Diante de um mundo em profunda transformação, que incide decisivamente sobre as subjetividades, nós, psicanalistas, devemos alargar as fronteiras teórico-técnicas de nosso campo para responder às necessidades psíquicas daqueles para os quais a cura-tipo[1] se mostra insuficiente. Este trabalho examina as contribuições que o campo da terapia familiar de abordagem dialógica, especialmente nas suas tradições finlandesa e norueguesa, podem aportar à psicanálise em relação à escuta do corpo na clínica atual, principalmente em atendimentos de família.
Se Freud, inicialmente, optou por delinear um dispositivo clínico centrado na palavra, silenciando os efeitos do corpo e do campo visual e dramático em prol da problemática psiconeurótica com a qual se deparava (Birman, 1991), o pai da psicanálise também deixou claro que, com o tempo, o espectro de analisabilidade dos pacientes se ampliaria (Ferraz, 2024). Desde então, observamos a psicanálise desenvolvendo-se frente a quadros psicopatológicos diversos (psicóticos, borderlines, somatizadores, por exemplo), além de clientelas (crianças, adolescentes, grupos, famílias) e contextos psicossociais dos mais variados (atravessamentos de gênero, raciais, de migração, situações sociais críticas, entre outros).
Roussillon (2019) propõe um trabalho permanente de depuração da psicanálise quando diante de situações clínicas para além da cura-tipo. Esse exercício investigativo ajuda a compreender aquilo que permanece vivo e estável na psicanálise, independentemente de seu contexto, e aquilo que se transforma, justamente pela diferença radical à qual somos lançados em situações clínicas inusuais. Hoje, em diversos dispositivos clínicos, o lugar do corpo é revisto, pensando-o para além do corpo erógeno (Ferraz, 2007), intervindo para além da palavra.
O contexto de terapia familiar é, a nosso ver, especialmente aberto a reflexões acerca do estatuto do corpo e seu manejo na clínica. Primeiramente, pela forma em que é realizada: terapeutas e pacientes sentados, geralmente em formato circular, enxergando uns aos outros constantemente. Em segundo lugar, são cenários bastante carregados afetivamente, entrecruzando psicodinâmicas individuais e intersubjetivas, sob o olhar de um ou mais terapeutas, geralmente com um emergente crítico. É raro que uma família procure atendimento se não for em função de uma situação aguda, de algum acontecimento dramático que os perpassou ou de uma disfuncionalidade que se instalou entre todos ou quase todos os entes envolvidos. As palavras não serão suficientes para escoar tamanha carga de tensionamento, que comparecerá de outras maneiras.
A prática com pacientes adolescentes envolve, cada vez mais, convocações às famílias ao longo do processo analítico (Esposito, 2022; Esposito; Castanho, 2024). As transformações nos modos de vida das últimas décadas promoveram uma intensificação no mal-estar dos adolescentes, mas também sua modificação: o sofrimento deixou de ser uma experiência intrapsíquica e passou a ser relacional, esbarrando nos limites e dificuldades com o outro (Jeammet, 2009; Monti, 2008). Embora os atendimentos do adolescente com a família sejam imprescindíveis para o atravessamento de suas dificuldades intersubjetivas, são situações afetivamente muito carregadas. Sabemos que a análise individual dos adolescentes já é marcada por uma presença corporal e gestual ostensiva (Golse, 2013), mas, nesses atendimentos familiares, tanto adolescentes quanto genitores expressam-se muito além da palavra. Os corpos gritam no dispositivo de terapia familiar, especialmente quando há a presença de um filho adolescente hoje em dia.
Buscando recursos teórico-técnicos para compreender e manejar o corpo nesses contextos, deparamo-nos com o campo da abordagem dialógica, cuja intervenção clínica costuma se efetivar no contexto da terapia familiar. Na literatura desse campo, o corpo e as expressões não verbais se fazem presentes tanto em suas fundamentações teóricas como nos relatos clínicos. A seguir, apresentamos brevemente essa abordagem, para então tratar especificamente do Diálogo Aberto (Open Dialogue), vertente finlandesa de intervenção familiar que, por exemplo, opera com o conceito de mente encarnada (embodied mind); em seguida, trazemos aportes de Tom Andersen, expoente da vertente dialógica norueguesa, que desenvolve os Processos Reflexivos. Andersen apoia-se em muitos aprendizados colhidos na interação com uma fisioterapeuta, e é destacável a presença do corpo em sua clínica e formulações teóricas. Por fim, concluímos propondo avanços na interação entre abordagens, buscando sempre a qualificação dos nossos dispositivos clínicos em psicanálise.
Breve definição da abordagem dialógica
A abordagem dialógica, enquanto proposta terapêutica, tem como base o dialogismo, o socioconstrutivismo, autores da fenomenologia e do campo da intersubjetividade. O principal autor do dialogismo é Bakhtin, que propõe que o mundo é feito de diálogos que nos precedem e nos sucederão, não sendo somente uma ferramenta para atingir determinado objetivo; a vida é em si mesma a experiência dialógica, no sentido de interagir transformando-se e transformando o mundo. René Kaës toma emprestado de Bakhtin o conceito de polifonia (Kaës, 2004), que nos auxilia a pensar como somos atravessados internamente por múltiplas vozes que são introjetadas ao longo de nossa experiência, assim como externalizadas, promovendo movimento e transformação. Nesse sentido, o adoecimento estaria relacionado à supressão, atravancamento ou indisponibilidade dialógica, problemática que será manifestada pela mente encarnada (embodied mind), como veremos mais adiante.
O socioconstrutivismo, como pensado por Vygotsky, enfatiza as experiências vividas nos processos de desenvolvimento, sendo que os fenômenos sociais e culturais marcam decisivamente os sujeitos e são internalizados. Isso se dá de maneira absolutamente encarnada, concreta, em que o território, o gênero, a raça, a classe social e a história pessoal atuam decisivamente na construção de cada subjetividade. Somos pessoas corporificadas (embodied persons) (Seikkula; Trimble, 2005), e sabemos como a psicanálise vem, pelos seus próprios caminhos, cada vez mais, tomando essa dimensão em consideração, pois o psiquismo não pode ser pensado de modo abstrato, inerte, desencarnado (Klein; Andrade, 2025).
Por sua vez, através de autores como Merleau-Ponty, a fenomenologia é reconhecida como uma vertente filosófica que reserva um lugar destacado ao corpo. O corpo é sujeito da percepção, e toda a relação com o mundo é mediada pela corporeidade. O conceito de mente encarnada (embodied mind) se apoiaria justamente nos desenvolvimentos de Merleau-Ponty (Varela; Thompson; Rosch, 2016).
A intersubjetividade é um campo mais familiar a nós, enquanto um campo de investigação que conjuga psicanalistas e neurocientistas conduzindo avaliações muito profundas acerca das relações de cuidado. A importância da relação mãe-bebê, por exemplo, é mapeada por experimentos que mostram o bebê buscando ativamente interação desde seus momentos iniciais de vida (Saboia, 2008). Ao contrário da concepção de um bebê objetificado, de padrões imitativos e fusionado à mãe, observa-se um campo de interações sensoriais, táteis, prosódicas entre cuidador(es) e bebê em que todos são protagonistas, dando-se especial atenção à sintonização afetiva (affective attunement) (Kykyri et al., 2017).
Para a abordagem dialógica, a intersubjetividade corresponde à matriz para pensar os processos psicoterapêuticos que promovem mudança dentro de uma perspectiva emocional, especialmente no contexto da terapia familiar; o campo de interações estaria sempre presente no encontro humano, seria um diálogo - não no sentido verbal, propriamente, mas sobretudo sensorial, na medida em que nos afetamos e respondemos ao outro através de nosso corpo. Levar nossa atenção aos efeitos corporais que determinadas comunicações em psicoterapia provocam seria uma das chaves preciosas para promover a transformação, e aqui identificamos uma possibilidade de interação profícua com a produção psicanalítica que explora o campo da contratransferência (Ferenczi, 1992; Green, 2008; Ogden, 2018; Winnicott, 2021).
A abordagem dialógica desmembra-se em diferentes modelos de intervenção, como a terapia narrativa, a terapia colaborativa, os processos reflexivos (Laurentino, 2017) e o Diálogo Aberto (Open Dialogue). Em comum, há abertura para atendimentos familiares e/ou inclusão da rede social do paciente, reconhecendo a importância dos fatores culturais e relacionais incidindo nos sujeitos de forma muito singular. O dispositivo terapêutico buscaria possibilidades de vivenciar as histórias e suas narrativas de forma a reacomodar os afetos e devolver aos sujeitos o senso de agência sobre suas vidas. A democratização do processo terapêutico é uma característica essencial dessas vertentes, procurando fazer contrapeso às dinâmicas de saber-poder presentes no campo psicoterapêutico e psiquiátrico. A seguir, focamos em duas vertentes que, a nosso ver, contribuem significativamente com a escuta do corpo na terapia familiar.
O Diálogo Aberto (Open Dialogue) e a mente encarnada (embodied mind)
Desenvolvido na região da Lapônia Ocidental finlandesa, o Diálogo Aberto tem uma pré-história interessante um pouco mais ao sul, em Turku, por volta de 1970. Equipes desenvolviam um modelo de assistência para casos graves semelhante ao que entendemos em nossa região como a reforma psiquiátrica, intitulado Tratamento Adaptado às Necessidades (Need-Adapted Treatment), com participação significativa dos familiares desde o início (Alanen, 2009). Muitos profissionais tinham formação psicanalítica e/ou em terapia sistêmica e, ao receberem paciente e família para tratamento, costumavam acolher e escutar, e, em seguida, discutir em equipe o encaminhamento - se psicanalítico individual, terapia familiar, internação, etc. Aos poucos, aboliram essas reuniões e incluíram os familiares e os próprios pacientes em todos os processos decisórios relativos ao tratamento, observando com isso um impacto significativo nos processos de cura.
Como um desdobramento dessa experiência, o Diálogo Aberto valeu-se dos aportes teóricos mencionados mais acima, como Bakhtin e Vygotsky, posteriormente incorporando o paradigma da intersubjetividade, para aprofundar um modelo de atendimento que também organiza o próprio sistema de saúde mental público da região (Olson; Seikkula; Ziedonis, 2014). Após ser convocada, uma equipe de até três profissionais vai à casa da família em até 24 horas e orienta-os a incluírem na sessão o próprio paciente que mobilizou o pedido de ajuda, bem como pessoas de sua rede social que possam contribuir no processo (vizinhos próximos, algum amigo, colega de trabalho, etc.). Parte-se do princípio de que a ajuda imediata, no contexto de crise, possibilita resultados terapêuticos significativamente melhores quando se utiliza uma postura compreensiva, dialógica, polifônica e flexível, tomando decisões colaborativamente e reconhecendo as manifestações do paciente da mesma maneira que as demais, mesmo que envoltas por tons de fragilidade, sofrimento extremo e discurso e comportamento incomuns.
O primeiro episódio psicótico foi o cenário inicial de desenvolvimento do Diálogo Aberto, projetando esse modelo terapêutico no cenário mundial; em sendo uma técnica bastante ousada para situações agudas - inclusive evitando ao máximo a utilização de medicações psiquiátricas -, os envolvidos viram-se na necessidade de recolher dados acerca da eficácia dessa intervenção. Por exemplo, 19 anos após um primeiro episódio psicótico, em comparação com tratamentos psiquiátricos convencionais, os pacientes tratados com o Diálogo Aberto tiveram menor mortalidade em função do adoecimento (2,8 x 9,2), menos hospitalizações por mais de 30 dias (18 x 94), menor necessidade de acompanhamento contínuo (28 x 49), menor uso de neurolépticos (36 x 81) e menor afastamento do trabalho por adoecimento (33 x 61) (Bergström et al., 2018). Com o tempo, passou-se a utilizar o Diálogo Aberto com quaisquer questões complexas de sofrimento psíquico.
Aproximando-nos novamente da dimensão corporal, um dos principais autores do Diálogo Aberto, Jakko Seikkula, chega a formular um ponto de vista acerca da psicose que se descola das abordagens psiquiátricas - que tende a enxergá-la em um prisma patológico, marcado por alterações, falhas ou insuficiências no funcionamento neuropsíquico - mas também, poderíamos dizer, de determinadas concepções psicanalíticas que a postulam como outra estrutura, em que não operaram certas funções e/ou ocorreram falhas ou insuficiências ambientais de cuidadores primários. Sua formulação comparece, de certa forma, em termos de uma reação psicossomática:
Ao invés de enxergar o comportamento psicótico como uma anomalia na estrutura (cerebral), ele pode ser visto como uma tentativa ativa da mente encarnada [embodied mind] de sobreviver a um estresse extremo na vida. As experiências psicóticas são reações afetivas da mente encarnada. (Seikkula, 2019, p. 2, tradução nossa)
Partindo de uma concepção dialógica, na qual somos seres responsivos em constante afetação e movimento, estamos sempre sujeitos a experiências traumáticas que não podem ser processadas no plano da linguagem e tomam o corpo através de uma excitação afetiva avassaladora, sendo os fenômenos psicóticos uma forma de reação dessa mente encarnada. A leitura expande-se para outros quadros de sofrimento que transcendem aquilo que compreendemos no campo freudiano como psiconeurose:
sintomas severos podem ser entendidos enquanto corporificações [embodying] de dilemas inexpressáveis ou indizíveis. Eles são enraizados em terríveis experiências, frequentemente traumáticas, que resistem à linguagem ordinária. (Olson; Seikkula; Ziedonis, 2014, p. 23, tradução nossa)
Para o Diálogo Aberto, ao contrário da terapia sistêmica, são problemas que geram sistemas, e não sistemas que geram problemas; no sofrimento extremo, a família e os membros da rede do paciente frequentemente se veem lançados em formas rígidas e desesperadas de compreender e comunicar os problemas (Seikkula; Trimble, 2005). Restaurar ou introduzir um fluxo dialógico frente ao sofrimento extremo seria fundamental para atravessá-lo. Para isso, o Diálogo Aberto utiliza estratégias de relação e condução da sessão, visando produzir em todos a sensação de serem compreendidos, respondidos, e que momentos reflexivos sejam gerados, com espaço suficiente para vivenciar as emoções, sem o objetivo de alcançar um entendimento único entre os participantes. Conforme veremos em Tom Andersen, a reflexividade diz respeito a uma função dos terapeutas ao externarem para a família os seus diálogos internos, especialmente como sentiram, os efeitos psicofísicos que compareceram. Nessa mesma linha, a responsividade não se trata exatamente de um trabalho interpretativo sobre o conteúdo, mas sim de uma atitude "encorpada" (embodied) dos terapeutas, que promove uma interação emocional ressonante. No Diálogo Aberto, é importante privilegiar o "pensar com" em relação ao "pensar sobre" (Olson; Seikkula; Ziedonis, 2014).
A intersubjetividade embasa o enfoque em como se fala no contexto terapêutico, tanto pacientes quanto terapeutas, em detrimento do enfoque em o que se fala, que se tornou hegemônico no nosso campo. Devemos atentar mais à forma, aos ritmos, prosódias, movimentos não verbais que envolvem o falar, pois, conforme demonstram as pesquisas que examinam minunciosamente as próprias sessões terapêuticas, os processos de mudança estão atrelados à sintonização afetiva entre os participantes (Kykyri et al., 2017). A mente forma-se na relação com outras mentes, desde o início da vida, mas também através da atividade sensório-motora do corpo (Seikkula et al., 2018), e essa inter-relação e o balizamento emocional que se dão através do corpo seguem atravessando toda a nossa existência, como um componente central dos processos de mudança subjetiva, sobretudo em situações difíceis abordadas em terapia familiar.
Autores do Diálogo Aberto descrevem um certo ritmo de condução dos encontros que propõe aproximação, através de uma escuta muito atenta e empática, de corpo inteiro (full bodied), buscando aberturas aos processos emocionais que emanam do corpo, oferecendo-lhes então tempo e espaço para que se expressem e encontrem novas palavras - se necessário. Um dos aspectos defendidos pela abordagem é de que o trabalho de simbolização, especificamente enquanto associatividade verbal, não é condição indispensável para a cura: "nem sempre é necessário formular as próprias experiências emocionais em narrativas faladas, pois, às vezes, vivenciar as emoções durante as sessões pode, por si só, funcionar como um processo de cura" (Seikkula et al., 2018, p. 863, tradução nossa).
Tom Andersen e os Processos Reflexivos: ouvir também é ver
Tom Andersen foi um médico norueguês que, após incursões pela psiquiatria e pela medicina de família, encontrou uma forma autoral e realizadora de auxiliar seus pacientes através da terapia familiar de inspiração dialógica. Muito mais do que uma absorção teórica, segundo seus próprios relatos, Andersen transformou-se pela abertura à percepção do que vivenciava em seu entorno profissional (Andersen, 2005), sendo que a presença corporal teve papel fundamental nisso.
Nos anos 1980, as equipes de terapia familiar das quais Andersen fazia parte eram muito influenciadas pelo método de terapia sistêmica da Escola de Milão. Na época, era comum o uso do espelho unidirecional, com outros profissionais observando o atendimento a partir de outra sala. Em certo momento, os terapeutas costumavam retirar-se, discutir o caso com a equipe de observação e retornar para intervenções. Andersen e alguns colegas sentiam um duplo desconforto, muito semelhante àquilo que experimentavam os desenvolvedores do Diálogo Aberto: ao falar dos pacientes (das famílias) em sua ausência, a discussão ficava mais fria, profissional e conceitual, afastando-se das próprias palavras e experiências dos pacientes. Soma-se a isso a formulação de uma certa teoria do funcionamento da família, devolvida a eles em um segundo momento. Andersen e seus colaboradores percebiam que, ou a família se submetia a esse discurso mesmo sem se identificar, até por constrangimento de confrontá-lo - em uma relação de tons hierárquicos -, ou se opunha aos terapeutas, criando uma situação de dois monólogos (oposição ao dialógico), em que cada lado intensificava suas certezas e tentava convencer o outro, sem chegar a lugar algum.
A transformação que levou à implementação dos processos reflexivos consistiu em instituir uma heterarquia (Andersen, 2005) - em referência a uma gestão que se dá entre pares, e não de cima para baixo, como na hierarquia -, em que se intercalam diálogos internos (enquanto se escuta) e diálogos externos (quando se fala), onde se propõe falar abertamente e colaborativamente entre pacientes e terapeutas. Isso passaria por, ao invés de pender para elaborações mais complexas, atravessadas pelas teorias, ater-se ao que foi visto ou ouvido. Buscar em si mesmo e no outro as sensações despertadas, conectando-se com o próprio corpo e com a percepção do outro, em suas falas e movimentos corporais, visando ao que Andersen entende como adequadamente inusitado. Mas o que é isso?
Andersen transpôs para o campo psicoterapêutico as dinâmicas de percepção das sensações de incômodo que havia absorvido do trabalho em conjunto com a fisioterapeuta Aadel Bülow-Hansen, pensando a conexão entre dor, movimento e respiração no tratamento de seus pacientes (Andersen, 2005). Grosso modo, podemos entender que Bülow-Hansen procurava sintonizar-se ao corpo do paciente, de modo que o movimento proposto modificasse os padrões de respiração e, consequentemente, influísse na postura e na percepção dolorosa. Tal terapêutica demandava uma enorme sintonização corporificada (embodied attunement) por parte da fisioterapeuta, pois, caso propusesse um toque demasiadamente suave, não haveria qualquer mudança funcional do paciente, e se seu toque fosse demasiadamente intenso, a musculatura e a respiração tenderiam a reagir, intensificando tensões, rigidez e o processo de dor.
Dessa maneira, Andersen propõe que a condução em uma terapia familiar deve visar, permanentemente, o adequadamente inusitado (Andersen, 2005), ou seja, movimentos interativos que produzam uma diferença produtiva nos sujeitos, que não sejam inócuos nem tampouco tão duros e intrusivos a ponto de produzir fechamento e enrijecimento. A associação ao tratamento fisioterápico de Bülow-Hansen não foi somente de caráter metafórico: são os corpos dos pacientes que vão, efetivamente, nos dizer se estamos indo por um caminho adequadamente inusitado, excessivamente inusitado ou excessivamente habitual. Corpos podem se fechar, como quando os braços se cruzam de maneira tensa, o olhar desvia e a cabeça gira contrariamente ao interlocutor, entre outras tantas manifestações que, não raramente, deixamos em segundo plano em nossos tratamentos, como uma mão que coça e circula o pescoço.
Para Andersen, portanto, escutar também é ver:
a pessoa que escuta (o profissional) e que segue aquele que fala (o cliente), não somente ouvindo a palavra, mas também vendo como elas são proferidas, notará que cada uma delas toma parte no movimento do corpo. As palavras faladas e a atividade do corpo vêm juntas, formando uma unidade [...]. O ouvinte que vê, tanto quanto ouve, perceberá que as diversas palavras faladas "tocam" a pessoa que fala, de maneira diferente. A pessoa que fala é ela própria afetada pelas palavras quando estas chegam aos seus ouvidos. Algumas palavras tocam aquele que fala tão intensamente, que o ouvinte pode ver o movimento de quem fala. Algumas vezes esses movimentos são pequenos e outras vezes maiores. O ouvinte pode notar uma mudança na fisionomia, na expressão do olhar, um movimento na cadeira, uma tosse, etc. Essas são as palavras que me interessam em particular. (Andersen, 2022, p. 9)
Quando Andersen fala sobre palavras que tocam, isso se insere em sua concepção de linguagem, que difere daquilo que se tornou muito presente em nosso meio psicanalítico. Andersen não entende a linguagem como algo que está além, acima de algo. Ele se interessa pelo que está na palavra, pela sua materialidade; como se a linguagem e as palavras fossem como mãos, que buscassem as coisas, como mais um dos nossos órgãos de sentido (Andersen, 2022) - portanto corpo, e não algo que o supera, que dissocia, que se sobrepõe a ele. São muito comuns em seus relatos clínicos intervenções do tipo: "se você caminhasse por essa palavra que você disse, o que você veria e ouviria?" ou "qual é o tamanho dessa palavra para você?" (Andersen, 2005), sempre trazendo para o material, corporificando a linguagem.
Em última instância, Andersen pensa a linguagem como uma atividade que se apresenta de maneira integrada entre palavra, movimentos físicos, respiração, tensão muscular e toda sorte de emoções que são mobilizadas concomitantemente. Por isso, prefere até o termo expressão ao termo linguagem, abarcando um espectro maior de comunicação. E, mesmo ao explorar o conteúdo verbal, não o devemos tomar abstratamente, e sim conectado a sua materialidade, é aí que reside o sentido transformador na terapia de família: palavras encarnadas.
Conclusão
A situação psicanalítica inicial modelou um dispositivo dedicado à atração das associações verbais, buscando silenciar o corpo, cujos efeitos de captura visual embaralhavam as possibilidades de cura no contexto da erupção da neurose histérica entre os séculos XIX e XX. O corpo que comparecia no setting e na metapsicologia era o corpo erógeno, que se diferencia do anatômico, por exemplo, por ser marcado pelos processos de simbolização. Pela via do corpo erógeno, comparecem representações importantes das diferenças sexuais, geracionais, da castração, acessadas e trabalhadas pela palavra ou pelo sonho relatado.
Daí em diante, instaura-se um tensionamento entre a ousadia e a revisão que se permite fazer diante das situações clínicas até então inusuais, e os processos de repetição decorrentes da institucionalização da psicanálise. Para Hornstein (2010, p. 33, tradução nossa), "[...] A psicanálise é de fronteira quando avança sobre novos territórios, e retraída quando se dedica a administrar o que foi conquistado". Na psicanálise de características mais escolásticas, em que predominam reafirmações do instituído, é comum detectar-se a manutenção do modelo de cura-tipo e de sua leitura metapsicológica subjacente; inclusive, o eixo da linguagem, da simbolização, solidifica-se como uma categoria superior e imprescindível, e, quando não se presentifica na clínica tal como se espera, entende-se que há um déficit por parte dos pacientes, que estariam em falta com esse modo necessário de viver e se expressar. Em alguma medida, arriscamos tornarmo-nos sentinelas do simbólico (Knobloch, 2002).
Do outro lado está, como apontamos, o trabalho de permanente revisão de nossos dispositivos e de nossa metapsicologia, buscando identificar o que se mantém no trabalho psicanalítico sob toda e qualquer situação e o que se adapta em função da necessidade dos pacientes. São muitos eixos sob os quais se reflete, como o cenário do tratamento e a temporalidade dos encontros, a função do analista e os recursos utilizados. O corpo e toda sorte de manifestações não verbais são eixos em que mais incidiram revisões e reposicionamentos à medida que nos afastamos da psiconeurose, tratada individualmente em consultório. O corpo - ou outros corpos para além do corpo erógeno, poderíamos dizer - foi reincluído na psicanálise, de uma nova maneira, enquanto veículo de produção de mensagens não verbais tão valiosas quanto as verbais. Para Roussillon:
[...] se reestabeleceu a visão e a possibilidade de acompanhar a fala de mensagens "visuais" em certas formas de trabalho clínico "face a face" ou "lado a lado"; assim certas formas de motricidade e de mensagem sensório-motoras são utilizadas na dramatização, na psicodramatização, do trabalho de colocação em signos e colocação em sentido que possibilita a simbolização. A linguagem não verbal conquistou assim, pouco a pouco, tanto direito de cidadania quanto de análise. (Roussillon, 2019, p. 115, itálico nosso)
Neste trabalho, apontamos como, no contexto de atendimentos familiares, o corpo e suas manifestações se impõem massivamente, devendo ser incluídos como recursos do nosso trabalho clínico, e não como resistência à verbalização, déficit ou mesmo como uma manifestação menor em relação ao verbal. Costumeiramente, propomos atendimentos familiares justamente em situações críticas, traumáticas, cuja impossibilidade de nomeá-las pela fala diz respeito muito mais à realidade do excesso de sofrimento do que a uma estrutura deficitária dos entes envolvidos.
Em nossa experiência atendendo a famílias, com filhos adolescentes enfrentando um grande sofrimento, costumamos verificar a presença e produção ativa dos corpos presentes. Manifestações psicofísicas se dão a todo momento, inclusive no(s) terapeuta(s). Ignorá-las ou subjugá-las seria um grande desperdício, e por isso buscamos, nas brechas de nossas produções psicanalíticas e em saberes vizinhos, recursos que nos auxiliem a operar clinicamente com tais manifestações. Encontramos nas abordagens dialógicas ferramentas importantes para trabalharmos com nossos próprios corpos e os dos pacientes em situações clínicas complexas, como atendimentos de família.
A nosso ver, as vertentes dialógicas norueguesa e finlandesa contribuem para sustentarmos um dispositivo clínico tão desafiador quanto necessário nos momentos atuais, instaurando uma certa modalidade de condução clínica adaptada a situações psicossociais desafiadoras, sensível aos traumatismos e construída colaborativamente. Entendemos que o corpo e a responsividade emocional não verbal entre terapeutas e pacientes correspondem a eixos que costuram a condução desses dispositivos complexos.
Muitas outras discussões se mostram necessárias a partir daqui, como, por exemplo, o diálogo com situações clínicas, permitindo-nos encarnar visões e conceitos a partir dos desafios da prática. O adolescente no contexto da terapia familiar, tema pouco explorado na literatura, demanda um olhar mais aprofundado. Em um plano metapsicológico e até epistemológico, caberiam também reflexões acerca da interlocução entre a psicanálise e as abordagens dialógicas, para compreendê-las naquilo em que elas se complementam, se repetem ou se diferenciam. Mas isso, evidentemente, foge ao escopo do presente trabalho.
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ano - Nº 7 - 2025publicação: 10-12-2025 |
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