Faço aqui uma escrita parceira com o texto de Leclaire, Mata-se uma criança. Um texto com um nome curioso, que trata da destruição da representação narcísica primária. A questão dele é como se desfazer de algo que tem estatuto de representante inconsciente e, portanto, indelével.
Maria Finita.
Finita Maria.
Maria, mãe de Deus. No texto de Leclaire, o menino da Virgem se espatifa no chão: a unidade se desfaz. No texto, o menino se quebra, e a mãe prossegue intacta. Mas, e se fosse o contrário: Maria se desfaz, e o menino Jesus permanece? A mãe morreu, o menino segue, não mais em condição de filho. Isso também é matar a criança? A quebra da imagem unificada sugere uma alegoria poética que tratarei de explorar daqui em diante.
Mata-se uma criança.
Maria Finita é uma mulher, e dentro dela vive uma criança.
A criança em nós.
O próprio nome - Maria Finita - traz uma contradição.
Maria vem dos céus. Ela é bela e inalcançável e buscada a todo momento pela criança. É completa. Nada pode faltar. Adorada. Necessária em tempo integral.
Finita tem o tamanho que pode. É terrestre. Vive entre poeira e terra. É aquela que tem um luto a fazer a todo momento. Ela é uma outra para além de Maria. Ao mesmo tempo, é Maria também. Ambas lutam dentro para olhar fora. Fora dos olhos de um outro.
Existe para cada um, sempre, uma criança a matar, um luto a cumprir e a refazer continuadamente, de uma representação de plenitude, de gozo imóvel, uma luz que se ofusca para que ela possa brilhar e extinguir-se sobre o fundo da noite. (Leclaire, 1977, p. 11)
Mata-se uma criança.
Seria Maria Finita uma assassina?
De sonhos?
Anseios?
Esperanças?
Gerações?
O medo de romper com essa representação narcísica primária a congela.
Quando nascemos, já somos falados, desde antes do útero materno. Uma estória contada e recontada por nós quando vivemos.
Maria Finita seria assassina dessa estória que a botou de pé? Como matar uma criança que vive dentro e presa e inconsciente?
T E R R Í V E L.
Ela nasce dos olhos da mãe, que mirou os do pai, e juntos chegaram nela.
A criança nasce com destino. O trabalho dela quando cresce é quebrá-lo, espatifá-lo no chão, se quiser seguir seu rumo errante, seu caminho subjetivo e romper com ele, o destino. Ela nasce de promessas feitas em cima de muitos e de muitas ilusões e sonhos de um(ns) outro(s). Nasce. Nasce para não morrer aos olhos desse grande Outro. Nasce e, para ficar de pé, nasce também uma identidade traçada nos horizontes dos seus antepassados. Nasce com nome escolhido e carregado de marcas vindas de muitos tempos. Muitos tempos atrás. Nasce mesmo antes de nascer. Na voz, no olhar, nas estórias contadas, vividas e experenciadas pelos seus antecessores.
Nasce Maria para se haver com Finita.
Maria Finita "quer" matar sua própria criança, dentro dela. Uso aspas porque ela não tem notícia disso. Nem nunca teve. Como renunciar a algo que não se tem e a que nunca se teve acesso? Algo que se viveu em tempos primeiros e de que não se lembra, mas está ali em tempo integral. Dominando as ações de uma vida. Emperrando. Não deixando sair. Tirando a possibilidade de criação, de encontros, de tudo que a leva para longe dessa menina completa aos olhos de alguém.
A criança maravilhosa é uma representação inconsciente primordial, na qual [se] entrelaçam, mais densos do que em qualquer outra, os anseios, nostalgias e esperanças de cada um. Na transparente realidade da criança, o real de todos os nossos desejos mostra-se quase sem véu. A criança maravilhosa nos fascina, e não podemos nem afastar-nos dela, nem apreendê-la. (Leclaire, 1977, p. 11)
Tem um vácuo em Maria Finita. Um vácuo entre Maria e Finita. Sua identidade Maria, sofrida e pesada e dolorosa e machucada e sangrenta, não tem mais razão de ser. Deu finitos passos para seguir um novo rumo. Mas onde está esse novo rumo? É a morte da criança, dessa imagem que faz guiar seu destino?
Não sabe bem ao certo. Ela não sabe. Mas se vê enrijecida em um papel. Pelo menos parte dela se vê assim. Afinal, navegar não é preciso para Maria, só em águas paradas.
Onde está e para onde vai Maria Finita?
No divã, B. começa a sessão contando que, na casa dela, tem uma cortina suja e esgarçada, através da qual transparece tudo que se passa lá dentro. B. sai em busca de uma costureira e lavanderia. Todos os comércios estavam fechados, então, ela para em uma lanchonete que conhece de uma longa data, desde o tempo de criança. Ali, sente olhares perturbadores, vê cochichos e tem a certeza de ser malfalada. Algo familiar demais para B., que desde menina sofria bullying. Naquele dia, depois de algum tempo no divã, B. para de perguntar a razão de os outros fazerem isso com ela. E se pergunta: "O que tem de mim aqui? Acho que tem alguma coisa que me leva aos gestos de minha mãe". E formula - uma identidade que a transforma sempre em um ser igual a ela - mulher que sempre sofria bullying e o praticou fortemente com B.
Não sou isso, ela diz.
Não quero ser isso.
Sou outra.
Outros.
Outras.
Maria Finita escuta e se escuta na voz de B., também, mas não só. Não só. Ela cresce. Aquelas respostas diante da vida antes não são mais possíveis. A criança responde para o Outro. Ela encanta para ser. Ou não encanta, mas ainda assim é. É valioso ser. Ser aos olhos de alguém. Quem?
Como se mata uma criança?
O amparo prende. Prende a criança nos olhos e braços. O desvio desse olhar pode causar o fim. Desamparo. O fim dela. O fim da mulher que a olha. Matar uma criança seria matar a mãe? O ideal? Maria?
Marias morrem. Morrem ainda vivas. Só a de Jesus que não. Ela não morre. É levada pelos anjos aos céus. Ascensão de Maria. Um dos mistérios gloriosos. Levada pelos anjos por não ter pecado. Não morre, já que morrer é consequência do pecado. Maria mãe de Jesus. Não morre, ascende.
A imagem de Maria subindo aos céus é lindíssima. Uma mulher em assunção. Alimento de sonhos de uma criança onipotente, que passa horas olhando essas linhas traçando um corpo virgem puro. Uma busca da criança perfeita. Essa que não pode morrer. A criança que tudo tem. Tudo pode. Tudo quer.
Você É filho de Maria ou de Madalena ou de Helena. Você É. Que tamanho é esse do humano que não se pode findar? Para ser, você precisou do Outro. Corpo mole, sem coluna e estatura, não movimenta. Maria Finita ganhou corpo na voz de um Outro. Ganhou estatura. Parou de pé. Junto ao corpo, vieram estória e estofo. Agora sim. Maria Finita podia seguir com sua identidade colada aos olhos de um Outro. Afinal, ela precisava de uma para se erguer.
Edificou-se.
Endureceu de concreto entre veias e pulsações. Segurou-se muito tempo assim. Para ficar de pé, precisa de investimento de Marias, mães.
Essa história de triunfo sobre a morte, de permanecer criança e não se enlutar de si mesmo, é complicada. Arrasta-se por toda uma vida. A luta é incessante.
A criança maravilhosa nos fascina, e não podemos nem afastar-nos dela, nem apreendê-la. Renunciar a ela seria morrer, não encontrar mais razão para viver; mas fingir conservá-la seria condenar-se a não viver. (Leclaire, 1977, p. 11)
Mata-se uma criança.
Mata-se uma servidão.
Mata-se a ideia de ser tudo para um outro.
Mata-se o que lhe pôs de pé.
Que horror! A criança vive. Horror com recheio de culpa. Culpa por matar e por ser tudo e de gozo. Uma repetição sem fim. A criança vive nos olhos de Marias e Josés. Nos olhos de irmãos irmãs. Tios tias amigos amigas. Assim ela vive. Como não corresponder a esses olhos todos? Como sair do gozo da eterna criança? Como fracassar para esses olhos? Todos esses olhos? Como fracassar o desejo dos pais?
A criança é quem vai realizar os sonhos de desejo que os pais não puderam concretizar, será um grande homem, um herói em lugar do pai, desposará um príncipe, recompensa tardia para a mãe. O ponto mais dificultoso do sistema narcísico, essa imortalidade do ego que a realidade ataca sistematicamente encontrou um lugar seguro quando se refugiou na criança. (Leclaire, 1977, p. 21)
Encontrou um lugar seguro quando se refugiou na criança.
Encontrou um lugar seguro quando se refugiou na criança.
Encontrou um lugar seguro quando se refugiou na criança.
E o fracasso? Palavra engolida pelo humano. Por Maria. Sem lembrança. Apagada.
Rejeitada.
A palavra rejeitada.
Na ilusão de completude não cabe a palavra fracasso. Palavra fracasso não tem refúgio. Seguro e fracasso não andam de mãos dadas. O crescido na criança morre de medo do fracasso e, por isso, também não morre. Congela. Não morre cotidianamente como se tem que morrer. Ela luta em desespero para imantar o seguro dele. É preciso seguro de vida. Não pode seguir. Seguir ainda não tem nome. Como se segue sem um?
Não, é impossível. Insuportável é a morte da criança: ela realiza o mais secreto e o mais profundo de nossos anseios. (Leclaire, 1977, p. 10)
O conflito entre Maria e Finita se dá no instante em que tem que renunciar a algo. Maria não quer perder, ou se ilude de que não pode perder e ainda assim seguir sendo Finita. Não quer perder a criança, mas nem sabe disso. Não quer renunciar ao desejo imediato. Casou com o passado.
Por isso repete.
Repete.
Repete.
Como sair dessa formulação calcada na perda, na imaginação mítica de que um dia já não foi perdido e de que alguém é completo? E de que o mundo é dividido entre completos e faltantes? Ela olha e não pensa. Tudo se pensa nela. Fica parada.
Maria quer ser tudo. Tudo para o outro. Quer segurança. Amparo.
A neurose Maria é uma casa para Finita. Um sobrenome. Uma criança. Um agarro nos olhos. Segura e completa e fálica. Não quer circular e tem medo de perder. Perder é igual morte. Fim.
A prática psicanalítica consiste em tornar manifesto o trabalho constante de uma força de morte: esta que consiste em matar a criança maravilhosa (ou aterrorizante), que, de geração em geração, testemunha acerca dos sonhos e desejos dos pais. (Leclaire, 1977, p. 10)
A análise tem essa força de fazer morrer a criança. Ela é luto constante. Não entramos em análise para fortalecer a nossa identidade, entramos para assumir o nome Finita, o que implica em desconstruir a identidade, quebrar a imagem de barro. Para sermos mais além de Maria Finita.
Passamos toda uma vida driblando a morte. A perda.
O tempo inteiro.
O tempo inteiro.
Isso não para.
Não para.
Não, não vou perder meu falo. Para onde volto? Para o falo. Por isso não falo, não escrevo, não crio, não vivo. Não vou perder meu falo.
Volto
Volto
Volto
Driblo. Driblo a castração e passo uma vida neurótica. Neurose é um arranjo de uma vida que começa na infância e não cansa de se repetir.
Mata-se uma criança, por favor.
Mata-se.
Negar a perda é negar a vida. Essa última acontece em um intervalo entre o nascimento e a morte. Somos intervalo. Estamos no entre. Entre nascer e morrer. Em trânsito navegamos.
Castra Castra Castra Castra Castra
AÇÃO AÇÃO AÇÃO AÇÃO AÇÃO
Essa palavra navega em alto-mar. Em um primeiro momento, parece algo terrível. Com ondas gigantes, icebergs, frio intenso, desamparo e um barquinho no meio. Navegando em águas castradas, Finita quer seguir com seu barco, e Maria morre. Morre de medo da morte. Paralisa e não navega. Finita segue à revelia de Maria. Não tem medo. Quer viver no sentido pleno. Não obedece. Segue sem voltar para os olhos sonhos de Marias e Josés.
O sonho é dela. Somente dela. E de Maria? Afinal, Maria Finita são muitas. Mas será esse o sonho de Maria? Ou é só de Finita?
Essas contradições humanas.
Maria não gosta. Não gosta do erro. Da pausa. Do intervalo. Ela se desespera.
Finita aguenta. Vive no entre.
E lutam.
No dicionário da língua portuguesa, castração é:
substantivo feminino
Operação ou ato de castrar; retirada dos órgãos reprodutores, responsáveis pela reprodução.
[Zoologia] Nos machos, a remoção dos testículos; nas fêmeas, a dos ovários.
[Figurado] Repressão dos comportamentos, das atitudes, das vontades, da personalidade de alguém; coibição, censura, repressão.
Etimologia (origem da palavra castração). Do latim castratio, onis, "castratione". (Ribeiro, [s. p.])
O que seria reprimir vontades, atitudes? Não é possível viver no paraíso perdido. Nos seios da mãe. No infinito infantil. Não. Não se pode.
O que de sexual "perdemos" quando somos castrados?
Complexo de castração, na língua de Pontalis e Laplanche:
Complexo centrado na fantasia de castração, que proporciona uma resposta ao enigma que a diferença dos sexos (presença ou ausência de pênis) coloca para a criança. Essa diferença é atribuída à amputação do pênis na menina.
A estrutura e os efeitos do complexo de castração são diferentes no menino e na menina. O menino teme a castração como realização de uma ameaça paterna em resposta às suas atividades sexuais, surgindo daí uma intensa angústia de castração. Na menina, a ausência do pênis é sentida como um dano sofrido que ela procura negar, compensar ou reparar. (Laplanche; Pontalis, 2001, p. 73)
Mas o que de castração tem a ver com a estória da criança? E de novo, o que de sexual perdemos quando somos castrados?
Perdemos a ligação com o outro. Ficamos lá no primeiro encontro. Naquele encontro mítico onde tudo se dá.
Só há vida a esse preço, pela morte da imagem primeira, estranha, na qual se inscreve o nascimento de cada um. Morte necessária, pois não há vida possível, vida de desejo, de criação, se cessarmos de matar a criança maravilhosa que renasce sempre. (Leclaire, 1977, p. 10)
São muitas as mortes em uma vida só. Morremos no instante de uma renúncia. Sim, morre algo ali. Morre. Castração é uma morte de um arranjo de vida, mas que abre para outras in Finitas possibilidades de viver. É quando nos damos conta de que não somos tudo para o outro. É uma morte.
A criança mora em Maria. Finita é sem rumo, não tem casa. Lar seguro. Reinventa-se. Não obedece às regras impostas por um eu gigante. Finita morre sempre, Maria peleja. Ela sempre quer voltar para os olhos da mãe. Finita quer seguir. Viver. De pés no chão e olhos no horizonte. Essa luta, sim, essa luta é infinita. Não para de acontecer enquanto há vida. Não há descanso. Nunca chega. E nunca chega mesmo. E se chega, é o fim, ao qual chamamos morte.
É por encontrar resistências que a vontade de potência se exerce; é por exercer-se que torna a luta inevitável. Efetivando-se, faz com que a célula esbarre em outras que a ela resistem; o obstáculo, porém, constitui um estímulo. A luta desencadeia-se, de tal forma, que não há pausa ou fim possível; de caráter geral, ela não tem trégua nem termo. Consistindo numa pluralidade de adversários, tanto no que diz respeito às células, quanto aos tecidos ou órgãos, o corpo é animado por combate permanente. Até o número de seres vivos microscópicos que o constituem muda sem cessar, dado o desaparecimento e a produção de novas células. No limite, a todo instante, qualquer elemento pode vir a predominar ou a perecer. Compreende-se, então, que a vida vive sempre às expensas de outra vida, justamente por ser a luta o seu traço fundamental. Vencedores e vencidos surgem necessariamente a cada momento, de sorte que nossa vida, como toda vida, é ao mesmo tempo uma morte perpétua. (Marton, 2019, p. 95)
Repetindo Marton - "de sorte que nossa vida, como toda vida, é ao mesmo tempo uma morte perpétua".
Uma morte perpétua.
O que se perde quando se mata a criança?
Destrói-se a representação narcísica primária, o narcisismo primário. O eu ideal. O ideal. Perde a mãe. Perde esses olhos todos recheados de sonhos que não são seus. Não são seus. Não são seus.
Que sonhos sonho?
Perde os olhos cravados na imagem de Maria. Completude. Céu. Manto sagrado. E ganha outro tanto de nós. Nós são nós. Laços. Não lastro. Castração é laço com vida. Mas não se completa nunca. Lembra? Vida é luta. Lembra, Maria? Vida circula. Falo circula. Vida e morte narram o caminho.
Aproximar-se de um representante inconsciente é reconhecer, como valor substitutivo, a gama de representações que esse representante engendrou de forma violenta, e por conseguinte, retirar alguma coisa do seu poder tirânico. Reconhecendo-os em seu estatuto de representantes inconscientes, atacar a cegueira que os tornava poderosos, começar a danificar a mais fascinante das figuras do destino: a criança em nós. (Leclaire, 1977, p. 23)
Maria Finita Finita Maria lutam eternamente.
Uma para viver aos olhos da mãe.
E outras para perder a cegueira e ver com os próprios olhos.
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ano - Nº 7 - 2025publicação: 10-12-2025 |
LECLAIRE, S. Mata-se uma criança: Um estudo sobre o narcisismo primário e a pulsão de morte. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
MARTON, S. A propósito da frase de Nietzsche: "Um pensamento vem quando ‘ele' quer...", Boletim Formação em Psicanálise / Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, ano XXVII, v. 27, 2019.
RIBEIRO, D. (Lexicógrafa responsável). DICIO Dicionário Online de Português. Disponível em: https://www.dicio.com.br