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Violência de gênero e psicanálise: Releituras do feminino em Horney, Kilomba e Kehl


Gender violence and psychoanalysis: Reinterpretations of the feminine in Horney, Kilomba, and Kehl


     Refletir sobre a violência de gênero a partir do lugar masculino e branco implica reconhecer que todo olhar é atravessado por uma história e, no caso, de privilégios e exclusões. Nomear esse lugar não é um detalhe, mas um gesto ético e político que rompe com uma pretensa neutralidade que, historicamente, fez do olhar masculino branco o padrão universal de enunciação. Tal reconhecimento exige implicação e desconforto, pois pensar a violência de gênero dessa posição supõe um confronto com os próprios limites e as marcas do patriarcado, que estruturam o inconsciente e a cultura. A psicanálise, embora também marcada por essa herança, oferece instrumentos valiosos para compreender tais dinâmicas desde que se abra, ela própria, a interrogar seu enraizamento patriarcal.

      Este artigo busca examinar os limites e as possibilidades da psicanálise diante da violência de gênero, propondo problematizar de que modo o pensamento psicanalítico pode contribuir para desnaturalizar as formas de violência simbólica e favorecer a escuta das experiências do feminino em sua alteridade e resistência, a partir da contribuição de psicanalistas mulheres que ousaram novas leituras no campo psicanalítico, reconfigurando o lugar feminino na teoria e na clínica. Vamos destacar as contribuições de três autoras: Karen Horney, Maria Rita Kehl e Grada Kilomba, cujas reflexões, em diferentes tempos e registros, ampliam a escuta do feminino e tensionam os limites de uma psicanálise historicamente marcada pela lógica patriarcal.

      Assim, pensar a violência de gênero a partir da psicanálise implica revisitar criticamente a própria história do discurso psicanalítico sobre o feminino, reconhecendo como certas formas de configuração, que foram sendo cristalizadas no campo teórico e nas práticas, fazem parte da reprodução simbólica dessa violência. Nesse ponto, a contribuição da psicanalista alemã Karen Horney merece ser revisitada.

       Horney é uma das primeiras vozes que ousou interrogar os fundamentos patriarcais que atravessam o pensamento freudiano, propondo uma leitura do feminino desvinculada da lógica da falta e do falo. Embora não se apresentasse declaradamente como feminista, sua obra realiza uma inflexão decisiva na compreensão da feminilidade, questionando o caráter universal das formulações freudianas e suas implicações na forma como o feminino foi tratado pela psicanálise.

      A autora está inserida em um contexto histórico em que a psicanálise e o feminismo se entrelaçavam de modo tenso, mas produtivo. Como assinala Amorim, em sua tese Karen Horney, o feminismo e a feminilidade: um desmentido na história da psicanálise:

 

Buhle aponta que, sem dúvida, as teorias freudianas forçaram as feministas a refinar suas categorias de análise, da mesma forma que as feministas também compeliram os psicanalistas a revisitar suas concepções acerca da diferença entre os sexos/gêneros; acreditamos que o trabalho de Horney, de maneira exemplar, é uma das consequências de tais embates. Apesar de as origens da psicanálise terem se dado com o estudo de mulheres histéricas e Freud ter desenvolvido a partir destes casos sua teoria da etiologia sexual das neuroses, pode-se dizer que o pai da psicanálise não estabeleceu desde o início uma teoria das diferenças sexuais - é apenas a partir do final da década de 1910 e início da de 1920 que Freud, impulsionado por descobertas e questionamentos de outros analistas e feministas, passa a dedicar-se à teorização acerca da sexualidade feminina (Appinanesi; Forrester, 2010). Independentemente do silêncio de Freud a respeito do tema, estudiosas femininas já empregavam alguns princípios psicanalíticos para o estudo da sexualidade feminina, tendo como objetivo a emancipação das mulheres (Buhle, 1998). (Amorim, 2021, p. 63-64)

 

      O trabalho de Amorim faz um resgate precioso do pensamento de Horney, injustamente apagado do cenário psicanalítico. Horney, ao deslocar a feminilidade do campo puramente biológico para o simbólico e cultural, põe em questão a naturalização da diferença sexual e evidencia o quanto do sentimento de inferioridade feminina é produto da estrutura social, e não pelo corpo da mulher, da sua "delicadeza" construída pelas narrativas. Assim, o sofrimento psíquico feminino deixa de ser interpretado como a expressão de uma natureza "deficitária" e passa a ser compreendido como resultado da violência simbólica inerente à cultura patriarcal, dando lugar a uma concepção da mulher como sujeito desejante e criador.

      Desse modo, a contribuição de Horney pode ser situada como um elo entre o campo psicanalítico e teórico e o campo político, um poderoso instrumento de resistência aos movimentos de opressão e silenciamento e à brutal violência de gênero que diariamente faz novas vítimas.

      Em seu livro Deslocamentos do feminino, Kehl propõe uma revisão crítica da maneira como a psicanálise compreende a mulher, a posição feminina e a feminilidade. Inspirando-se na proposição lacaniana de que "as mulheres devem se contar, uma a uma", a autora aponta que não existe um universal feminino: cada mulher constrói sua relação com o desejo e com a cultura a partir de trajetórias singulares, determinadas pelos discursos e pelos lugares simbólicos disponíveis em seu momento histórico.

      Na primeira parte do livro, Kehl trata do surgimento do modo de vida burguês, destacando como a moralidade doméstica e a idealização do casamento foram modelando o sujeito feminino que Freud escutou em sua clínica. Na segunda parte, a autora recorrerá à literatura e, em especial, a Madame Bovary, romance de Gustave Flaubert, através do qual procura mostrar o contraste entre as fantasias românticas e o confinamento das mulheres do século XIX. Emma Bovary, a protagonista do romance, sonha uma vida que não pode ter: amantes, festas, romances. Esse é o mundo dos homens, o domínio da masculinidade. Ali, Emma circula como objeto de desejo masculino, nunca como protagonista das suas escolhas. Abandonada e endividada, não encontrando mais saída, acaba tirando a própria vida, envenenando-se. Sai de cena, de uma cena que jamais foi sua. Não há lugar para o seu desejo, o desejo feminino. Emma tem o destino trágico como o de Anna Karenina, do romance homônimo de Liev Tolstói, que, em pleno desespero, se lança nos trilhos dos trens, ela também sem lugar em uma sociedade em que os homens detêm o poder e os privilégios. A morte é o destino daquelas mulheres que ousam desejar. A violência de gênero não seria um ataque e uma destruição do desejo feminino?

      Outra autora contemporânea fundamental é a pesquisadora, escritora e artista interdisciplinar Grada Kilomba, de origem são-tomense, nascida em Lisboa, em 1968. Psicóloga de formação, com graduação pela Universidade Técnica de Lisboa, e especialista em estudos pós-coloniais pela Freie Universität Berlin, Kilomba destaca-se por sua vigorosa produção teórica e artística, que articula as relações entre racismo, gênero, memória e trauma no contexto pós-colonial.

      Em Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano, Kilomba elabora uma reflexão contundente sobre o "racismo cotidiano", conceito criado por ela e articulado ao de "trauma colonial", para mostrar como a violência racial se reproduz nos níveis psíquico, linguístico e subjetivo das relações diárias, desmontando o imaginário colonial que ainda organiza as relações sociais contemporâneas.

 

O passado colonial foi "memorizado" no sentido em que "não foi esquecido". Às vezes, preferimos não lembrar, mas na verdade não podemos esquecer. A teoria da memória de Freud é, na realidade, uma teoria do esquecimento. Ela pressupõe que todas as experiências, ou pelo menos todas as experiências significativas, são registradas, mas que algumas ficam indisponíveis para a consciência como resultado da repressão e para diminuir a ansiedade. Já outros, no entanto, como resultado do trauma, permanecem presentes de forma espantosa. Não se pode simplesmente esquecer e não se pode evitar lembrar. (Kilomba, 2019, p. 213)

 

      A autora parte do conceito de trauma colonial para pensar a dificuldade do sujeito negro em se reconhecer e ser reconhecido como sujeito pleno em uma sociedade estruturada por hierarquias raciais e de gênero. Nesse sentido, o racismo e o sexismo interpenetram-se como dispositivos de poder que produzem corpos marcados, vozes silenciadas e subjetividades fragmentadas. A mulher negra, situada na confluência dessas opressões, torna-se o alvo privilegiado dessa dupla violência - racial e de gênero - que incide sobre seu corpo e sua palavra. E o feminismo branco não é suficiente para dar voz às mulheres negras.

 

Na tentativa de comparar o sexismo e o racismo, as feministas brancas esquecem de conceituar dois pontos cruciais. Primeiro, que elas são brancas e, portanto, têm privilégios brancos. Esse fator torna impossível a comparação de suas experiências às experiências de pessoas negras. E, segundo, que as mulheres negras também são mulheres e, portanto, também experienciam o sexismo. Uma falha irônica, porém trágica, que teve como resultado a invisibilização e o silenciamento de mulheres negras dentro do projeto feminista global. (Kilomba, 2019, p. 100)

 

      Kilomba aponta, assim, como o racismo e o patriarcado impõem identidades negativas à mulher negra, produzindo uma violência psíquica que se manifesta nas relações sociais e instituições. A linguagem, nesse contexto, é tanto instrumento de dominação quanto possibilidade de libertação. Dialogando com pensadores como bell hooks[1] e Patricia Hill Collins, a autora mostra que a violência de gênero é inseparável da estrutura colonial que atravessa o inconsciente social. A descolonização do sujeito negro passa, assim, pela reapropriação da palavra: escrever é um ato político, psíquico e de cura. Memórias da plantação leva a mulher negra do lugar de objeto para o de sujeito da enunciação, propondo uma nova gramática simbólica, capaz de romper com o olhar colonial e patriarcal.

      Pensar a violência de gênero a partir da psicanálise exige deslocar o lugar de enunciação, reconhecendo que o sujeito que fala - sobretudo quando masculino e branco - participa da estrutura que interroga. A psicanálise só pode desnaturalizar a violência se acolher esse desconforto ético e epistemológico. Horney, Kehl e Kilomba apontam caminhos para esse movimento: abrir espaço ao desejo feminino, questionar o olhar universalista e descolonizar a linguagem, convocando a psicanálise a ser prática de escuta e de transformação diante das violências simbólicas que atravessam corpo e desejo.



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ano - Nº 7 - 2025
publicação: 10-12-2025
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Autor(es)
• Otávio Augusto Moreira D’Elia
Psicólogo clinico e psicanalista. Membro do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), Filosofia (USP) e Economia (USP). Mestre em Ciência da Comunicação (Escola de Comunicações e Artes-USP). Procurador do Estado de São Paulo. E-mail: otaviodelia@terra.com.br


Notas

[1] Em uma postura política, bell hooks grafava seu nome em letras minúsculas, para afastar o foco do indivíduo e dar ênfase às suas ideias, com o objetivo de despersonalizar o seu nome e valorizar o coletivo.   

 

Referências bibliográficas

 

AMORIM, P. M. de. Karen Horney, o feminismo e a feminilidade: um desmentido na história da psicanálise. 2021. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.

KEHL, M. R. Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2016.

KILOMBA, G. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.


 


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