FERNANDES, Maria Helena
Capturas do sofrimento: corpo, alimentação e ideais na clínica psicanalítica.
São Paulo: Blucher, 2025.
O novo livro de Maria Helena Fernandes traz a fina sintonia de temas bastante alinhados com a contemporaneidade. Capturar remete-nos àquilo que aprisiona, que toma o sujeito de súbito, limita. Corpo, alimentação e ideais, tão entrelaçados atualmente, dispõem-se como uma cadeia performática, na qual o discurso e as vivências se esbarram e escancaram o soterramento de um sofrimento atroz. É a respeito dessa cadeia de intensidade, seja do excesso ou da falta, que a narrativa do livro se desenha.
No convite de navegarmos juntos no tempo, Fernandes nos conduz a uma visita à sua trajetória consistente como psicanalista, desde a entrada na faculdade de Psicologia em Recife, sua chegada à capital paulista, a temporada na França, o retorno a São Paulo e, por fim, os dias atuais, retomando de forma afetuosa todos os significantes colegas que fizeram parte da construção de sua escuta e transmissão.
Ao guiar-nos por suas histórias, período por período, podemos ir sonhando a vida com Fernandes. Relatos imagéticos que fazem com que nos aproximemos das cenas mais marcantes de sua história, acompanhando a navegação de perto. E é em plena introdução que ela nos presenteia - como, um dia, também foi presenteada por uma de suas supervisoras - com a ideia de um verbo que convoca à abertura de possibilidades: desconfiar. Um significante que nos remete à ampliação, ideia que considero intimamente ligada à função de um analista e à entrada da psicanálise na vida de um sujeito.
Desconfiar daquilo que vem em entendimento rápido. Desconfiar de interpretações vagas e, talvez, simplórias - o contrário do que nos parece ser o inconsciente. Sobretudo, da possível ânsia da resposta pronta e breve como analista. Nesse sentido, logo de início, o livro já nos provoca a pensar sobre como atuamos em nossos consultórios e instituições. Faz-nos pensar, inclusive, nas construções que vão se dando em nossos próprios caminhos e no "muito" que ainda não sabemos. Abrindo espaço, então, ao não saber, não compreender, não interpretar - assim, sem pressa, e sem atropelos, podendo ofertar um espaço de escuta mais cuidadoso àqueles que nos procuram.
Através de seu percurso, Fernandes nos guia por sua chegada às problemáticas do corpo e compartilha conosco suas construções teóricas e clínicas. Os capítulos se encontram na cronologia em que foram escritos durante a trajetória da autora, justamente para que possamos acompanhar os novos passos de suas hipóteses a cada página que chega.
"A feiticeira metapsicologia", primeiro capítulo do livro, ressoa-me em um lugar de afeto. Esse texto guarda, em minha memória, o primeiro contato com a escrita e a transmissão de Fernandes, em um seminário do curso do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Neste capítulo, parece-me incontornável destacar o caráter inacabado e provisório da psicanálise - condição essencial para a emergência do novo, que a autora, apoiada em Freud, incita-nos a pensar: "[...] está sempre inacabada, sempre pronta a reestruturar ou modificar suas doutrinas" (p. 57).
No capítulo 2, "A hipocondria do sonho e o silêncio dos órgãos: o corpo na clínica psicanalítica", a autora aborda a questão da percepção do corpo nos processos de adoecimento somático. É nesses escritos que Fernandes nos convida a pensarmos sobre o estatuto alucinatório e perceptivo do sonho e, portanto, seu caráter hipocondríaco, atribuído por Freud. Acompanhamos a hipótese da autora sobre o "corpo em negativo" e o fenômeno denominado por ela de "silêncio dos órgãos", em que "o corpo é colocado em silêncio, não faz barulho, não ‘fala'" (p. 89). Faz-nos lembrar de pacientes que acompanhamos no insistente paradoxo da "presença da ausência" do corpo.
Além disso, gostaria de destacar a constatação de que "um mínimo de investimento hipocondríaco do corpo é necessário a toda organização psíquica" (p. 92). Isto porque, por meio da ampliação do significado da palavra "hipocondria", proposto por Freud, entende-se que, naquele sujeito, opera a presença de algum investimento libidinal, ainda que, muitas vezes, "em negativo" - do ponto de vista do prazer travestido em dor. Segundo Freud, "atribuir à palavra hipocondria apenas o sentido de ‘medo de doenças' é limitar em muito sua aplicabilidade" (p. 92).
É a esta altura, também, que Fernandes levanta a hipótese de uma falência da erogeneidade e, por consequência, da autopercepção da constituição dos sujeitos que observava e os casos nos quais se debruçava.
No capítulo 3, "As formas corporais do sofrimento e a imagem da hipocondria", a autora apoia-se no modelo da hipocondria para guiar nossas reflexões sobre as formas de apresentação do sofrimento contemporâneo.
Assim, cada vez mais, marcam presença na psicopatologia da atualidade as variadas problemáticas alimentares, a obsessão pela magreza, a compulsão para fazer exercícios físicos, para trabalhar, o horror do envelhecimento, as excessivas intervenções cirúrgicas-estéticas de modelagem do corpo, as automutilações, a busca psicopatológica da saúde ou, ao contrário, uma negligência destrutiva do corpo, que aparecem hoje, em nossa clínica cotidiana, ao lado das mais diversas descompensações somáticas. Sintomas que denotam, a meu ver, de forma positiva ou negativa, a submissão completa do corpo. (p. 104)
Com fragmentos de relatos clínicos, Fernandes ilustra e nos permite aprofundar o entendimento das costuras teóricas que faz e das hipóteses clínicas que constrói. Convida-nos a pensar, cuidadosamente, sobre o lugar do corpo do analista na cena transferencial.
Se Freud apresenta o trabalho analítico do analisando por intermédio das expressões: recordar, repetir e elaborar, pode-se enfatizar que o trabalho do analista, parafraseando Fédida, consiste em: receber, conservar e reconstituir. (p. 127)
No capítulo 4, "Entre a alteridade e a ausência: o corpo em Freud e sua função na escuta do analista", a autora nos oferta um mergulho no estatuto do corpo na psicanálise, mais especificamente sobre a teoria freudiana. Nesses escritos, Fernandes pretende demonstrar que o corpo se encontra no centro da construção da teoria de Freud.
O fato de a psicanálise fazer da linguagem o seu material privilegiado de trabalho funcionou para alguns de seus críticos como um argumento eficaz para insistirem na ideia de que ela negligencia o corpo, privilegiando exclusivamente o reinado do discurso. (p. 134)
Segundo a autora, ao se ver às voltas com o adoecer do corpo, a psicanálise sofre uma ampliação de seu campo clínico, que resulta, necessariamente, em uma ampliação de seu campo teórico.
Além disso, abre o caminho para pensarmos uma denominação própria, que me parece estar intimamente ligada ao modo de subjetivação com que temos nos deparado cotidianamente: corpos do transbordamento. Nesse sentido, a autora supõe o sintoma corporal como uma descarga, um excesso que, "atravessando o aparelho psíquico, não se organiza necessariamente a partir da lógica da representação" (p. 138), demonstrando, então, um excesso impossível de ser representado.
É neste capítulo também que Fernandes traz a noção de dor para Freud e nos apresenta a associação primorosa sobre a ausência do outro estar na origem da abordagem freudiana da dor; assim, "afetado pela ausência, o corpo dói" (p. 144).
[...] Freud sugere que a ausência da mãe provoca dor no bebê, e não angústia, pois este último ainda não consegue diferenciar uma ausência temporária de uma perda duradoura. É nesse momento que ele coloca o outro, ou antes, sua ausência, na origem da dor, ausência que ele qualifica de situação traumática. (p. 144)
A partir do capítulo 5, intitulado "O corpo recusado na anorexia e o corpo estranho na bulimia", a autora apresenta, juntamente ao capítulo 6, escritos aprofundados sobre seus estudos dos transtornos alimentares. Ambos de escuta e escrita consistentes e sensíveis, quase que o tempo todo nos convocando a pensar no lugar delicado da função do analista na condução desses tratamentos.
Nesses escritos, embalados também por relatos clínicos, percorremos a noção de imagem corporal e hipocondria da imagem. A leitura aprofunda-se nas condições de instalação do autoerotismo e nas vicissitudes da relação mãe-bebê, passando pelo investimento materno, corpo da necessidade e corpo do prazer, fusão e desfusão das pulsões. Demarca uma diferença importante sobre o lugar do autoerotismo em sujeitos anoréxicos e bulímicos.
Mesmo se na bulimia o prazer é frequentemente travestido em dor, existe um investimento libidinal que assegura a experiência do corpo. Corpo doído, corpo disforme, corpo odiado, corpo vigiado para não sucumbir à tentação bulímica, mas, ainda assim, um corpo. Corpo que faz barulho, corpo estranho que incomoda. Na anestesia libidinal das anoréxicas, particularmente as de tipo restritivo, parece que estamos diante de um não corpo. Corpo recusado, em sua erogeneidade, em suas necessidades, em sua materialidade, corpo-imagem. Um corpo em negativo, um corpo que não se pode constituir enquanto objeto psíquico, que não chega a constituir um corpo próprio. (p. 176)
A autora ressalta a parte importante da função materna que denomina de "tripla função da para-excitação: proteção, mediação e libidinização" e a introjeção da mesma. Funções e condições que se encontram na base dos cuidados das relações primárias e, além disso, versam sobre sua hipótese da falência da erogeneidade, mencionada nos capítulos anteriores. A leitura envereda, então, pela tripla recusa: da morte, do tempo e do outro - levando-nos à constituição de um Eu Ideal poderoso e inatingível.
Fernandes adverte-nos da aridez com a qual nos deparamos nesses casos e nos acalenta com a poesia em suas palavras:
Ora, se o psicanalista tem necessidade do poema para habitar, é na figura do poeta que o analista deve buscar inspiração para tentar preservar sua capacidade de devanear com as palavras, criar imagens a partir do silêncio e conseguir, assim, habitar discretamente e com serenidade o vazio, pois, como disse René Char (1962, p. 84) "um poeta deve deixar vestígios de sua passagem, e não provas. Só os vestígios fazem sonhar." (p. 195-196)
No capítulo 6, "Mãe e filha... uma relação tão delicada", nossa navegação segue nas vicissitudes da relação mãe-bebê, mais especificamente, mãe-filha. A autora guia-nos nesses escritos a um aprofundamento da questão dessa dupla, dos limites entre o corpo da mãe e o corpo da menina, fala-nos sobre a "mãe de extremos" - que tantas e tantas vezes se presentifica nas falas das pacientes com problemáticas alimentares. Faz-nos atentar à importância do momento pré-edípico na subjetividade, à entrada da função paterna operando na separação do laço dual e à busca do corpo próprio.
No capítulo 7, Fernandes insere um imprescindível aspecto das discussões relativas ao corpo: o registro social, cultural, político e econômico no qual o sujeito, dentro de sua singularidade, irá se constituir. Através das construções sobre a anorexia e bulimia - cujas existências são datadas da Idade Média, entre santas e beatas jejuadoras, constatamos que os sofrimentos e acometimentos psíquicos mudam suas formas de apresentação com base na cultura, chegando, assim, à sua imagem contemporânea. Atualmente, com a estetização da existência e a inflação do Eu, que promovem uma ética oposta à do sofrimento, tudo precisa ser cuidadosamente controlado, inclusive o afeto e o tempo.
Capturados na ética da performance, os sujeitos ignoram os limites do corpo em nome de um adoecimento motivado por saúde, que está justamente na contramão da salubridade. Passamos a assistir, com frequência, ao discurso quase delirante da busca pela "melhor versão", da justificativa de que "seu corpo pode tudo" - dando voz ao imperativo de um Eu Ideal onipotente e poderoso, e fechando-se àquilo que tanto nos constitui como sujeitos: a falta, o limite, a ideia de que não temos e não podemos tudo.
Nessa mesma direção, é com o capítulo intitulado "O corpo da mulher e os imperativos da maternidade" que Fernandes finaliza seu livro, mencionando que, ao longo dos anos, as especificidades do mal-estar feminino começaram a ganhar um contorno mais nítido em sua clínica. Ela convoca-nos a pensar não só sobre uma ampliação dos ideais para as mulheres, mas em um verdadeiro acúmulo dos mesmos.
Presas à necessidade de corresponderem ainda aos ideais do espaço doméstico, reinado de suas mães e avós, as mulheres se veem hoje buscando corresponder também àqueles próprios do espaço público, antes reinado exclusivo dos homens, tendo diante de si um espectro amplo de ideais a tentar alcançar. (p. 274)
O ideal de beleza veio juntar-se ao ideal de sucesso e, além destes, ainda o ideal da maternidade. "Assim, além de magra, bonita e bem cuidada, a mulher atualmente precisa ser também economicamente produtiva e independente." (p. 276)
Tendo em vista a potencialidade traumática do parto, enfatizada por Freud em 1893, a autora faz um consistente apanhado sobre os desdobramentos históricos, do ponto de vista social e mercantilista, da amamentação e da maternidade.
Por fim, embora o livro verse, também, sobre construções e hipóteses consistentemente embasadas na teoria psicanalítica, Fernandes ressalta a particularidade de cada caso e aposta fortemente na delicadeza da escuta do analista. A cada capítulo, ressalta com clareza a importância da escuta e da análise como uma operação de libidinização. É nesse lugar de profunda fecundidade que está a generosidade da escrita da autora, que aposta na singularidade de cada sujeito e, sendo assim, de cada escuta.
[...] que nossa escuta não fique restrita aos determinantes intrapsíquicos (narcísicos, edípicos, identificatórios), nem aos familiares e transgeracionais, mas que possa se abrir para acolher também o modo como o discurso social imprime suas marcas em todo fenômeno que toca o corpo [...] Atentar para as diferenças de classe, gênero e raça serve aqui para ampliar as nossas possibilidades de escuta, salientando a dimensão ético-política da clínica. (p. 289)
Retomo, então, a ideia de "desconfiar" que nos foi apresentada no início do livro da autora e nos primeiros parágrafos deste texto. Desconfiemos que ainda há muito a pensar e construir. Embora o estofo teórico seja fundamental para o trabalho do analista, a escuta é singular e artesanalmente tecida pela dupla analista e analisando. Que corpo é este, em que mundo ele está inserido e o que é que ele vem nos contar sobre ele e, portanto, sobre uma cultura e uma época?
Se o analista cola na teoria, esta deixa de ter sua ficcionalidade instrumental, perdendo, como enfatizou Fédida, "a função de ser metáfora em constante trabalho e tecnicamente articulante da vida psíquica na cura". (p. 231)
Este livro levou-me aos tempos de universidade, a um apontamento de meu supervisor daquela época, do qual sempre me recordo, sobre a posição do analista como o ignorante interessado. Supor saber demais nos ensurdece, nos engessa; que possamos, portanto, estar alinhados ao caráter provisório que propunha Freud ao pensar sua metapsicologia, como nos salienta Fernandes.
Não há resposta pronta às nossas perguntas, nem como analisandos e menos ainda como analistas. Mas sempre haverá uma nova pergunta a ser feita. Sigamos, então, perguntando a nós mesmos e aos outros, abertos à emergência daquilo que está por vir.
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ano - Nº 7 - 2025publicação: 10-12-2025 |