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    JORNAL DIGITAL DOS MEMBROS, ALUNOS E EX-ALUNOS
    46 Junho 2018  
 
 
HOMENAGEM

Lamentamos o falecimento no dia 22 de maio, da Dra. Gilou Garcia Reinoso, integrante do Conselho da Presidência da Assembléia Permanente pelos Direitos Humanos (APDH), uma grande militante pelos Direitos Humanos e pela Psicanálise.
Pioneira por mais de cinquenta anos nos escritos sobre Psicanálise e Sociedade. Durante a ditadura militar na Argentina trabalhou junto com advogados pelos presos políticos. Na década dos anos 70 foi co-fundadora da Federação Argentina de Psiquiatria e Coordenadora de Saúde Mental.
Seus escritos e suas práticas continuam orientando a luta pela defesa e promoção dos direitos humanos.

Conselho de Direção - Gestão 2017-2018





EVOCANDO GILOU GARCÍA REINOSO



Mario Pablo Fuks [i]



“A trajetória de Gilberta Royer de García Reinoso (Gilou) se associa aos momentos mais marcantes do movimento psicanalítico argentino das últimas décadas, graças a uma intensa atividade no campo clínico, teórico e formativo que se expande para além dele, propiciando um pensamento crítico que aspira a uma incidência ético-política. Esse percurso não dispensa rupturas com o ‘instituído’ tal como sua renúncia a Associação Psicanalítica Argentina, da qual era membro didata, em 1971, juntamente com os integrantes do Grupo Plataforma. Nem, tampouco, dispensa debates intensos e complexos no processo de elaboração de caminhos alternativos dentro do movimento psicanalítico”.

Assim foi apresentada Gilou no início da entrevista que, com o título “Posição ética mínima: fazer valer as ideias, apesar das resistências” [ii] , foi publicada em Percurso 7 no segundo semestre de 1991. Ela havia dado prova do que aí se afirma, não só no desenrolar da própria entrevista, como nas outras atividades realizadas no Sedes, por ocasião de sua visita a São Paulo, naquele ano, convidada pelo Departamento de Psicanálise. Havia dado uma conferência sobre História e memória em Psicanálise: Violência e constituição / deconstituição subjetivas, o seminário teórico sobreO problema do saber: transferência, transmissão e instituição e grupos de supervisão clínica. Os assuntos que percorrem a entrevista eram - e continuam a ser - bem interessantes, dentre os quais, por exemplo, a questão da filiação no seio do movimento psicanalítico. “Interessei-me pelo tema da filiação, porque acho que há cadeias interrompidas pela censura. É importante que se possa reconhecer uma cadeia genealógica no que isso significa retomar um fio. (...) Há também temas de trabalho, múltiplos temas, que censurados em algum momento ficaram fora das correntes oficiais e só depois são retomados. O termo filler significa seguir um fio. Tem a ver com filho, mas também com fio.” [iii]

Para essa época, Gilou, com 65 anos, já havia escrito “Violência e Agressão ou Violência e Repressão” (1970), incluído na coletânea Cuestionamos (1971) [iv], e publicado em português em 1973 [v]. Após seu exílio no México junto com seu marido Diego Garcia Reinoso, em 1976, e sua volta para Argentina em 1982 escreveu, também, seu conhecido trabalho “Matar a morte” [vi] (1984)- publicado com o título de “Le psychanalyste sous la terreur” em Les Temps Modernes nº 489 (1987) e em versão em português em Psicanálise de sintomas sociais (1988) [vii]. Trata-se de um texto sumamente importante, já clássico e amplamente citado, sobre os fundamentos subjetivos do Poder e o modo de operar do terrorismo de Estado, em particular mediante o recurso ao desaparecimento de pessoas, incidindo sobre a subjetividade individual e coletiva através do bloqueio dos processos de simbolização.

Os psicanalistas brasileiros se reencontraram com ela no I Encontro Mundial dos Estados Gerais da Psicanálise (2000) em Paris, onde puderam acompanhar sua apresentação, brilhante e profunda, sobre Relaciones del psicoanálisis sobre lo social y lo político[viii] e, posteriormente, no II Encontro Mundial (2003) no Rio de Janeiro.

Em novembro de 2005 veio novamente ao Sedes, participando no IV Encontro Latino Americano dos Estados Gerais da Psicanálise, em que apresentou, em coautoria com Ana Berezin, o trabalho “Resiliência ou a seleção dos mais aptos: ideologia e prática do ‘aguente’?”. As autoras questionaram a resiliência como descrição de características psíquicas e o uso que dela se faz, particularmente na Educação, na Saúde Mental e na Psicanálise como ferramenta da implantação e da aplicação da ideologia dominante, propiciando um retorno ao conceito de “desvio” e à exacerbação do ideal adaptativo.

Desde sua volta à Argentina, foi vice-presidenta de Médicos do Mundo e membro do Conselho da Presidência da Assembleia Permanente de Direitos Humanos.

Nos últimos anos, em suas intervenções em eventos públicos e em suas colaborações em publicações, Gilou assumiu como sua a missão de dar testemunho das lutas contra o poder arbitrário nos diversos campos de que participou, partindo da ideia de que a repressão exercida pelo terrorismo de Estado causou “buracos” na memória coletiva. Achava que a transcrição do acontecido produziria transformações. Onde havia um buraco haveria agora um espaço no qual cada um escreveria uma história que pudesse unir passado, presente e futuro, porque não há futuro se não há passado e, ao mesmo tempo, o passado tem que construir-se como tal para que seja passado.

Retomava assim o pensamento e a prática que tinha começado a desenvolver, de maneira muito aguçada, na época da entrevista, no Sedes, que tomamos como ponto de partida dessa evocação.



[i] Psicanalista. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Professor do Curso de Psicanálise, coordenador do curso Psicopatologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea, supervisor do Projeto Anorexias e Bulimias, integrante da equipe editorial deste Boletim.

[iii] García Reinoso, Gilou, “Posição ética mínima: fazer valer as ideias, apesar das resistências”, Percurso 07, p. 45.

[iv] Langer, M. (org.). Cuestionamos I, Buenos Aires: Granica, 1971.

[v] Questionamos - a psicanálise e suas instituições (vários autores). Petrópolis: Vozes, 1973.

[vii] Rodriguez, S. e Berlinck, M.T. (orgs.) Psicanálise de sintomas sociais. São Paulo: Escuta, 1988.




 
 
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