"Como é difícil a relação com nosso organismo. Somos nosso corpo, mas não podemos evitar a sensação de alteridade, de estranheza, de reféns da própria carne." (Montero, 2019, p. 163)
Abrimos o sétimo número de trama, revista de Psicossomática Psicanalítica com esta citação da autora Rosa Montero em seu livro A ridícula ideia de nunca mais te ver, que ilustra e nos faz refletir sobre os trabalhos publicados este ano.
O corpo é o tema central dos textos que compõem a nossa revista e também é um assunto em alta no mundo contemporâneo. Seja pelas exigências estéticas exageradas, pelos atos que o colocam muitas vezes em risco, seja pelas somatizações e os mais diversos sintomas e sofrimentos que aparecem nesse palco. Recebemos e publicamos vários artigos com essa temática através de diferentes perspectivas, mais diretas ou indiretas, mas inevitavelmente passando por ele, mostrando-nos o quanto ainda precisamos pensar, discutir e nos debruçar sobre esse assunto tão caro à psicanálise.
Quando falamos sobre o corpo, podemos pensá-lo como possibilidade de morada de si mesmo, como lugar ou não de pertencimento social e que pode ficar marcado pela violência de diferentes maneiras. Devemos pensá-lo em sua dimensão biopsicossocial, com o qual pode ser feito o trabalho de simbolização. Nada é tão embrionário e inicial como pensar em discutir o corpo no qual iniciamos a vida e com o qual precisamos enfrentar a morte.
Encontramos em Marty (1993) o equilíbrio e a economia psicossomática dispostos em três grandes vias: a mentalização, a descarga motora e a somática. Atualmente, a mentalização pode se ver prejudicada quando somos bombardeados pela rapidez de nosso tempo. Tempo que se faz necessário para o amadurecimento, seja das ideias, das elaborações, das fantasias e do próprio desenvolvimento emocional.
Segundo o filósofo e sociólogo sul-coreano Byung-Chul Han:
A sociedade disciplinar de Foucault, feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, não é mais a sociedade de hoje. Em seu lugar, há muito tempo, entrou uma outra sociedade, a saber, uma sociedade de academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos, shopping centers e laboratórios de genética. A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. (Han, 2015, p. 7)
O prejuízo do mundo fantasmático sobrecarrega as vias de descargas motora e somática, trazendo cada vez mais manifestações que precisam ser acolhidas, ouvidas e elaboradas. Enfim, o corpo ganha destaque como comunicador, para uma plateia atenta, de suas necessidades e sofrimentos.
Para iniciar a seção Artigos, o trabalho de Wagner Ranña apresenta várias vertentes teóricas da psicossomática psicanalítica, desde a conversão em Freud, a somatização em Marty até o fenômeno psicossomático em Lacan. Tendo como referência a clínica com bebês, o autor articula a constituição subjetiva, partindo da pediatria até a psicanálise, atribuindo importância aos aportes transdisciplinares.
Enio Lopes Mello nos convoca a refletir sobre a voz como expressão importante do sujeito para além da questão acústica, podendo ser pensada enquanto sintoma do inconsciente. Além disso, pode ser entendida também como inscrição do desejo, da pulsão e da dimensão ética e social do corpo, destacando a importância da sua escuta na clínica.
Helena Marques apresenta um testemunho clínico-político sobre a história de uma mulher negra refugiada e acolhida no Brasil, a qual acompanhou clinicamente. No trabalho com essa pessoa e em seu texto, a autora lidou com temas relacionados à questão do exílio e da dor transgeracional, com as implicações relacionadas à xenofobia, ao racismo vivenciado e como o corpo pode ser atravessado por todas essas questões.
Em seu artigo, Leonardo Ferreira Galvão Tavares discute o conceito de Thomas Ogden sobre o terceiro analítico e a sua relevância aplicada ao campo da supervisão, tema tão presente e necessário para sustentarmos a posição de analista na clínica, como sabemos e nos foi ensinado desde Freud.
A seguir, apresentamos o artigo de Natália Veiga Schenatto, Caio Henrique Vianna Baptista e Patricia Bader dos Santos sobre a importância de pensar os diferentes tempos que constituem a experiência hospitalar, abordando o tempo lógico, que muitas vezes não combina com o tempo institucional diante de pacientes que apresentam urgências subjetivas.
Renata Rodrigues Ramos e Thaís Piacentini Locatelli discutem o sofrimento contemporâneo, envolvendo o corpo e suas possibilidades de destino, resgatando aspectos históricos na sua construção e oferecendo possibilidades de escutar seu sofrimento.
Para finalizar a seção Artigos, publicamos o texto de Bruno Esposito referente ao lugar do corpo nos atendimentos clínicos e as possíveis intervenções, especialmente em atendimentos familiares. Para tanto, o autor apresenta as contribuições das abordagens dialógicas, especificamente das tradições finlandesa e norueguesa, que colocam o corpo e as manifestações não verbais no foco da condução clínica.
Na seção Quimeras, contamos com dois trabalhos de excelente qualidade poética. Aline Marcelino escreve uma poesia sobre o corpo, o grande personagem desta edição. Já Malena Calixto nos conduz a uma viagem instigante, partindo do texto "Mata-se uma criança", de Leclaire, que trata da destruição da representação narcísica primária e seu desafio em se desfazer de algo que tem estatuto de representante inconsciente e, portanto, é indelével.
Na seção Ensaios, Gabriela Carioba Stoppe, Caio Henrique Vianna Baptista e Patricia Bader dos Santos nos convocam a mergulhar no tema "O corpo que fala: a relação entre fibromialgia, histeria e subjetivação feminina", apresentando aspectos sobre a dor crônica e o desafio necessário de dialogar com os diferentes campos do saber, tais como medicina, psicologia e as demais áreas, mostrando a relevância do atendimento multidisciplinar nesses casos.
Em Monografia, Andrea Maria Mendes Cembranelli problematiza o atendimento de meninas adolescentes que vivenciaram uma dinâmica fusional com a figura materna através de um recorte de duas vinhetas clínicas. A autora discute como o excesso de presença nas relações primordiais pode ser nocivo ao desenvolvimento psíquico e à constituição da economia psicossomática da criança.
Na seção Ágora, contamos com a rica contribuição de três autores - Lilian Carbone, Otávio Augusto Moreira D´Elia e Marta Cerruti - a respeito do tema "A psicanálise frente à violência de gênero: limites e possibilidades", discutindo de que forma a psicanálise pode contribuir para compreender e enfrentar as relações abusivas sem reincidir nos impasses de sua própria tradição.
Finalizando esta edição, na seção Resenhas, apresentamos dois livros muito necessários para os tempos atuais: Capturas do sofrimento: corpo, alimentação e ideais na clínica psicanalítica, de Maria Helena Fernandes, por Lara Giacometti Herrera; e Corpos que gritam: A psicanálise com bebês, de Caroline Eliachef, por Denise Arisa dos Santos Dias.
Boa leitura!
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ano - Nº 7 - 2025publicação: 10-12-2025 |
HAN, B.-C. Sociedade do cansaço. Tradução Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
MARTY, P. Psicossomática do adulto. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
MONTERO, R. A ridícula ideia de nunca mais te ver. Tradução Mariana Sanchez. São Paulo: Todavia, 2019.