ARTIGOS

O fenômeno psicossomático e a clínica de bebês de risco


The psychosomatic phenomenon and the clinic of at-risk babies
Wagner Ranña
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae

RESUMO
O texto discute as várias vertentes teóricas da psicossomática
psicanalítica, desde a conversão em Freud, a somatização em Marty e o
fenômeno psicossomático em Lacan, tomando como referência a clínica com
bebês e crianças de risco e as terapias conjuntas com pais e bebês. Articula a
constituição subjetiva, indo da pediatria à psicanálise, dando importância aos
aportes transdisciplinares.

Palavras-chave: Psicossomática, Psicanálise, Subjetividade, Constituição, Transdisciplinaridade.

ABSTRACT
Abstract: The text refers to the several theoretical aspects of Psychosomatics
Psychoanalysis, from Freudian conversion, the somatization in Marty and the
psychosomatic in Lacan, taking as reference the clinic work with babies and
children at risk and both therapies with parents and children. It articulates the
subjective constitution from pediatrics to psychoanalysis, highlighting the
importance of transdisciplinary inputs.

Keywords: Psychosomatics, Psychoanalysis, Subjectivity, Constitution, Transdisciplinarity.


 

 

"No aeroporto, encontro Manuel, menino de 11 anos. Vem correndo me abraçar. Logo em seguida vêm seus pais. Encontro agradável, afetivo e compartilhado. Ao seguirem para seu voo, minha esposa pergunta: quem é? Respondo que é Manuel, quando bebê era insone, agitado, tinha refluxo, alergia ao leite de vaca e muitos sinais de impasses na sua constituição. Não olhava, não era capturado pelo manhês, não convocava o outro. Depois apresentou muitas dificuldades na relação com pares. Pais muito implicados, mas hesitantes na relação com um bebê tão atípico. Constituímos um projeto terapêutico: psicanalista bebelóloga, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional, equipe da escola e psiquiatra. Muito trabalho, muito sofrimento. Muita transdisciplinaridade construída através de encontros interdisciplinares. Integração sensorial e motora, trabalho para entrar na linguagem, muitas sessões lúdicas, orientações de professores para apoiar suas capacidades na relação com as crianças. Tinha crises de agressividade e angústia. Foi medicado (Risperidona, Ácido Valproico). Vai melhorando e apresentando sinais de um organismo controlado, um corpo integrado e um sujeito se estruturando. Aprende a ler e a escrever. Seus desenhos adquirem figuração. Hoje com 11 anos, segue com as sessões com psicanalista e consultas psiquiátricas a cada 6 meses, sem medicações. Em consulta recente, me fala que quer ser contador de histórias, pois gosta muito de livros. Vejo Manuel me dando tchau e sumir no túnel do seu voo. E fico pensando que ele demorou e teve muitos impasses no seu desenvolvimento, mas seu voo para a subjetividade foi conquistado."

 

Da pediatria à psicanálise e a constituição subjetiva

 

        A trajetória nesse percurso terapêutico começou em uma consulta. E as primeiras consultas com crianças que apresentam riscos na sua constituição são muito importantes.

         Quando um bebê vai à consulta, pode estar sendo avaliado pelo viés médico, que através dos sintomas vai identificar uma doença e prescrever um tratamento. Na medicina, o diagnóstico vem antes, e as doenças são concebidas como entidades naturais, que existem independentemente do sujeito, seu inconsciente, contexto familiar, social e histórico. Um conjunto de sinais clínicos pode configurar uma doença e um diagnóstico, sendo então prescritas medicações e orientações.

      Mas o bebê, ou a criança, pode e deve ser avaliado por outra perspectiva, através de uma clínica atravessada pelas teorias da constituição subjetiva. A avaliação vai demandar vários momentos de observação do bebê, escuta dos pais e de outros profissionais implicados no cuidado. Avaliam-se também seus repertórios relacional e lúdico, identificando como estão seu processo de entrada na linguagem, suas competências lúdicas, relacionais, sua capacidade de estar só e de se separar dos seus cuidadores próximos, e ainda como ocorre sua constituição de uma imagem de corpo. Só depois levantamos hipóteses diagnósticas e quais os problemas e impasses que ocorrem nesse caminho constitutivo. Quando muitos especialistas estão implicados no caso, são imperativos vários encontros transdisciplinares. Em psiquiatria com bebês e crianças, os diagnósticos são de chegada, e para a infância temos que pensar em tempos no gerúndio (Bernardino, 2004), ou seja, se estão sendo, indo, se constituindo.  

      Fazer diagnóstico em uma consulta e orientar vários tipos de intervenções desarticuladas são ações que essa clínica não comporta. Quando avaliamos bebês através da clínica que estamos propondo, os sintomas e sinais clínicos não são específicos, ou não têm a especificidade diagnóstica como nos adultos, embora essa inespecificidade esteja também presente nos adultos. Portanto, os mesmos sintomas podem corresponder a vários diagnósticos, e os diagnósticos podem se apresentar em vários sintomas (Ranña, 2021).

      Várias vertentes do pensamento clínico estiveram presentes desde o início da construção dessa clínica, entre elas a psicossomática da primeira infância, tendo sido uma das pioneiras, que muitas contribuições nos trouxe.

      A psicossomática da infância foi estudada, principalmente, na segunda metade do século XX, sendo área de confluência interdisciplinar entre a Psicanálise, a Psiquiatria Infantil e a Pediatria (Ranña; Volich, 2024, p. 297).

      A implicação de determinantes psicogênicos em inúmeras patologias infantis vai delineando um campo de pesquisas com conceitos metapsicológicos próprios e que não podemos deixar de considerar na clínica de bebês e de crianças pequenas.

      O bebê é o puro real, e as somatizações são os meios pelos quais expressa seu mal-estar. O processo através do qual vai ser constituído um sujeito ocorre no litoral entre organismo e as inscrições psíquicas e entre o bebê e sua relação com o cuidador ou cuidadores. Para estabelecermos as bases teóricas dessa clínica, atravessamos um grande percurso.

      Do bebê e da criança mítica, pensada a partir do inconsciente descoberto na análise de adultos, até chegarmos à criança e ao bebê real, acolhido em uma relação e vivenciando seu desenvolvimento e sua constituição subjetiva, na psicanálise contemporânea, percorremos um longo percurso, aprendendo a integrar os impasses constitutivos aos distúrbios funcionais e lesionais, em uma clínica transdisciplinar. Nessa clínica, não devemos ser ludibriados pela oposição paralisadora entre orgânico e psíquico, mas nos referirmos pela potência da detecção e da intervenção precoce.    

      Segundo Norma Bruner (2014), em seu livro Vida e morte no brincar, a psicanálise foi pioneira, e por muito tempo solitária, no estudo dos problemas mentais da infância. São 100 anos de história da psicanálise com crianças e bebês. Os parceiros de primeira hora da psicanálise com bebês e crianças foram a educação e a pediatria. A psiquiatria biomédica não se interessou pela infância e apareceu nesse campo de cuidados na década de 1980, portanto, mais recentemente.

      Para a medicina, existe o organismo regido pelas leis biológicas, e o sujeito não se implica nos processos do adoecimento, como afirmamos acima. Mesmo as psicopatologias seriam uma espécie de doença infecciosa que acometeria ou infeccionaria o organismo, que reage pelas leis naturais. O sujeito é forcluído, o sujeito do inconsciente fica elidido, assim como não se pensa no sujeito e sua posição no laço social, nem no seu lugar na história.

      Muito já teríamos que dizer sobre esse reducionismo na medicina. Foi grande, e ainda é, a batalha para transformar o ensino nas escolas de medicina que levasse em conta os determinantes históricos, sociais e subjetivos das doenças, da integralidade biopsicossocial e da importância dos três níveis de atenção: primária, secundária e terciária. E muito há que se fazer para ampliar e melhorar a formação médica.

      Para o discurso médico, se existe uma lesão de órgão, o caso é de seu domínio. Mas, quando não existem alterações patológicas para explicar os sintomas e disfunções, afirma-se que o paciente não tem nada e mandam o caso para o psicólogo. Somos então especialistas nesse "nada". É aí que entram os conceitos de somatização, que podem ser da ordem das conversões histéricas ou dos fenômenos psicossomáticos.

     Há muito tempo temos evidências de que o sujeito é psicossomático e que é um reducionismo não considerar os processos de constituição de imagem inconsciente do corpo (Dolto, 2017) e os efeitos da ordem simbólica no adoecer humano (Ranña, 1997, p. 103).   

      Partindo daí, a experiência e a pesquisa nesse campo da escuta e do cuidado, atravessadas pela psicanálise, tiveram seus avanços para atender em análise pacientes somatizadores e pacientes que apresentam problemas e impasses nesse caminho. São grandes os sofrimentos somáticos que ficam nesse espaço desconhecido e complexo. 

 

Podemos falar em somatização nos bebês?

 

      O bebê expressa principalmente através do corpo seu mal-estar, e sempre temos que avaliar se estamos diante de um problema, de uma crise passageira, de um distúrbio, ou ainda de uma doença. Por exemplo, no autismo, o que está disfuncional é o repertório de processos psíquicos primários, corporais e comportamentais na relação com o outro semelhante, que vão ter consequências diversas na entrada desse sujeito na linguagem, na constituição de uma imagem do corpo e de uma posição de sujeito.

      Estamos vendo, nas sucessivas publicações do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), a complexidade de expressões que são alteradas a cada publicação. Primeiro, adota-se uma classificação por categorias diagnósticas, em um referencial nosológico. Depois, adota-se o referencial dimensional, emergindo o termo espectro. Assim, o Transtorno Global do Desenvolvimento, o Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, o Transtorno de Kanner, o Transtorno de Asperger, entre outros, compunham as hipóteses classificatórias. Depois, com a proposta de uma abordagem dimensional no DSM V, tudo se torna Transtorno do Espectro do Autismo, leve, moderado e grave. Essas mudanças interferiram no cenário epidemiológico, e os autismos de 1/10000 foram para 1/68, em cerca de duas décadas (Bursztein, 2016, p. 10).

      É importante destacar que o diagnóstico médico e o diagnóstico psicanalítico são produzidos por referenciais diferentes. O primeiro é nosológico, clínico e classificatório, sendo estabelecido em uma consulta, enquanto o outro é estrutural, tomando como referência a constituição da subjetividade, e é produzido longitudinalmente e em vários contextos. O diagnóstico em psicopatologia com referência na psicanálise é produzido na transferência, o que significa dizer que é só depois de conhecer a família, os cuidadores e o bebê em vários encontros que podemos reconhecer o que está acontecendo.

      Na medicina, o corpo se reduz ao organismo regido pelas leis biológicas, e as doenças são acontecimentos naturais e ocorrem de forma desvinculada do sujeito. Esse reducionismo da medicina não se limita à exclusão somente do sujeito do inconsciente, mas, com frequência, são excluídos também os determinantes sociais e históricos. A integralidade biopsicossocial é bastante excluída das formas de entendimento e abordagens das doenças, o que constitui uma aporia, pois não se pode ter como referência apenas uma epistemologia biomédica. Na psicanálise, o organismo é atravessado pelo imaginário, que o desloca para a lógica do corpo e sua imagem, e pela linguagem, que o coloca na lógica do simbólico e do sujeito do inconsciente. Sendo assim, o diagnóstico médico, embora queira ser hegemônico, acaba sendo reduzido, pois não podemos abstrair a condição do sujeito da fala e do corpo, que é o lugar do desejo e do gozo.

     Hoje penso que as acirradas discussões em torno desses temas são resultado de uma forte presença, ainda no século XXI, das concepções eugenistas e de supremacia racista, que deram base para que atrocidades como a escravidão e o genocídio estivessem entre as práticas colonizadoras de domínio na nossa história. Para perpetrarem essas modalidades de violência e exercício do poder, lançaram mão de formas de naturalização daquilo que era da ordem do discurso.

 

A psicossomática psicanalítica

 

     Vamos nos restringir, no entanto, à discussão sobre as relações entre corpo e mente, ou melhor, entre corpo e aparelho psíquico, ou ainda entre organismo, corpo e linguagem. Esse tema epistemológico espinhoso, complexo e ainda aberto para muitas pesquisas, entre as quais a "clínica com bebês", trouxe importantes contribuições.

      Freud nunca abandonou essa preocupação, e sobre ela depreendemos dois pontos dos escritos do autor:

1 - A inequívoca unidade entre corpo e psique;

2 - A complexidade e a grande ignorância que existem nesse campo.

      Desde os primórdios da psicanálise, o tema do corpo foi pensado e considerado. O texto "Projeto para uma psicologia científica" (Freud, 1895/1996) aborda esse tema e foi silenciado, quase destruído por Freud. Segundo Bezerra Jr. (2013), Freud achava o texto incompleto, pois lhe faltavam muitos conhecimentos na época, e o considerava muito especulativo. Na atualidade, com os avanços da epigenética e da neurociência, muita luz incidiu sobre esse campo complexo. Estamos no momento da transdisciplinaridade e da aproximação entre o inato, o natural e o adquirido, ou constitutivo. As ciências humanas e as ciências biológicas estão muito mais próximas e interdependentes, e a imanência vem ocupar um lugar de destaque nessa questão.

      Por outro lado, a descoberta do inconsciente e as possibilidades abertas pela clínica da escuta foram infinitas, e, provavelmente, Freud vislumbrou a possibilidade de muitos avanços nesse campo pela clínica psicanalítica, deixando em suspenso as correlações neurofuncionais que dão sustentação aos processos psíquicos. Freud sempre foi atento à concepção de que não podemos pensar em um aparelho psíquico suspenso no ar e isolado de sua base biológica.

      Freud não pensou em psicossomática, mas trouxe muitas contribuições para o estudo da metapsicologia das somatizações. E, nessa vertente, temos dois conceitos: o das conversões, chamado salto do psíquico no somático, e o de neurose atual, dentro da neurastenia e da neurose de angústia, em que os excessos da libido não representada eram descarregados no corpo. Mais adiante, Freud formula o conceito de pulsão de morte e sua ação destrutiva sobre a vida.  No texto "O problema econômico do masoquismo" (Freud, 1924/2006, p. 177), ele aponta para um gozo do sofrimento, na intricação entre pulsão de vida e pulsão de morte. Esses pontos serão considerados e desenvolvidos pela psicossomática psicanalítica posteriormente.

      Como as relações entre corpo e mente foram abordadas na psicanálise depois de Freud?

      Primeiro, podemos dizer que essa relação é uma absoluta realidade, e que muita coisa absurda foi feita ao negá-la. Um exemplo que podemos destacar são as inadequadas formas de abrigar crianças em instituições ou hospitais, que, até 1980/1990, eram desumanas e iatrogênicas, impedindo a permanência dos pais e desconsiderando as necessidades psicossociais da criança. O conceito e o quadro psicopatológico do hospitalismo foram importantes para as mudanças necessárias nas formas de internação.  

      Como afirma Lacan, citado por Mario Eduardo Costa Pereira, a psicanálise e outras formas de abordar a integralidade do humano biopsicossocial poderiam ser a flor da medicina, mas, nos últimos anos, temos visto o recrudescimento de concepções reducionistas e medicalizadoras. Estamos diante de um retrocesso (Pereira, 2020, p. 78).

      Na psicanálise, temos três vertentes importantes no estudo da relação entre corpo e mente: a psicanálise clássica, a psicossomática psicanalítica e a epistemossomática. As três contribuíram para a criação de uma metapsicologia que inclui o corpo e os fenômenos psicossomáticos.

      Na psicanálise clássica, a clínica da presença do corpo e seus sofrimentos aparece na histeria, com as conversões, e nas crises de angústia, com o pânico e seus efeitos no corpo.

     Na psicossomática psicanalítica, que tem em Pierre Marty seu maior expoente, as somatizações são conceituadas como fora da conversão, ou do retorno do recalcado, sendo ligadas às falhas na mentalização, destacando-se as depressões sem objeto e os excessos pulsionais desertados da palavra (Marty, 1994).   

      A epistemossomática será constituída no campo da clínica dos fenômenos psicossomáticos, termo proposto por Lacan. A conceituação dos Fenômenos Psicossomáticos (FPS) como sendo diferentes da neurose e, portanto, das conversões, exigiu a construção de um edifício metapsicológico diferente dos estabelecidos para o recalque e seus retornos e foi importante para a pesquisa com as somatizações, da mesma forma que o conceito de Foraclusão foi importante para a clínica das psicoses.  

     Destaca-se, então, que a intersecção, ou encontro, da psicanálise com a medicina foi, em primeiro lugar, através do chamado retorno do recalcado e com os sintomas neuróticos, como as conversões histéricas, que mostravam ser determinados por outra anatomia e fisiologia - a do corpo erógeno -, diferente do corpo nas concepções biomédicas das doenças orgânicas clássicas. Muitos sintomas foram e são abordados e resolvidos pela escuta e pela interpretação. Foi o chamado salto do psíquico no somático, conhecido e exitoso.

      A outra vertente foi a psicanálise do trauma e da pulsão de morte. As experiências traumáticas produzem um congelamento da memória, criando um ponto vazio e mudo no aparelho psíquico, ponto de eclosão de distúrbios funcionais e lesionais, principalmente e mais persistentes quando o trauma ocorre na infância. A violência deixa marcas devastadoras no equilíbrio psicossomático do sujeito. As guerras, as diásporas, a violência institucional, o racismo estrutural deixam marcas que colocam o sujeito capturado em uma dinâmica de repetição destrutiva. 

      Esse campo da investigação clínica ganhou um avanço ao se diferenciar o sintoma neurótico, que implica um retorno do recalcado, do fenômeno psicossomático resultante de uma falha na simbolização. Lacan foi um dos pioneiros em estabelecer que o fenômeno psicossomático não era da ordem do sintoma da neurose, este sim deslocado pela palavra e interpretações, estando então no interior do aparelho psíquico, na cadeia de significantes, sendo produzido pelos deslocamentos e condensações, ou pelo significante e suas metonímias e metáforas.

      Já o fenômeno psicossomático, além de ter uma realidade física, ou patológica, era da ordem do não sentido ou de uma falha da simbolização, o que guarda uma semelhança com o conceito de má mentalização de Marty. O inconsciente não consegue ler o fenômeno, sendo este sem sentido, mudo. É um hieróglifo, uma assinatura, uma holófrase, um ponto de congelamento da cadeia de significantes. É uma "forclusão localizada" (Nasio, 1993), o que coloca o FPS mais próximo da psicose do que da neurose (Lacan, 1954-1955/1985; Lacan, 1955-1956/2002).

   Alergias, dores, arritmias, retocolite ulcerativa, vitiligos, alopecias, cólicas, insônias, refluxos gastroesofágicos, enureses, encopreses etc. são fenômenos em que a palavra fica excluída.

    Inauguram-se dois pontos metapsicológicos importantes: o trauma e o excesso pulsional sem representação ou simbolização. Decorre daí a direção no tratamento, que não vai na linha do retorno do recalcado, mas na linha da construção em análise, com referência no texto de Freud (1937/1996, p. 275), no qual ele diz ser a interpretação uma ação terapêutica pontual e a construção aquilo que o paciente faz ao ressignificar ou reconstruir sua história. O trabalho terapêutico vai mais na linha de construir representações, em oposição às interpretações.  

    O traumático cria um "vórtice", um "buraco negro", mudo e cego, na representação ou na simbolização, desencadeando um excesso pulsional no corpo.

      A clínica estará mais referida à função materna, no face a face, sem divã. Estamos então no momento lógico de uma metapsicologia do narcisismo primário, da passagem do organismo para um corpo e do corpo para o sujeito.

    Mais tarde, nos escritos de Lacan, emerge o conceito de escrita e de um S1 atado ao corpo, tipo uma tatuagem, sem S2, ou ainda a colagem entre S1 e S2. S1 pode ser considerado como o primeiro significante, o significante mestre, da função materna, por exemplo, e o S2 o segundo significante, o da função paterna, que abre a cadeia de significantes. Esse conceito aponta para uma falha no momento da separação, que vem depois da alienação e antes da subjetivação nos tempos da constituição. Mais adiante ainda, o nó borromeano entra em cena nas teorizações de Lacan, e o FPS seria um real, um salto do corpo no psíquico, que precisa ser recoberto pelo imaginário e pelo simbólico. Um gozo que se mostra desertado da palavra e que precisa entrar na cadeia de significantes, a única capaz de barrá-lo.

     Nasio (1993), concordando com essa separação entre o que é da ordem do retorno do recalcado e da ordem do não inscrito ainda, pensa que o fenômeno psicossomático é uma formação do objeto a, ou seja, uma foraclusão, e não uma formação do inconsciente. Nasio afirma que o FPS, a passagem ao ato e o delírio são expressões do fechamento do sujeito para a cadeia significante. O objeto pequeno a é o objeto inatingível e que causa o desejo.

     Mas é importante assinalar que a diferenciação entre sintoma neurótico e fenômeno psicossomático vai ser estabelecida na clínica pela transferência com pacientes somatizadores. Diante de uma somatização, temos que ver o que é da ordem da doença, do sintoma neurótico e do fenômeno, o que só poderá ser feito a partir da identificação da estrutura do sujeito. Na clínica sem uma escuta inicial, sem as primeiras sessões, não podemos identificar diante de qual tipo de somatização estamos e, consequentemente, só depois saberemos a direção do cuidado.

     Não existe a possibilidade de um diagnóstico em uma consulta de 15 minutos, nem tampouco em uma única sessão. As etapas, ou momentos lógicos de constituição subjetiva, identificadas na transferência são a referência.

 

A clínica com bebês de risco e a transdisciplinaridade

 

      A experiência da clínica com bebês com problemas graves na subjetivação, que apresentam distúrbios funcionais ou lesionais crônicos, é importante para a psicossomática.

       Hoje temos uma concepção de um bebê mais sensorial e perceptivamente implicado na relação com o outro, que terá a função de uma matriz, de onde se constituem um corpo e um sujeito. A função materna não é mais vista como se tivesse de dar ordem em um vazio, ou no caos do bebê, mas está diante do desafio de entrar em relação com uma singularidade, em uma via de mão dupla. Um bebê disfuncional pode destruir a competência de pais sadios mentalmente.  Existem impasses, crises e muitas emboscadas nesse caminho do bebê até tornar-se um sujeito, e a clínica atravessada pela psicanálise nesse campo passou a ser fértil para o estudo dos fenômenos psicossomáticos.

      Diante dessas pesquisas, temos de situar, então, o lugar e papel das somatizações nos bebês e nas crianças.

     Primeiro, a somatização pode ocorrer em todas as estruturas, não sendo exclusiva de uma dada estrutura psíquica. Pode ser um acontecimento passageiro, estar presente nos quadros neuróticos, mas, para isso, a constituição tem de estar avançada, quando já houver recalque e seu retorno, portanto, depois do Complexo de Édipo.

      Os FPS estão presentes nos casos em que a constituição de imagem do corpo e subjetivação estão em questão. O bebê como puro real, em um primeiro momento, precisa da prótese psíquica do outro, do semelhante. É pelo trabalho nas terapias conjuntas de pais e seus bebês que vamos identificar après coup, se estamos diante de excesso de cuidados, que repercute nas cólicas, nas insônias, nas perdas de fôlego e nas alergias, ou se estamos diante da privação de cuidados, que encontramos nos hospitalismos, nas distorções do autoerotismo, ou ainda se estamos diante de dificuldades no processo constitutivo, da exclusão do outro, que resultam na ausência de interação com o manhês, com o olhar, nos comportamentos autoagressivos ou ainda na repetição mortífera, presente nos mericismos e nas encopreses, sendo que, nesses casos, estamos diante de risco de autismo (Ranña; Volich, 2024, p. 297).

Nos casos em que o sujeito claudica e não se constitui, a presença de FPS é a regra. Insônias, cólicas, refluxos, alergias alimentares, comportamentos esquivos, hipersensibilidades auditivas, visuais, alterações nos "fidgety movements".

      Os FPS podem estar associados aos excessos de presença e falhas na separação, como afirmamos acima. Assim, a angústia de separação, que podemos considerar como um sinal de subjetivação, estará ausente, e a alteridade será elidida, desencadeando vulnerabilidades somáticas, entre elas as alergias. No polo oposto, podemos encontrar o vazio libidinal, que pode potencializar deficiências na resposta imunológica, levando às infecções repetidas. 

      As dificuldades para entrar em interações, que estão com frequência claudicando nos autismos, podem estar associadas a distúrbios na construção de imagem do corpo, incluindo falhas na integração sensorial e motora, podendo se manifestar no eixo visceral, com emergência de alergias, refluxos, entre outros distúrbios funcionais e lesionais.  

      Alterações de ordem genética ou neurológica, tais como a hipótese dos neurônios espelhos disfuncionais, são teorias que nasceram das pesquisas das neurociências e procuram explicar as dificuldades na interação com a voz, com o olhar e com o rosto materno, ou ainda no estranhamento excessivo. Essas alterações interferirão nas funções viscerais e na integração neurossensorial, determinando um desequilíbrio psicossomático, com frequência encontrado em casos em que a subjetividade está em risco. Porém, é importante destacar que essas possíveis dificuldades, quando precocemente detectadas e precocemente cuidadas, podem ter uma evolução favorável.

      Hoje, fala-se muito das falhas no sistema de neurônios espelhos para reduzir as possíveis alterações ao campo neurológico. Porém, estas alterações que repercutem em processos perceptivos e no repertório de competências para entrar em sintonia com o cuidador criam um caminho atípico no desenvolvimento e na imagem inconsciente do corpo (Dolto, 2017). A clínica ensina que essas alterações podem ser identificadas e cuidadas, através da intervenção precoce e transdisciplinar, apoiada na epigenética e na neuroplasticidade.

      A parceria com os pais é indispensável, e os mesmos também devem ser incluídos no projeto terapêutico. Os pais geralmente estão em crise diante dos problemas apresentados pelo bebê atípico, que incidem sobre eles como uma ferida narcísica, necessitando também de cuidados.

      Sempre estivemos advertidos de que um bebê disfuncional pode desorganizar pais bons cuidadores e pode levar uma família ao caos, destruindo a competência dos pais. 

    As terapias conjuntas pais-bebês de bebês com problemas funcionais, lesionais e/ou com impasses na constituição e que apresentam risco de subjetivação, entre eles o autismo, foram importantes para a construção desse edifício metapsicológico.

    Esse fazer psicoterapêutico tem como eixo principal a transdisciplinaridade, estabelecida a partir dos encontros multiprofissionais e interdisciplinares entre os especialistas. O acolhimento dos pais e outros cuidadores deve integrar o projeto terapêutico, sempre na perspectiva de que é de casos como o de Manuel, exposto no início deste artigo, que estamos cuidando.


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ano - Nº 7 - 2025
publicação: 10-12-2025
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Autor(es)
• Wagner Ranña
Médico, psicanalista e psiquiatra. Mestre em Pediatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Professor do curso de Psicossomática Psicanalítica do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto
Sedes Sapientiae. Coorganizador e autor da série Psicossoma. Autor de artigos sobre psicossomática e psicanálise
com crianças. e-mail:wranna@uol.com.br

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