ARTIGOS

O tempo lógico e o tempo institucional: O apagamento que o sujeito pode sofrer em contextos de urgência subjetiva


Logical time and institutional time: The erasure that the subject may suffer in contexts of subjective urgency
Natália Veiga Schenatto
Hospital São Luiz (Rede D’Or) – Unidade Itaim (Núcleo Pró-Creare)
Caio Henrique Vianna Baptista
Núcleo Pró-Creare
Patricia Bader dos Santos
Hospital São Luiz (Rede D’Or) – Unidade Itaim (Núcleo Pró-Creare)

RESUMO
Sujeitos adoecidos psiquicamente, em estado de intensa angústia, apresentando uma impossibilidade de manifestação sintomática pela via da palavra, frente a um Real que não cessa de inscrever-se no sofrimento do corpo, procuram por vezes o espaço hospitalar enquanto serviço de acolhimento e cuidado. Frente a esse cenário, de urgência subjetiva, é importante que haja escuta e um olhar especializado para o que não se manifesta na voz, mas possivelmente em sintomas fisiológicos ou passagens ao ato. Partindo do entendimento do que cabe enquanto ofício ao psicanalista em sua atuação hospitalar, o presente artigo realiza uma revisão crítica da literatura, que nos leva a concluir acerca da importante via da palavra-significante enquanto tratamento ofertado a pacientes que se encontram perante o dilacerar da angústia em situações de urgências subjetivas no ambiente hospitalar. Utilizam-se, assim, enquanto principais ferramentas de trabalho, a escuta e o desejo do(a) analista para promover um espaço de cuidado em contraponto ao corrido tempo institucional, lançando mão da concepção de tempo lógico de Jacques Lacan.

Palavras-chave: Urgência subjetiva, Escuta, Tempo lógico, Psicanálise, Psicologia hospitalar.

ABSTRACT
Individuals suffering from mental illness, in a state of intense anguish, unable to express symptoms through words, faced with the Real that never ceases to inscribe itself in the suffering of the body, sometimes seek hospital space as a service of reception and care. Faced with this scenario of subjective urgency, it is important to listen and pay specialized attention to what does not manifest itself verbally, but possibly through physiological symptoms or passages into action. Based on an understanding of the psychoanalyst's role in hospital practice, this article conducts a critical review of the literature that leads us to conclude about the importance of the signifying word as a treatment offered to patients facing the rending of anguish in situations of subjective urgency in a hospital. Thus, the primary working tools used are the analyst's listening and desire to foster a space of care in contrast to the hurried institutional time, thus drawing on Jacques Lacan's conception of logical time.


Keywords: Subjective urgency, Listening, Logical time, Psychoanalysis, Hospital psychology.


 

Introdução

 

 

     De acordo com o psicanalista Jacques Lacan (1945/1998), o tempo cronológico, que se calcula pelo relógio ou por marcadores como o calendário, não é o único tempo que incide nos seres falantes. Essa formulação aponta para a existência do conceito de tempo lógico, que nada teria a ver com o tempo cronometrado, mas com a lógica inerente à instância da linguagem, já que, segundo ele, o inconsciente é estruturado como a linguagem (Lacan, 1957/1998).

     No tempo lógico lacaniano (Lacan, 1945/1998), podemos observar uma divisão da logicidade em três instâncias:

 

  •     Instante de ver: nessa primeira divisão, observa-se o que acontece, como uma rápida fitada de olhos na cena que se apresente à captura imaginária de cada sujeito.
  •     Tempo para compreender: tempo no qual o sujeito pode elaborar simbolicamente sobre o que lhe ocorreu, podendo adicionar, ali, uma pausa no que está se passando psiquicamente, compreender junto ao outro, para ir em rumo à enunciação de si.
  •     Momento de concluir: nesse momento, Lacan nos traz um novo termo para pensar essa instância conclusiva: a "certeza antecipada"; esse termo nada teria a se relacionar com uma certeza precipitada que carece de pausa para compreensão, presente no tempo para compreender. No momento de concluir, um ato cortaria o fluxo psíquico instaurado dentro do tempo para compreender, e o sujeito pode, aí, se enunciar. (Quinet, 1991/2009, p. 63)

 

     Como incluir o tempo lógico, ou seja, uma pausa que interdita o fluxo angustiante e precipitado que pode trazer uma fixação no instante de ver, possibilitando uma entrada maior do registro simbólico e tempo para compreender, caminhando, possivelmente, ao momento de concluir, em casos de urgências subjetivas e sob a ótica teórica da psicanálise lacaniana, no contexto instituição-empresa que é o hospital?

     No hospital, enquanto instituição, a dimensão cronológica do tempo é acentuada (Azevedo; Calazans, 2016), pois trata-se de um ambiente de urgências orgânicas, que dependem de minutos e segundos, e, em alguns momentos, também de urgências subjetivas, como casos de tentativa de suicídio ou qualquer outra forma de angústia latente e disruptiva psiquicamente que se apresente ali para o psicanalista posicionado em instituição.

     Há ainda casos de dor crônica e manifestações corporais que provocam intenso sofrimento, mas que não encontram explicação no saber médico. Esses casos também configuram urgências subjetivas, pois revelam o predomínio da angústia como núcleo do sofrimento vivido por muitos dos pacientes hospitalizados (Azevedo; Calazans, 2016).

     Enquanto formulação psicanalítica, o termo urgência subjetiva se cria e é forjado a partir da prática em hospitais, remontando sua origem, não sem coincidência, à história do começo da psicanálise, com atuação de mestres como Sigmund Freud e Jacques Lacan em instituições hospitalares, respectivamente, o Hospital Geral de Viena e o Hospital de Saint-Anne. Segundo Berta (2015), o termo é intrínseco à prática do psicanalista, e articula-se enquanto uma arma de arremesso para costura da prática psicanalítica, no caso a caso, dentro de instituições públicas e privadas. De acordo com a autora,

 

Naquele momento (1987), cuidamos de dar algumas definições da urgência como subjetiva, e todas elas apontavam a levar em conta a dimensão real em jogo. Isso que Lacan tampouco queria definir demasiado, mas que, pelos motivos que nos interessam aqui, podemos definir como sendo aquilo que, no discurso do mestre, não anda, isso que o discurso não consegue cernir, isso que tem algo muito singular para cada um. Tentávamos estudar as urgências subjetivas com uma ampla gama de descrições: esses momentos de crise na vida de um sujeito que, não podendo dar conta de seu sofrimento, ou seja, quando o discurso não lhe alcança para entender, manobrar, esse sofrimento inefável fica sem palavras, sem imagens, ou fica fechado no maior mutismo, sendo impulsado a atos desesperados, ou é tomado presa da mais cruel angústia. (Seldes, 2006, p. 34, tradução da autora, apud Berta, 2015, p. 96)

 

     Quando a disruptividade da angústia incide nos sujeitos, há um abalo na cadeia significante de cada um, um empuxo ao pulo imediato do instante de ver ao momento de concluir: o tempo para compreender sofre um abalo, não permitindo ao sujeito que elabore simbolicamente sobre sua própria urgência subjetiva (Azevedo; Calazans, 2016).

     A constituição marcante do hospital enquanto empresa, importância enquadrada dentro de um sistema capitalista, que se beneficia quase que unicamente da noção cronológica do tempo, acentuando o instante de ver, segrega o valor lógico simbólico inerente a cada sujeito quando se trata da questão temporal. Dentro do funcionamento do hospital-empresa, há metas a cumprir, baseadas unicamente nos dias do calendário dentro de um mês, de corpos como produtos/resultados e de valor versus cuidado. Como traz Berta (2015), a urgência subejtiva se dá na instância lógica do instante de ver, relativo ao tempo lógico lacaniano, ou seja: a colagem que se pode realizar entre a rapidez hospitalar de resolução de casos e sintomas e o impossível de se elaborar a urgência subjetiva, enquadrada no instante de ver sem a abertura para o tempo para compreender, pode trazer desfechos clínicos não interessantes.

     Um curto-circuito psíquico instaura-se, assim como na organização lógica do tempo: "Podemos notar que na urgência há um curto-circuito entre o instante de ver (o acontecimento) e o tempo de compreender (esse acontecimento) [...]" (Azevedo, 2018, p. 209).

     O cenário apresentado em urgências subjetivas que dão entrada no espaço hospitalar caracteriza-se pelo mal-estar pungente e límbico da angústia. Ela é o único afeto desprovido de sentido (Muñoz; Rodrigues, 2020), e que apaga o sujeito em relação ao seu posicionamento frente aos outros. Atravessado por um registro psíquico Real e sem poder elaborar pela palavra sua angústia, o sujeito pode recorrer a passagens ao ato, acting outs, delírios, alucinações e agitações psicomotoras.

     Justamente pelo fato de o registro do Real, que reina absoluto em marcas promovidas por essa angústia frente a situações de urgências subjetivas, não se caracterizar enquanto pré-simbólico em nenhuma estrutura psíquica (Zupančič, 2023), no sentido psicanalítico do termo (neurose, psicose ou perversão), o que se traduz por não ser possível que algum sujeito não seja marcado, mesmo antes de seu nascimento, pela linguagem, é que a única via possível de tratamento para a urgência subjetiva se dê pela via da elaboração simbólica. É aí, nesse espaço de tempo para compreender junto ao outro, que a entrada do psicanalista se torna possível, com a escansão temporal que sua escuta traz, instaurando uma calmaria lógica.

     A pausa que fura a angústia traz um tempo fora do tempo cronológico, que abre caminho para o registro simbólico da elaboração, fazendo barreira ao tempo acelerado do relógio do hospital. O psicanalista deve entrar nesse circuito possibilitando que um furo nessa angústia seja realizado, ou seja, que uma nova rede significante ali se articule por parte do sujeito (Azevedo; Calazans, 2016), e não pela via de interpretações rapidamente realizadas, trazendo palavras dele enquanto indivíduo com vista a um suposto acolhimento, em oposição à postura analítica. Assim, pela oferta de uma pausa lógica promovida pelo furo do ato analítico, o paciente pode recuperar sua autonomia por meio da enunciação própria, tomando a palavra por si.

     Há um ponto que exige atenção. A posição analítica, de colocar-se em direção à demanda de análise no discurso do paciente, é a que porporciona ao sujeito em questão, que se encontra em urgência subjetiva, a possibilidade de elaborar. Há, assim, a criação de um espaço que evoca a enunciação do ser em angústia. Ou seja, interpretações em vista do "bem", sem levar em conta a ética psicanalítica, que visa à tomada da palavra pelo paciente, podem promover saídas e efeitos não interessantes nos casos urgentes:

 

Lacan introduz o conceito de ato psicanalítico, retirando assim a psicanálise do âmbito das regras para situá-la na esfera da ética. É o analista com seu ato que dá existência ao inconsciente, promovendo a psicanálise no particular de cada caso. (Quinet, 1991/2009, p. 8)

 

     Com a moldura de casos que suscitam sentimentos de urgência em cada profissional dentro de equipes multidisciplinares, há de se preservar de interpretações rapidamente feitas sobre o caso, e mesmo do empuxo a qualquer forma de acolhimento protocolada a sofrimentos psíquicos.

     O analista reserva seu discurso e recursos em direção à escuta e ao ato analítico, com vista a evitar, assim, saídas de pacientes do hospital que desemboquem em passagens ao ato, mais uma vez levando o corpo em cena ao limite da angústia, podendo contribuir para a cronificação do quadro clínico apresentado.

     A urgência subjetiva é subjetivada apenas após a palavra ser tomada pelo sujeito, em transferência com o analista presente em cena (Aires; Almeida, 2023b). Ainda segundo Aires e Almeida (2023a), há de se preservar, portanto, uma pausa lógica inserida pelo psicanalista no atendimento a urgências subjetivas, para que o sujeito possa surgir e enunciar-se por si próprio, encontrando seu caminho de alívio pela linguagem frente à angústia e pela transferência com o analista.

     O objetivo neste presente estudo se dá, portanto, pela discussão em torno da incidência do conceito de "tempo lógico", presente na obra Escritos, de Jacques Lacan (1945/1998), em costura com a concepção de urgência subjetiva dentro dos hospitais enquanto instituições, com ênfase na travessia possível de um tempo ao outro, intermediada pela escuta do psicanalista. Este, por sua vez, com seu desejo de analista, junto da ética da psicanálise, oferta ao indivíduo uma pausa na cronologia da pressa hospitalar, por meio de sua escuta, em busca de ressonâncias significantes que façam o sujeito emergir no sentido contrário ao da angústia que toma o seu corpo em contexto de urgência subjetiva.

 

Metodologia

 

     Propor uma pesquisa em psicanálise é encontrar-se em um ambiente de arames farpados: segundo Mezan (2006), a discussão em torno da pesquisa psicanalítica sempre foi um ambiente de grandes embates, desde o surgimento da psicanálise. Porém, nos últimos 20 ou 25 anos, vem se tornando um campo de trocas e apontamentos à epistemologia e metodologia dentro da pesquisa na área da Psicologia.

     O cerne da discussão está no fato de a pesquisa em psicanálise intercalar-se com o método da própria clínica: por meio de fragmentos clínicos colhidos em atendimentos com pacientes, podemos realizar um acréscimo à teoria, configurando, assim, um campo de pesquisa acentuadamente diferente, por exemplo, de um que dialoga com evidências científicas relacionadas a dados numéricos e provas visíveis.

     Na pesquisa em psicanálise, por meio de uma ciência da lógica (Andery et al., 2012), e não das evidências palpáveis aos olhos da matemática e aos nossos sentidos imediatos, o objeto de estudo é o inconsciente.

     Diante do exposto, para a elaboração do presente trabalho, adotou-se a  revisão crítica da literatura como metodologia. Para a criação do texto, foram realizadas  pesquisas nas bases de dados Scielo e Pepsic, acerca de artigos relativos à prática do psicanalista no hospital, bem como capítulos de livros, que, por sua vez, serão sinalizados em um quadro específico no tópico "Discussão e resultados" deste texto, e também em obras que estudam a temática do tempo e conceitos psicanalíticos necessários ao estudo, como, por exemplo, "registro simbólico", "angústia", "passagem ao ato", "acting out", "linguagem", etc., cujos autores são, principalmente, Elaine Cristina Azevedo, Nuria Malojovick Muñoz, Alenka Zupančič, Daniely de Almeida, Suely Aires e Roberto Calazans.

     No que diz respeito à coleta dos textos, por meio das bases de dados Scielo (Biblioteca Científica Eletrônica Online) e Pepsic (Portal de Periódicos Eletrônicos de Psicologia), usaram-se como norteadores os descritores "urgência subjetiva", "tempo lógico", "angústia" e "acting out", tendo sido encontrados 61 artigos em periódicos nacionais e 7 capítulos de livros.

     Após a coleta dos textos, foram aplicados os seguintes critérios de inclusão, a fim de que os textos que não atendessem a esses critérios fossem eliminados: textos que abordassem especificamente as temáticas da pesquisa e textos que cuidassem dos subtemas a partir da psicanálise lacaniana. Diante  disso, e após a eliminação de duplicatas, foram utilizados um total de 13 textos, que serão apresentados nos resultados e devidamente discutidos à luz da psicanálise e da prática psicanalista no ambiente hospitalar.

 

Discussão e resultados

         

     Tendo em vista a escolha de artigos e a seleção de capítulos de livros, com base na orientação psicanalítica lacaniana dentro do contexto hospitalar, observa-se a necessidade de tratamento pela via do significante direcionado a pacientes em quadros clínicos bordejados pela angústia em nível de urgência subjetiva. Vale ressaltar também que os textos utilizados para favorecer as reflexões e a elaboração da presente discussão encontram-se no quadro a seguir.

 

 

Autor(es)

Ano

Título

Periódico / Editora

Aires e Almeida

2023

Urgência subjetiva, tempo lógico e sintoma: perspectivas psicanalíticas

Rio de Janeiro, Revista Psicologia Clínica, v. 35, n. 2, p. 319-340

Aires e Almeida

2023

A clínica psicanalítica das urgências subjetivas no hospital universitário: construção de um caso clínico

Revista Psicologia: Ciência e Profissão, v. 43, p. 1-16

Andery et al.

2012

Posfácio

Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica. Rio de Janeiro: Garamond; São Paulo: EDUC

Azevedo

2018

Da pressa à urgência do sujeito – Psicanálise e urgência subjetiva

São João del-Rei, Revista Analytica, v.7, n. 13, p. 208-217

Azevedo e Calazans

2016

“Não há tempo... a perder”: questões sobre a atuação do psicanalista no hospital geral

Vínculo – Revista do NESME, v. 3, n. 1, p. 56-64

Berta

2015

Localização da urgência subjetiva em psicanálise

A Peste: Revista de Psicanálise e Sociedade e Filosofia, São Paulo, v. 7, n. 1, p. 95-105, jan./jun.

Lacan

1998

A instância da letra no inconsciente ou a razão de Freud

In: Escritos (1957/1998). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor

Lacan

1998

O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada

In: Escritos (1945/1998). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor

Muñoz et al.

2019

O manejo da urgência subjetiva na universidade: construindo estratégias de cuidado à saúde mental dos estudantes

Revista Interação em Psicologia, v. 23, n. 2, p. 177-183

Muñoz e Rodrigues

2020

Entre angústia e ato: desafios para o manejo da urgência subjetiva na clínica psicanalítica

Rio de Janeiro, Revista Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 23, n. 3, p. 90-98

Netto

2022

Psicanálise e cuidados paliativos na oncologia: efeitos da construção do caso clínico para uma equipe de saúde

Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47133/tde-17012023-124724/. Acesso em: 21 nov. 2024

Quinet

1991

Introdução e Qual tempo para a análise?

As 4+1 condições de análise. Rio de Janeiro: Zahar

Zupančič

2023

Ontologia desorientada pelo objeto

O que é sexo? Belo Horizonte: Autêntica

 

 

Angústia Dilacerante da Urgência Subjetiva e a Saída pela Palavra

 

     Aires e Almeida (2023a) referem-se ao tema da urgência subjetiva enquanto uma contingência na vida do sujeito, que irá decorrer de um evento traumático, arrancando as defesas psíquicas anteriormente instauradas. Vale ressaltar o caráter plural das urgências subjetivas, sendo cada uma delas uma relação singular do sujeito com a ruptura significante de suas defesas, instaurando o sem sentido frente ao Real, que promove um corte lógico na vida do paciente, comparando-se o antes e o depois de um evento traumático angustiante no contexto de uma internação hospitalar.

     Quando se diz respeito ao manejo da angústia em contextos de urgências subjetivas, a direção é pela palavra e pela linguagem, e mais especificamente, na psicanálise de orientação lacaniana, pela via do significante, que difere de forma importante da palavra enquanto signo.

     Em um relato de caso descrito em sua tese de doutorado, Netto (2022) discorre sobre um paciente que atendeu em um hospital, um sujeito que se encontrava no final da vida, enquadrado em um tratamento oncológico no qual as diretivas finais paliativas estavam sendo decididas em conjunto com o médico paliativista responsável.

     Dentro do hospital, discussões e reuniões de equipe de saúde são realizadas em torno dos casos em internação, e nesse caso em específico, houve uma divisão de posicionamento e opiniões da equipe multiprofissional no sentido do que achavam ser a melhor decisão para o paciente, tendo alguns profissionais tomado partido contra a não sedação da dor, ainda que o paciente estivesse levantando sua vontade direcionada à não administração das medicações sedativas. Netto (2022) exemplifica a ação do significante nesse caso:

 

[...] Jorge comunica que não gostaria de ser sedado. Assim, o signo "sedação" que para a medicina significa "promoção de conforto", para Jorge representava uma ameaça ante a possibilidade de estar com seus familiares, em seus últimos dias de vida. O médico garante a Jorge que sua vontade seria respeitada e, neste momento, um chiste de Jorge irrompe dando contorno ao horror e tristeza inerentes àquela cena: "Viu só? Tô conseguindo falar..." (Netto, 2022)

 

     Temos, nesse caso explicitado acima, o exemplo de como se dá um tratamento da angústia pela via significante e da subjetivação singular, e não pela via do signo, que seria o significado comum compartilhado socialmente em relação à palavra "sedação" enquanto medida necessariamente confortável para o paciente em questão, sem levar em conta o que ronda essa palavra para o caso clínico hospitalar em questão.

      O momento de urgência subjetiva é, portanto, necessariamente ligado a um quadro de horror e falta de sentido e defesas psíquicas. O que se estabelece no momento de angústia homogeneizante é um instante que parece eterno, porém há de ser inserida a possibilidade de fala por parte do sujeito por meio do tratamento analítico, para que o restabelecimento da rede significante possa ser realizado. É a partir dessa entrada analítica que se estabelece um novo momento do tempo lógico inconsciente, o tempo para compreender (Muñoz; Rodrigues, 2020).

 

O Tempo de Abertura para a Construção Significante

 

     Assim como a angústia da urgência subjetiva insere um marco na experiência do ser falante entre passado e presente, trazendo, com essa marca, uma enxurrada de angústia que recobre o corpo, o analista também atua com um marco e, no limite, com um corte na cena hospitalar de urgência.

     Ao incidir sobre o fluxo de uma angústia incessante, que se apresenta nos sujeitos em aliança com a escassez de recursos para elaboração, na especificidade da urgência subjetiva, o psicanalista introduz uma pausa lógica, de tempo para compreender. Ou seja, por meio da concepção do inconsciente atrelada ao tempo lógico em Lacan, o psicanalista cria terreno para a escansão do instante lógico de ver, no qual se enquadra a situação clínica hospitalar de urgência.

     A partir da escansão temporal inserida pelo momento de compreender, a subjetivação da urgência será construída enquanto um sintoma, no sentido do enigma desse conceito. O paciente passa, a partir do desejo do analista e do espaço proporcionado pelo profissional, à construção de uma fala e singularidade sobre si, a se questionar sobre seu estado e a poder elaborar o traumático pela via do sintoma e da linguagem (Aires; Almeida, 2023a).

     O que no urgente ficou fora de representação, em um tempo de decantação adicionado à cena pode se presentificar junto de uma elaboração psíquica, retirando de cena a pressa da urgência:

 

Acolher a pressa, mas sem se deixar precipitar por ela, instaurando uma prática de testemunho que promove uma abertura subjetiva, transformando a urgência. (Muñoz et al., 2019, p. 179)

 

     O tempo para compreender, instância do tempo lógico formulada por Lacan (1945/1998), instauraria um intervalo significante, um convite à fala do paciente, e não do analista, que, com o seu desejo, aposta na divisão do sujeito frente ao que experienciou, divisão essa que aponta para a possibilidade de falar, e não apenas ser falado pelo quadro clínico que se monta no contexto hospitalar. O intervalo como pausa para elaboração reafirma o intervalo significante no qual o sujeito pode surgir, em oposição ao intervalo do não sentido ditado pela angústia (Aires; Almeida, 2023b).

 

Conclusão

 

     Tem-se enquanto conclusão não cristalizada, e em construção coletiva, que o trabalho do analista, em contexto hospitalar de urgência subjetiva, clama um posicionamento de escuta baseada no desejo do analista, que, pautado pela divisão dos sujeitos, ou seja, pela possibilidade de questionar-se entre o que lhe apresentam e o que elabora disso, pode resultar em uma manifestação sintomática, no enigma enquanto elaboração. Ou seja, em uma pergunta sobre si, proporcionada por uma pausa simbólica ofertada pelo analista no hospital, presente na instância lógica de tempo para compreender, que se encontra no conceito de tempo lógico na teoria lacaniana.

     Ainda que um sintoma enquanto produção de um paciente frente ao sem sentido da angúsita possa soar paradoxal, a formação sintomática traz, além da alteridade frente ao contexto hospitalar, o parasitário e estrangeiro da esfera psíquica para o próprio indivíduo que fala.

     Não há, portanto, como o tratamento proposto pelo psicanalista ser  desprovido de um estranhamento, porém, por se tratar de um estranhamento significante, há algo de mais interessante por essa via sintomática, que traz o sujeito à tona pelo convite à fala feito pelo analista, do que pelo discurso já dado e sem furos ofertado pelo contexto hospitalar e pela equipe multiprofissional como um todo (Azevedo; Calazans, 2016).

     Tendo em vista a concepção lacaniana do sujeito que surge entre dois significantes, e também dividido, por se encontrar entre eles, podemos concluir que, nesse "entre significantes", há espaço para uma pausa, assim como para o surgimento, a pergunta e a elaboração sintomática via palavra, que difere da elaboração sintomática via corpo.

     Da ruptura que a angústia da urgência subjetiva pode causar ao intervalo lógico do tempo para compreender, sustentado por um espaço de escuta do psicanalista no hospital, que se opõe à pressa cronológica institucional, o inconsciente, pulsátil e ritmado, articulado a um dizer com ressonância significante, pode surgir, dando adeus ao sintoma de ordem somática, ou à angústia totalizante que toma o corpo frente à morte, podendo ser uma angústia parcializada, e não sem furos e articulações simbólicas.

     Manter a escuta analítica que se baseia na concepção de um sujeito dividido e contraditório se mostra, assim, essencial ao contexto hospitalar, apesar da pressa institucional, bem como da pressa da angústia, que engolem e transbordam os leitos de pacientes em urgência subjetiva. O ato analítico é a formulação psicanalítica que nos cabe enquanto profissionais da fala e da escuta, trazendo à tona e colocando em jogo a ética do desejo de cada sujeito, aplacado pela impossibilidade de elaboração simbólica em contexto de urgência subjetiva.

 


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ano - Nº 7 - 2025
publicação: 10-12-2025
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Autor(es)
• Natália Veiga Schenatto
Psicóloga e Psicanalista, Esp – Hospital São Luiz (Rede D’Or) – Unidade Itaim (Núcleo Pró-Creare); nataliaschenatto@gmail.com

• Caio Henrique Vianna Baptista
Psicólogo e Psicanalista, MSc– Coordenador de Ensino e Pesquisa do Núcleo Pró-Creare; chvb.psico@gmail.com

• Patricia Bader dos Santos
Psicóloga e psicanalista. MSc – Coordenadora de Psicologia – Hospital São Luiz (Rede D’Or) – Unidade Itaim (Núcleo Pró-
Creare). Diretora do Núcleo Pró-Creare. E-mail: pbader@uol.com.br

Referências bibliográficas

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AIRES, M.; ALMEIDA, J. Urgência subjetiva, tempo lógico e sintoma: perspectivas psicanalíticas. Revista Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 35, n. 2, p. 319-340, 2023b.

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AZEVEDO, E.; CALAZANS, R. "Não há tempo... a perder": questões sobre a atuação do psicanalista no hospital geral. Vínculo - Revista do NESME, v. 3, n. 1, p. 56-64, 2016.

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LACAN, J. (1945). O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada. In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

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ZUPANČIČ, A. O que é sexo? Belo Horizonte: Autêntica, 2023.


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