I. A travessia de Belle: corpo, exílio e reinvenção
" Quero pôr os tempos, em ordem mansa, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem o presente. Acendo a estória, me apago a mim. No fim destes escritos, serei de novo uma sombra sem voz".
(Mia Couto)
Este artigo está baseado no livro Minha amiga congolesa (no prelo)[1], de minha autoria, fruto de minha experiência como voluntária na ONG ADUS - Instituto de Reintegração do Refugiado, organização social localizada no centro de São Paulo, uma ilha de humanidade e diversidade cultural em meio ao caos burocrático do sistema de acolhimento. Tive a oportunidade de acompanhar, por cinco anos, pessoas em situação de refúgio: mulheres e famílias oriundas, em sua maioria, da República Democrática do Congo e de Angola, que migraram para o Brasil fugindo da violência brutal promovida por grupos milicianos.
A República Democrática do Congo é um país marcado por uma história de colonização feroz e por conflitos armados persistentes. A começar com o domínio belga sob Leopoldo II, de 1865 a 1909, que transformou o Congo em um campo de extermínio sob a retórica da "civilização", até os embates contemporâneos entre milícias, o território congolês foi transfigurado em palco de uma guerra permanente: estupros sistemáticos, massacres, mineração predatória e crianças-soldado.
Este artigo é um testemunho afetivo e político do encontro com Belle - nome fictício de uma mulher refugiada, fugindo da brutalidade colonial e da guerra. Belle encarna, em corpo, voz e história, uma ferida transgeracional que insiste em não cicatrizar.
Belle chegou sozinha a São Paulo, em 2014. Na mala, trazia o peso do refúgio forçado e de uma vida despedaçada. Deixou os filhos e a mãe sob os cuidados de uma ONG internacional. Fugiu após sofrer um estupro coletivo e a execução do pai e do irmão. Sua travessia para o Brasil não foi planejada, mas, como dizia, foi "uma corrida pela vida". Quando perguntei por que escolheu o Brasil, respondeu que amigos na França acreditavam que aqui seria "mais fácil se misturar".
Conheci Belle em dezembro de 2015, nos corredores da ONG. Entre planilhas, telefonemas e histórias cruzadas, ela me contou sobre os filhos, o assassinato do pai, a violência miliciana. Mas também falou do fufu, das rodas de conversa, do curso de Direito que fizera no Congo, das festas nas ruas e nas igrejas. Contou-me sobre sua fé, sustento de uma vida. Em meio a conversas cotidianas, situações recorrentes de racismo estrutural, xenofobia e exploração do trabalho doméstico, pude acompanhar sua transformação do não lugar ao pertencimento. Pude ler um corpo - território físico, psíquico e político - inscrito pelo trauma da fuga e pelo desejo de sobrevivência.
Os abandonos dos filhos, da cultura, da língua e da história eram, para mim, enigmas profundos. Assim, escrever sua história foi uma tentativa de traduzir a complexidade desse encontro. Mais do que um relato, trata-se de um gesto de escuta e cuidado, entrelaçado por anos de experiência clínica e suportado por redes de solidariedade.
Desde o início, o exílio revelou-se como um território de resistência. Corpo-continente, atravessado por fronteiras externas - políticas, raciais, sociais - e internas - afetivas, subjetivas, silenciosas. Corpo ferido, mas não vencido. Corpo que fala onde a linguagem falta.
A incompreensão linguística e cultural era um obstáculo diário. Embora o Brasil vendesse a imagem de país acolhedor, na prática, a realidade era ambivalente. A burocracia, a escassez de serviços, o racismo disfarçado de cordialidade transformavam a permanência em uma nova batalha.
A relação com o Sistema Único de Saúde (SUS) foi difícil, devido ao excesso de demanda. Belle esperava horas, às vezes sem ser chamada. A ausência de documentos dificultava o acesso, mas o que mais feria era o silenciamento: ninguém a chamava pelo nome. Até que, certa vez, ouviu: "Pode entrar, senhora Belle". Aquilo a comoveu. Ser nomeada era ser vista. Era pertencer. Foi o primeiro passo para a integração do eu e a reconstrução da subjetividade.
A saúde física estava bastante comprometida: dores crônicas, alopecia severa, feridas abertas no couro cabeludo. Mas os sintomas eram também da dor maior: o estranhamento. Belle era estrangeira em todos os sentidos. Sua língua era estranha, sua pele causava suspeita, sua presença era sempre questionada. Era um corpo fora do mapa. Um corpo que precisou inventar seu próprio território.
Seu primeiro trabalho no Brasil foi como empregada doméstica. A patroa oferecia teto, comida e um pequeno salário. Mas a relação era colonial. Tudo era dado como favor. Quando Belle exigiu seus direitos, foi acusada de ingratidão. Nesta experiência, pude fazer a mediação com a patroa e garantir o pagamento dos salários atrasados, o que me fortaleceu para dar continuidade ao trabalho de integração de Belle no Brasil.
A primeira moradia, em um cortiço, foi marcada por agressões racistas: lixo na porta, insultos e ameaças. Belle resistiu, mas precisou sair de lá. A segunda casa, dividida com uma amiga angolana, tornou-se um espaço de acolhimento, festa e alegria. Na cozinha, reencontrou rituais e memórias. A comida preparada com temperos da culinária africana alegrava o encontro entre mulheres brasileiras e africanas, e a dança era a linguagem entre elas.
Cuidar do cabelo foi um gesto profundo de reapropriação subjetiva. No início, escondia os fios sob lenços e perucas. Depois, começou a tratar as feridas. Olhar-se no espelho sem disfarces foi mais difícil do que passar pela consulta com a dermatologista, momento em que expôs sua fragilidade: feridas abertas e malcheirosas na cabeça.
Na diáspora africana, o cabelo é território político. Domado, alisado, silenciado. Mas, quando uma mulher negra assume seus cachos, ela reescreve a história. Belle sabia disso. As quedas de cabelo não eram rendição. Eram pausa. Um chamado ao cuidado.
Sua dor mais constante, sua verdadeira prisão emocional, era a ausência dos filhos. Guardava desenhos, comemorava aniversários, sonhava com o reencontro. Fazia chamadas de vídeo, nem sempre boas, mas mantinha o vínculo como podia. A burocracia internacional e a guerra civil no Congo tornavam a reunião familiar quase impossível. Como ela sempre dizia: "sou uma mãe sem filhos".
Trazer sua família para o Brasil tornou-se uma obsessão para mim. Como voluntária, tinha poucos recursos para o enfrentamento da enorme burocracia institucional. Vivia pendurada em reuniões intermináveis com advogados na ONG ADUS e nas assessorias de outras instituições, como o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, que garante proteção internacional e assessora o governo brasileiro na implementação da política de refúgio) e a CÁRITAS (organização da sociedade civil que presta atendimento jurídico, psicossocial e humanitário a solicitantes de refúgio).
A grande dificuldade era conseguir a documentação para trazer os filhos. O enfrentamento diário da burocracia dos consulados brasileiro e congolês, dos órgãos de reintegração de refugiados, os longos encontros e telefonemas com assistentes sociais e advogados, provocavam em Belle um alto grau de ansiedade. A falta de recursos financeiros também era um problema. Por meio de uma vaquinha solidária (crowdfunding), conseguimos uma boa porcentagem do dinheiro para reunir parte da família: mãe, irmão e sobrinho. Foi uma vitória, que não pôde ser registrada pelo receio da exposição, pois os familiares de Belle eram alvo de perseguição política. No entanto, os filhos permaneceram no Congo, sob a guarda da ONG. Uma enorme frustração.
O trabalho de acompanhamento psicológico, médico e social foi realizado em vários âmbitos: pelo SUS (Sistema Único de Saúde), por atendimento clínico e pelo SUAS (Sistema Único de Assistência Social); por meio da assistência e acolhimento no abrigo, pelo recebimento do subsídio financeiro do Bolsa Família e pela participação nas rodas de conversa com outras mulheres.
Assim, a subjetividade se recompõe nas brechas institucionais, mas sobretudo devido ao acolhimento, ao afeto de profissionais comprometidos com a causa da integração da pessoa em situação de deslocamento.
À medida que a construção de vínculos primordiais de confiança com outras mulheres com histórias de perda parecidas com a de Belle se consolidava, a capacidade de reorganização mental e a potencialização de recursos internos ganhavam corpo. Ela se fortalecia. O corpo ferido ganhou contornos simbólicos. A mulher fragmentada começou a se reconhecer em novos espelhos.
O corpo de Belle, que fala antes da palavra, é o corpo que testemunha o indizível. Mas, ao começar a se reconhecer "em novos espelhos" pela construção de vínculos e afetos, ela se desloca do não lugar para o lugar do pertencimento. Assim, Belle dá início a um lento processo de reinscrição de si. O corpo, antes território de violência ou apagamento, passa a ser, aos poucos, espaço de enunciação.
Na leitura da psicossomática psicanalítica da Escola Francesa de Paris, particularmente nas contribuições do teórico fundador Pierre Marty (1990) e do pensador contemporâneo Rubens Marcelo Volich (2011), compreende-se que o adoecimento do corpo pode estar ligado a falhas nos processos de mentalização: quando o sujeito, diante de um trauma precoce ou de intensidades afetivas intoleráveis não dispõe de recursos psíquicos suficientes para transformá-los em representações, a dor se desloca para o corpo em forma de adoecimento.
Segundo Volich (2011), a mente tem a capacidade de operar como um campo simbólico dinâmico - um espaço onde afetos e experiências podem ser elaborados e transformados, desde que haja certa maleabilidade psíquica. Quando essa plasticidade falha ou se encontra colapsada, o que não pôde ser mentalizado transborda por outras vias. É nesse ponto que o corpo passa a carregar, em sua própria matéria, os traços daquilo que não encontrou forma simbólica: dores não pensadas, vivências inomináveis, traumas sem tradução. O corpo, então, deixa de ser apenas orgânico e torna-se linguagem - o último recurso de expressão para o sofrimento que ficou à margem do pensamento.
Christophe Dejours (2019), em seu diálogo com a psicanálise e com a psicodinâmica do trabalho, contribui de modo singular para essa leitura. Para ele, o corpo biológico - anatômico, tangível, mensurável - não é, por si só, o corpo vivido. Desde os primeiros momentos de vida, esse corpo é massivamente investido libidinalmente por parte do outro - mãe, pai ou cuidador principal - e essa colonização afetiva inaugura o que ele chama de corpo erógeno. Trata-se do corpo que sente, que deseja, que sofre - corpo afetivo, tecido de linguagem, de silêncio e de presença.
Nesse sentido, o corpo de Belle - inicialmente fragmentado pela experiência traumática - pode reencontrar sua unidade não pela via biológica, mas pelo atravessamento dos afetos e da escuta. O corpo erógeno, sustentado pela possibilidade de ser visto e sentido por outro que acolhe, emerge como uma nova superfície de inscrição. O espelho não é mais aquele que reflete apenas o estilhaço, mas aquele que devolve contornos possíveis para o reconhecimento subjetivo.
A Belle que se vê novamente é também a mulher que se reconstrói, não no sentido de apagar suas fraturas, mas de reescrevê-las como parte da sua narrativa. A dor, antes muda, encontra um lugar no simbólico. O corpo, antes objeto passivo da violência, torna-se espaço político, poético e psíquico.
Depois da primeira casa, vieram a segunda e a terceira, assim como passou por diversos empregos, até se estabilizar. Ganhou novos amigos, africanos e brasileiros. Conseguiu reunir parte da família, mãe e irmão, mas há dois anos sua mãe faleceu. Os filhos, agora "guardados", como dizia, no Canadá com o pai. Aprendeu a falar português com um lindo acento francês. O cabelo cresceu, ora livre para o alto como uma coroa, ora trançado com fitas coloridas, ora adornado por lenços coloridos. Sua última moradia no Brasil foi em um prédio habitado quase em sua totalidade por migrantes africanos, oriundos de diferentes países. Lugar sagrado de troca e cura das feridas do refúgio, regado a festas, muita música e boa comida, peixe frito, fufu e feijão bem temperado.
Em 2024, Belle partiu para Paris. Os problemas na coluna agravaram-se, e os serviços no Brasil rareavam. Em uma manhã de domingo, ela me ligou. A voz, cansada, mas firme. Contou das dores e da solidão. Mas estava viva. Os filhos estavam bem, haviam migrado para o Canadá, seguros com o pai. Falava com eles com frequência, o que lhe trazia conforto e estabilidade emocional.
A história de Belle não termina. Porque corpos como o dela não conhecem o ponto final. Eles persistem em fragmentos, em gestos, em vozes. Este artigo é uma inscrição: sua existência importa. Sua resistência é a memória coletiva.
Belle ensinou-me que resistir não é triunfar. É permanecer. É insistir em existir quando tudo diz não. Seu corpo é território político, exilado, simbólico, é rizoma. Seu percurso mostra que o pertencimento não se recebe, se conquista. Se inventa. E, enquanto houver quem escreva, escute, nomeie, haverá luta contra a desumanização.
Este é um artigo sobre uma mulher. Mas também é sobre nós. Sobre o Brasil que acolhe e repele, que estende a mão ao mesmo tempo que impõe muros invisíveis. É sobre o cuidado e o que falta nele. Sobre a ética que se funda na escuta. E sobre o corpo - não como objeto anatômico, mas como linguagem. Um corpo que fala quando não há palavra. Um corpo que marca aquilo que não pôde ser simbolizado.
É também sobre a escrita como gesto de escuta. Uma escuta que não fecha a ferida, mas a transforma em passagem. Passagem entre mundos, entre tempos, entre línguas. É no processo de narrar sua história, de recuperar suas memórias, de testemunhar seus traumas, que Belle começa a se reapropriar de si.
A escrita deste artigo, baseada em meu livro Minha amiga congolesa, é um registro da escuta livre, flutuante e atenta para os desdobramentos da palavra. Este artigo é uma travessia subjetiva que talvez não cure, mas restitui sentido. A fala, como aponta a psicanálise, não apaga o trauma, mas o inscreve em um outro registro simbólico, compartilhável, transformador.
A escuta aqui não é clínica no sentido tradicional, mas é ética e política: uma escuta que se faz com o corpo inteiro, com as histórias escutadas e com aquelas que não puderam ser contadas. Belle, nesse movimento, vai se escrevendo para além do trauma. Vai, pouco a pouco, recuperando-se como sujeito: um corpo que fala, que traduz, que se reconstrói.
II. A sombra do trauma e o trabalho de elaboração: uma leitura psicanalítica a partir da história de Belle
A sombra do objeto caiu sobre o eu.
(Freud, 2010/1917 [1915], p. 181)
É um planeta que estava se escondendo
atrás do Sol e agora nos passa.
(Melancholia, 2011)
De acordo com Carla Penna, em Investigações psicanalíticas sobre o luto coletivo (2014), em situações de guerra ou catástrofes, os traumas coletivos entrelaçam-se aos dramas individuais, comprometendo as subjetividades por gerações. Traumas em contextos pandêmicos, de pós-guerra ou de legados de regimes totalitários podem promover poderosas defesas, camadas e camadas de proteção contra o sofrimento, mobilizando processos de entorpecimento emocional que impedem a realização do luto.
A não simbolização do trauma, segundo Nicolas Abraham e Maria Torok (1995), pode evoluir para o encriptamento da experiência traumática original, até que esta seja reativada - o que, na linguagem de Freud, corresponde ao retorno do recalcado. Mas Abraham e Torok aprofundam esse fenômeno: para eles, quando o trauma é inassimilável, quando a dor é tão devastadora que não encontra representação, o psiquismo pode recorrer a uma defesa extrema - a criptação psíquica. Nesse processo, o conteúdo traumático - um segredo, uma vergonha, uma dor impossível de nomear - é selado dentro do psiquismo como um corpo estranho, alojado em uma espécie de "cripta" interna, inacessível ao discurso e à simbolização.
A cripta funciona como um cofre afetivo: lugar onde repousa, intacta e indizível, a experiência originária do trauma. Não metabolizada, ela permanece viva em estado bruto, pulsando silenciosamente até encontrar um canal por onde se manifestar. Muitas vezes, esse canal é o corpo - que passa, então, a expressar o que não pode ser dito, a carregar o indizível em forma de sintomas, somatizações, lapsos de memória, paralisias emocionais ou adoecimentos inexplicáveis.
Belle, ao chegar ao Brasil, não trazia apenas malas. Carregava o peso de uma história inteira em seu corpo: os escombros do que viveu na República Democrática do Congo. Trazia o trauma da guerra, da separação abrupta dos filhos, da morte precoce do pai, do estupro utilizado como arma de controle e destruição, da fuga em desespero, da travessia sem chão. O exílio a atravessava, e o que não podia ainda ser pensado, nem falado, começou a se mostrar no corpo.
Ainda nos primeiros meses no Brasil, Belle já apresentava sinais de um adoecimento profundo: perda súbita e intensa de cabelo (alopecia), dores crônicas na coluna, ganho abrupto de peso, episódios de apagamentos de memória e um estado de cansaço existencial que não se explica apenas pela precariedade de sua situação.
Havia um mutismo emocional, um congelamento psíquico que parecia preservar, como uma cápsula, tudo aquilo que não podia vir à tona. A fala vinha hesitante, em um cruzamento de francês com o português recém-aprendido. O olhar, frequentemente, perdia-se entre o aqui e o antes. Ela estava ali - mas partes inteiras de si haviam ficado soterradas em um tempo anterior, inacabado.
É nesse ponto que o pensamento de Abraham e Torok se aproxima do que Belle nos ensina com sua história: o trauma não é apenas algo pelo que se passou - é algo que se instalou. Não se trata apenas de uma recordação dolorosa, mas de um núcleo não simbolizado, preservado como um enclave no psiquismo. Belle carregava em seu corpo o que não havia podido nomear. E como toda cripta psíquica, esse silêncio interno começou a pressionar por expressão - não por meio da fala, mas do corpo, como linguagem de emergência.
Seu corpo traduziu - à sua maneira, por meio da dor e da falência de certas funções - o que ainda não era possível representar psiquicamente. Cada sintoma parecia ser uma inscrição viva de sua história: não apenas de uma mulher, mas de um povo, de uma guerra, de uma violência estrutural e de um racismo cotidiano que, ao contrário da guerra, não se interrompeu com a chegada ao Brasil.
Conclusão I - A sombra melancólica e o luto fundamental
A angústia do real, quando se impõe abruptamente sobre o psiquismo, provoca rupturas na sensação de continuidade interna e ameaça a integridade do ego. Frente aos traumas cotidianos, é comum que o sujeito seja atravessado por uma angústia indizível, cuja representação simbólica torna-se quase inviável. Essa experiência traumática exige um trabalho interno exaustivo do ego, que tenta desesperadamente adaptar-se às novas circunstâncias, operando um frágil equilíbrio entre as pulsões de vida e de morte.
Quando a perda se inscreve de forma insuportável, a energia libidinal, antes investida no objeto perdido, recai sobre o ego, que se identifica com esse objeto. Como bem descreve Freud, em "Luto e melancolia" (2010/1917 [1915]), a melancolia se instaura quando o sujeito, ao perder o outro, perde também a capacidade de distinguir entre o eu e o objeto. A dor, então, se volta contra o próprio ego, em um processo de autodepreciação intensa, marcado por severa autocrítica, culpa e empobrecimento narcísico.
Na melancolia, o objeto perdido é introjetado de forma massiva, e o ego torna-se seu próprio algoz. Como afirma Freud (2010/1917 [1915]), diferentemente do luto, em que o sofrimento se dirige ao mundo externo e o ego se preserva, na melancolia há uma fusão entre sujeito e objeto. A perda é vivida como perda de si. A sombra do objeto recai sobre o eu, impossibilitando a elaboração e instaurando uma estagnação do desejo.
O luto, por sua vez, é um processo psíquico saudável. Ainda que marcado por dor intensa, o sujeito é capaz de reconhecer que perdeu algo fora de si. Segundo Freud (2010/1917 [1915]), no luto há uma distinção clara entre o eu e o objeto perdido. O sofrimento é destinado à ausência do outro, e o ego, mesmo fragilizado, se reorganiza. A elaboração do luto é um trabalho; um processo lento de desligamento, simbolização e reinvestimento libidinal.
Pierre Marty (1990) retoma essa distinção ao enfatizar que certos estados de sofrimento não chegam a ser simbolizados. Na "depressão essencial" (Marty, 1990), a energia psíquica fica aquém do inconsciente e não encontra via de representação. Trata-se de um trauma que se atualiza no corpo, sem passagem simbólica, manifestando-se como sintomas físicos persistentes e resistentes à elaboração psíquica.
Volich (2011), por sua vez, descreve a depressão essencial como um estado em que a dor é sentida, mas não sabida. A representação fracassa, e a experiência traumática retorna como somatização.
Em seus primeiros meses no Brasil, Belle enfrentou uma série de sintomas corporais que evidenciam essa lógica. Crises intensas de dor na coluna - diagnosticadas como hérnia de disco lombar, agravada pelo excesso de trabalho - tornaram-se parte do seu cotidiano. Porém, mais do que uma lesão ortopédica, a dor era também simbólica: o peso insuportável da perda, da migração forçada, da luta por sobrevivência. Como afirma Volich (2011), quando o excesso de afeto não encontra simbolização, ele retorna ao corpo como sintoma.
Outro sintoma significativo foi o desenvolvimento de alopecia por tração - uma condição comum entre mulheres negras, agravada por práticas estéticas baseadas em padrões brancos de beleza. As feridas do couro cabeludo, esticado por tranças, castigado por químicas ou abafado pelo uso de perucas, carregam um sofrimento histórico: a tentativa de pertencer, de ser aceita, de sobreviver. A perda dos fios simboliza também a perda das origens, a ruptura com a ancestralidade, o luto por uma identidade negada.
Essa melancolia não é apenas subjetiva, é também histórico-política. O objeto perdido - o pertencimento, a dignidade, a terra natal - não pode ser simbolizado. Retorna como dor, como vazio, como sintoma. Ao buscar atendimento no SUS, Belle enfrenta a negligência institucional, a espera interminável, o olhar atravessado, a invisibilidade. Como descreve Frantz Fanon em Pele negra, máscaras brancas (2008), o corpo negro, muitas vezes, é percebido como não humano. A dor de Belle, portanto, não é só física; é também a dor de uma subjetividade que não encontra espelho no outro.
A ausência de elaboração do luto, como aponta Freud (2010/1917 [1915]), resulta na impossibilidade de separar o objeto perdido do eu. A dor de Belle não tinha nome, não tinha forma. Não era apenas a perda do pai, da casa, dos filhos. Era a perda de um lugar simbólico, de uma identidade possível. Assim, a perda recaiu sobre o eu: Belle adentrou em um estado melancólico. O ego tornou-se o alvo da dor.
Nesse sentido, Belle é a própria cripta encarnada. E sua trajetória é um testemunho de como o que é silenciado pelo trauma pode continuar a viver, resistir e insistir - até que encontre escuta, simbolização ou, ao menos, reconhecimento.
Conclusão II: Escrever contra o apagamento
A travessia de Belle nos revela muito mais do que uma história de sofrimento individual. Ela evidencia, com crueza e sensibilidade, as camadas de violência inscritas nos corpos racializados, refugiados, femininos - corpos que carregam não apenas o peso de suas dores, mas também o fardo de um mundo que os recusa.
É a história de um corpo que atravessou fronteiras - geográficas, políticas e psíquicas - e que carrega, em sua pele e em sua memória, marcas que não cicatrizam porque sequer foram nomeadas.
Diante desses corpos, a psicanálise não pode permanecer na neutralidade de sua escuta tradicional. É preciso que ela se mova, que atravesse os muros do consultório e escute outras vozes, que não cabem na palavra. O sofrimento de Belle nos convoca a essa escuta ampliada - ética, política e histórica.
Em "O mal-estar na civilização" (1974/1930), Freud já nos alertava para esse entrelaçamento: as imposições da cultura não são apenas externas, elas colonizam também o mundo interno, gerando culpa, angústia e sintomas. No caso de Belle, esse mal-estar se intensifica pelo atravessamento do racismo estrutural, do exílio forçado, da solidão absoluta de quem não pertence a lugar algum.
No Brasil, Belle encontrou um novo solo, mas também experimentou a recusa: o racismo cotidiano, a negligência institucional, o silêncio das políticas públicas. As filas do SUS, o olhar que a evita, a barreira do idioma, a dificuldade de manter um emprego - tudo isso compôs uma nova camada de dor. O país que a acolheu também a feriu. E, ainda assim, foi aqui que Belle encontrou portas abertas. Pequenos gestos que suportam a dor.
A casa dividida com a amiga angolana, a cozinha como espaço de memória e de afeto, a campanha para reunir parte da família, o acolhimento clínico, o vínculo amoroso - tudo isso funcionou como âncoras psíquicas, sustentáculos simbólicos que impediram a dissolução total do eu. Se o trauma rompeu o tecido da existência, a escuta e o cuidado costuraram, ainda que precariamente, uma nova possibilidade de viver.
Nomear a dor, contar sua história, ser ouvida possibilitaram a Belle a travessia entre o sintoma e o símbolo. Sua dor deixou de ser apenas uma repetição muda e passou a ser história, narrativa e linguagem. É nesse ponto que a psicanálise encontra sua potência: quando permite que o indizível encontre palavras.
Escrever sobre Belle é escrever contra o apagamento. É subverter a ordem e trazer a psicanálise viva que atravessa muros e rompe barreiras. Psicanálise que reflete espelhos reais para corpos reais. Corpos que não se calam. Corpos que falam. Corpos que, enfim, simbolizam.
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ano - Nº 7 - 2025publicação: 10-12-2025 |
ABRAHAM, N.; TOROK, M. O sepulcro do pai: O fantasma e a herança. Tradução Maria Lúcia Pereira. Rio de Janeiro: Imago, 1995.
COUTO, M. Terra sonâmbula. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
DEJOURS, C. Primeiro, o corpo. Corpo biológico, corpo erótico e senso moral. Porto Alegre: Dublinense, 2019.
FANON, F. Pele negra, máscaras brancas. Tradução Renato da Silveira. 3. ed. Salvador: EDUFBA, 2008.
FREUD, S. (1917 [1915]). Luto e melancolia In: FREUD, S. Obras completas, v. 12. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 170-194.
FREUD, S. (1917 [1915]). Luto e melancolia. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 2010. v. XIV.
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