ARTIGOS

A relação intersubjetiva na supervisão: O terceiro analítico de Thomas Ogden


The intersubjective relationship in supervision: Thomas Ogden
Leonardo Ferreira Galvão Tavares
Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

RESUMO
O presente trabalho analisa a supervisão clínica psicanalítica a partir da relação intersubjetiva entre supervisor e supervisionando, articulando-a ao conceito de terceiro analítico desenvolvido por Thomas Ogden. Discute-se como esse conceito se diferencia de outras abordagens intersubjetivas e que abrangem a transformação da dupla analítica. Essa dinâmica influencia a transmissão da psicanálise, a formação do psicanalista e os desafios que surgem, como quando o supervisor adota uma postura autoritária, colocando-se como aquele que sabe fazer, e esvazia o saber do supervisionando. O estudo enfatiza a criação de um encontro possível que favoreça o desenvolvimento de um estilo próprio de prática clínica psicanalítica.

Palavras-chave: Relação intersubjetiva, Terceiro analítico, Supervisão, Transmissão, Formação do psicanalista.

ABSTRACT
This work analyzes psychoanalytic clinical supervision through the intersubjective relationship between supervisor and supervisee, articulating it with the concept of the analytic third developed by Thomas Ogden. It discusses how this concept differs from other intersubjective approaches by encompassing the transformation of the analytic pair. This dynamic influences the transmission of psychoanalysis, the training of the psychoanalyst, and the challenges that arise when the supervisor adopts an authoritarian stance, positioning himself as the one who knows and emptying the knowledge of the supervisee. The study emphasizes the creation of a possible encounter that supports the development of a unique style of psychoanalytic clinical practice.

Keywords: Intersubjective relationship, Analytic third, Supervision, Transmission, Psychoanalyst training.


     Freud tinha o hábito de manter correspondência e de realizar longas caminhadas com alguns de seus analistas em formação, que o procuravam para discutir casos clínicos (Gay, 2012; Roudinesco, 2016). Há registros nas cartas trocadas com seus interlocutores (Freud; Fliess, 1986; Freud; Jung, 1993; Freud; Ferenczi, 1994; Freud; Abraham, 2005), nas quais Freud comenta casos, discute sintomas e formula hipóteses. Esses documentos evidenciam que o diálogo clínico já fazia parte do processo formativo e que havia um intercâmbio ativo sobre a prática. Essas trocas de ideias e experiências funcionavam como embriões daquilo que viria a se consolidar como supervisão em psicanálise. Desde os seus primórdios, a supervisão ocupa um lugar basal no percurso de psicanalistas, permitindo que questões clínicas sejam elaboradas em um campo de transmissão.

     A supervisão, ainda que não tenha sido formalmente conceituada por Freud, urge como uma prática derivada de sua postura frente à transmissão da psicanálise. Sua influência é decisiva na formulação da ideia de que a escuta clínica supervisionada, o estudo teórico e a análise pessoal são elementos indissociáveis na formação do analista. A sistematização desse modelo, conhecido como o tripé da formação psicanalítica, foi institucionalizada pela International Psychoanalytical Association (IPA) e consolidada a partir do chamado Relatório de 1926, elaborado por Max Eitingon, Karl Abraham e Ernst Simmel. Este documento definiu as três exigências fundamentais para o analista em formação: passar por uma análise pessoal, participar de seminários teóricos e realizar supervisão clínica com analistas experientes (Roudinesco; Plon, 1998). Tal marco institucional não apenas organizou os fundamentos da formação, como também reafirmou a supervisão como um campo distinto de transmissão.

     Através da relação intersubjetiva entre supervisor e supervisionando, aprende-se sobre o caso e arquitetam-se possíveis caminhos para além de onde o analista e o analisando já foram (Kaës, 2001). A supervisão não se limita à transmissão de conhecimentos técnicos, mas configura-se como um campo de construção mútua; trata-se de uma experiência, em que o supervisor e o supervisionando se encontram para explorar os desafios e as possibilidades da continuidade do trabalho psicanalítico.

     Durante a supervisão, a comunicação ocorre em múltiplos níveis, envolvendo tanto aspectos conscientes quanto inconscientes da dupla. Freud já havia destacado que, nas relações humanas, a influência entre os indivíduos se dá, em grande parte, por vias inconscientes (Freud, 1921/2011). Essa dinâmica é evidente na transferência, em que conteúdos psíquicos do analisando são deslocados e atualizados ao analista (Freud, 1912a/2010), e também nas construções que eles conferem ao processo analítico, muitas vezes a partir de fragmentos esquecidos ou deformados pela repressão (Freud, 1937/2010).

     Freud não chegou a desenvolver um conceito sobre comunicação inconsciente entre analista e analisando, mas diversos trechos de sua obra (Freud, 1913/2010; 1915a/2010) antecipam essa noção, como a atenção que ele dedica aos fenômenos da contratransferência, revelando que afetos inconscientes do analista são sentidos na relação analítica. Ao recomendar que o analista mantenha sua atenção flutuante, Freud (1914/2010) propõe uma escuta aberta ao que se apresenta de modo fragmentado, simbólico e enigmático, portanto, indicando que o inconsciente do analista se deixe afetar pelo inconsciente do analisando. Freud (1912a/2010; 1914/2010) mostra como conteúdos psíquicos retornam ao vínculo analítico sob a forma de repetição, sendo atualizados na figura do analista. Ainda que não tenha conceituado a comunicação inconsciente, observa-se que suas formulações apontam para uma forma de intersubjetividade inconsciente, que seria mais tarde aprofundada por autores pós-freudianos, como Klein (1946/1991), Bion (1962/1991) e Winnicott (1966/2013; 1968/2013), ao considerarem a clínica a partir dessa perspectiva. Conforme elabora Bion (1962/1991), é justamente nesse campo relacional que se estabelece uma forma de comunicação entre inconscientes, capaz de transformar elementos brutos da experiência emocional em pensamento compartilhável. Esse processo não apenas possibilita a transmissão da psicanálise, mas também a transformação subjetiva da dupla.

     É nesse lugar, alicerçado em confiança, amparo, empatia, diálogo e trocas afetivas, regido por uma ética do cuidado, que o supervisionando endereça questionamentos, desenvolve o raciocínio clínico e, gradualmente, diferencia-se do supervisor, construindo sua singular identidade de psicanalista. Na inexistência de um supervisor, com quem o analista se identificaria e como trabalharia melhor a transferência? O que acontece em supervisão pode refletir diretamente na relação entre analista e analisando, uma vez que os afetos mobilizados no campo supervisor-supervisionando podem influenciar a maneira como o analista escuta, interpreta e sustenta o vínculo transferencial. Portanto, a supervisão funciona como um campo em que o supervisionando pode reconhecer suas contratransferências, inseguranças e impasses clínicos. Essa elaboração reverbera na sessão, como ampliação de escuta e de disponibilidade psíquica.

     O relato do caso clínico em supervisão não é o que efetivamente aconteceu na sessão. Na sessão, o analisando vai até o analista, e na supervisão é a vez de o analista ir até o analisando, recorrendo a registros marcados no papel, na memória, no corpo e no psiquismo. Nesse movimento, a narrativa do caso é reconstruída, permitindo que o supervisor e o supervisionando explorem aspectos que podem ter passado despercebidos na escuta inicial.

     Transmitir o caso, para além dos limites do consultório, pode gerar sentimentos relacionados à desproteção, portanto, a confiabilidade entre a dupla é fundamental. Os fragmentos retornam para o supervisionando de maneira diferente como o escutou enquanto analista durante a sessão, e, nesta nova posição, de supervisionando, é convocado para o exercício de sua criatividade de (re)construção a partir dos restos que sobreviveram, fragmentos vivos esquecidos pelo analisando (Freud, 1937/2010), constituindo seu estilo próprio de transmissão.

     Todavia, assim como os sintomas do analista e do analisando se chocam na sessão, o mesmo ocorre na supervisão. Lacan (1969-1970/1992) formulou o conceito de sujeito de suposto saber para nomear a posição que o analista ocupa na transferência: o lugar daquele que se supõe saber algo sobre o inconsciente do sujeito. Essa suposição, longe de ser uma certeza, é precisamente o que torna possível o trabalho analítico. Quando o supervisor sustenta essa posição semelhante à do analista, preserva-se um espaço de abertura. Contudo, se ele abandona essa função simbólica e assume a posição de mestre do saber (Lacan, 1964/1985), colocando-se de forma autoritária, carregado de verdades e jeitos certos, e interferindo no estilo de transmissão do supervisionando, isso pode dificultar ou até mesmo impedir o processo de análise conduzido pelo supervisionando, como analista, com seus analisandos. O supervisionando supõe o saber do supervisor, e isso lhe permite duvidar. Este suposto saber, o qual se acredita que o supervisor tenha, mas de que, ao mesmo tempo, o supervisionando duvida, cria um campo transferencial para explorar o pensamento clínico. Trata-se de uma posição que sustenta a escuta e convida à elaboração, pois permite ao supervisionando construir, desconstruir e refletir a partir dessa suposição. É justamente o espaço entre o não saber assumido por ambos e o saber suposto que mobiliza o desejo de saber do supervisionando e o engaja no processo de raciocínio clínico. Ao invés de oferecer respostas fechadas, o supervisor, ao sustentar essa posição simbólica, estimula o desenvolvimento da função analítica no supervisionando. Assim, o trabalho analítico avança, porque o supervisionando não busca simplesmente imitar ou obedecer ao supervisor, reproduzindo formulações, mas se vê implicado na construção singular de sua prática. Como manejar essa transferência?

     Entretanto, nem sempre o encontro entre supervisor e supervisionando se realiza como campo de troca e criação. Em alguns contextos, o que se estabelece é um espaço marcado por assimetrias cristalizadas e rígidas, imposição de normas e silenciamentos. A escuta sensível dá lugar à vigilância doutrinária, e o campo intersubjetivo, que deveria favorecer a elaboração simbólica e o crescimento psíquico mútuo, é invadido por julgamentos que desautorizam o pensamento do supervisionando. Quando a autoridade do supervisor se impõe como verdade incontestável, desfaz-se a função simbólica do lugar que ocupa, e ele transforma-se em um agente de controle, o que pode resultar em retraimento do supervisionando, bloqueios criativos e, em alguns casos, experiências traumáticas de formação.

     Esses entraves à experiência costumam manifestar-se como ruídos no campo da transmissão. Por exemplo, o silêncio diante de violências discursivas, a omissão diante de manifestos posicionamentos excludentes ou o esvaziamento simbólico de conflitos legítimos por parte do supervisor podem gerar nos supervisionandos um desamparo ético. Nesses casos, a supervisão deixa de operar como espaço de elaboração clínica e torna-se campo de repetição de violências institucionais. A sensibilidade à alteridade, tão fundamental ao trabalho analítico, também precisa estar presente na escuta da supervisão, não como concessão à diferença, mas como condição para a transmissão ética da psicanálise. O que está em jogo não é apenas o aprendizado técnico e teórico, mas também a constituição ética do futuro analista.

     Tanto na sessão de análise quanto na supervisão, é possível que se ergam resistências. Essas defesas, embora esperadas, não impedem que o trabalho analítico aconteça, desde que a relação também esteja sustentada em uma atmosfera emocional de confiança. Quando a dupla tolera os momentos de não saber, de ansiedade e de não compreensão, permite que existam espaços, silêncios e sonoridades.

     Para pensarmos em como se forma a dupla analítica, nos atentemos à experiência. Como se cria a experiência? Seria o conhecimento das coisas do mundo via órgãos dos sentidos? Algo processado pelas faculdades mentais, como percepção, memória, imaginação, linguagem e pensamento? Seria a superação de dificuldades? Ou aprendizado resultado do sofrimento, como a famosa frase: "é preciso sofrer para aprender"?

     De certo modo, a experiência é uma forma de saber. Saber do mundo e saber de si mesmo. Pode-se dizer que tem caráter objetivo e subjetivo. É objetiva na medida em que envolve a relação do indivíduo com os objetos externos, que circundam o mundo em que está situado, e subjetiva ao considerar os sentidos que o indivíduo atribui a esses objetos a partir de seu mundo interno. Na teoria pulsional freudiana, essa relação entre indivíduo e objeto é inseparável. Freud (1915b/2010) compreende o objeto não como um ente fixo no mundo, mas como aquilo em que a pulsão investe, busca ou perde. Assim, o objeto é constituído como correlato do desejo, sendo, ao mesmo tempo, exterior e intrinsecamente ligado à economia psíquica do indivíduo. Nesse sentido, a experiência pode ser compreendida como um processo pulsional e relacional entre indivíduo e objeto, no qual os investimentos afetivos atribuem sentido à realidade e às vivências. O pai da psicanálise construiu um novo campo de saber, uma relação entre duas pessoas em que é sabido que ainda não se sabe e busca-se descobrir, estreando a experiência psicanalítica que é criada: a dupla analítica.

     Para facilitar essa forma íntima e calorosa de encontro, Freud (1904/2016; 1905/2016; 1912b/2010) configurou-a com uma poltrona para o analista e um divã para o analisando, posicionados de modo a evitar que fiquem frente a frente, criando uma distinta enunciação da fala e da escuta. Essa disposição visa favorecer a fala, a escuta e o trabalho analítico não influenciado pelas expressões do analista, propiciando um ambiente em que a fala do analisando possa fluir livremente em direção às associações livres.

     Sabendo que o processo analítico é criado mutuamente por parte do analista e do analisando, seguimos pensando essa afetação entre a dupla analítica supervisor e supervisionando, que também são sujeitos nessa investigação, sendo crucial o esforço de autorreflexão. Nesse campo ocorre uma série de fenômenos psíquicos, deparando-se a dupla analítica com o inefável, aquilo que não pode ser dito, mas pode ser sentido.

     A experiência intersubjetiva na supervisão é marcada por afetos, identificações e movimentos transferenciais e contratransferenciais, que permitem ao supervisionando desenvolver sua escuta e seu estilo clínico. Contudo, para além de uma relação entre dois sujeitos, Ogden (1994) propõe o conceito de terceiro analítico como uma forma mais radical acerca da intersubjetividade; pode-se entender que se trata de uma virada conceitual, que desloca o foco da relação para o que se cria entre a dupla analítica.

 

O Terceiro Analítico na Supervisão

 

     Diferentemente da relação intersubjetiva, o terceiro analítico, proposto por Ogden (1994), refere-se a um campo psíquico cocriado, com existência própria, que reorganiza e transforma a experiência clínica da dupla.

     No livro Os sujeitos da psicanálise, Ogden (1996) oferece uma leitura aprofundada das concepções de sujeito presentes nas obras de Freud, Klein e Winnicott. Ele propõe a existência de três formas de sujeito, o freudiano, o kleiniano e o winnicottiano, destacando os pontos em que essas perspectivas se complementam, em vez de simplesmente enfatizar suas divergências, atitude incomum entre as escolas de psicanálise, onde é mais comum a valorização das distinções teóricas do que a busca por articulações possíveis entre diferentes autores. Para compreender um conceito psicanalítico, é essencial explorar as contribuições de diferentes autores, e Thomas Ogden destaca-se na academia justamente por sua capacidade de integrar ideias e construir sínteses a partir de teorias diversas. Psiquiatra formado pela Universidade de Yale e psicanalista com formação no Instituto Psicanalítico de San Francisco, ele consolidou uma carreira marcada pela profundidade teórica e pela relevância clínica de suas reflexões. Sua obra, amplamente reconhecida e adotada em diversos países, apresenta contribuições significativas ao campo da psicanálise, entre as quais se destaca o conceito de terceiro analítico, elemento central de sua abordagem teórica, que inaugura uma nova compreensão sobre a intersubjetividade no setting analítico (Grassano, 2016). De acordo com Winnicott (1966/2013), não existe um bebê fora da provisão materna; para Ogden (1994), não existe um analista sem analisando, assim como não existe analisando sem analista.

     Para o referido autor, a noção de sujeito freudiano emerge da inter-relação dialética entre consciência e inconsciente, "nem a consciência nem o inconsciente detêm uma posição privilegiada um em relação ao outro; ambos coexistem numa relação mútua de criação, preservação e negação" (Ogden, 1996, p. 27).

     Em sua leitura da obra kleiniana, Ogden compreende que o sujeito kleiniano se constitui a partir da inter-relação dialética das posições esquizoparanoide e depressiva, sendo Melanie Klein quem inaugurou o campo da intersubjetividade, ao formular o conceito de identificação projetiva, que propõe uma mútua transformação (Ogden, 1996; Klein, 1946/1991).

     O sujeito winnicottiano surge no espaço potencial entre mãe e filho, correspondente ao espaço analítico entre analista e analisando. A tensão dialética encontra-se na experiência entre o eu e não eu (Ogden, 1996).

     A síntese proposta por Ogden (1996) evidencia que os sujeitos freudiano, kleiniano e winnicottiano concebem a experiência humana como um processo dialético intersubjetivo, sendo a dialética um processo em que elementos opostos se criam, se preservam e negam um ao outro. O movimento dialético tende para integrações que nunca se realizam por completo.

     O processo dialético intersubjetivo entre a dupla analítica cria o terceiro analítico. Esse conceito, formulado por Ogden (1994), refere-se a uma experiência psíquica compartilhada que emerge do entrelaçamento das subjetividades do analista e do analisando, formando um campo intersubjetivo singular, que não pertence exclusivamente a nenhum dos dois. O terceiro analítico não é uma entidade concreta, mas um espaço simbólico cocriado, onde novas formas de pensamento, sentimento e sentido podem surgir. Paralelamente, se ambos - supervisor e supervisionando - estão como sujeitos do processo de saber em uma relação também assimétrica, para além da exposição e confirmação de conhecimento, o supervisionando poderá pensar, interrogar e produzir o saber.

     Durante a sessão, não é possível diferenciar o que é do analista e o que é do analisando, pois, através da intersubjetividade, forma-se o conteúdo do terceiro analítico, um campo compartilhado que transforma ambos. Essas experiências são, muitas vezes, vividas intensamente no momento e só podem ser mais bem compreendidas a posteriori, quando revisitadas. É nesse posteriori que algo se torna pensável, que o vivido adquire contorno e sentido. O mesmo ocorre na supervisão: nesse espaço intermediário, a teoria ganha corpo no enlaçamento das vivências clínicas do supervisionando e da experiência acumulada do supervisor. A escuta do supervisor permite ao supervisionando reler suas experiências e construir novas significações. Como afirma Ogden (1996, p. 47): "uma análise não é simplesmente um método de descoberta do oculto; é principalmente um processo de criação de um sujeito analítico que não existia antes".

    Segundo Ogden (1994), é necessário que o analista desenvolva uma disciplina para considerar tudo o que ocorre em si durante a sessão como parte do conteúdo do terceiro analítico. Já o supervisor, por sua vez, mobiliza sua bagagem clínica acumulada, ocupa um lugar de escuta distinto daquele do analista em sessão: seu distanciamento da cena clínica permite-lhe perceber e elaborar elementos que, muitas vezes, escapam ao analista diretamente envolvido. Esse lugar, talvez privilegiado, favorece a função transformadora do supervisor, que, antes de comunicar ao supervisionando o que escutou a partir do relato do caso, processa internamente o conteúdo (sentimentos, sensações e imagens mentais) a fim de traduzi-lo em linguagem compreensível e útil.

     A contratransferência, longe de ser desconsiderada, deve ser acolhida como parte integrante da experiência clínica. O corpo do supervisor pode tornar-se o primeiro a ser afetado pelo não verbalizado, registrando em forma de cansaço, tensão ou perturbações físicas aquilo que ainda não pôde ser simbolizado em sessão. Ferenczi (1932/2011) foi um dos primeiros a destacar como os traumas precoces se inscrevem diretamente na corporeidade, exigindo do analista uma escuta sensível às marcas não representáveis. Como propõe Coelho Junior (2010), o conceito de corporeidade do setting nos ajuda a entender o setting analítico como um espaço vivo, sustentado por duas corporeidades que se afetam mutuamente, que ele denomina cocorporeidade. Nessa perspectiva, o corpo do analista opera como uma superfície receptiva e tradutora do indizível. Tal como descreve Bion (1962/1991), o supervisor realiza, nesse processo, uma função análoga à da mãe: traduz afetos brutos em elementos pensáveis, contribuindo para o crescimento psíquico do supervisionando. Quando duas mentes estão conectadas e há dois corpos implicados, tudo o que acontece entre eles adquire sentido para ambos.

     A intimidade psíquica que se constitui no processo analítico implica uma entrega à proximidade e ao contato transferencial. Nessa relação intensamente afetiva, o analisando, muitas vezes de forma inconsciente, busca se apoiar na mente do analista para simbolizar experiências e integrar vivências emocionais. À luz do conceito de terceiro analítico (Ogden, 1994), o processo analítico permite que o analisando possa escutar a si mesmo através da escuta do outro. Esse campo favorece a apropriação subjetiva de sentidos, mas não se limita a uma identificação com qualidades psíquicas do analista. Versa sobre um processo de cocriação. Em supervisão, esse movimento ocorre de maneira análoga, embora em outra posição de alteridade: o supervisionando também é convocado a elaborar e simbolizar sua escuta clínica a partir do encontro com o supervisor.

     Tanto em sessão quanto em supervisão, as duplas são formadas por sujeitos que coexistem em um processo dialético intersubjetivo.

    A criação de um terceiro existente da tensão entre a dupla analítica é a essência da experiência. Ambos geram uma voz a partir de palavras, criando um ao outro no sentido mais amplo do que poderiam criar a si mesmos. Criam sujeitos que até então não existiam. Veem-se transformados em um sujeito que ainda não conhecem, mas, mesmo assim, reconhecem (Ogden, 1996; Coelho Junior, 2012).

    O supervisor e o supervisionando vivenciam sua própria criação: a experiência do terceiro analítico. São sujeitos que criam e desfazem, um no outro, identificações, sentidos, interpretações e modos de escutar, em um constante movimento de transformação mútua, em processo dialético intersubjetivo. Coexistem em um campo compartilhado onde se constroem e desconstroem narrativas, formas de compreensão e estilos de pensamento. A dupla analítica tanto constrói narrativas quanto desconstrói; forma e desforma.

     Sua proposta sobre o terceiro analítico evidencia o poder transformador da intersubjetividade nas relações psicanalíticas. Esse conceito ilumina a complexidade do espaço compartilhado entre analista e analisando, e que se buscou neste estudo estender à dupla analítica supervisor e supervisionando, em que sujeitos não existem isoladamente, mas se constituem na relação e por ela. Em outras palavras, não há sujeito fora: é na tensão entre o eu e o outro que brotam novas possibilidades de simbolização e experiência psíquica. Assim, o terceiro analítico pode ser pensado como um testemunho vivo da capacidade da psicanálise de acolher as transformações recíprocas que se produzem no entre, lugar paradoxal onde a diferença não anula o vínculo, e o vínculo não dissolve a diferença.

      A originalidade do conceito de terceiro analítico está em deslocar o foco da intersubjetividade de uma troca entre dois sujeitos para a criação de um campo psíquico compartilhado e singular, em outras palavras, sujeitos analíticos que não existiam antes da experiência. Diferentemente de outras abordagens que compreendem a intersubjetividade, Ogden vai além da relação entre analista e analisando e aborda o que não é apenas de um, nem somente de outro, mas do terceiro analítico. 


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ano - Nº 7 - 2025
publicação: 10-12-2025
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Autor(es)
• Leonardo Ferreira Galvão Tavares
 Psicanalista em contínua formação, atualmente pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Especialização em Psicanálise e Relações de Gênero: Ética, Clínica e Política, pelo Instituto de Pesquisa em Psicanálise e Relações de Gênero (2024). Graduado em Psicologia pela Universidade Paulista (2016). E-mail: leofgt@gmail.com

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