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Presença psíquica e presença motora: Um estudo psicanalítico sobre a economia da pulsão no sujeito psicossomático


Psychic presence and motor presence:A psychoanalytic study on the economy of drive in the psychosomatic subject
Marcos de Moura Oliveira

RESUMO
O presente trabalho apresenta uma proposta de perspectiva teórica pautada no percurso da pulsão na composição psicossomática do sujeito. A metodologia utilizada é a revisão narrativa de literatura, buscando por obras psicanalíticas ligadas às questões da pulsão, do corpo e do psicossoma, partindo de Freud e Ferenczi. O texto percorre o estabelecimento do sujeito como utrárquico, conforme a proposição de Sándor Ferenczi, em crítica aos olhares monistas e dualistas. Nessa perspectiva, dialoga sobre o funcionamento psicossomático, a pulsão em Freud como conceito fronteiriço entre corpo e psiquismo e apresenta a proposição dos conceitos originais chamados “presença psíquica” e “presença corpórea”, a partir do esquema de caixa.

Palavras-chave: Psicanálise, Psicossomática, Corpo, Pulsão, Movimento.

ABSTRACT
This work presents a theoretical perspective proposal based on the path of the drive in the psychosomatic composition of the subject. The methodology used is the narrative review of literature, looking for psychoanalytic works linked to the drive, the body and the psychosoma, starting from Freud and Ferenczi. The text goes through the establishment of the subject as utrarchic, according to Sándor Ferenczi's proposition, in criticism of monist and dualist perspectives. From this perspective, it discusses psychosomatic functioning, the drive in Freud as a border concept between body and psyche, and presents the proposition of the original concepts called “psychic presence” and “corporeal presence”, from the box scheme.

Keywords: Psychoanalysis, Psychosomatics, Body, Pulse, Movement.


No caminho da construção de uma teoria psicossomática baseada na obra de Ferenczi (Oliveira, 2022a), que já tem seu lugar de reconhecimento no campo, houve o confrontamento com uma questão que extrapola os desdobramentos da inédita psicossomática ferencziana: o termo "psicossomática" é utilizado, via de regra, para a descrição de estados de sofrimento, entretanto, a interligação entre psique e soma, como se pode notar ao longo da obra do autor, diz respeito a algo muito mais amplo do que apenas à dimensão de sofrimento, já que esta é uma condição inerente à existência do ser humano.

Sendo assim, como se compreendem as inter-relações entre pensamentos, movimentos e sensações? Uma questão ao mesmo tempo tão presente e tão despercebida no cotidiano de qualquer pessoa. É comum ouvir relatos do "frio na barriga" de um apaixonado e da "dor no peito" de um angustiado, bem como expressões de raiva ou mesmo palavras obscenas que surgem da boca de quem sofre uma dor física inesperada.

É presente, em maior ou menor grau, para cada uma das esferas, a integração psico-somática[1] de, praticamente, todas as manifestações observáveis que um sujeito pode expressar. É como a existência dos dedos dos pés, por exemplo: partes do corpo constantemente esquecidas, mas, ao pensar neles, automaticamente são lembrados; entretanto, outra forma de lembrar dos dedos dos pés é quando se bate algum deles na quina de uma mesa. Assim se estabelece uma dupla forma de perceber o despercebido: pela via do pensamento e pela via do corpo. Por outro lado, polarizar as duas vias, negando sua integração, parece um erro, afinal, quando se lembra de tal parte do corpo, instantaneamente, ela é sentida. Na contracorrente, quando se sente, ela é instantaneamente lembrada.

Na dissertação Proposições de uma psicossomática ferencziana: revisão narrativa de literatura (Oliveira, 2022a), abordou-se a compreensão acerca do ser humano como uma amálgama entre suas dimensões psíquica e somática, e que toda pulsão se desenrola atravessando ambas as esferas, de acordo com expressões baseadas na repetição de certas vivências infantis, às quais Sándor Ferenczi (2011 [1913]) nomeou como etapas da onipotência infantil. Segundo Leonardo Câmara (2021), as expressões podem ser categorizadas na concomitância entre o sensório, o motor e o verbal. Já sobre as etapas da onipotência infantil em Ferenczi, em trabalho anterior do presente pesquisador, apresentou-se a descrição sumária desses modos de expressão, como segue:

 

1 - Período da onipotência incondicional: Estado intrauterino, em que nenhum investimento é necessário à saciedade das demandas, sendo estas providas pelo cordão umbilical.

2 - Período da onipotência alucinatória mágica: Estado no qual a criança sente o surgimento da demanda no corpo, mas o ambiente cuidador "adivinha" e supre tal demanda sem a necessidade de um investimento para além do próprio sentir.

3 - Período da onipotência com a ajuda de gestos mágicos: Estado no qual a criança gesticula por aquilo que deseja. Mãos estendidas, contorções físicas ou ruídos não simbólicos.

4 - Período dos pensamentos e palavras mágicos: Estado em que surge o domínio, mesmo que parcial, dos recursos linguísticos como recursos para clamar ao ambiente pelas demandas. (Oliveira, 2022b, p. 35)

 

As explorações das formas de expressão constituem a base de compreensão do ser humano frente à aplicação das mais variadas bases de práticas clínicas das diversas psicoterapias. Nesse sentido, a integração psicossomática trata-se de um modo de existência em que as duas instâncias, psíquica e corpórea, coexistem simultaneamente com todos os recursos do psiquismo aos quais a psicanálise revela - inconsciente, id, ego, superego, resistência, recalque, complexo de édipo, etc. - como partes integrantes do sujeito psicossomático.

 

O sujeito psicossomático e sua integração como um funcionamento utraquista

 

O estudo sobre a inter-relação de acontecimentos psíquicos e somáticos é uma problemática que se apresenta nos mais diversos campos do saber desde tempos antigos. Na verdade, o mero ato de apresentar a questão de forma dualista já é algo que induz ao erro. "Quando falamos da mente influenciando o corpo ou do corpo influenciando a mente, estamos apenas utilizando um recurso taquigráfico conveniente em vez de uma frase bem mais desajeitada" (Jones, 1946 apud Winnicott, 2021 [1949], p. 408).

Mesmo que se fale em inter-relação, o olhar dualista nos direciona para uma percepção de fragmentos separados que compõem o todo. O monismo, entretanto, também não se mostra como uma alternativa viável para este estudo. O ser completo, embora acarrete uma boa compreensão do todo, dificulta a tarefa da psicanálise, já que, nela, dada a própria semântica da palavra análise, se traduz a fragmentação dos elementos do conteúdo psíquico (Freud, 2006 [1919/1918]) para uma melhor observação e reorganização do sujeito.

Em "Transferência e introjeção", Ferenczi desenvolve a aplicabilidade dos olhares monistas e dualistas da seguinte forma:

 

Pode-se pensar que o recém-nascido experimenta todas as coisas de maneira monista, quer se trate de um estímulo externo ou de um processo psíquico. Só mais tarde a criança aprenderá a conhecer a "malícia das coisas", aquelas que são inacessíveis à introspecção, rebeldes à vontade, ao passo que outras ficam à sua disposição e submetidas à sua vontade. O monismo se converte em dualismo. Quando a criança exclui os "objetos" de massa de suas percepções, até então unitárias, para formar com eles o mundo externo e, pela primeira vez, opõe-lhes o "ego" que lhe pertence mais diretamente; quando distingue, pela primeira vez, o percebido objetivo (Empfindung) do vivenciado subjetivo (Gefühl), está efetuando, na realidade, a sua primeira operação projetiva, a "projeção primitiva". (Ferenczi, 2011 [1909], p. 96, itálicos do original)

 

Nessa passagem, Ferenczi estabelece um percurso do desenvolvimento humano que se inicia em um monismo até que o sujeito adquira a capacidade de separação dos elementos das realidades externa e interna, migrando para a interpretação dualista de mundo. Entretanto, a psicanálise compreende que a experiência infantil permanece no adulto, bem como todo adulto é dotado de uma aptidão para a regressão, que pode ser observada, em maior ou menor grau, em todos os modos de expressão e implica em uma alternância entre monismo e dualismo.

Nesse sentido, a psicanálise transgride a oposição descrita entre as visões de mundo, apontando para o olhar utraquista (Ferenczi 2011 [1920]; 2011 [1924]; 2011 [1933]), sendo esta uma expressão proveniente do fenômeno cristão da eucaristia. Na eucaristia católica misturam-se hóstia e vinho, dois elementos diferentes, que se juntam para formar uma única coisa, sem, entretanto, deixarem de ser duas. Em nota no seu diário clínico, Ferenczi diz que "Uma associação não é nem A nem B, mas, ao mesmo tempo A e B, portanto, algo metafísico. No momento de pensar, A e B estão por um instante num único e mesmo ponto do espírito" (Ferenczi, 1990 [1932], p. 106). De certo modo, o pensar manifesta-se como uma fusão entre monismo e dualismo. Vê-se o funcionamento do todo, dada a atividade corporal exercitada no ato de pensar - sejam movimentos ou mesmo o tensionamento muscular realizado na inércia de movimento -, mas, para que se possa fazer uma análise atenta, é necessário observar os fragmentos separados, adotando a pertinência de cada um dos dois olhares.

 

A pulsão e sua relação com a amálgama psico-soma

 

Em psicanálise, utiliza-se um conceito para denominar a força que move o ser em sua expressão: a pulsão. Freud determina a pulsão como "[...] um conceito fronteiriço entre o anímico e o somático" (Freud, 2019 [1915], p. 25). Desse modo, entende-se a pulsão como a força que atravessa e converge para a mistura psico-soma, sem uma delimitação de onde começa uma e termina a outra.

Sobre o funcionamento da pulsão, ainda em Freud, compreende-se que "A pulsão, por sua vez, jamais atua como uma força momentânea de impacto, mas sempre como uma força constante" (Freud, 2019 [1915], p. 19), e que "A meta de uma pulsão é sempre a satisfação, que só pode ser alcançada pela suspensão do estado de estimulação junto à fonte pulsional" (Freud, 2019 [1915], p. 25). O estudo das pulsões[2] e suas vicissitudes dá origem ao que a psicanálise chama de economia das pulsões, uma perspectiva de que a pulsão que move o sujeito se ampara na compreensão econômica do aparelho psíquico (em sua amplitude metapsicológica: tópico, dinâmico, econômico) e está sujeita a investimentos e prejuízos nos caminhos das satisfações.

Para Freud, compreender o aparelho psíquico em sua economia significava "a tentativa de acompanhar o destino das quantidades de excitação e de chegar pelo menos a uma estimativa relativa de sua grandeza" (Laplanche; Pontalis, 1983 [1967], p. 167). Assim, os processos psíquicos seriam constituídos por uma "circulação e repartição de uma energia quantificável (energia pulsional), isto é, suscetível de aumento, de diminuição, de equivalências" (Laplanche; Pontalis, 1983 [1967], p. 167).

O raciocínio segue com mais um esclarecimento de Freud:

 

Mas, mesmo que essa meta final permaneça inalterada para todas as pulsões, diferentes caminhos podem conduzir a essa mesma meta final, de modo que podem existir para uma mesma pulsão diversas metas aproximadas ou intermediárias, as quais podem ser combinadas ou substituídas umas por outras. (Freud, 2019 [1915], p. 25)

 

Entretanto, deve-se considerar que a pulsão, nesses termos, não se caracteriza como mera energia que se acumula ou se esgota. Uma vez que a pulsão é desperta por uma excitação de órgão, é possível pensar que, mesmo frente a um esgotamento físico, ela pode continuar sendo desperta. Nesse sentido, um exemplo de fácil verificação é a dificuldade de desligar-se quando algo ou alguém demanda a atenção, mesmo quando sob o efeito de cansaço físico ou psíquico. Um sujeito exausto continua tendo em si cada vez mais pulsão suscitada frente a um interlocutor que demanda sua escuta com um discurso altamente queixoso. Ocorre que a fadiga não é uma barreira total à excitação dos ouvidos, ou mesmo da psique como "órgão do pensamento" (Ferenczi, 2011 [1931]). Tal excitação suscita uma pulsão que, continuamente, demandará a descarga. Importante ressaltar ainda que a pulsão é sempre parcial, tanto porque não tem um único objeto determinado, quanto porque sua descarga nunca pode ser efetiva, dado que a eliminação da excitação por completo conduziria à morte do aparelho.

Aqui é possível ampliar a compreensão proposta por Freud, na qual a pulsão é fronteiriça entre anímico/psíquico e somático. Qualquer estímulo, proveniente tanto da realidade externa quanto da realidade interna, toca simultaneamente o psiquismo e o corpo, em maior ou menor grau, em uma predominância de um ou de outro, mas sempre concomitante. Assim, o caminho desta proposta de pesquisa se guia pelo estudo da via psicossomática utraquista da pulsão, que perpassa corpo e psiquismo, tanto como partes separadas quanto como um conjunto único. Além disso, encontram-se múltiplos caminhos de descargas da pulsão - aproximadas, intermediárias, combinadas, substitutas -, enfim, as diversas situações de vida às quais um sujeito é exposto constantemente e que podem mesclar efeitos psíquicos e somáticos.

 

Presença psíquica e presença corpórea: os eixos da pulsão no psicossoma

 

Neste tópico explicita-se a questão que mobiliza o presente estudo, e que pode ser delimitada da seguinte maneira: como se caracteriza a pulsão no sujeito psicossomático?

A pulsão, nos caminhos da descarga, atravessa psique e soma, e pode ser observada nos movimentos e atos do sujeito, a bem dizer, em uma observação a posteriori, ou seja, uma observação analítica daquilo que já ocorreu.

A título de exemplificação, considere-se um motorista desempenhando a tarefa de conduzir um veículo automotor. É comum que o motorista iniciante despenda um grande esforço de atenção aos movimentos responsáveis pelos comandos de condução do veículo, ou seja, à sincronia de trocas de marchas e pedais; já o motorista experiente apresenta uma possibilidade maior de executar tais movimentos e ao mesmo tempo conversar com outras pessoas no veículo, ouvir música ou mesmo pensar sobre as mais diversas situações.

No célebre trabalho pré-psicanalítico "O espiritismo", Ferenczi demonstra, a respeito da consciência humana, a seguinte metáfora: "É preciso imaginar o progresso [da consciência] como uma carroça puxada por dois cavalos, um domina o outro para depois ser dominado por ele; a carroça, então, avança caoticamente, em zigue-zague e com incessantes sacudidelas" (Ferenczi, 2022 [1899], p. 15).

Propõe-se pensar tal metáfora de modo ampliado, para além da consciência - que era o objeto de estudo do jovem médico -, indo em direção ao entendimento do sujeito como um todo, com a interligação utrárquica entre corpo e psiquismo. De certa forma, ambos os cavalos, psique e soma, trabalham em conjunto, ora com dominância de um, ora de outro, sem que essa dominância retire seu par de cena.

Embora não exista uma clareza matemática, conforme o alerta dado pelo autor, outros exemplos permitem o olhar aos tópicos físico e psíquico. Podemos pensar no sujeito que, praticando um exercício físico com carga máxima suportada por ele em uma academia de musculação, tem dificuldade de exercitar um pensamento crítico no mesmo momento, enquanto aquele que faz uma caminhada ou uma corrida de baixa velocidade, muitas vezes, consegue desempenhar alguma tarefa cognitiva. Como outro exemplo, situamos os intelectuais acadêmicos, que, em momentos de realizarem trabalhosas tarefas cognitivas, se veem esgotados, a ponto de isso afetar o desempenho motor. Como disse Ferenczi, "Todo mundo já observou que é possível sonhar durante uma exposição, ou ler uma página em voz alta sem entender uma palavra" (Ferenczi, 2022 [1899], p. 18) ou, em outras palavras, quando se faz um investimento pulsional muito intenso em uma área, as outras são facilmente despercebidas.

Entretanto, outra questão a ser considerada na distribuição da pulsão entre psique e soma refere-se ao fato de que "a quantidade de ‘esforço' necessário ao pensamento nem sempre depende da dificuldade intelectual apresentada pela tarefa a executar, mas, muitas vezes [...] de fatores afetivos" (Ferenczi, 2011 [1919], p. 398). O mesmo pode ser compreendido acerca de movimentos predominantemente corpóreos, como se sabe a exemplo de narrativas sobre quadros de traumas de guerra (Ferenczi, 2011 [1916]), nos quais certos aspectos da motilidade eram afetados por aspectos psíquicos. É fato que as dificuldades afetivas não são as únicas determinantes para a perda de uma capacidade motora ou de um pensamento, entretanto, o investimento necessário para realizar um movimento que se contraponha a essa barreira pode ser tão maior que incapacita o sujeito para realizá-lo.

Considerando o exposto, a "força" necessária para realizar um movimento, seja sua predominância psíquica ou corpórea, é medida tanto pela quantidade de investimento para tal movimento em si quanto pela superação de quaisquer dificuldades que possam estar envolvidas.

A contribuição da tese que propomos desenvolver caracteriza-se pelo olhar a esta distribuição da pulsão que se apresenta entre as dimensões psíquica e somática, ao que se escolheu denominar aqui como "presença psíquica" e "presença corpórea". Esta denominação foi inspirada na noção ferencziana de "tipos motores" (Ferenczi, 2011 [1919]), nomenclatura que diz respeito a pessoas que disparam uma atividade intelectual a partir do desenvolvimento de uma atividade motora.

Ferenczi apresenta o tipo motor, com efeito, como a organização interna de pessoas capazes de se distribuir entre as dimensões corpórea e psíquica. Outro "tipo" é apresentado no texto: o "sujeito inibido". Como o texto do autor e o próprio nome denotam, o sujeito inibido, na verdade, não é bem um tipo "psíquico", mas sim uma pessoa com as mesmas capacidades, porém, acometida por inibições. São sujeitos que "para realizar um empreendimento intelectual independente, não importa qual, devem primeiro vencer fortes resistências internas, de ordem intelectual e afetiva" (Ferenczi, 2011 [1919], p. 397). O caminhar entre o tipo motor e o sujeito inibido revela a questão acerca do desempenho de um movimento frente às possíveis complicações afetivas.

Nesse sentido, a questão fronteiriça da pulsão mostra-se mediada por um elemento que o autor denomina de "atenção":

 

Com efeito, um estudo mais aprofundado mostra que, contrariando as aparências, não se trata de uma simples transformação de energia muscular em energia psíquica e vice-versa, mas de processos mais complexos: a concentração e a fragmentação da atenção. O sujeito inibido deve dirigir toda a sua atenção para a atividade de pensar, de modo que é incapaz de efetuar ao mesmo tempo movimentos coordenados que exijam igualmente atenção. Em contrapartida, o indivíduo "submerso" pelas ideias é obrigado a desviar uma parte de sua atenção do processo intelectual a fim de moderar, de retardar um pouco o afluxo de pensamentos. (Ferenczi, 2011 [1919], p. 398, itálicos do original)

 

Assim, na distinção entre a dimensão psíquica e a dimensão corpórea, a atenção é o determinante da distribuição da pulsão entre as duas partes. Por presença compreende-se o quanto da dimensão, tanto psíquica quanto motora, ocupa a via de descarga da pulsão, de acordo com o ponto delimitado pela atenção.

No exemplo do exercício que demanda o limite de força física do sujeito, compreende-se que o sujeito psicossomático está no máximo da presença corpórea e, consequentemente, no mínimo da presença psíquica; no exemplo do máximo da tarefa intelectual, a presença psíquica predomina; e, por fim, na situação do motorista que se divide entre a execução dos movimentos motores coordenados e o diálogo com outrem, encontra-se uma distribuição variável entre as duas presenças. Em todos os casos, é preciso considerar tanto o investimento demandado para o movimento quanto outros fatores complicadores envolvidos.

A esse funcionamento, a hipótese apresentada é a de que o quantum de pulsão aplicado a uma tarefa desempenhada pelo sujeito psicossomático se divide entre as presenças psíquica e motora de modo inversamente proporcional, ou seja, quanto mais de uma, menos da outra. Observe-se a ilustração a seguir:

 

 

Nesse esquema em forma de caixa, demonstra-se a regra da inversão proporcional da pulsão de acordo com as presenças corpórea e psíquica. As linhas diagonais indicam o quantum de pulsão, enquanto a linha vertical no interior da caixa representa um exemplo de distribuição pulsional. No caso em questão, a distribuição pulsional aparece como ligeiramente mais psíquica do que motora.

Na ponta da esquerda está o limite da presença psíquica e o topo da linha pulsional consequente, ou seja, um extremo que indica uma pulsão totalmente psíquica. O mesmo se aplica à ponta da direita em relação à presença corpórea. À guisa de exemplo, é possível perceber a referida distribuição da pulsão entre as presenças psíquica e corpórea, sendo a linha horizontal superior da caixa o topo da pulsão investida. No ponto intermediário há uma soma de pulsão psíquica e motora que se estabelece da base da caixa às linhas finas: da base à primeira linha fina indica o quantum de pulsão motora, enquanto da base à linha fina mais alta está o quantum de pulsão psíquica. Somadas as duas, elas totalizam a medida das linhas laterais da caixa, ou seja, a soma das pulsões psíquica e motora indica o limite da pulsão aplicada.

Assim, finaliza-se a proposta teórica com uma abertura da multiplicidade de aplicações e desdobramentos, além do entendimento de que certas práticas podem possibilitar o alargamento das capacidades do sujeito. Seria o caso do treinamento físico, que permitiria ao sujeito levantar uma carga com menos esforço físico, ou seja, um aumento da capacidade de presença corpórea; ou a terapia psicanalítica, que permitiria uma melhor administração do mundo interno, alargando os limites da presença psíquica? A partir das ideias propostas, no horizonte da problematização da distribuição da pulsão entre psíquica e somática na teoria psicanalítica de Sándor Ferenczi, abre-se o campo de debate para futuras investigações.

 


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ano - Nº 5 - 2023
publicação: 25-11-2023
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Autor(es)
• Marcos de Moura Oliveira
Universidade do Vale do Paraíba; Faculdade Vanguarda de São José dos Campos

Psicólogo pela Universidade Paulista (Unip, 2017). Mestre em Psicossomática pela Universidade Ibirapuera (Unib, 2022). Doutorando em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor do curso de pós-graduação Lato Sensu em Psicanálise: Teoria e técnica da Universidade do Vale do Paraíba (Univap) e da graduação em Psicologia da Faculdade Vanguarda de São José dos Campos.

Notas

 

[1] Cabe ressaltar que a diferenciação por mim proposta entre os termos "psicossoma" e "psico-soma" se ampara em duas perspectivas distintas, sendo o primeiro dos termos de ordem monista, e o segundo, de ordem dualista.

[2] Propositalmente apresentada no plural, visto que tanto Freud quanto outros analistas nomearam as pulsões na relação com funcionamentos específicos (oral, anal, fálica, vida ou sexual, morte, autoconservação).


 

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