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Vergonha: Cifra do trauma e política dos corpos femininos


Shame: The code of trauma and the politics of female bodies


      Falar de vergonha não é apenas falar de um afeto. É tocar em uma ferida inaugural, daquelas que não cicatrizam porque não foram feitas para cicatrizar, mas para calar por dentro. E quando o silêncio se torna a língua materna de uma mulher, não se trata apenas de um processo psíquico, mas de uma estrutura de poder: um regime político que molda corpos, histórias e destinos.

      Entre nós, analistas, sabemos que a vergonha nunca chega sozinha; ela vem acompanhada por algo que não pôde ser dito - uma cena que permaneceu irrepresentável, um fragmento de experiência que ficou fora da linguagem e, por isso, foi sepultado ainda pulsando, impedido de tornar-se símbolo. Condenado a viver à margem da simbolização, torna-se um objeto clandestino, uma espécie de contrabando afetivo, guardado sob a pele como quem guarda uma ameaça (Torok, 1968/1995; Abraham, 1963/1995; Abraham; Torok, 1975/1995).

      Freud não conceituou esse afeto em sua metapsicologia, mas Ferenczi e, mais tarde, Abraham e Torok nos mostraram que a vergonha é mais do que uma emoção moral: é um operador de clivagem. Em certas experiências traumáticas, especialmente na infância, quando a criança é aviltada por aquele que ama, o psiquismo não consegue transformar a violência em representação simbolizada: ela permanece como cifra opaca, impossível de ser traduzida (Ferenczi, 1992). Ameaçada e confusa, a criança faz o que pode para não desabar; diante da impossibilidade de introjetar, recorre à incorporação. Incorpora o aviltador para salvar o vínculo e, assim, conserva o trauma em estado bruto, já que não houve possibilidade de fazê-lo passar à ordem da palavra. Esse mecanismo é o que Abraham e Torok (1975/1995) chamam de recalque conservador: não há metabolização, há apenas a guarda silenciosa de algo impronunciável. Desse modo nasce a cripta, não como escolha, mas como defesa desesperada: um pedaço da experiência é sepultado vivo, mantido fora da simbolização, para que o vínculo, o ideal e a sobrevivência psíquica não se rompam.

    Essa operação defensiva, embora necessária na infância, tem um preço: funda uma economia psicossomática orientada pela vergonha e carrega implicações políticas profundas. Uma criança que incorpora a vergonha de um adulto aviltador cresce orientada por uma espécie de bússola quebrada,  aprendendo que, para permanecer no laço, precisa calar-se; para ser amada, precisa diminuir-se; para sobreviver, precisa esconder-se. A vergonha, desde o início, configura o psiquismo como angústia de exclusão, medo radical de ser expulsa do corpo do outro e, por extensão, do corpo social (Ciccone; Ferrant, 2015; Torok, 1968/1995).

      Quando deslocamos essa estrutura psíquica para o campo da violência de gênero, algo se ilumina, ainda que dolorosamente. Não estamos apenas diante de relações violentas; estamos diante de mulheres atravessadas por gerações de silenciamento, por séculos de políticas misóginas que transformavam a vergonha em herança familiar, por uma cultura inteira erguida sobre a vigilância e a punição do feminino. Federici (2021) nos lembra que, na Europa Moderna, as fogueiras da caça às bruxas não queimaram apenas corpos: queimaram solidariedades, transmissões maternas, o poder das mulheres entre si e, sobretudo, a possibilidade de nomear juntas o que as feriu. Desde então, a vergonha tornou-se uma tecnologia política: um modo de manter as mulheres silenciadas, divididas, expulsas de sua própria voz.

     A psicanálise, quando escuta a vergonha, escuta também esse rastro histórico. Mas nem sempre a teoria reconhece isso. Em muitos momentos, acaba reproduzindo, sem crítica, o referencial fálico que definiu e organizou o feminino como lugar de passividade e dor. A "inveja do pênis" é um exemplo evidente: uma leitura mítica que, como mostra Torok (1964/1995), nasceu de um duplo equívoco, clínico e teórico (Freud, 1925/2011; 1931/2011). Freud tomou por destino aquilo que era, na verdade, uma cifra: o traço opaco de uma violência simbólica primária, isto é, da impossibilidade de simbolizar o excesso pulsional e os interditos precoces da sexualidade infantil feminina em palavras. Interpretou essa fratura da simbolização como essência feminina e, assim, naturalizou a submissão, confundindo um sintoma do recalque conservador com destino de gênero. A teoria, ali, repetiu a cegueira cultural: atribuiu às mulheres o que era produto da clivagem, tomou o silêncio como consentimento e transformou em natureza aquilo que era, desde o início, ferida.

     Por isso, escrever hoje sobre vergonha, psicanálise e violência de gênero exige um duplo movimento: retornar aos conceitos e reinscrevê-los no campo da metapsicologia, da ética e da política. Não há vergonha fora de uma cena; não há vergonha sem um olhar que captura e condena; não há vergonha que não seja, no fundo, uma ameaça de exclusão. E, na cultura patriarcal, esse olhar opera desde cedo; quem expulsa são os discursos que moldam a feminilidade, ensinam a menina a vigiar o corpo, a calar o desejo, a desconfiar da própria voz. Antes da violência física, há sempre o que não pôde ser dito; e não pôde porque, desde o início, não foi autorizado (hooks, 2024).

      Na clínica, vemos isso repetidamente: a mulher que vive a violência carrega não só medo, mas vergonha de sentir vergonha - essa vergonha secundária que paralisa. Ela se acusa, duvida de si, teme parecer exagerada, teme não ser acreditada. O pacto inconsciente que preserva o agressor - tantas vezes constituído em nome da sobrevivência infantil - transforma-se, na vida adulta, na prisão subjetiva que lhe impede o gesto simbólico de nomear a violência: romper o silêncio é, para muitas mulheres, perder o mundo ao qual pertencem. Ela experimenta um sentimento que o senso comum não compreende: a vergonha de ser agredida. A vergonha de "apanhar", de "ficar", de "denunciar", de "não denunciar". Uma vergonha que funciona como dobra interna da culpa, mas que não é culpa: é exclusão antecipada. E é isso que a violência de gênero atinge de modo tão profundo. Quando a palavra não se instala, o corpo carrega a marca. O trauma, não tendo sido introjetado, retorna como retraimento, como impossibilidade de investir em si. É o avesso da simbolização: um viver acuado, sem bordas, em que toda tentativa de existir parece colocar o laço - o mínimo de pertencimento necessário para sobreviver - em risco.

      Essa vergonha funciona como a guardiã da cripta. Ela protege o segredo: o segredo do agressor, o segredo da família, o segredo daquilo que não pode ser compartilhado nem, muitas vezes, nomeado. A violência de gênero, nesse sentido, não começa no tapa, mas no silenciamento anterior. Ela se instala nas micro-humilhações cotidianas, nas piadas, nos olhares, nos "não fale assim", nos "ponha-se no seu lugar". É assim que o patriarcado, desde muito cedo, ensina a mulher a vigiar o próprio corpo como se ele fosse risco, ameaça e vergonha.

      E há ainda os segredos herdados. Tisseron (2014) é preciso ao dizer que as vergonhas familiares, quando enterradas, não desaparecem: elas vazam. Filhas e netas carregam, sem nome, o que não pôde ser dito nas gerações anteriores. O silêncio dos corpos femininos agredidos ontem torna-se a dificuldade de falar das mulheres de hoje. A vergonha, em vez de dissolver-se, adensa-se; ela se converte em fantasma, assombração, rastro. Abraham e Torok (1975/1995) já nos alertavam: a cripta não é apenas individual, há criptas familiares, sociais, históricas. O patriarcado, nesse sentido, funciona como uma engrenagem de conservação do indizível: não produz o segredo, mas o perpetua.

      E isso é decisivo: a mulher não permanece na violência porque quer; permanece porque não dispõe das condições simbólicas para sair. Entre denunciar e perder o grupo - família, igreja, vizinhança, trabalho - ela escolhe sobreviver. A vergonha funciona como guardiã dessa escolha: ela sussurra que, se falar, será excluída; se romper, ficará só; se denunciar, será desacreditada. O patriarcado não precisa mais levantar fogueiras: basta mantê-la sem palavras.

      É aqui que a psicanálise tem algo crucial a oferecer: a possibilidade de restituir à mulher o que lhe foi arrancado - a palavra. E não qualquer palavra: aquela capaz de introjetar o que antes foi incorporado; que transforma o trauma em representação; que diminui a tirania do segredo; que reinscreve o sujeito no campo do pertencimento.

      Essa passagem - da incorporação à introjeção - é tanto metapsicológica quanto política: desloca a mulher do gesto de guardar o agressor para o gesto de guardar-se. Ao converter a vergonha em memória e a memória em possibilidade de futuro, evidencia o preço que muitas mulheres pagam ao romper o silêncio: arriscar o lugar onde ainda pode existir.

    Nesse recorte teórico-clínico, proponho, então, que compreendamos a vergonha como uma política dos corpos femininos. Não um afeto privado, mas um dispositivo de regulação simbólica, que organiza o modo como as mulheres são vistas, tratadas, silenciadas. A violência de gênero não é exceção; é consequência de séculos de uma economia afetiva fundada na impossibilidade de simbolização da dor feminina.

    A tarefa da psicanálise, nesse contexto, não é incitar que falem, mas construir com elas as condições simbólicas para que possam falar, se e quando quiserem. É desmontar o lugar do aviltador dentro do Eu, sustentar o conflito entre desejo de falar e medo de existir, e abrir espaço para que o segredo encontre destino simbólico.

      Porque uma mulher só sai da violência quando deixa de carregar dentro de si aquilo que nunca foi dela: a vergonha do outro. No limite, o que está em jogo não é apenas a denúncia da violência, mas a devolução do mundo simbólico ao qual ela tem direito. O contrário da vergonha não é coragem; é inscrição. É poder permanecer entre outros sem medo de ser apagada.

      Como lembra Laufer (2025), é sempre no encontro com o outro que um sujeito encontra lugar. Talvez caiba, hoje, à psicanálise assegurar que esse outro - analista, instituição, tradição - não seja mais um operador de silêncio, mas uma borda capaz de sustentar o aparecimento das mulheres.


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ano - Nº 7 - 2025
publicação: 10-12-2025
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Autor(es)
• Lilian M. J. Carbone
Psicóloga e psicanalista. Mestre e doutoranda pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, onde pesquisa vergonha, violência de gênero e transmissão psíquica. Membro dos Departamentos de Psicanálise e de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, onde atua como professora e supervisora. E-mail: liliancarbone@uol.com.br

Referências bibliográficas

ABRAHAM, N. (1963). O "crime" da introjeção. In: ABRAHAM, N.; TOROK, M. A casca e o núcleo. São Paulo: Escuta,1995. p. 119-128.

ABRAHAM, N.; TOROK, M. (1975). "O objeto perdido-ego": notações sobre a identificação endocríptica. In: ABRAHAM, N.; TOROK, M. A casca e o núcleo. São Paulo: Escuta, 1995. p. 277-296.

CICCONE, A.; FERRANT, A. Honte, culpabilité et traumatisme. Paris: Dunod, 2015.

FEDERICI, S. Mulheres e caça às bruxas. São Paulo: Boitempo, 2021.

FERENCZI, S. O conceito de introjeção. In: FERENCZI, S. Psicanálise I. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 181-184.

FREUD, S. (1925). Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos. In: FREUD, S. Obras completas, v. 16. O Eu e o Id, "Autobiografia" e outros textos (1923-1925). São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 283-299.

FREUD, S. (1931). Sobre a sexualidade feminina. In: FREUD, S. Obras completas, v. 18. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 317-398.

HOOKS, B. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2024.

LAUFER, L. Rumo a uma psicanálise emancipada. São Paulo: Criação Humana, 2025.

TISSERON, S. La honte. Psychanalyse d'un lien social. Paris: Dunod, 2014.

TOROK. M. (1964). A significação da "inveja do pênis" na mulher. In: ABRAHAM, N.; TOROK, M. A casca e o núcleo. São Paulo: Escuta, 1995. p. 127-162.

TOROK. M. (1968). Doença do luto e a fantasia do cadáver saboroso. In: ABRAHAM, N.; TOROK, M. A casca e o núcleo. São Paulo: Escuta, 1995. p. 215-236.

 

 


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