ARTIGOS

A voz como sintoma possível do inconsciente – articulações entre psicossomática psicanalítica e a noção de corpo


The voice as a possible sympton of the unconscious – articulations between pychoanalytic psychosomatics and the notion of body
Enio Lopes Mello
Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae

RESUMO
Este artigo propõe uma análise aprofundada da voz enquanto sintoma possível do inconsciente, articulando conceitos de Freud e autores da psicossomática psicanalítica. A voz é tratada não apenas como fenômeno acústico, mas também como inscrição do desejo, da pulsão e da dimensão ética e social do corpo. Explora-se a voz como objeto na clínica psicanalítica, como sintoma de falha na simbolização e manifestação do sofrimento vivido na interface entre o psíquico e o somático. Ressalta-se o papel do corpo na experiência subjetiva, ampliando a escuta clínica da voz e seus silêncios. O artigo evidencia que, mesmo na sua ausência ou embargamento, a voz permanece uma expressão fundamental do sujeito, inscrita no laço com o Outro.

Palavras-chave: Voz, Inconsciente, Psicossomática Psicanalítica, Corpo.

ABSTRACT
This article proposes an in-depth analysis of the voice as a possible symptom of the unconscious, articulating concepts from Freud and authors of psychoanalytic psychosomatics. The voice is treated not merely as an acoustic phenomenon, but also as an inscription of desire, drive, and the ethical and social dimension of the body. It explores the voice as an object in psychoanalytic clinic practice, as a symptom of failure in symbolization, and a manifestation of suffering lived at the interface between the psychic and the somatic. The role of the body in subjective experience is emphasized, broadening the clinical listening of the voice and its silences. The article highlights that, even in its absence or embarrassment, the voice remains a fundamental expression of the subject, inscribed in the bond with the Other.

Keywords: Voice, Unconscious, Psychoanalytic Psychosomatics, Body.


Introdução

 

      A voz, situada no entrelaçamento entre corpo e linguagem, é mais do que um simples instrumento de comunicação: ela constitui-se como um vetor da subjetividade, portadora de marcas inconscientes que, muitas vezes, escapam à simbolização. A psicanálise, desde Freud, oferece um campo fértil para problematizar o lugar da voz como sintoma, ainda que o próprio Freud não tenha elaborado uma teoria sistemática sobre ela. Em "O inconsciente", Freud (1915/1974) enfatiza que os conteúdos recalcados não desaparecem, mas insistem em retornar, geralmente por vias indiretas, como sonhos, atos falhos ou sintomas. É nessa linha que se pode compreender a voz como um campo de expressão privilegiado do reprimido, na medida em que falhas vocais, como rouquidão ou afonia, podem surgir quando o sujeito não encontra palavras ou quando há um excesso de gozo que a simbolização não consegue conter. O excesso de gozo refere-se à intensidade de afeto ou excitação que ultrapassa a capacidade do sujeito de simbolização e elaboração psíquica.

     Outrossim, em "Além do princípio do prazer", quando introduz a ideia de pulsão de morte, Freud (1920/1974) propõe a existência de uma força psíquica destrutiva, que vai contra o impulso natural de viver e se ligar aos outros, ou seja, além do desejo de prazer e sobrevivência, há também uma tendência à desligação, repetição e autodestruição. Compreende-se que essa pulsão se manifesta justamente onde há ruptura da simbolização, onde a linguagem falha, onde o sujeito se vê repetindo o mesmo sofrimento sem saber por quê. Com apoio nessa ideia, sugere-se que certas manifestações vocais são efeitos dessa pulsão de morte, justamente porque marcam o fracasso da linguagem em conter o gozo. A afonia, a paralisia vocal, o grito contido, tudo isso pode ser lido como o ponto em que o corpo fala aquilo que o simbólico não dá conta de dizer.

      Voz não é a palavra proferida, mas aquilo que a sustenta em sua dimensão de desejo e de falta. É o timbre, o ritmo, o modo de enunciação que carregam traços do sujeito e de seu corpo pulsional. Quando esse objeto se desloca de sua função simbólica e retorna na forma de sintoma, ele pode aparecer como perturbação vocal: o sujeito "perde" a voz, ou ela se altera de forma enigmática, como se fosse tomada por uma força estranha, por um outro dentro de si (Mello, 2022).

      A psicossomática psicanalítica, como propõem Marty (1993), McDougall (2013), Aisenstein (2019), Dejours (2020), Volich (2022), entre outros, contribui para ampliar essa perspectiva ao abordar o corpo como palco de expressão dos conflitos inconscientes quando há falência dos processos de simbolização. A voz é inserida nesse corpo afetado, e torna-se então um meio de inscrição de uma dor que não encontrou ainda sua elaboração psíquica. Na clínica psicossomática (Mello, 2022), o sintoma vocal é analisado com base nas desorganizações das funções fonatórias, levando em conta não apenas o recalque, mas também o colapso dos processos de pensamentos e a predominância de mecanismos de tipo operatório. A afonia, por exemplo, pode ser compreendida como a condensação de um impasse subjetivo que não chega a se formular em palavras, uma espécie de silenciamento imposto pela impossibilidade de pensar o afeto que o gerou.

      Essa articulação entre corpo e linguagem nos conduz a uma clínica que exige escuta atenta, não apenas do que é dito, mas de como é dito - das hesitações, das quebras de ritmo, do tom (desafinação) e das ausências. A voz, enquanto presença sonora do sujeito, torna-se uma via de acesso privilegiada ao inconsciente, especialmente quando o sintoma, ainda que se estruturado nos moldes clássicos da neurose, ou seja, por meio dos sonhos, atos falhos, obsessões, conversões histéricas, se manifesta diretamente pelo corpo. Na contemporaneidade, marcada por formas de sofrimento cada vez mais silenciosas e desvitalizadas, a escuta da voz requer do analista um deslocamento: trata-se de acolher não apenas o discurso, mas aquilo que nela falha, ressoa ou se cala.

      A voz como sintoma nos obriga, assim, a reconsiderar as fronteiras entre o somático e o psíquico, o biológico e o simbólico, o singular e o social. É nessas encruzilhadas que o sujeito emerge em sua precariedade e potência, mostrando que, mesmo quando silenciada, a voz fala - e fala do inconsciente, das perdas e excessos, dos traumas e das fantasias que sustentam a vida psíquica. O desafio ético e clínico que se impõe é o de escutar essa voz em sua inteireza: não como ruído a ser eliminado, mas como enigma a ser decifrado, como vestígio de uma verdade subjetiva que, embora fragmentada, insiste em se fazer ouvir.

 

Psicossomática psicanalítica: voz, corpo e subjetivação

 

      Na perspectiva de Mello (2022), a voz é compreendida como um gesto corporal subjetivado, uma vibração muscular laríngea que, ao ser estruturada pela expressão psíquica, se torna indicativa da personalidade de um sujeito. Essa compreensão amplia a concepção psicossomática da voz e promove uma abrangência que não reduz as disfunções vocais aos aspectos fisiológicos isoladas, mas carrega uma dimensão sensório-motora rica em significação e simbolização. Dessa forma, a falha da metáfora psíquica, ou seja, o colapso da simbolização leva o corpo a expressar, por meio da voz, o seu ritmo, a velocidade de passagem de tensão, o aporte respiratório e as nuances sonoras como indicadores clínicos. A voz sintomática, portanto, não surge apenas do que não foi dito, mas também do modo como o corpo canaliza a tensão não elaborada na estrutura gestual da voz.

      Essa abordagem exige um cuidado clínico refinado, uma vez que a escuta vocal deve acolher a dinâmica do gesto corporal e as tonalidades do som, não apenas o conteúdo verbal. A partir dessas manifestações, propõem-se novas representações psíquicas, possibilitando que o sujeito elabore aquilo que antes era experienciado como pura excitação ou sobrecarga, resultando em uma passagem do sintoma à simbolização viva e transformadora.

     O trabalho de Mello (2022) destaca ainda a importância da clínica psicossomática da voz como um dispositivo terapêutico. O analista, ao promover uma escuta sensível, que note nuances da tensão corporal vocal, torna-se um facilitador na formação de novas representações somatopsíquicas. Esse gesto clínico atua como um espelho que reflete ao sujeito a textura de sua voz, ajudando-o a integrar o corpo e o psiquismo, possibilitando assim a elaboração subjetiva do sintoma. A voz, nesse sentido, representa tanto o declínio quanto a reinvenção de formas de subjetivação, por isso, a clínica psicossomática chama para uma dimensão crítica e existencial que não se encerra no sintoma, mas que o atravessa e busca transcendê-lo.

      Essa compreensão encontra respaldo no trabalho de Vivès (2018) sobre a voz na clínica psicanalítica. O autor apresenta a voz como um fenômeno complexo, situado na interseção entre corpo, linguagem e psique, destacando que a voz precede a palavra e está ligada a uma dimensão pré-verbal do sujeito, onde se inscrevem o sofrimento, o desejo e o gozo. Para Vivès, a voz carrega traços do inconsciente e, muitas vezes, expressa o que não pode ser dito. O silêncio vocal, por sua vez, não é vazio, mas um espaço carregado de sentido, um lugar para onde o sujeito se retira para preservar-se diante do risco da destruição psíquica.

      O silêncio e a falha da voz são formas de manifestações do sofrimento psíquico que exigem uma escuta clínica sensível e ética. Vivès (2018) aponta que a voz pode ser atravessada por conflitos internos, tornando-se um "lugar de ruptura" e resistência diante da tensão entre a necessidade de se expressar e o temor do que essa expressão pode desencadear. O silêncio, quando associado à voz, torna-se um sintoma que fala tanto quanto o próprio som.

 

A voz como inscrição corporal do laço social

 

      No horizonte traçado por Freud (1930/1974), em "O mal-estar na civilização", a voz pode ser pensada como um lugar privilegiado para se escutar as marcas da renúncia pulsional exigida pela vida em sociedade. A cultura, ao impor normas, interditos e ideais, demanda que o sujeito reprima seus impulsos, especialmente os sexuais e agressivos, em prol da convivência e da ordem. Essa renúncia, no entanto, não se dá sem custo: o recalque das pulsões retorna como sintoma, culpa ou sofrimento psíquico. Nesse contexto, a voz, situada no entrelaçamento entre o corpo e a linguagem, pode emergir como uma via de expressão do que não pôde ser simbolizado ou elaborado psiquicamente. As alterações vocais funcionam, então, como inscrições sonoro-corporais de um mal-estar que não encontra simbolização plena, mas que insiste em se manifestar na borda entre o som e o silêncio, entre o corpo e o outro. A voz sintomática aparece, assim, como eco do conflito fundamental entre o desejo inconsciente e as exigências civilizatórias, condensando a tensão entre o gozo, a repressão e a subjetivação.

    Nesse sentido, como a voz é uma expressão corporal carregada de significados psíquicos e sociais, atravessada por tensões internas que refletem o modo como o sujeito se relaciona com o outro e com o mundo simbólico, o corpo falante traz consigo marcas do desejo, da angústia, do sofrimento e da história relacional do sujeito (Mello, 2022).

      Em complemento a essa perspectiva, Dejours (2018) destaca que o corpo, no qual o sujeito experimenta sua verdade, suas dores, seus limites e seu sofrimento ético, é, antes de tudo, um corpo vivido. Não se trata de um corpo reduzido a um objeto anatômico ou biomédico, mas de um corpo que se constitui como sujeito da experiência, um corpo que sente, sofre, deseja e participa ativamente da relação do sujeito consigo mesmo, com o mundo e com o outro.  

      Dejours (1993) articula psicanálise e política por meio da psicodinâmica do trabalho. Para esse autor, o sofrimento psíquico não se explica apenas por fatores individuais, mas decorre também da organização social do trabalho, que incide sobre o corpo vivido. Assim, a voz sintomática pode expressar um sofrimento ético, quando o sujeito se confronta com exigências e não consegue simbolizá-las.

      Nesse raciocínio, Mello, Ballestero, Andrada e Silva (2015 argumentam que a forma como o sujeito ocupa seu corpo e o modo como se percebe e se representa internamente influenciam diretamente as qualidades vocais, desde a modulação até o timbre e a força da emissão que se desenrola na relação com o outro. A postura corporal retraída, tensa ou desconectada pode resultar em alterações vocais que não são meramente funcionais, mas expressões simbólicas e psíquicas de conflitos.

     Anzieu (2018) propõe que o Eu se constitui a partir das experiências sensoriais primitivas da pele, principalmente as sensações de contato, contenção, ruptura e falha de envolvimento. A pele é, nesse modelo, uma metáfora para o psiquismo: um "envelope" que separa e protege o mundo interno do externo. A voz, nessa perspectiva, pode ser pensada como uma "pele sonora": ela forma um invólucro vibratório entre o corpo e o outro. Quando o sujeito fala ou vocaliza, ele se inscreve no mundo sonoro de forma única, como se "reconstruísse" sua borda por meio do som.

      Essa inter-relação evidencia que a voz não é apenas um fenômeno acústico, mas uma extensão sensorial do eu-corpóreo, ou seja, do corpo psíquico que carrega a história do sujeito em suas dificuldades em se afirmar no laço social. A autoimagem fragilizada, que pode surgir de traumas, repressões ou experiências de rejeições, reflete-se na voz como sintoma que denuncia a precariedade do vínculo com o próprio corpo e com o mundo. Portanto, um sintoma vocal pode ser uma forma de inscrição corporal que manifesta as rupturas e tensões do laço social.

      Dessa forma, o trabalho da clínica psicossomática psicanalítica com a voz implica uma ética da escuta, que se aproxima da proposta da psicossomática psicanalítica ao valorizar o corpo como agente expressivo do sofrimento subjetivo. A voz sintomática torna-se, assim, um ponto de encontro entre o corpo, a linguagem e o laço social, oferecendo pistas para a compreensão ampliada da subjetividade, na qual se entrelaçam as dimensões corpóreas, simbólicas e sociais.

 

Desafios clínicos e implicações teóricas

 

      Na clínica contemporânea, os desafios para a escuta e o tratamento dos sintomas psicossomáticos permanecem complexos e multifacetados, especialmente à luz dos avanços da psicossomática psicanalítica, que procura integrar as dimensões psíquicas e corporais à subjetividade. Para Marty (1993), o enfoque da simples explicação médico-biológica para a compreensão do sintoma como linguagem do corpo traz consigo a história psíquica do sujeito, que, frequentemente, é marcada por conflitos inconscientes, traumas e falhas de simbolização.

      Um dos principais desafios clínicos reside na dificuldade de estabelecer uma escuta que abarque a complexidade dos sintomas psicossomáticos sem reduzi-los a uma manifestação exclusivamente orgânica ou simbólica. Essa tensão entre corpo e mente, típica da clínica psicossomática, exige do analista um exercício constante de suspensão do julgamento e uma abertura para a ambivalência do sintoma, que pode, simultaneamente, revelar sofrimento psíquico e resistência ao acesso inconsciente. O sintoma psicossomático é uma linguagem corporal, e, por isso, o clínico deve interpretar o corpo falante sem cair no reducionismo funcionalista ou somatizante.

      Outro desafio reside na articulação entre o discurso clínico tradicional - centrado na fala e na linguagem - e a necessidade de uma escuta ampliada, que capte as manifestações não verbais e sensório-motoras do sofrimento psíquico inscritas no corpo. Dejours (2019) ressalta a importância de uma clínica que considere o corpo vivido, isto é, o corpo sentido e experimentado pelo sujeito, como espaço privilegiado onde se desenrolam os processos psíquicos. Esse enfoque implica a necessidade de lidar com o corpo como sujeito, e não mero objeto da clínica, reconhecendo que a dor, a rigidez, a fadiga ou as alterações funcionais podem ser formas de expressão psíquica.

      A psicossomática psicanalítica contemporânea também enfrenta o desafio da complexidade social e cultural que envolve o sofrimento corporal. O corpo sintomático inscreve a história relacional, social e política do sujeito, e, como aponta Dejours (1993), o contexto socioeconômico e cultural influencia diretamente as formas de manifestação e significação do sintoma. Assim, a clínica deve ser capaz de situar o sofrimento individual em um panorama mais amplo, integrando as condições de vida e o tecido social no qual o sujeito está inserido.

     Além disso, a dimensão ética se impõe como um aspecto fundamental na clínica psicossomática contemporânea. A escuta do sofrimento corporal implica respeito pela singularidade do sujeito e pelo seu modo próprio de expressão do mal-estar, evitando interpretações precipitadas ou patologizações que possam deslegitimar sua experiência. É preciso acolher o corpo em sua totalidade, incluindo suas fragilidades, seu silêncio e suas formas de resistência.

      Para Dejours (2020), a busca por uma psicogênese dos sintomas somáticos mostra-se limitada diante de doenças com base lesional ou processos crônicos. O psicanalista propõe deslocar o foco da etiologia para o impacto psíquico da doença e o trabalho de elaboração que ela exige, uma vez que crises somáticas parecem neutralizar afetos e interromper o pensamento, podendo levar à depressão essencial.

      Na concepção de Marty, a depressão essencial é "um rebaixamento do tônus libidinal sem qualquer contrapartida positiva" (1993, p. 19). O sujeito perde a capacidade de representar, simbolizar e afetar-se. O pensamento torna-se pobre, estereotipado ou ausente. O corpo torna-se palco da expressão de sofrimento, favorecendo o desenvolvimento de doenças psicossomáticas. A argumentação defende uma concepção de corpo vivido, não apenas cerebral, como princípio de pensamento, mas uma experiência afetiva e erótica do corpo, que funda a subjetividade.

      A partir dessa reflexão, um grande desafio da psicossomática psicanalítica da voz seria pensar os processos de restabelecimento dos quadros clínicos na perspectiva do ajuntamento da sensorialidade corporal sonora ao afeto (Mello, 2022), mais do que à gênese da doença.

      Finalmente, o tratamento dos sintomas psicossomáticos demanda uma flexibilidade teórica e técnica que permite combinar intervenções que atendam tanto à dimensão corporal quanto à psíquica. Isso inclui o diálogo entre a psicanálise, a medicina, a fisioterapia, a terapia ocupacional, a fonoaudiologia e outras práticas integrativas, constituindo uma abordagem interdisciplinar que respeite a complexidade do sintoma.

      Em suma, a clínica contemporânea enfrenta o desafio de escutar o corpo falante do sujeito em sua ambivalência, complexidade e historicidade, construindo uma escuta que integre o simbólico, o pulsional e o social na busca de uma compreensão ética e aprofundada do sofrimento psicossomático. Uma clínica que reconheça o corpo como uma linguagem viva, aberta e respeitosa diante dos múltiplos modos pelos quais o inconsciente se manifesta.

 

 

Considerações finais

 

     O presente artigo teve como objetivo investigar a hipótese da voz como um sintoma possível do inconsciente, situando-a na interseção entre a psicossomática, a psicanálise e a noção de corpo. A partir dessa articulação, buscou-se compreender de que modo a voz, para além de seu valor funcional ou expressivo, pode ser tomada como manifestação de um corpo atravessado pela linguagem e afetado por processos inconscientes.

       A escuta clínica da psicossomática psicanalítica, conforme delineada por diferentes autores, possibilita a abordagem da voz como expressão de conflitos que não se traduzem simbolicamente, mas que se inscrevem no corpo sob a forma de sintomas. Nesse sentido, os distúrbios vocais, quando considerados em sua dimensão subjetiva, revelam-se como formações em que o sofrimento psíquico se traduz por vias somáticas. Tais manifestações não são redutíveis a disfunções orgânicas, por isso, demandam uma escuta que leve em conta a estrutura e a história do sujeito.

      A partir da noção psicossomática psicanalítica de corpo e da concepção da voz como objeto pulsional, é possível reconhecer a presença da voz como algo que escapa à significação plena, marcando o sujeito em sua singularidade. Essa escuta, atenta ao modo como a voz pode carregar traços do sujeito, contribui para a construção de intervenções que respeitem a complexidade do fenômeno psicossomático.

       Assim, este estudo lança luz sobre a prática da clínica psicossomática psicanalítica da voz na interface entre o psíquico e o somático, destacando seu valor como via de acesso ao inconsciente e como expressão singular do sofrimento psíquico. Com isso, reafirma-se a importância de uma escuta clínica sensível às manifestações vocais, capazes de revelar, no corpo que fala, algo da verdade do sujeito.


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ano - Nº 7 - 2025
publicação: 10-12-2025
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Autor(es)
• Enio Lopes Mello

Terapeuta especializado em Psicossomática Psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae; especializado em Cadeias Musculares e Articulares Método GDS, pelo Institut de Chaînes Musculaires - Bruxelas; especializado em Coordenação Motora Segundo Piret e Bézièrs; Mestre e Doutor em Fonoaudiologia, na linha de Voz, Comunicação, Saúde e Arte, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: eniolmello@gmail.com

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