RUBIA DELORENZO [1]
A morte chegou.
Chegou outra vez.
Está chegando todos os dias.
Agora é a vez dos jovens, das crianças.
Dos velhos e pobres que restaram.
Mensagens controversas, frias, sem cerimônia decretam a cada dia um
sombrio devir. Abafam o grave momento em que cidades se incendeiam. De febre, de fogo, de fervente inflamação.
Restamos sem ar.
Restamos sem bússola.
O fogo é contínuo.
Estrelas se apagam.
A névoa viscosa cobre
sua luz.
Ficamos órfãos. Sem caminho.
Ruas tornadas ciladas para a morte.
Casas de família choram em desespero.
Cidades inteiras em vertiginoso abismo.
Espaços urbanos em constante agressão.
Joelhos esmagam gargantas.
Olhamos incrédulos o espetáculo das armas.
Da força bruta dos corpos.
Da fúria sem contenção.
Sim, a morte chegou.
Chegou também nas florestas, nas matas, nos rios.
As patas dos animais ardem. Sangram abrasadas.
A selva queima.
A pele vermelha sofre.
A dor é viva e funda.
Sim, a morte chegou nas florestas, nas matas, nos rios.
Nas aldeias. Nas reservas.
Corpos e mentes devastados.
Devastada uma nação.
“Por que tanta angústia?
Por que tanta ansiedade?”
Por quê?
200 mil.
Dezembro - 2020
[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Colaboradora deste Boletim.