ARTIGOS

Sofrimento e contemporaneidade: O corpo e seus destinos


Suffering and contemporaneity: The body and its destiny
Renata Rodrigues Ramos
Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre – PUC-RS
Thaís Piacentini Locatelli
Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS

RESUMO
Este artigo surgiu a partir da escrita do trabalho de conclusão de curso de pós-graduação da primeira autora, e foi revisado, discutido e reescrito em conjunto com a segunda autora. Por meio dele, temos como objetivo apresentar aspectos sobre a história do corpo, da linguagem, do pensamento e da organização do mal-estar social. Tomamos como base pensamentos de filósofos e médicos da Grécia Antiga, como Platão, Aristóteles e Hipócrates, e os ligamos às contribuições da psicanálise, em busca de características da contemporaneidade e seus atravessamentos na relação do sujeito com o corpo e na forma como o sofrimento tem se manifestado por meio dos atos corporais. Se, no século XX, a linguagem e o pensamento eram responsáveis por organizar o mal-estar cultural, hoje a corporeidade parece exercer essa função e o faz a partir dos excessos. A leitura de publicações sobre o tema, as aulas do curso de pós-graduação em Psicanálise e Análise do Contemporâneo na PUC-RS e as escutas clínicas dos sujeitos contemporâneos foram, e são, inspirações que nortearam essa escrita. Os excessos captados envolvem manifestações corporais do sofrimento contemporâneo, tais como adoecimentos, produtividade imperativa, atividades físicas, batalhas contra o envelhecimento e, em meio a tais abundâncias, os atravessamentos das tecnologias. Ao final, concluímos que a psicanálise possui um lugar de vasto saber e relevância crítica nessa discussão, já que, a partir de seus tensionamentos, consegue refletir e propor, aos sujeitos, um espaço de escuta do desejo e do inconsciente, possuindo uma temporalidade única, a qual não responde à produtividade em demasia. Assim, a psicanálise acaba por romper com as práticas contemporâneas, imediatistas e pretensiosamente “solucionadoras” de problemas, por entender o sofrimento como algo inerente ao sujeito.

Palavras-chave: Sofrimento, Corpo, Contemporaneidade.

ABSTRACT
This article stems from the final paper written by the first author as part of her postgraduate studies. The work was later revised, discussed, and rewritten in collaboration with the second author. Our goal is to explore aspects of the history of the body, language, thought, and the organization of social malaise. We draw upon the ideas of ancient Greek philosophers and physicians such as Plato, Aristotle, and Hippocrates, and bring them into dialogue with psychoanalytic contributions, in an effort to understand the traits of contemporary life and how they shape the subject’s relationship with the body, as well as the ways suffering has been expressed through bodily acts. If, in the 20th century, language and thought served to structure cultural discontent, today this role has shifted to the body, particularly through its excesses. The literature on the topic, the coursework from the postgraduate program in Psychoanalysis and Contemporary Analysis at PUC-RS, and our clinical listening to contemporary subjects have all inspired and guided this writing. The forms of excess we examine include bodily expressions of suffering, such as organic illnesses, compulsive productivity, intense physical activity, struggles against aging, and, interwoven with all of these, the pervasive presence of technology. In conclusion, we argue that psychoanalysis holds a place of rich knowledge and critical relevance within this discussion. By creating tensions and reflections, it offers subjects a space to listen to the desire and the unconscious, and it’s governed by a unique temporality that resists the demands of hyper-productivity. In doing so, psychoanalysis ultimately breaks with the fast-paced, solution-oriented practices of our time, positioning the subject as someone who suffers.

Keywords: Suffering, Body, Contemporaneity.


 

Corpos contemporâneos e a história do corpo

 

       O corpo tem sido objeto de estudo de diferentes filósofos e culturas. Diversas indagações relacionadas à saúde e à doença são observadas e discutidas, buscando o entendimento do adoecer e de práticas de cura. Na Antiguidade, o corpo era considerado um templo, em que o adoecer estava diretamente ligado ao poder sobrenatural e servia para que práticas religiosas pudessem fornecer a cura para o sujeito doente (Volich, 2022).

        No século VI a.C., filósofos pré-socráticos buscaram ampliar a compreensão do corpo e a sua relação com as doenças, que eram entendidas como fenômenos naturais, e o ser humano, como único responsável por suas doenças (Haggard, 1943). Com o passar do tempo, começaram a eclodir ideias de que o corpo é composto não só por matéria orgânica, mas por algo a mais, algo do campo abstrato, e que teria relação com sentimentos e pensamentos (Volich, 2022).

        A alma, como foi denominado o "algo a mais" que fugia das funções estruturais do corpo, foi pensada por figuras notórias, como Platão, Aristóteles e Hipócrates. Aristóteles entendia que corpo e alma estão diretamente ligados e que, assim, toda doença física teria um aspecto relacionado ao movimento da alma. Platão dividiu a alma em três partes localizadas no corpo: inferior (abdômen), média (tórax) e superior (cérebro). Para ele, a loucura e o adoecer apareceriam quando a alma inferior e a média tomavam conta do corpo, sobrepondo-se à alma superior (Volich, 2022). Já Hipócrates compreendia que a alma possui uma função reguladora, sendo o corpo "um todo cujas partes se interpenetram" (Kamieniecki, 1994, p. 7) e que busca, por meio da homeostase, manter-se organizado. Assim, a desorganização do corpo e da alma possibilitaria o aparecimento de doenças.

       Hipócrates entendia que nenhum sintoma estaria separado do ambiente e da história do sujeito, dando à luz a necessidade de olhar para a singularidade do indivíduo doente e de considerar a experiência da troca com o sujeito, escutando-o e tocando seu corpo doente (Ayache, 1992). No intuito de facilitar e aprimorar a precisão do diagnóstico, surgiram tecnologias e ferramentas de avaliação. Em contrapartida, ampliaram-se as discussões sobre o afastamento entre médico e paciente, o que contribuiu para o distanciamento da escuta e a desconsideração da experiência corporal do sujeito doente (Volich, 2022).

      Outros autores da filosofia também contribuíram para o entendimento do corpo-mente. Espinoza, por exemplo, compreendia que o corpo estaria ligado à mente e que ambos são o que são devido a essa ligação, sendo uma mesma unidade capaz de se manifestar por pensamento e expressão (Peixoto Junior, 2009). Assim, a mente não existiria sem um corpo, e nem o corpo existiria sem uma mente. Merleau-Ponty (1991), filósofo francês, entendia que o fundamento da filosofia não se apoia na racionalidade ou no pensamento, e sim na experiência sensível e perceptiva, no corpo vivido que experimenta o mundo.

 

O corpo a partir das contribuições psicanalíticas

 

        Os estudos de Freud sobre as histéricas (1893-1895/1996), as quais apresentavam sintomas de paralisias corporais não explicadas clinicamente, foram um ponto essencial para o início da psicanálise. Conforme Freud avançava em seu entendimento de que as manifestações corporais das histéricas representavam o sofrimento reprimido, ele foi desvendando as relações entre o corpo e a alma.

       Apoiado nas funções orgânicas do corpo, Freud compreendeu que as funções de sobrevivência do bebê mantinham, também, uma função psíquica, associada diretamente à sexualidade e à troca com o outro (Lazzarini; Viana, 2006). Dessa forma, as manifestações biológicas, como o instinto, a necessidade, a excitação e o sono, são atravessadas por aspectos sexuais, como a pulsão, o desejo, a angústia e o sonho.

       Ao mostrar que os movimentos realizados pelo bebê e seus cuidadores estão associados a conteúdos psíquicos sexuais, Freud (1905/1988) rompeu com a ideia de que as funções biológicas estariam desligadas das funções psíquicas (Fortes; Winograd; Perelson, 2018). Ainda conforme Freud (1893-1895/1996), é a partir da vivência de experiências corporais que nasce o psiquismo: experiências corporais de desprazer - como a fome - dão espaço a novas estratégias que o aparelho psíquico pode estruturar para lidar com isso. Quando o corpo não dá conta de suprir o desconforto, a alucinação primitiva atua como um primeiro esforço do aparelho psíquico para reduzir a tensão; o bebê, ao sentir fome, chupa o dedo com a lembrança da satisfação passada (o seio materno) e alucina o objeto que o aliviaria do desconforto.

       No campo das contribuições psicanalíticas, cabe dar destaque à relação corpo-psiquismo que Winnicott (1960/1990) desenvolveu. Para esse autor, o corpo não é um mero dado biológico, mas um campo basilar em que se dá a emergência do self. Por meio do holding - sustentação física e psíquica oferecida ao bebê pelo cuidador, que permite, assim, a integração do bebê no tempo e no espaço - e do handling - manejo e contato de pele com pele, que permite o alojamento da psique no corpo - é que a criança começa a organizar suas vivências, a desenvolver um sentido de continuidade existencial e a adquirir um sentimento de unidade corporal e psíquica. Essas práticas (realizadas, idealmente, por uma mãe suficientemente boa) protegem o bebê da intrusão de estímulos excessivos enquanto fornecem base para a integração das sensações fragmentadas que compõem as primeiras experiências de vida.

       Dessa forma, Winnicott (1965/1993) entende o corpo como o primeiro suporte para a construção do psiquismo e do self. Antes mesmo de o bebê ter acesso à simbolização, é no campo do sensível que o self começa a tomar forma. Quando o ambiente falha de modo grave ou persistente, e o corpo do bebê não é sustentado e manejado de maneira suficientemente contínua e confiável, pode ocorrer uma cisão entre corpo e mente, favorecendo o desenvolvimento de um falso self - organização defensiva que oculta o verdadeiro núcleo da experiência subjetiva. Por isso, o corpo é muito mais do que um suporte anatômico: ele é território de inscrição afetiva, espaço de presença e pré-condição para a existência psíquica. Tal perspectiva reforça a maneira como as manifestações contemporâneas de sofrimento, comumente corporificadas, apresentam uma falta ou falha de um ambiente suficientemente bom.

     Em convergência, Ferenczi (1932/2011) contribuiu fortemente com as discussões relacionadas às experiências traumáticas precoces e suas reverberações no corpo. O autor argumenta que, diante de traumas graves - especialmente na infância -, o psiquismo pode entrar em colapso e abdicar da simbolização, registrando a dor de maneira bruta por meio do corpo. Apoiadas nas ideias ferenczianas, podemos considerar que o corpo em psicanálise é o todo, composto, primeiramente, pela troca, pelo cuidado e pelas percepções.

 

O sofrimento contemporâneo e suas descargas

 

         A busca pela felicidade tornou-se um imperativo da sociedade contemporânea, e as lógicas de produção e consumo possuem um lugar central na vida do sujeito. A ideia de construir uma vida sólida com carreira crescente, relações afetivas estáveis e conquistas materiais, como casas e carros, é o objetivo de muitos. Junto a isso, o respeito ao tempo é atropelado pelo imediatismo, e as experiências não felizes são negadas pelo sujeito.

        Por isso, a negação do desprazer é uma das características do sujeito contemporâneo, que busca, por meio de diversas práticas, afastar-se de qualquer desprazer, buscando a felicidade como objetivo de vida. Freud (1930/1991) ponderava que a felicidade acontece em momentos episódicos, e que o sofrimento é inerente ao sujeito, que está inserido em uma sociedade, na qual existirão tensões e desacordos.

        Calligaris (2023, p. 35) afirma que "a qualidade da sua experiência não é definida quando você pode ficar sorrindo do começo ao fim, não; todas as experiências são interessantes". Nessa obra, o autor pontua que a tentativa de afastar experiências desprazerosas também afasta experiências únicas e necessárias ao ser humano.

     Nessa toada, Fortes, Winograd e Perelson (2018) têm discutido o lugar que o corpo ocupa na contemporaneidade. Os autores entendem que, se antes a busca por um corpo jovem e bonito era tida como um imperativo coletivo, hoje a vida saudável e a busca pela saúde se tornaram o padrão, sem, contudo, deixar de lado a "consequência" estética. Se antes o pensamento e a linguagem eram organizadores do mal-estar, hoje o corpo, a ação e as intensidades têm tomado esse lugar. O sujeito do hoje é caracterizado como o sujeito da imagem, que "vive" sob a falta da temporalização e das possibilidades de narrar.

      Ao considerarmos que a imagem e a recusa do desprazer são aspectos importantes da sociedade contemporânea, o mal-estar torna-se, assim, o corpo que envelhece. Como atravessamento disso, temos as tecnologias e o neoliberalismo, que demarcam como urgências inadiáveis a produtividade e a competitividade na batalha contra os sinais da velhice. O sujeito deve trabalhar e exercitar-se em demasia, porque só assim alcançará "sucesso" e "felicidade". A esse cenário soma-se a análise de Han (2015), que descreve a transição de uma sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho.

        Nesse sentido, a sociedade disciplinar, analisada por Foucault (1975/2014), exercia o poder por meio de instituições fechadas, que moldavam os corpos e as subjetividades por meio da vigilância, da normalização e da punição. Era um poder imposto pelo externo, que visava à docilização dos corpos, à obediência e à repetição. Com o tempo, o controle adotou uma forma mais difusa e contínua, proposto por Deleuze (2017) como um poder que se dispersava em redes, fluxos e mecanismos de autorregulação. Era permanente e adaptável, dava-se por meio de uma liberdade aparente, que regia a responsabilização individual e a exposição constante. Daí, o controle não mais vigiava o corpo de fora, mas capturava o desejo por dentro.

         Por sua vez, Han (2015) nomeou o hoje como a sociedade do desempenho, na qual o sujeito se explora e se enjaula, voluntariamente, em nome da produtividade e da eficiência. Esse novo sujeito, empreendedor de si mesmo, internaliza as exigências sociais e transforma cada esfera da vida - inclusive a do cuidado com o corpo - em uma tarefa, um projeto, uma obrigação. O culto ao corpo saudável e produtivo, nesse contexto, deixa de ser apenas um ideal estético e passa a ser uma exigência moral e econômica.

        Nesse "regime de positividade", o norteador é o "pode tudo", e não mais o "não deve" (Han, 2015). O corpo torna-se um instrumento, moldado e vigiado tal como o era antes, mas não mais por coerção externa - a cobrança é interna, constante, perene, intransigível. O cansaço que emerge deixa de ser somente físico e transborda para um esgotamento psíquico, existencial. O conflito que o sujeito enfrenta não é com o outro, é consigo mesmo: uma luta interminável por performance, juventude e felicidade. Dessa forma, a recusa do envelhecimento e a busca por um corpo eternamente funcional e belo refletem o sintoma do mal-estar contemporâneo, que não tolera limites, não tolera desprazer, não tolera falhas, não tolera declínios.

 

As descargas corporais

 

      Considerando que o sofrimento contemporâneo está atravessado pelos estímulos excessivos e pela alta demanda de produtividade, o sujeito tem buscado o afastamento do sofrimento por diversas vias, e damos destaque às descargas corporais. Freud (1900/1996) descreveu que o corpo é um meio de inscrição do sofrimento onde os conflitos psíquicos podem se manifestar, como ocorre na histeria e nas doenças somáticas. Volich (2022) ressalta que as manifestações corporais não são somente manifestações do sofrimento, e sim tentativas de uma organização psíquica do conflito vivenciado.

         O mesmo autor, norteado pelos conceitos de Marty (1993), ainda descreve três vias possíveis de descarga e organização das excitações, a saber, orgânica, motora e do pensamento, que se manifestarão conforme a qualidade da organização mental do sujeito. A via orgânica retoma a excitação, que se descarrega diretamente no corpo, podendo levar a adoecimentos físicos - úlceras, doenças autoimunes, problemas dermatológicos. A via motora, por sua vez, aduz que a descarga se dá por ações impulsivas ou mesmo comportamentos deveras compulsivos - vícios, automutilação. A via do pensamento, por fim, explica que a excitação é transformada em elaboração psíquica, reflexiva ou criativa, e esta seria uma via mais elaborada, menos prejudicial.

     Os sujeitos que apresentam maior precariedade no seu aparelho psíquico, com pouca ou nenhuma elaboração mental, poderão reagir às situações traumáticas a partir de descargas motoras e orgânicas, como adicções, transtornos alimentares e doenças orgânicas. Para Marty (1993), quanto menos elaborado o aparelho psíquico, mais direto é o caminho da excitação para o corpo ou para a ação, o que colaboraria para melhor compreensão de fenômenos como o burnout ou as compulsões.

       Atualmente, a busca por experiências excitantes e extremas para lidar com a falta e o vazio vem crescendo de forma significativa. Assim, o sujeito procura práticas socialmente aceitas e, de preferência, "instagramáveis" para dar conta desses sentimentos, dedicando-se a criar um compromisso com o alto desempenho, e não necessariamente com o bem-estar. É assim que a obsessão pela exposição de si leva a novas formas de controle e violência simbólica (Han, 2016).

      Outra característica recorrente diz respeito às tecnologias, que têm atravessado os modos de relação dos sujeitos com o mundo e consigo mesmos. Com frequência, a ideia de registrar e compartilhar momentos tem assumido o lugar da experiência. Assim, as redes sociais são vistas, hoje, como fator constituinte de caráter e identidade, e representam o palco por meio do qual os sujeitos compartilham seus momentos de "felicidade". Se faltam curtidas, olhares e comentários sobre o registro compartilhado, a vivência é vazia, sem valor (Turkle, 2011).

      Tais momentos prescindem de felicidade factual, só precisam de uma imagem suficientemente boa e capaz de convencer os olhos do outro de que ali existe felicidade. É assim que o poder contemporâneo se dá: não há mais vigias externos, quem toma o papel de vigilante é o "eu", o "nós", o coletivo. A exposição voluntária de si é uma exigência para o "ser", e esse excesso impede que a tristeza, a dúvida, a frustração, o desprazer venham à tona, silenciando-os, patologizando-os. Os excessos do hoje impedem a visibilidade do estranho, do diferente (Han, 2016).

 

Devaneios e discussões

 

     A partir da construção teórico-crítica embasada no referencial bibliográfico até aqui apresentado, em conjunto com as aulas da pós-graduação em Psicanálise e Análise do Contemporâneo e as escutas clínicas, discutiremos os principais pontos sobre a expressão do sofrimento contemporâneo por vias corporais.

      Atualmente, vivenciamos um momento que poderíamos nomear como "pós-crítica estética". Se, dos anos 1990 a 2000, o mercado midiático e publicitário vendia um padrão fixo de beleza que desprezava tudo que dele se diferenciava, o cenário, a partir de 2010, mudou. Com o crescimento das redes sociais informatizadas, os sujeitos que davam cara à estética padrão passaram a se colocar e a se mostrar para o público de maneira mais real. A partir disso, cresceu a discussão sobre a aceitação das diferenças e a importância delas para o coletivo (Debord, 1967/1997).

      É nítido que o padrão de beleza de outrora foi substituído por uma perspectiva centrada na busca pela saúde, pela importância de cuidar do físico e do emocional (Fortes; Winograd; Perelson, 2018). Um movimento social importante. Contudo, esse novo entendimento "de ser" não abandona a estética padrão almejada, apenas a coloca em segundo plano, como uma consequência; o sujeito contemporâneo é, coletiva e moralmente, barrado de dar voz à narrativa do desejo que sente de estar nesse padrão estético - de ser esse padrão estético.

      Além disso, outro fator associado à contemporaneidade se refere à produtividade e à atividade. O sujeito não busca mais a saúde como consequência do bem-estar. As atividades físicas, de lazer e até de cuidado mental não estão mais no lugar do desejo ou da necessidade - a forma mais primitiva -, e sim no lugar da produtividade e do desempenho. Por isso, o "sujeito de desempenho é mais rápido e mais eficiente do que o sujeito obediente da sociedade disciplinar" (Han, 2015, p. 15).

      Ou seja, o corpo tem tomado o lugar central na vida do sujeito contemporâneo. É pelo corpo que o sujeito "é". O corpo precisa ser e precisa estar para que o sujeito "seja". O corpo, por meio do sujeito, também se faz presente em psicoterapias e práticas terapêuticas sem desejo, com a crença vazia de que isso lhe "faria bem", de que estar ali, per se, "faz bem". O corpo e o sujeito, ao rechaçarem a vivência do tempo, abstêm-se de pensar, criar, sentir, nomear, desejar, e passam a demandar respostas que supram imediatamente a falta.

      A psicanálise entende que os sintomas apresentados pelos sujeitos do seu tempo são sempre sustentados pela cultura. Freud (1916-1917/2015) descreveu as neuroses como efeito de uma sociedade repressiva, tirânica e autoritária, porém, que possuía alguma segurança nas palavras, tanto da religião quanto da ciência. Atualmente, observa-se um deslocamento das neuroses clássicas para as patologias do vazio, as quais são reflexo de um tempo eclético, em que não há verdades, nada se explica e tudo muda muito rápido, gerando inseguranças e angústias de desamparo.

      Nas patologias do vazio, o corpo torna-se o centro, pois ele apresenta a concretude e a segurança de sua existência ao sujeito, e torna-se o momento de expressão do sofrimento. As patologias do vazio são caracterizadas por superficialidade emocional, medo da intimidade, futilidade dos vínculos, horror à velhice e à morte (informação verbal).[1]

      Outro movimento contemporâneo que vem se ligando à lógica de produção e produtividade é o movimento religioso. Roberts (2023) relata que estamos vivenciando um momento de policrise, que se caracteriza por diversas crises simultâneas, quais sejam: ambientais, econômicas e geopolíticas. A WGSN, empresa que analisa as relações de consumo mundiais, publicou, em 2018, que, em tempos de crise, há um aumento da busca de práticas religiosas como forma de obter apoio emocional.

      Não é por menos que as práticas religiosas trazem consigo a ideia de completude (informação verbal).[2] Freud (1930/1991) disserta sobre o sentimento oceânico, associando-o ao desejo infantil de onipotência e ligando a expectativa dos sujeitos à função da religião em suas vidas. Sendo assim, ao colocar Deus na posição daquele que tudo sabe, entregamos a responsabilidade da nossa história, aceitando a ideia de que tudo o que acontece é uma programação divina. Acontece que, quando nos colocamos na posição de aceitar, nos impossibilitamos de criar alternativas e ter autonomia na nossa história (informação verbal).4

      Assim, o que temos presenciado, tanto em redes sociais quanto na prática clínica, é o aumento da busca da religião como forma de sustentação da falta e afastamento do sofrimento. Contudo, a busca não se limita à ideia de encontrar completude; ela busca estética, assim como as práticas de saúde do sujeito contemporâneo.

      Outro ponto característico do sujeito contemporâneo faz alusão aos transtornos de ansiedade - considerados o mal do século XXI -, muitas vezes percebidos e narrados pelos sujeitos como a falta de controle de um futuro próximo (Fonseca, 2023). Os sintomas de ansiedade, assim como a maior parte dos transtornos mentais, aparecem no corpo. No caso da ansiedade, a falta de ar, a sensação de sufocamento e a inquietação são alguns sintomas percebidos pelo sujeito. Mas por que seria a ansiedade considerada o mal do século?

      O Brasil possui 18,6 milhões de pessoas afetadas pela ansiedade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2019). Os modos de comunicação contemporânea, em sua maior parte marcados pela tecnologia, são caracterizados pela rapidez e pela instantaneidade, enquanto demarcam a intolerância pela espera (informação verbal).[3] Ou seja, a temporalização é atropelada pela necessidade de produção e de respostas rápidas, imediatas, não permitindo aos sujeitos elaborarem a informação. Dessa forma, o pensamento e a linguagem deixam de ser organizadores do mal-estar, dando lugar ao corpo, às intensidades e ao excesso, descarregando as angústias em exercícios, religiões, transtornos alimentares, substâncias toxicológicas. Como a necessidade é do imediatismo, não se tolera esperar, pensar, criar e elaborar um evento não resolvido sem tardar.

    Nesse contexto, temos uma questão sociocultural, política e econômica que atravessa fortemente o cenário contemporâneo brasileiro e de outros lugares do mundo: o dinheiro e o seu poder de compra. Somos uma sociedade composta por filhos, netos e bisnetos de pessoas que, aos 20 e poucos anos, conquistaram suas casas próprias, possuíam estabilidade financeira e construíram famílias. Hoje, as conquistas socialmente esperadas de um sujeito adulto requerem mais "tempo" e, para isso, é necessário estar, novamente, saudável.

      Além das vias de descarga corporais, importam, também, os adoecimentos orgânicos. Apesar de não serem uma descoberta ou uma característica exclusivamente contemporânea, eles atravessam os sujeitos de hoje como uma forma de lidar e tentar elaborar os eventos da vida (Casetto, 2006). Pessoas que apresentam desorganizações psicossomáticas, por vezes, vivenciaram certa falta de investimento libidinal de seus cuidadores, no que se refere à função materna. Quando a interação entre a sensação e a percepção não acontece, o sujeito precisa encontrar outras vias para dar rumo à sensação desconfortável ou traumática, pois, devido à falta da possibilidade de perceber, refletir e elaborar, não possui palavras para nomear, por vias psíquicas, um acontecimento. Assim, o corpo assume, através de manifestações somáticas, a tentativa de elaborar essas sensações marcantes de desconforto (Biermeier, 2020).

      Sujeitos com sintomas orgânicos podem apresentar dificuldades para sonhar, para questionar vivências e para dar nome aos sentimentos. Essas dificuldades são cada vez mais recorrentes nos sujeitos de hoje, justamente pela forma como o tempo é percebido e vivenciado por eles. Daí, resta às vias orgânicas o trabalho de dar rumo ao conflito. Volich (2022, p. 93) acrescenta que "toda patologia é também composta de um mínimo de organização, para que a sobrevivência do sujeito ainda seja possível".

     Dessa forma, considerando que o sujeito contemporâneo apresenta características de produzir em alta quantidade e qualidade, com foco na hiperfelicidade e na negação do sofrimento, entendemos que as doenças somáticas poderão compor cada vez mais o cenário contemporâneo. As características e o modo de produção social para dar conta das demandas tendem a potencializar a precariedade do aparelho psíquico. Assim, a percepção do tempo, hoje, fica refém dos mecanismos imediatistas da contemporaneidade - o que prejudica o investimento libidinal na elaboração e na reflexão sobre a própria vida.

 

Considerações finais que não se findam

 

       Diante de toda esta escrita, entendemos que o sujeito contemporâneo é marcado pela presença intensa do corpo, cuja função precípua tem sido dar conta do sofrimento. As características contemporâneas transbordam de imediatismo, performance, saúde, tecnologias e excessos, contribuindo, assim, para que o sujeito se distancie da possibilidade de elaborar, pensar, criar, sentir, vivenciar, esperar.

      Compreendemos, também, que a cultura contemporânea é marcada pelo imperativo da "hiperfelicidade", fator que faz com que os sujeitos não só se afastem, mas também neguem qualquer experiência de desprazer. Assim, quando o desprazer aparece, os sujeitos tendem a se deparar com sintomas depressivos e ansiosos, por causa da gigante expectativa de serem felizes, e com eles não sabem lidar.

        Vera Iaconelli (2022), em entrevista para o programa Provoca, traz a discussão sobre sermos uma geração acometida pela expectativa do outro, de sermos cuidadores de "o que importa é que se seja feliz", expectativa que, quando internalizada, se torna cruel para o sujeito, uma vez que é impossível corresponder a ela. Afinal, a felicidade é temporária, assim como a tristeza e outras emoções necessárias para a experiência humana.

      A psicanálise, por sua vez, teve e tem uma grande função e contribuição para auxiliar no pensamento da expressão do sofrimento e das experiências corporais, a partir das observações sociais e da escuta dos sujeitos. Entendemos que a psicanálise precisará, cada vez mais, nomear e cuidar do sujeito para que este possa encontrar vias simbólicas de elaboração dos conflitos, tornar-se protagonista da própria história e ser reconhecedor de seus sentimentos.

    Dando mais ênfase às doenças orgânicas, que estão ligadas à falta de simbolização, questionamos e deixamos como caminho a ser estudado: hoje, é possível pensar a psicossomática como um atravessamento da contemporaneidade, como algo coletivo? Questionamento este que surge devido aos excessos de informação, produção e falta de temporalização coletiva. Afinal, se antes o ambiente, especificamente o do cuidado materno, efetivava - ou não - a função de nomear, faltar, ajudar a simbolizar, hoje, a globalização tem entregado excessos em demasia: muita informação, muita opinião, muito conteúdo. A coletividade não dá tempo para que as experiências sejam sentidas e, a partir daí, percebidas e elaboradas.

      Por fim, é premente que a psicanálise continue resistindo às práticas imediatistas contemporâneas, que são rápidas demais e pretensiosamente "solucionadoras" de problemas, para que continue tensionando corpos enquanto propõe, aos sujeitos, espaços de escuta do desejo e do inconsciente. Dessa forma, a psicanálise propicia a vivência de uma temporalidade única, que não se exaure na produtividade excessiva e entende o sofrimento como algo inerente ao sujeito.



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ano - Nº 7 - 2025
publicação: 10-12-2025
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Autor(es)
• Renata Rodrigues Ramos
Psicóloga formada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Pós-graduada em Psicanálise e Análise do Contemporâneo pela Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre – PUC-RS. E-mail: ramosrrenatapsi@gmail.com

• Thaís Piacentini Locatelli
Psicóloga formada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. MBA em Gestão de Pessoas (Unisinos). Aprovada em 3º lugar no concurso público para Gestor de Apoio às Atividades Policiais Civis – Especialidade: Psicologia, da Polícia Civil do Distrito Federal. E-mail: thaispiacentini00@gmail.com


Notas

[1] Informação recebida em aula de Sissi Castiel sobre "O sujeito e o narcisismo", em Porto Alegre, PUC-RS, em 10 de junho de 2024.

[2] Informação recebida em aula de Carolina Neumann de Barros Falcão sobre "Mal-estar na cultura atual", em Porto Alegre, PUC-RS, em junho de 2024.

[3] Informação recebida em aula de Jefferson Silva Krug, sobre "Psicanálise e Virtualidade", em Porto Alegre, PUC-RS, em novembro de 2024.

Referências bibliográficas

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CASETTO, S. J. Sobre a importância de adoecer: Uma visão em perspectiva da psicossomática psicanalítica no século XX. Psychê: Revista de Psicanálise, ano 10, n. 17, p. 121-142, jun. 2006. Disponível em: https://www.sedes.org.br Acesso em: 16 abr. 2025.

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