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A psicanálise frente à Violência de Gênero: Limites e possibilidades



 

As relações abusivas representam um grave problema social no Brasil, com dados alarmantes que demandam uma análise aprofundada. Segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher (Brasil, 2023), 30% das mulheres brasileiras com 16 anos ou mais relataram ter sofrido algum tipo de violência doméstica ou familiar provocada por um homem. Entre essas mulheres, 52% afirmaram que o agressor era o marido ou companheiro na época da violência, enquanto 15% relataram que se tratava de ex-marido, ex-namorado ou ex-companheiro. A forma mais prevalente das agressões nos relacionamentos abusivos é, segundo a pesquisa, a violência psicológica, com 89% dos casos relatados. Casos recentes, como o episódio amplamente noticiado em 2025, no qual uma mulher foi agredida por seu companheiro dentro de um elevador, em Brasília, ilustram a persistência da violência de gênero e apontam para a necessidade de debatermos o tema a partir de uma perspectiva psicanalítica, uma vez que a própria psicanálise, em seus conceitos e formulações, também é permeada por questões de gênero que influenciam a compreensão dessas dinâmicas.

 

Em uma sociedade patriarcal, a dimensão social e política atravessa a violência contra a mulher na medida em que os sujeitos estão constantemente expostos a discursos misóginos, que naturalizam as desigualdades. Esse processo não se limita apenas à reprodução de papéis de gênero, mas expressa também um ódio dirigido ao feminino, entendido não apenas como categoria biológica, mas como tudo aquilo que remete à alteridade e ao que ameaça a onipotência narcísica masculina. A violência, nesse sentido, pode ser lida como uma tentativa de aniquilar aquilo que representa a diferença, revelando uma marca estrutural da misoginia. O desprezo e a hostilidade ao feminino sustentam as bases simbólicas que autorizam práticas abusivas e as relações de dominação.

 

A cultura ocidental, fundada há milênios sobre o ideal de autocontrole, construiu o feminino como lugar do mal, da tentação e da desordem, ao mesmo tempo que o idealizou como origem da vida, criando uma ambivalência que sustenta a misoginia. Esse ódio ao feminino, atravessado por discursos religiosos e sociais, legitima práticas de violência que vão da culpabilização da vítima ao feminicídio. Do ponto de vista psicanalítico, o desejo autônomo da mulher é insuportável porque interroga o sujeito em seu próprio desejo, revelando aquilo do inconsciente e, portanto, fora do seu controle que ele não suporta reconhecer, e é contra esse enigma do desejo do outro que se volta a violência (Homem; Calligaris, 2020).

 

Alguns conceitos psicanalíticos, como narcisismo, sadismo, masoquismo, identificação com o agressor, entre outros, podem servir como ferramentas para uma melhor análise das dinâmicas relacionais baseadas, de um lado, na dominação e no controle e, de outro, na passividade e na obediência. É importante reconhecermos, no entanto, que a psicanálise, enquanto teoria, também foi constituída em uma sociedade patriarcal, o que implica que determinados conceitos carreguem os efeitos desse sistema.

 

Entre esses conceitos, podemos destacar o masoquismo, que, como formulado por Freud, ocorre quando a dor e o desprazer deixam de ser uma função de alarme e, ao contrário, passam a ser metas almejadas. Em O problema econômico do masoquismo (1924), Freud descreve três modalidades: o masoquismo erógeno, o moral e o chamado masoquismo feminino. Este último estaria associado à passividade, ao sofrimento e à posição de objeto diante do desejo do outro. Contudo, não seria justamente essa nomeação uma forma de reforçar os discursos patriarcais que naturalizam a submissão feminina? Ao qualificar o masoquismo como “feminino”, a psicanálise não acabaria por reproduzir uma violência simbólica contra as mulheres? Nesse sentido, como compreender tais fenômenos à luz da psicanálise sem, ao mesmo tempo, reproduzir os limites de sua própria matriz histórica?

 

No debate psicanalítico contemporâneo, Moreira (2024) retoma criticamente o conceito de “masoquismo feminino” ao propor para ele um caráter de mito. Desa forma, ao invés de ser uma disposição intrínseca da mulher, como sugerem certas leituras clássicas, o masoquismo feminino operaria como um dispositivo de naturalização da submissão feminina, sustentando práticas sociais e simbólicas que justificariam a violência de gênero e a permanência de mulheres em relações abusivas. Ao desconstruir a ideia de que haveria uma vocação masoquista própria do feminino, a autora evidencia que tais formulações se inscrevem em um campo atravessado por relações de poder, onde o sofrimento feminino, frequentemente, é interpretado como escolha ou destino, em vez de resultado de estruturas sociais e psíquicas opressivas. Essa perspectiva abre caminho para uma análise crítica das relações abusivas à luz da psicanálise, problematizando a tendência a responsabilizar a mulher pela repetição do vínculo violento.

 

Ao mesmo tempo que oferece ferramentas valiosas para analisar as dinâmicas inconscientes implicadas na violência de gênero, a psicanálise carrega as marcas de seu contexto histórico e social, exigindo constante revisão crítica de seus conceitos e teorias. Assim, mais do que respostas definitivas, este texto busca abrir um espaço de diálogo: como ressignificar noções sem reproduzir lógicas de opressão? De que forma a psicanálise pode contribuir, hoje, para compreender e enfrentar as relações abusivas sem recair nos impasses de sua própria tradição? Convidamos nossos debatedores a escrever sobre esse tema.

 


 


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ano - Nº 7 - 2025
publicação: 10-12-2025
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Referências bibliográficas

BRASIL. Senado Federal. Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher. 10. ed. 2023. Disponível em: https://www12.senado.leg.br Acesso em: 14 out. 2025.

FREUD, S. (1924). O problema econômico do masoquismo. In: FREUD, S. Obras completas, v. 16. O Eu e o Id, "Autobiografia" e outros textos (1923-1925). Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 184-202.

HOMEM, M. CALLIGARIS, C. Uma conversa sobre cultura e misoginia. Maria Homem - Conversas, YouTube, 15 jan. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=amYoKZg8bBE. Acesso em: 15 set. 2025. 

MOREIRA, L. S. O mito do masoquismo feminino. In: MARTINS, A. A. et al. (Orgs.). Limiares: desafios contemporâneos da psicanálise. São Paulo: Blucher, 2024. p. 59-73.

 


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