Introdução
A dificuldade de crescer: a "mulher-poltrona" e a "jovem-salvadora"
Quando comecei a atender adolescentes no consultório há cerca de 15 anos, após as queixas de depressão e ansiedade, rapidamente apareciam descontentamentos em relação às figuras parentais. No espaço analítico, prontamente emergiam no discurso desses jovens conflitos e tensões na relação com os pais.
De forma intensa e criativa, eles ressignificavam a própria história a partir da análise, apropriando-se desse espaço como campo fértil para a construção de novos caminhos psíquicos.
Até que, aos poucos, foi surgindo outra demanda de meninas adolescentes e jovens adultas com uma gravidade maior. Elas resistiam às intervenções terapêuticas, não gostavam de aprofundar os assuntos e expor a própria vulnerabilidade. Oscilavam entre a submissão e a arrogância na relação transferencial, sentiam-se culpadas de fazer análise e pareciam estagnadas no processo psicoterapêutico.
Além da dinâmica transferencial, essas pacientes (todas do sexo feminino) tinham como ponto em comum um bom desempenho acadêmico, um funcionamento perfeccionista e uma dinâmica "tudo ou nada" que acarretava alternância entre a onipotência e um sentimento de fracasso absoluto em suas escolhas.
Apresentarei aqui duas vinhetas clínicas para ilustrar tal funcionamento psíquico, as quais chamarei por outro nome, e modifiquei detalhes dos casos para que não seja possível a identificação.
Mirele referiu sonhar que "se tornava uma poltrona", imagem associada à sensação de estagnação e de servir ao conforto alheio. Seu percurso acadêmico e profissional mostrava-se fortemente orientado por escolhas maternas.
Filha intensamente desejada e planejada por seus pais, foi educada pela mãe para corresponder a um ideal de docilidade, bondade e delicadeza. A mãe ocupa posição de centralidade financeira e afetiva no núcleo familiar, enquanto o pai desempenha um papel coadjuvante.
Fortemente identificada com as expectativas maternas e prisioneira dos seus próprios ideais, Mirele nunca teve relacionamentos amorosos, tem poucas amizades próximas e revela dificuldade em projetar-se para o futuro.
Mariana, por sua vez, autodefine-se nas primeiras entrevistas como "um total fracasso" e descreve intensa vergonha de sua vulnerabilidade. Relata que, desde a infância, teve desempenho escolar excepcional, sendo motivo de orgulho para os pais. Era reconhecida e celebrada por eles como alguém muito precoce, madura e "miniadulta".
Entretanto, no momento em que busca a análise, observa-se um esvaziamento do interesse pelos estudos. Apresenta queda no rendimento acadêmico, isolamento social e ódio dirigido a si mesma.
Em ambos os casos, evidencia-se uma idealização materna intensa, com pai pouco operante, na triangulação familiar. Mirele refere em uma sessão: "eu queria que minha mãe se separasse do meu pai. Eu queria ela só para mim. Aí viveríamos as duas tranquilas e felizes". Ela manifesta intensa angústia ao imaginar-se sem a mãe.
De modo análogo, Mariana foi intensamente desejada e planejada pelos pais, com ênfase no investimento materno. A paciente sente-se simultaneamente indispensável e sufocada diante da mãe, que, em contexto de depressão grave, atribuía à filha papel central em sua sobrevivência: "você é a razão de eu não ter me matado". Esse posicionamento aponta para uma responsabilização precoce da filha e dinâmicas de responsabilização e culpa que influenciam a constituição do vínculo e a subjetividade da paciente.
Essas vinhetas indicam uma recorrente dificuldade em inaugurar movimentos de diferenciação frente à figura materna, sugerindo aprisionamento em identidades colocadas pelo outro.
Por que é tão difícil tanto para Mirele quanto para Mariana assumirem um caminho próprio para além do que foi projetado por suas mães?
É o que pretendo problematizar neste trabalho, à luz do referencial teórico-clínico apresentado no Curso de Especialização em Psicossomática Psicanalítica.
A adolescência e a importância da agressividade
Rejani (2014) aponta que são esperados, por parte dos adolescentes, comportamentos de tensionamento e confronto com os pais, uma vez que, nessa fase da vida, há uma aproximação com o grupo de amigos e um afastamento do território familiar para criar o próprio espaço e apropriar-se dele. A autora se refere à adolescência como uma mudança de pele, seguindo a referência do Eu-pele de Didier Anzieu (1988).
Os adolescentes precisam desfazer-se da pele infantil para construir uma nova camada epitelial. Isso implica certa dose de agressividade em relação às figuras parentais. A agressividade aqui é compreendida como gesto criativo, movimento e descoberta do mundo, alinhada à posição winnicottiana sobre o tema.
Winnicott pontua, em O brincar e a realidade (1971), que a fantasia contida na adolescência é o assassinato:
Mesmo que o crescimento se dê sem maiores crises, crescer significa ocupar o lugar do genitor. E realmente o é. Na fantasia inconsciente, crescer é, inerentemente, um ato agressivo. [...] Se a criança tem que tornar-se adulta, essa transformação será sobre o cadáver de um adulto. (WINNICOTT, 1971, p. 196)
Nesse sentido, o ódio é constitutivo da experiência humana e precisa ser reconhecido e admitido na experiência da criança com seus cuidadores.
Quando a expressão e a simbolização de sentimentos hostis são impedidas ou impossibilitadas, existe o risco de que tais afetos retornem contra o eu, manifestando-se como vergonha, culpa ou autodepreciação.
As vinhetas clínicas evidenciam, de modo particular, os impasses na simbolização do ódio e da agressividade. No sonho da "poltrona", Mirele revela a experiência de ser transformada em objeto - imóvel, sem voz, à mercê do desejo do outro -, o que indica a internalização de uma posição passiva e a dificuldade de diferenciar-se subjetivamente da figura materna. Em Mariana, por sua vez, a autodefinição como "fracasso" traduz a hostilidade voltada contra o próprio eu, sinalizando uma identificação com o olhar depreciativo da mãe. Em ambas, observa-se a fixação em um estado infantil do psiquismo, que impede a elaboração simbólica da agressividade e a constituição de novos laços para além do círculo familiar, perpetuando um modo de relação marcado pela dependência e pela culpa.
Como teriam sido as relações iniciais mães-filhas dessas pacientes? Por que teriam ficado engolfadas na idealização e no narcisismo materno e não teriam conseguido viver a raiva necessária em seu processo de diferenciação psíquica?
A mãe suficientemente boa e o risco do excesso
O bebê, quando nasce, está lançado ao desamparo, que o obriga à dependência do outro. Tabacof (2021) aponta que, intrinsecamente prematura, a vida do recém-nascido está por um fio. Por esse motivo, o papel desempenhado pelo ambiente é decisivo na manutenção da sua vida.
Ainda que, do ponto de vista biológico, o bebê esteja completo, ele é um ser imaturo e incapaz de sobreviver sozinho. Nesse sentido, a imaturidade funcional após a saída do útero, discorre Volich (2022), torna fundamental a presença de um outro ser humano para garantir sua vida e promover seu desenvolvimento.
O ambiente tem um papel facilitador no desenvolvimento psíquico do bebê qu no início, ele se dá pela "mãe suficientemente boa":
Ela é suficientemente boa porque atende, ao bebê, na medida exata das necessidades deste, e não de suas próprias necessidades [...]. O que o bebê necessita é da preocupação e dos cuidados efetivos de uma mãe real, que continua sendo consistentemente ela mesma, falível porque humana, mas confiável exatamente por ser falível. (DIAS, 2003, p. 133)
Winnicott (1947/2000) descreve que a mãe suficientemente boa consegue fazer a passagem de um estágio de dependência absoluta para o estágio de dependência relativa e, posteriormente, rumo à independência na medida em que consegue adaptar-se às necessidades do bebê. É fundamental que o bebê tenha sua ilusão de onipotência preservada nesse processo.
Se a mãe é saudável, a desilusão acontece naturalmente, por coincidir com uma etapa em que ela já está cansada das exigências requeridas pela dependência absoluta. Essa passagem é essencial para o amadurecimento do bebê (Dias, 2003). Caso a mãe não seja capaz de abdicar da dependência absoluta, isso pode gerar sérios transtornos para a criança. Será que podemos pensar que Mirele e Mariana ficaram engolidas no desejo materno e, por isso, não conseguiram caminhar para a independência?
Ranña (2014) disserta que a função materna tem o papel de uma "prótese psíquica" fazendo a paraexcitação dos furacões pulsionais e digerindo os processos psíquicos primários da criança. Entretanto, aponta este autor, a função paraexcitadora pode ter o papel oposto ao excitar e transbordar o equilíbrio psicossomático da criança.
O bebê, então, pode ser tomado como projeção dos fantasmas inconscientes dos cuidadores. Refém da intrusão do narcisismo do outro, a criança não pode habitar um corpo e uma história próprios. O trabalho em análise aqui é de separação dessa fusão imaginária, de acordo com o autor.
No caso de Mirele, sua trajetória existencial é marcada por elevado desempenho acadêmico e alta performance em todas as áreas da vida, com decisões majoritariamente orientadas pela mãe. O relato do sonho da poltrona revela, dessa forma, sua paralisia subjetiva diante dessa presença materna intensa.
Esse padrão pode ser interpretado, à luz de Ranña (2014), como expressão de intrusão narcísica do cuidador, na qual a criança representa a projeção de fantasmas parentais, impedindo a constituição de uma narrativa própria. A identificação com o ideal materno funciona como mecanismo defensivo que, paradoxalmente, alimenta seu sentimento de insuficiência e bloqueia sua energia libidinal.
Mariana, em contrapartida, carrega um fardo psíquico significativo ao ser investida pela mãe como eixo de sustentação de sua própria sobrevivência. A atribuição, por parte da mãe, de ter impedido seu suicídio situa a filha em um lugar de responsabilidade precoce e difícil elaboração de seus afetos. Tal dinâmica acarreta uma posição de ambivalência com a figura materna: oscila entre a raiva em relação ao seu funcionamento invasivo e a culpa por desejar afastar-se dessa posição de cuidado.
A atribuição à criança do papel de salvadora das problemáticas maternas lembra descrições clássicas de Ferenczi sobre confusão de línguas e inversão de papéis (Ferenczi, 1933/2011). Essa sobrecarga psíquica compromete o processo de diferenciação necessário para a constituição subjetiva.
Narcisismo materno e o eu ideal
No caso de ambas, Mirele e Mariana, a dificuldade em constituir um corpo e uma história próprios relaciona-se diretamente ao narcisismo materno, que funcionou de maneira implacável na constituição de sua subjetividade. As duas jovens ocupam até hoje um lugar central na vida das mães, mesmo sendo jovens adultas. O que poderia ser entendido como grande prova de amor, na verdade, revela uma projeção materna que joga uma sombra na existência das duas jovens.
Tabacof (2023) traz o conceito de André Green de "função objetalizante" ao assinalar que é o objeto que tem a função de permitir ao sujeito poder criar novos objetos. Esse movimento é, ao mesmo tempo, objetalizante e pulsionalizante, pois o objeto e a pulsão são misturados.
Nesse sentido, é função do objeto primordial (no caso, a mãe) introduzir o mundo à criança, para que ela possa criar novas relações e novos objetos. No entanto, a mãe de Mirele ainda está intensamente conectada à filha, o que leva a jovem, por incorporação dessa dinâmica, a restringir seu universo relacional a poucas pessoas além da figura materna. O mundo externo, dessa forma, apresenta-se como ameaçador e difícil de ser investido para além da dinâmica doméstica.
A situação vivida por Mirele pode ser pensada à luz daquilo que Ferenczi (1933/2011) nomeia como "confusão de línguas". Em vez de encontrar na mãe uma linguagem de ternura que lhe apresente o mundo e lhe permita a ampliação de seus investimentos, a jovem se vê capturada pela linguagem da paixão e da necessidade materna. O lugar de filha é atravessado por expectativas inconscientes que exigem adesão, restringindo sua possibilidade de circulação psíquica. O universo externo, que deveria ser experimentado como campo de descobertas, torna-se marcado pelo terror e pela angústia, pois qualquer movimento em direção à diferenciação é vivido como ameaça de ruptura com a mãe.
Mirele aponta também que todo o entorno familiar e de amizades coloca seu núcleo familiar em um lugar idealizado. "Todo mundo diz que nossa família é perfeita e que nos admiram muito". Nada menos que o ideal.
Fernandes (2006) aponta que o ego ideal é derivado do narcisismo primário e se define como um ideal de onipotência narcísico. O eu ideal coloca-se como instância implacável para o sujeito: "ou tudo ou nada", em uma dualidade mortífera e angustiante para essas pacientes.
Ambas as pacientes parecem aprisionadas em exigências de perfeição, sustentadas por mães que buscavam nelas aplacar seus próprios vazios. Tanto a mãe de Mirele quanto a de Mariana mantiveram vínculos de fusão que dificultaram os movimentos de diferenciação das filhas, mesmo na vida adulta. O que poderia ser lido como dedicação amorosa revela-se como projeção implacável de expectativas maternas, que obscurece a possibilidade de autonomia.
A fala materna endereçada a Mariana, de que a filha era "a razão de não ter se matado", exemplifica o que Ferenczi (1933/2011) descreveu como "terrorismo do sofrimento": o apelo de um adulto em desamparo que convoca a criança a ampará-lo, gerando inversão de papéis e sobrecarga psíquica. Nessa posição, a criança se vê coagida a renunciar à própria condição infantil para tornar-se suporte do adulto, instaurando uma responsabilidade precoce impossível de sustentar. Tal exigência imprime marcas profundas na experiência subjetiva, na medida em que o desejo próprio é silenciado em favor da preservação do outro, fragilizando o processo de diferenciação e a possibilidade de afirmar-se como sujeito.
O corpo para dois e o papel do sentimento de culpa
A dificuldade de diferenciação dessas pacientes expressa-se como culpa inconsciente diante da possibilidade de separação materna. Em vez de mobilizar a agressividade criativa contra a figura cuidadora, ambas tendem a transformá-la em culpa em uma dinâmica melancólica.
Freud (1917) descreve que as autorrecriminações nos pacientes melancólicos são recriminações feitas a um objeto amado que foram deslocadas desse objeto para o próprio Eu. No mesmo texto, o autor refere que o ego deseja incorporar para si esse objeto e, seguindo a fase oral ou canibalista do desenvolvimento libidinal, deseja fazê-lo devorando-o. Nesse contexto, ego e objeto apresentam-se indiferenciados.
Mc Dougall (1986) ressalta que a indiferenciação da figura materna pode apresentar-se como uma dificuldade de diferenciar o corpo próprio do corpo da mãe ("um corpo para dois", segundo a autora). Ela afirma que certos pacientes vivem a impossibilidade de se subjetivar, de abandonar o corpo-mãe para assumirem um corpo próprio.
Fernandes (2006) aponta que a mãe intrusiva é tão prejudicial para o bebê quanto a mãe ausente, na medida em que ambas perturbam a representação e a experiência interna do corpo próprio do bebê. Ficam claros, assim, os efeitos nocivos da "mãe de extremos", segundo a autora.
Nesse cenário, a criança tem muita dificuldade em constituir uma identidade separada que lhe ofereça a posse de seu corpo, de suas emoções e de sua capacidade de pensar. Assim, a relação contém amor e ódio em uma ambivalência paralisante, uma vez que o ódio, elemento necessário e fundamental para que uma separação aconteça, encontra-se reprimido.
Denise Braunschweig e Michel Fain (1975) indicam que, com o tempo, é preciso que a mãe desinvista a criança em prol dos seus investimentos eróticos de adulta - estabelecendo um limite por meio da introdução de uma terceira instância entre ela e a criança, definida por eles como "a censura da amante". Essa configuração da "censura da amante" sinaliza uma vontade por parte da mãe de afastamento da criança em função da satisfação de desejos dos quais a criança está excluída. Tal dinâmica revela-se fundamental na constituição da economia psicossomática do infante.
Nos dois casos apresentados, os destinos pulsionais parecem ter se constituído em uma organização psicossomática frágil. Dada a precariedade da função materna, houve uma constituição rudimentar da própria subjetividade.
Transferência e contratransferência: ódio e reparação
No espaço analítico, a dinâmica transferencial repetia aspectos centrais da experiência subjetiva das pacientes em questão. Em diversos momentos, emergiram no campo contratransferencial sentimentos de insuficiência, paralisia e tensão corporal, acompanhados de receio de ser avaliada ou rejeitada. Esse campo reproduzia, assim, a vivência das pacientes diante de suas mães: a exigência implacável, a crítica feroz e o temor de falhar.
Mirele, durante as sessões, narrava suas experiências de modo detalhado e controlado, aparentando estabilidade emocional. Repetia que "estava tudo bem". Posteriormente, em mensagens fora do setting, revelava estados de intensa angústia e sentimento intenso de fracasso.
Essa cisão entre a "boa paciente" na sessão e a vulnerabilidade fora dela indicava a dificuldade em sustentar sua fragilidade no vínculo transferencial. O trabalho clínico buscou reforçar a autenticidade de suas expressões e a possibilidade de reconhecer limites sem que isso implicasse em falha ou fracasso.
Já Mariana, no processo terapêutico, manifestava medo intenso de decepcionar a profissional concomitante a uma crítica severa ao trabalho analítico. Incentivou-se, gradualmente, o direito de discordar e de reivindicar ausências e faltas, como uma forma de ensaiar uma separação simbólica.
A possibilidade de reconhecer que o caráter árduo e desgastante do atendimento dessas pacientes estava vinculado às suas dinâmicas psíquicas - e não à minha figura enquanto analista - constituiu um ponto importante na elaboração da contratransferência e no prosseguimento do trabalho clínico.
Dias (2003) pontua que, se a mãe é saudável, ela odiará seu bebê antes de ele ter a capacidade de odiá-la:
A mãe, naturalmente, tem de tolerar o seu próprio ódio, sem negá-lo para si mesma, mas também sem poder fazer nada com isso [...] Uma das coisas mais notáveis na mãe comum, é, precisamente, a sua capacidade de se deixar ferir pelo bebê e de odiá-lo sem se vingar da criança. (DIAS, 2003, p. 138)
Reconhecer, assim, o ódio do psicanalista na relação terapêutica e integrá-lo com o desejo de seguir os atendimentos é fundamental para sustentar o trabalho analítico.
Assim, o ódio na contratransferência não deve ser entendido como falha profissional, mas como instrumento clínico valioso que possibilita a ressignificação da dinâmica psíquica dos pacientes. É o ódio que permite abrir espaço para o desejo e a singularidade na constituição da subjetividade.
No caso de Mirele e Mariana, a ausência de espaço para o ódio configurou uma falha ambiental: o excesso de presença materna impossibilitou a experiência de frustração e, com ela, a diferenciação necessária para o processo de amadurecimento.
Labaki (2013) assinala que a mãe suficientemente boa não é aquela que não falha. Ao contrário, é aquela cuja falha vem acompanhada de movimentos ativos de reparação, em relação aos quais a criança é sensível, podendo introjetá-los. Assim, o erro seguido de reparação, ao contrário do que se pensa, cria a oportunidade de a criança estabelecer uma diferenciação da mãe, ao mesmo tempo que oferece à criança um modelo de tolerância passível de introjeção. Eis o mecanismo de luto no qual a criança internaliza a mãe, amadurece e se erogeniza na busca de novos objetos.
Nesse sentido, poder ser um analista que assume o não saber na relação com os pacientes, que reconhece as próprias falhas e vulnerabilidades é fundamental para abrir espaço para o processo de subjetivação do analisando. Assim, ele pode afirmar a própria singularidade e fragilidade psíquica sem que isso signifique fracasso e insuficiência, colocando em xeque sua ilusão de onipotência. É nessa construção e aposta que caminham as análises de Mirele e Mariana até hoje.
Mc Dougall (1983) aponta que ninguém é responsável pela violência infligida pelo mundo e pelos primeiros objetos, mas todos somos responsáveis por nossos objetos e mundo interno. É preciso, assim, transformar a desgraça em capital psíquico, sugere a autora.
O processo analítico, nesse sentido, deve buscar deslocar o paciente do lugar de vítima do desamparo parental para a possibilidade de se confrontar com sua solidão essencial e, dessa forma, inaugurar um modo próprio de existir.
Lisondo (2004) acrescenta que, nessas patologias, a compulsão à repetição não visa a descarga, mas a carga. Por isso, a proposta técnica não é reeditar a repetição, mas editá-la: oferecer figuração ao que nunca teve vez de ser inscrito no psiquismo. Como aponta a autora:
Além da atenção interessada, da disponibilidade e da observação atenta, o analista não só interpreta e constrói uma história através das hipóteses imaginativas, mas ele também faz: interrompe as repetições autísticas, cria a metáfora, nomeia a linguagem pré-verbal, oferece suas funções mentais, sonha para que o paciente acorde, figura o quase indizível. (Lisondo, 2004, p. 344)
É talvez nesse delicado movimento de atualização do analista - no encontro vivo, transferencial e criativo com cada paciente - que a psicanálise segue respirando e encontra sua força de permanência.
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ano - Nº 7 - 2025publicação: 10-12-2025 |
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