos parte aqui e agora.

A tristeza de perceber nossa pequenez, nossa limitação, precisa conviver em contraste com a profunda consciência da gigantesca importância dessa formiguinha nesse formigueiro, dessa peça no todo que o auxilia a se harmonizar se desempenha bem seu papel, ou que contribui para o adoecimento do todo, se espalha seu apodrecimento. O encanto que surge a partir do prazer em desempenhar bem seu pequeno papel é a flor. Em seu detalhe, a maravilha, a perfeição – imperfeita no envelhecimento e ainda perfeita neste, pois é com seu ciclo que põe adiante a vida. É o estágio da flor o segmento áureo que o som cadenciado busca para que o ritmo da vida não estanque em quase-vida, em botão”. Para que desabroche em flor, em encanto, em sentido, é preciso compreender a dureza das passagens, mas metabolizar e desfrutar do árduo que foi o caminho, para perceber no próprio caminhar, que continua sendo, árduo e encantador, a beleza, o mistério a dança da vida.

1 - Carlos Drummond de Andrade: O ENTERRADO VIVO

2 - KLEIN, Melanie: Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos, pg 25

3 - COLLODI, Carlo: Pinoquio, pg 14

4 - Ibid

5 - Ibid, pg 11

6 - Ibid, pg 15

7 - Ibid, pg 30

8 - Ibid, pg 174

9 - DOLTO, F: “A Gênese do Sentimento Materno: Esclarecimento Psicanalítico da Função Simbólica Feminina” (exposto no VII Congresso de Psicoprofilaxia, Mônaco, 1967)