Freud tinha o hábito de manter correspondência e de realizar longas caminhadas com alguns de seus analistas em formação, que o procuravam para discutir casos clínicos (Gay, 2012; Roudinesco, 2016). Há registros nas cartas trocadas com seus interlocutores (Freud; Fliess, 1986; Freud; Jung, 1993; Freud; Ferenczi, 1994; Freud; Abraham, 2005), nas quais Freud comenta casos, discute sintomas e formula hipóteses. Esses documentos evidenciam que o diálogo clínico já fazia parte do processo formativo e que havia um intercâmbio ativo sobre a prática. Essas trocas de ideias e experiências funcionavam como embriões daquilo que viria a se consolidar como supervisão em psicanálise. Desde os seus primórdios, a supervisão ocupa um lugar basal no percurso de psicanalistas, permitindo que questões clínicas sejam elaboradas em um campo de transmissão.
A supervisão, ainda que não tenha sido formalmente conceituada por Freud, urge como uma prática derivada de sua postura frente à transmissão da psicanálise. Sua influência é decisiva na formulação da ideia de que a escuta clínica supervisionada, o estudo teórico e a análise pessoal são elementos indissociáveis na formação do analista. A sistematização desse modelo, conhecido como o tripé da formação psicanalítica, foi institucionalizada pela International Psychoanalytical Association (IPA) e consolidada a partir do chamado Relatório de 1926, elaborado por Max Eitingon, Karl Abraham e Ernst Simmel. Este documento definiu as três exigências fundamentais para o analista em formação: passar por uma análise pessoal, participar de seminários teóricos e realizar supervisão clínica com analistas experientes (Roudinesco; Plon, 1998). Tal marco institucional não apenas organizou os fundamentos da formação, como também reafirmou a supervisão como um campo distinto de transmissão.
Através da relação intersubjetiva entre supervisor e supervisionando, aprende-se sobre o caso e arquitetam-se possíveis caminhos para além de onde o analista e o analisando já foram (Kaës, 2001). A supervisão não se limita à transmissão de conhecimentos técnicos, mas configura-se como um campo de construção mútua; trata-se de uma experiência, em que o supervisor e o supervisionando se encontram para explorar os desafios e as possibilidades da continuidade do trabalho psicanalítico.
Durante a supervisão, a comunicação ocorre em múltiplos níveis, envolvendo tanto aspectos conscientes quanto inconscientes da dupla. Freud já havia destacado que, nas relações humanas, a influência entre os indivíduos se dá, em grande parte, por vias inconscientes (Freud, 1921/2011). Essa dinâmica é evidente na transferência, em que conteúdos psíquicos do analisando são deslocados e atualizados ao analista (Freud, 1912a/2010), e também nas construções que eles conferem ao processo analítico, muitas vezes a partir de fragmentos esquecidos ou deformados pela repressão (Freud, 1937/2010).
Freud não chegou a desenvolver um conceito sobre comunicação inconsciente entre analista e analisando, mas diversos trechos de sua obra (Freud, 1913/2010; 1915a/2010) antecipam essa noção, como a atenção que ele dedica aos fenômenos da contratransferência, revelando que afetos inconscientes do analista são sentidos na relação analítica. Ao recomendar que o analista mantenha sua atenção flutuante, Freud (1914/2010) propõe uma escuta aberta ao que se apresenta de modo fragmentado, simbólico e enigmático, portanto, indicando que o inconsciente do analista se deixe afetar pelo inconsciente do analisando. Freud (1912a/2010; 1914/2010) mostra como conteúdos psíquicos retornam ao vínculo analítico sob a forma de repetição, sendo atualizados na figura do analista. Ainda que não tenha conceituado a comunicação inconsciente, observa-se que suas formulações apontam para uma forma de intersubjetividade inconsciente, que seria mais tarde aprofundada por autores pós-freudianos, como Klein (1946/1991), Bion (1962/1991) e Winnicott (1966/2013; 1968/2013), ao considerarem a clínica a partir dessa perspectiva. Conforme elabora Bion (1962/1991), é justamente nesse campo relacional que se estabelece uma forma de comunicação entre inconscientes, capaz de transformar elementos brutos da experiência emocional em pensamento compartilhável. Esse processo não apenas possibilita a transmissão da psicanálise, mas também a transformação subjetiva da dupla.
É nesse lugar, alicerçado em confiança, amparo, empatia, diálogo e trocas afetivas, regido por uma ética do cuidado, que o supervisionando endereça questionamentos, desenvolve o raciocínio clínico e, gradualmente, diferencia-se do supervisor, construindo sua singular identidade de psicanalista. Na inexistência de um supervisor, com quem o analista se identificaria e como trabalharia melhor a transferência? O que acontece em supervisão pode refletir diretamente na relação entre analista e analisando, uma vez que os afetos mobilizados no campo supervisor-supervisionando podem influenciar a maneira como o analista escuta, interpreta e sustenta o vínculo transferencial. Portanto, a supervisão funciona como um campo em que o supervisionando pode reconhecer suas contratransferências, inseguranças e impasses clínicos. Essa elaboração reverbera na sessão, como ampliação de escuta e de disponibilidade psíquica.
O relato do caso clínico em supervisão não é o que efetivamente aconteceu na sessão. Na sessão, o analisando vai até o analista, e na supervisão é a vez de o analista ir até o analisando, recorrendo a registros marcados no papel, na memória, no corpo e no psiquismo. Nesse movimento, a narrativa do caso é reconstruída, permitindo que o supervisor e o supervisionando explorem aspectos que podem ter passado despercebidos na escuta inicial.
Transmitir o caso, para além dos limites do consultório, pode gerar sentimentos relacionados à desproteção, portanto, a confiabilidade entre a dupla é fundamental. Os fragmentos retornam para o supervisionando de maneira diferente como o escutou enquanto analista durante a sessão, e, nesta nova posição, de supervisionando, é convocado para o exercício de sua criatividade de (re)construção a partir dos restos que sobreviveram, fragmentos vivos esquecidos pelo analisando (Freud, 1937/2010), constituindo seu estilo próprio de transmissão.
Todavia, assim como os sintomas do analista e do analisando se chocam na sessão, o mesmo ocorre na supervisão. Lacan (1969-1970/1992) formulou o conceito de sujeito de suposto saber para nomear a posição que o analista ocupa na transferência: o lugar daquele que se supõe saber algo sobre o inconsciente do sujeito. Essa suposição, longe de ser uma certeza, é precisamente o que torna possível o trabalho analítico. Quando o supervisor sustenta essa posição semelhante à do analista, preserva-se um espaço de abertura. Contudo, se ele abandona essa função simbólica e assume a posição de mestre do saber (Lacan, 1964/1985), colocando-se de forma autoritária, carregado de verdades e jeitos certos, e interferindo no estilo de transmissão do supervisionando, isso pode dificultar ou até mesmo impedir o processo de análise conduzido pelo supervisionando, como analista, com seus analisandos. O supervisionando supõe o saber do supervisor, e isso lhe permite duvidar. Este suposto saber, o qual se acredita que o supervisor tenha, mas de que, ao mesmo tempo, o supervisionando duvida, cria um campo transferencial para explorar o pensamento clínico. Trata-se de uma posição que sustenta a escuta e convida à elaboração, pois permite ao supervisionando construir, desconstruir e refletir a partir dessa suposição. É justamente o espaço entre o não saber assumido por ambos e o saber suposto que mobiliza o desejo de saber do supervisionando e o engaja no processo de raciocínio clínico. Ao invés de oferecer respostas fechadas, o supervisor, ao sustentar essa posição simbólica, estimula o desenvolvimento da função analítica no supervisionando. Assim, o trabalho analítico avança, porque o supervisionando não busca simplesmente imitar ou obedecer ao supervisor, reproduzindo formulações, mas se vê implicado na construção singular de sua prática. Como manejar essa transferência?
Entretanto, nem sempre o encontro entre supervisor e supervisionando se realiza como campo de troca e criação. Em alguns contextos, o que se estabelece é um espaço marcado por assimetrias cristalizadas e rígidas, imposição de normas e silenciamentos. A escuta sensível dá lugar à vigilância doutrinária, e o campo intersubjetivo, que deveria favorecer a elaboração simbólica e o crescimento psíquico mútuo, é invadido por julgamentos que desautorizam o pensamento do supervisionando. Quando a autoridade do supervisor se impõe como verdade incontestável, desfaz-se a função simbólica do lugar que ocupa, e ele transforma-se em um agente de controle, o que pode resultar em retraimento do supervisionando, bloqueios criativos e, em alguns casos, experiências traumáticas de formação.
Esses entraves à experiência costumam manifestar-se como ruídos no campo da transmissão. Por exemplo, o silêncio diante de violências discursivas, a omissão diante de manifestos posicionamentos excludentes ou o esvaziamento simbólico de conflitos legítimos por parte do supervisor podem gerar nos supervisionandos um desamparo ético. Nesses casos, a supervisão deixa de operar como espaço de elaboração clínica e torna-se campo de repetição de violências institucionais. A sensibilidade à alteridade, tão fundamental ao trabalho analítico, também precisa estar presente na escuta da supervisão, não como concessão à diferença, mas como condição para a transmissão ética da psicanálise. O que está em jogo não é apenas o aprendizado técnico e teórico, mas também a constituição ética do futuro analista.
Tanto na sessão de análise quanto na supervisão, é possível que se ergam resistências. Essas defesas, embora esperadas, não impedem que o trabalho analítico aconteça, desde que a relação também esteja sustentada em uma atmosfera emocional de confiança. Quando a dupla tolera os momentos de não saber, de ansiedade e de não compreensão, permite que existam espaços, silêncios e sonoridades.
Para pensarmos em como se forma a dupla analítica, nos atentemos à experiência. Como se cria a experiência? Seria o conhecimento das coisas do mundo via órgãos dos sentidos? Algo processado pelas faculdades mentais, como percepção, memória, imaginação, linguagem e pensamento? Seria a superação de dificuldades? Ou aprendizado resultado do sofrimento, como a famosa frase: "é preciso sofrer para aprender"?
De certo modo, a experiência é uma forma de saber. Saber do mundo e saber de si mesmo. Pode-se dizer que tem caráter objetivo e subjetivo. É objetiva na medida em que envolve a relação do indivíduo com os objetos externos, que circundam o mundo em que está situado, e subjetiva ao considerar os sentidos que o indivíduo atribui a esses objetos a partir de seu mundo interno. Na teoria pulsional freudiana, essa relação entre indivíduo e objeto é inseparável. Freud (1915b/2010) compreende o objeto não como um ente fixo no mundo, mas como aquilo em que a pulsão investe, busca ou perde. Assim, o objeto é constituído como correlato do desejo, sendo, ao mesmo tempo, exterior e intrinsecamente ligado à economia psíquica do indivíduo. Nesse sentido, a experiência pode ser compreendida como um processo pulsional e relacional entre indivíduo e objeto, no qual os investimentos afetivos atribuem sentido à realidade e às vivências. O pai da psicanálise construiu um novo campo de saber, uma relação entre duas pessoas em que é sabido que ainda não se sabe e busca-se descobrir, estreando a experiência psicanalítica que é criada: a dupla analítica.
Para facilitar essa forma íntima e calorosa de encontro, Freud (1904/2016; 1905/2016; 1912b/2010) configurou-a com uma poltrona para o analista e um divã para o analisando, posicionados de modo a evitar que fiquem frente a frente, criando uma distinta enunciação da fala e da escuta. Essa disposição visa favorecer a fala, a escuta e o trabalho analítico não influenciado pelas expressões do analista, propiciando um ambiente em que a fala do analisando possa fluir livremente em direção às associações livres.
Sabendo que o processo analítico é criado mutuamente por parte do analista e do analisando, seguimos pensando essa afetação entre a dupla analítica supervisor e supervisionando, que também são sujeitos nessa investigação, sendo crucial o esforço de autorreflexão. Nesse campo ocorre uma série de fenômenos psíquicos, deparando-se a dupla analítica com o inefável, aquilo que não pode ser dito, mas pode ser sentido.
A experiência intersubjetiva na supervisão é marcada por afetos, identificações e movimentos transferenciais e contratransferenciais, que permitem ao supervisionando desenvolver sua escuta e seu estilo clínico. Contudo, para além de uma relação entre dois sujeitos, Ogden (1994) propõe o conceito de terceiro analítico como uma forma mais radical acerca da intersubjetividade; pode-se entender que se trata de uma virada conceitual, que desloca o foco da relação para o que se cria entre a dupla analítica.
O Terceiro Analítico na Supervisão
Diferentemente da relação intersubjetiva, o terceiro analítico, proposto por Ogden (1994), refere-se a um campo psíquico cocriado, com existência própria, que reorganiza e transforma a experiência clínica da dupla.
No livro Os sujeitos da psicanálise, Ogden (1996) oferece uma leitura aprofundada das concepções de sujeito presentes nas obras de Freud, Klein e Winnicott. Ele propõe a existência de três formas de sujeito, o freudiano, o kleiniano e o winnicottiano, destacando os pontos em que essas perspectivas se complementam, em vez de simplesmente enfatizar suas divergências, atitude incomum entre as escolas de psicanálise, onde é mais comum a valorização das distinções teóricas do que a busca por articulações possíveis entre diferentes autores. Para compreender um conceito psicanalítico, é essencial explorar as contribuições de diferentes autores, e Thomas Ogden destaca-se na academia justamente por sua capacidade de integrar ideias e construir sínteses a partir de teorias diversas. Psiquiatra formado pela Universidade de Yale e psicanalista com formação no Instituto Psicanalítico de San Francisco, ele consolidou uma carreira marcada pela profundidade teórica e pela relevância clínica de suas reflexões. Sua obra, amplamente reconhecida e adotada em diversos países, apresenta contribuições significativas ao campo da psicanálise, entre as quais se destaca o conceito de terceiro analítico, elemento central de sua abordagem teórica, que inaugura uma nova compreensão sobre a intersubjetividade no setting analítico (Grassano, 2016). De acordo com Winnicott (1966/2013), não existe um bebê fora da provisão materna; para Ogden (1994), não existe um analista sem analisando, assim como não existe analisando sem analista.
Para o referido autor, a noção de sujeito freudiano emerge da inter-relação dialética entre consciência e inconsciente, "nem a consciência nem o inconsciente detêm uma posição privilegiada um em relação ao outro; ambos coexistem numa relação mútua de criação, preservação e negação" (Ogden, 1996, p. 27).
Em sua leitura da obra kleiniana, Ogden compreende que o sujeito kleiniano se constitui a partir da inter-relação dialética das posições esquizoparanoide e depressiva, sendo Melanie Klein quem inaugurou o campo da intersubjetividade, ao formular o conceito de identificação projetiva, que propõe uma mútua transformação (Ogden, 1996; Klein, 1946/1991).
O sujeito winnicottiano surge no espaço potencial entre mãe e filho, correspondente ao espaço analítico entre analista e analisando. A tensão dialética encontra-se na experiência entre o eu e não eu (Ogden, 1996).
A síntese proposta por Ogden (1996) evidencia que os sujeitos freudiano, kleiniano e winnicottiano concebem a experiência humana como um processo dialético intersubjetivo, sendo a dialética um processo em que elementos opostos se criam, se preservam e negam um ao outro. O movimento dialético tende para integrações que nunca se realizam por completo.
O processo dialético intersubjetivo entre a dupla analítica cria o terceiro analítico. Esse conceito, formulado por Ogden (1994), refere-se a uma experiência psíquica compartilhada que emerge do entrelaçamento das subjetividades do analista e do analisando, formando um campo intersubjetivo singular, que não pertence exclusivamente a nenhum dos dois. O terceiro analítico não é uma entidade concreta, mas um espaço simbólico cocriado, onde novas formas de pensamento, sentimento e sentido podem surgir. Paralelamente, se ambos - supervisor e supervisionando - estão como sujeitos do processo de saber em uma relação também assimétrica, para além da exposição e confirmação de conhecimento, o supervisionando poderá pensar, interrogar e produzir o saber.
Durante a sessão, não é possível diferenciar o que é do analista e o que é do analisando, pois, através da intersubjetividade, forma-se o conteúdo do terceiro analítico, um campo compartilhado que transforma ambos. Essas experiências são, muitas vezes, vividas intensamente no momento e só podem ser mais bem compreendidas a posteriori, quando revisitadas. É nesse posteriori que algo se torna pensável, que o vivido adquire contorno e sentido. O mesmo ocorre na supervisão: nesse espaço intermediário, a teoria ganha corpo no enlaçamento das vivências clínicas do supervisionando e da experiência acumulada do supervisor. A escuta do supervisor permite ao supervisionando reler suas experiências e construir novas significações. Como afirma Ogden (1996, p. 47): "uma análise não é simplesmente um método de descoberta do oculto; é principalmente um processo de criação de um sujeito analítico que não existia antes".
Segundo Ogden (1994), é necessário que o analista desenvolva uma disciplina para considerar tudo o que ocorre em si durante a sessão como parte do conteúdo do terceiro analítico. Já o supervisor, por sua vez, mobiliza sua bagagem clínica acumulada, ocupa um lugar de escuta distinto daquele do analista em sessão: seu distanciamento da cena clínica permite-lhe perceber e elaborar elementos que, muitas vezes, escapam ao analista diretamente envolvido. Esse lugar, talvez privilegiado, favorece a função transformadora do supervisor, que, antes de comunicar ao supervisionando o que escutou a partir do relato do caso, processa internamente o conteúdo (sentimentos, sensações e imagens mentais) a fim de traduzi-lo em linguagem compreensível e útil.
A contratransferência, longe de ser desconsiderada, deve ser acolhida como parte integrante da experiência clínica. O corpo do supervisor pode tornar-se o primeiro a ser afetado pelo não verbalizado, registrando em forma de cansaço, tensão ou perturbações físicas aquilo que ainda não pôde ser simbolizado em sessão. Ferenczi (1932/2011) foi um dos primeiros a destacar como os traumas precoces se inscrevem diretamente na corporeidade, exigindo do analista uma escuta sensível às marcas não representáveis. Como propõe Coelho Junior (2010), o conceito de corporeidade do setting nos ajuda a entender o setting analítico como um espaço vivo, sustentado por duas corporeidades que se afetam mutuamente, que ele denomina cocorporeidade. Nessa perspectiva, o corpo do analista opera como uma superfície receptiva e tradutora do indizível. Tal como descreve Bion (1962/1991), o supervisor realiza, nesse processo, uma função análoga à da mãe: traduz afetos brutos em elementos pensáveis, contribuindo para o crescimento psíquico do supervisionando. Quando duas mentes estão conectadas e há dois corpos implicados, tudo o que acontece entre eles adquire sentido para ambos.
A intimidade psíquica que se constitui no processo analítico implica uma entrega à proximidade e ao contato transferencial. Nessa relação intensamente afetiva, o analisando, muitas vezes de forma inconsciente, busca se apoiar na mente do analista para simbolizar experiências e integrar vivências emocionais. À luz do conceito de terceiro analítico (Ogden, 1994), o processo analítico permite que o analisando possa escutar a si mesmo através da escuta do outro. Esse campo favorece a apropriação subjetiva de sentidos, mas não se limita a uma identificação com qualidades psíquicas do analista. Versa sobre um processo de cocriação. Em supervisão, esse movimento ocorre de maneira análoga, embora em outra posição de alteridade: o supervisionando também é convocado a elaborar e simbolizar sua escuta clínica a partir do encontro com o supervisor.
Tanto em sessão quanto em supervisão, as duplas são formadas por sujeitos que coexistem em um processo dialético intersubjetivo.
A criação de um terceiro existente da tensão entre a dupla analítica é a essência da experiência. Ambos geram uma voz a partir de palavras, criando um ao outro no sentido mais amplo do que poderiam criar a si mesmos. Criam sujeitos que até então não existiam. Veem-se transformados em um sujeito que ainda não conhecem, mas, mesmo assim, reconhecem (Ogden, 1996; Coelho Junior, 2012).
O supervisor e o supervisionando vivenciam sua própria criação: a experiência do terceiro analítico. São sujeitos que criam e desfazem, um no outro, identificações, sentidos, interpretações e modos de escutar, em um constante movimento de transformação mútua, em processo dialético intersubjetivo. Coexistem em um campo compartilhado onde se constroem e desconstroem narrativas, formas de compreensão e estilos de pensamento. A dupla analítica tanto constrói narrativas quanto desconstrói; forma e desforma.
Sua proposta sobre o terceiro analítico evidencia o poder transformador da intersubjetividade nas relações psicanalíticas. Esse conceito ilumina a complexidade do espaço compartilhado entre analista e analisando, e que se buscou neste estudo estender à dupla analítica supervisor e supervisionando, em que sujeitos não existem isoladamente, mas se constituem na relação e por ela. Em outras palavras, não há sujeito fora: é na tensão entre o eu e o outro que brotam novas possibilidades de simbolização e experiência psíquica. Assim, o terceiro analítico pode ser pensado como um testemunho vivo da capacidade da psicanálise de acolher as transformações recíprocas que se produzem no entre, lugar paradoxal onde a diferença não anula o vínculo, e o vínculo não dissolve a diferença.
A originalidade do conceito de terceiro analítico está em deslocar o foco da intersubjetividade de uma troca entre dois sujeitos para a criação de um campo psíquico compartilhado e singular, em outras palavras, sujeitos analíticos que não existiam antes da experiência. Diferentemente de outras abordagens que compreendem a intersubjetividade, Ogden vai além da relação entre analista e analisando e aborda o que não é apenas de um, nem somente de outro, mas do terceiro analítico.
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ano - Nº 7 - 2025publicação: 10-12-2025 |
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