ELIACHEF, Caroline
Corpos que gritam: A psicanálise com bebês.
São Paulos: Ática, 1995.
"Penso que a psicanálise infantil não trata jamais da atualidade, mas do que precedeu a vida presente da criança, por mais curta que tenha sido."
Françoise Dolto
O desenvolvimento do ser humano é composto por inúmeras variáveis, mas, de forma geral, sempre esperamos que tudo corra bem.
Em alguns momentos de nossa vida, podemos estar expostos a desorganizações e possíveis desequilíbrios psicossomáticos, e a fase mais crítica do nosso desenvolvimento encontra-se no início da vida, por sua posição de grande suscetibilidade e fragilidade. Qualquer desajuste nessa fase pode trazer graves consequências para a constituição do sujeito, e, por estarem em constante mudança, seus sintomas devem ser considerados sob um ponto de vista transacional, e não como fenômenos acabados.
Um desenvolvimento completamente perfeito talvez seja impossível, mas se pudermos evitar a maior parte das problemáticas e dificuldades, principalmente no início da vida, mais chances teremos de uma melhor evolução e integração entre organismo e psiquismo.
Portanto, nossa atenção ao desenvolvimento do bebê deve ser redobrada, sendo de extrema importância o trabalho dos psicanalistas junto aos bebês e suas famílias.
Em Corpos que gritam, Caroline Eliachef traz um primoroso trabalho ao apresentar suas experiências como psicanalista de crianças quando trabalhou em uma creche pública do subúrbio de Paris. Ela fora admitida na equipe para atender bebês de até 3 anos de idade que haviam passado por todo tipo de vivência familiar, como abandono, traumas, violência e outros.
Eliachef inicia sua obra abordando seu papel naquele ambiente: "O psicanalista não deve se compadecer seja para consolar ou para reparar, mas deve propiciar a simbolização do sofrimento. Não pode mudar o passado nem tentar modificar concretamente o futuro" (p. 11).
A autora recebia os bebês em seu consultório em encontros semanais, quinzenais ou mensais, dependendo do caso e da possibilidade. Os bebês eram levados às consultas pelas maternantes (pessoas responsáveis pelos bebês durante o período que estavam na creche).
O livro traz relatos de vários casos, na maioria bastante graves, porém Eliachef nos emociona ao contar como conversava com os bebês e como estes apresentavam considerável melhora ao serem escutados em suas manifestações corporais.
No Capítulo 1, ela aborda o tema "Os bebês possuem linguagem". Segundo a autora, as crianças que são confiadas à Assistência Social da infância passam por situações graves de ruptura e traumas e podem expressar seu sofrimento através de distúrbios funcionais. "Podemos ouvir o funcionamento do organismo como ouvimos as palavras de um analisando ou a produção gráfica de uma criança: são efeitos do inconsciente de quem as produz referente à experiência do sujeito" (p. 17-18).
Eliachef diz que a escuta de um bebê põe em alerta todos os sentidos do psicanalista. Perceber um sentimento e traduzi-lo em palavras faz com que se torne possível o tratamento psicanalítico com bebês. Ao contar ao bebê sobre sua origem e a origem da ruptura que sofreu ao ser tirado de sua família, permite-se que o sintoma seja elaborado e simbolizado.
Dos vários casos apresentados nesse capítulo, um deles me chama muito a atenção e gostaria de apresentá-lo: O caso "Olivier, os pulmões à flor da pele".
Eliachef atendeu Olivier, um bebê de dois meses que chegou à creche com 12 dias de vida e foi uma das muitas gestações de sua mãe, que decidiu dar à luz, anonimamente. Na França, uma mulher tem o direito legal de dar à luz em hospitais anonimamente, permitindo que a mãe mantenha sua identidade em segredo, tanto para o filho quanto para a sociedade.
Apesar de ter saído da maternidade sem o bebê, a mãe ligava para o hospital todos os dias para ter notícias de seu filho, e continuou com as ligações quando o bebê foi para a creche.
Olivier passou bem as primeiras cinco semanas na creche, mas depois começou a ter sérios problemas físicos, sendo encaminhado à psicanalista. No couro cabeludo começaram a aparecer descamações, crostas impressionantes e uma forte perturbação brônquica, porém sem febre, tornando a respiração difícil e ruidosa. Olivier encontrava-se em um estado físico deplorável, quase desfigurado pelo problema.
Devido às ligações constantes da mãe biológica de Olivier, todos os funcionários da creche esperavam que ela voltasse para buscá-lo, o que provavelmente fez com que Olivier também esperasse. Mas, depois de uma reunião, a equipe chegou à conclusão de que isso não aconteceria. Foi imediatamente após essa reunião que Olivier adoeceu, mesmo não estando presente.
Depois de ouvir essa curta história de vida, Eliachef dirigiu-se a Olivier e disse a ele:
Sua mãe é boa e corajosa. Sabe que não pode criá-lo como gostaria, por isso tomou a decisão que julga ser boa para você: ser educado por outra família, sua família adotiva. As pessoas que hoje cuidam de você esperavam, sem que você soubesse, que sua mãe mudasse de ideia, e talvez por isso você esperasse a mesma coisa. Hoje elas sabem que sua mãe é uma pessoa de bem: ela diz a verdade. Para o próprio bem, quer vê-lo criado por uma família que você próprio vai adotar. Ela prefere que essa família não tenha a mesma cor de sua pele, que é negra. Não sabemos ainda se será assim. Mas você não precisa mudar de pele. Será sempre o filho do homem e da mulher que o conceberam, seus pais verdadeiros permanecerão em você. Até logo, até a próxima semana. (p. 19-20)
Uma semana depois, Olivier chega nos braços de sua maternante. Sua pele está bem melhor, o que Eliachef acha surpreendente. Porém, sua respiração está muito difícil e ruidosa, mais do que antes, e, enquanto a maternante conversa com a analista, o bebê adormece. A analista então acaricia seu umbigo por cima da roupa e lhe diz:
Quando você estava na barriga da sua mãe, não respirava; ela o alimentava pela placenta, na qual você estava ligado pelo cordão umbilical. Esse cordão sai daqui onde está a minha mão; mas ele foi cortado quando você nasceu. O que estou tocando chama-se umbigo, é a cicatriz desse corte. Ao nascer você respirou, o cordão foi cortado e você foi separado de sua mãe, que decidiu que seria assim. Talvez você respire tão mal para reencontrar sua mãe antes da separação, quando você estava dentro dela e não respirava. Mas se você decidiu viver, não poderá fazê-lo sem respirar. Sua mãe anterior está aí, dentro do seu coração. Não é porque você respirou que se separou dela, e não será deixando de respirar que a reencontrará. (p. 20)
Eliachef explicou a Olivier que ele não precisaria se livrar de seus pais biológicos, pois, mesmo sendo adotado, eles sempre fariam parte de sua vida. Progressivamente, o ruído da obstrução respiratória foi atenuando. Ela parou de falar e percebeu, emocionada e espantada, que ele respirava pelo nariz, com as vias respiratórias liberadas, sem o menor ruído, salvo um leve sopro. Ela não acreditava no que via! Olivier, mesmo sem os recursos da linguagem, pôde "dizer" e se fazer entender através de seu corpo, único recurso de que dispunha. Nomear essa ruptura para Olivier fez toda a diferença, para que ele pudesse dar significado ao seu sofrimento.
Interessante observar o quanto os funcionários da creche sentiam-se ligados à mãe de Olivier enquanto acreditavam que ela voltaria para buscá-lo. Quando descobriram que isso não aconteceria, ficaram tristes e sofreram, comunicando, de forma inconsciente, a verdade para Olivier. Porém, foi necessário traduzir e nomear o sentimento de todos, para o bebê compreender e elaborar o luto pela perda de sua mãe.
No Capítulo 2, "Papai matou mamãe", a autora conta que recebeu, em seu consultório, filhos de pais assassinos que viviam na creche de Antony, ou em famílias hospedeiras. A consciência coletiva absorveu (com muita dificuldade), no caso de uma adoção, a ideia de que o que não é dito é mais desestruturante que a verdade. Essas crianças então deveriam se estruturar com essas experiências dolorosas, associando o luto pela pessoa assassinada (exemplo: o pai mata a mãe, ou o pai mata um dos filhos) e a separação do assassino, que é o outro membro do casal. Quando o pai mata a mãe, a criança é filha do assassino e do assassinado.
Eliachef acredita ser preciso dizer a verdade à criança, mesmo que a realidade seja tão cruel, como nesse caso. Mas como dizer esse tipo de verdade? É uma situação aterrorizante e dolorosa, existindo o risco de que ocorra um trauma ou uma identificação perversa por parte da criança. Mas a autora nos alerta sobre a importância de correr tal risco para que se possa oferecer à criança a opção de reviver sua história trágica em palavras, e não em atos.
Como psicanalista de crianças, atendi a casos graves como esse, e acredito ser de extrema importância que nós, terapeutas, possamos trabalhar com os fatos da realidade da criança, por pior que ela seja. Porém, sempre é preciso tomar todos os cuidados para que nunca expressemos qualquer tipo de críticas ou julgamentos sobre as atitudes de seus cuidadores. Por outro lado, precisamos falar sobre os delitos cometidos por eles sem justificá-los, para que não nos tornemos seus cúmplices. O alívio que uma criança sente ao ouvir a verdade faz com que ela compreenda que pais também erram, e que podemos fazer escolhas diferentes em nossas vidas, diferentes das que os pais fizeram. Assim é possível enfrentar os acontecimentos difíceis de sua história como lembranças, não como feridas que podem se abrir a qualquer momento.
No Capítulo 3, Eliachef questiona que o ambiente familiar seja tomado socialmente como ideal para o desenvolvimento saudável e seguro de uma criança, porém que nem sempre seja assim. Algumas famílias não oferecem proteção e bem-estar, e, em determinados casos, o melhor para a criança é que seja retirada de seu convívio.
Foi o que aconteceu com Mathias, "o menino que queria ser gato". Mathias foi para a creche com um ano de idade, após uma hospitalização de dois meses por bronquiolite. Na primeira entrevista, com 17 meses, apresentava problemas respiratórios sérios e era impossível não o ouvir "ronronar". O barulho que ele emitia parecia o ronronar dos gatos. Mathias é o terceiro filho de três homens. O mais velho foi desejado pelos pais e pela avó materna (que tem papel importante na família); o segundo, a mãe decidiu sozinha colocá-lo no mundo e, quanto a Mathias, a avó e o pai queriam um aborto. A mãe decidiu tê-lo como um presente para si mesma.
Mathias foi retirado de seu ambiente familiar por denúncia de falta de estrutura e higiene. Na casa, também conviviam muitos animais de estimação, como gatos e cachorros, os quais eram tratados com até mais importância que os próprios filhos.
Eliachef, compreendendo a situação de Mathias, disse ao bebê como ele gostaria de ser um dos gatos de sua mãe para ter um pouco de atenção e carinho. Por isso se comportava como um gato, respirando como um gato. Tratava-se de uma identificação animal desde poucos meses de idade.
A partir do relato dos atendimentos, a autora nos mostra como Mathias conseguiu ir trocando a linguagem corporal por palavras. Os problemas respiratórios não eram um sintoma clínico, e sim manifestações de um sofrimento psíquico, permitindo a Mathias buscar atendimento adequado.
É comum que muitas pessoas acreditem que uma criança sempre estará melhor com sua mãe e com sua família, mas, nesse caso, a permanência na creche acabou sendo terapêutica, pois foi com o empenho e o amor dos funcionários que Mathias pôde novamente identificar-se com os humanos, tornando-se humano, e não mais gato.
No Capítulo 4, "A espera do abandono", a autora discute sobre o sofrimento das crianças abrigadas perante a espera das decisões judiciais sobre seu futuro. Uma criança é colocada como disponível para adoção depois de ter sido feito tudo para que ela pudesse voltar para sua família de forma adequada. Porém, esses processos podem durar anos, e uma criança não dispõe de todo esse tempo de espera. Ela cresce e perde muito do que poderia ter tido em outra família.
A angústia da ruptura dos laços pode deixar marcas permanentes em uma criança. No atendimento psicanalítico, observamos que, quase sempre, tão logo a decisão judicial de abandono seja pronunciada e formulada à criança, esta é capaz de estruturar-se simbolicamente em função de seu passado, interiorizando os genitores que a abandonaram. A criança nunca mais verá sua mãe, mas a levará consigo para sempre.
Já acompanhei casos de crianças que foram retiradas de suas famílias por maus-tratos, falta de higiene e outros motivos. Elas geralmente culpavam e odiavam o juiz por tirá-las de suas mães, mas, ao longo do tratamento, era possível fazê-las compreender que a obrigação dos pais é de cuidar e proteger os filhos, e, quando eles não conseguem, o juiz deve garantir que tais funções sejam cumpridas.
Durante séculos, não se atribuía às crianças nenhum sentimento humano antes de adquirirem a fala. Até os dias de hoje, ainda não são reconhecidas as capacidades de compreensão de bebês e crianças. A atividade simbólica da criança pode, então, traduzir-se através das funções biológicas que não necessitam de aprendizagem, como a respiração, a digestão, as percepções sensoriais e outros. Com a linguagem, seu corpo não precisa mais ser o comunicador exclusivo de seus sofrimentos e angústias.
A autora nos mostra como é impressionante constatar que o disfuncionamento desaparece, como se a linguagem fosse "o organizador", capaz de instalar, modificar e deslocar as condições do funcionamento do corpo biológico e do psiquismo. Para isso, é importante que a criança sempre conheça sua realidade, seus sentimentos e sensações, para que, assim, possa transformar perturbações corporais em experiências psíquicas através da elaboração.
É com palavras que as histórias se escrevem, e é com amor que as palavras permanecem.
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ano - Nº 7 - 2025publicação: 10-12-2025 |